Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
144 pág.

Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


DisciplinaPsicologia45.150 materiais372.072 seguidores
Pré-visualização50 páginas
tão forte ao acrescentar-lhe libido sublimada, ainda influencia o instinto, no sentido 
de fazê-lo evitar qualquer preocupação com temas sexuais. 
Se refletirmos acerca da ocorrência, em Leonardo, desse poderoso instinto de pesquisa e 
a atrofia de sua vida sexual (restrita ao que poderíamos chamar de homossexualidade ideal 
[sublimada]), sentir-nos-emos inclinados a proclamá-lo um modelo ideal do nosso terceiro tipo. A 
essência e o segredo de sua natureza parecem derivar do fato que, depois de sua curiosidade ter 
sido ativada, na infância, a serviço de interesses sexuais, conseguiu sublimar a maior parte da sua 
libido em sua ânsia pela pesquisa. Mas, por certo, não será fácil provar a verdade dessa hipótese. 
Para fazê-lo, necessitaríamos conhecer alguns pormenores sobre seu desenvolvimento mental 
durante os primeiros anos de sua infância, e parece absurdo desejar dados dessa natureza 
quando os pormenores sobre sua vida são tão escassos e tão inseguros, e ainda mais por tratarem 
de informações sobre circunstâncias que ainda hoje escapam à atenção dos observadores, mesmo 
em se tratando de pessoas de nossa geração. 
Sobre a juventude de Leonardo sabemos muito pouco. Nasceu em 1452 na cidadezinha de 
Vinci, entre Florença e Empoli; era filho ilegítimo, o que naqueles dias certamente não constituía 
estima social muito grave; seu pai era Ser Piero da Vinci, um tabelião que descendia de uma 
família de tabeliães e de fazendeiros que tiraram seu sobrenome da localidade de Vinci; sua mãe 
foi uma tal Caterina, provavelmente uma camponesa, que mais tarde se casou com outro 
compatrício de Vinci. Esta mãe não volta a aparecer na história da vida de Leonardo e somente 
Merezhkovsky, o escritor, acreditou ter encontrado vestígios seus. O único fragmento de 
informação precisa sobre a infância de Leonardo aparece num documento oficial do ano de 1457; 
trata-se de um registro de terras, em Florença, para taxação de impostos e que, entre os 
componentes da família Vinci, menciona Leonardo, de cinco anos de idade e filho ilegítimo de Ser 
Piero. Do casamento de Ser Piero com uma tal Donna Albiera não houve filhos, o que tornou 
possível educar o pequeno Leonardo na casa de seu pai. Permaneceu nesta casa até entrar para 
o estúdio de Andrea del Verrocchio, como aprendiz, não sabemos com que idade. No ano de 1472, 
o nome de Leonardo já se encontrava na lista dos membros da `Compagnia dei Pittori\u201e. E isso é 
tudo. 
 
II 
Ao que eu saiba, existe apenas um trecho nos apontamentos científicos de Leonardo em 
que ele insere um fragmento de informação sobre sua infância. Numa passagem acerca do vôo 
dos abutres ele se interrompe subitamente para descrever uma recordação de sua tenra infância, 
que lhe veio à memória: 
`Parece que já era meu destino preocupar-me tão profundamente com abutres; pois 
guardo como uma das minhas primeiras recordações que, estando em meu berço, um abutre 
desceu sobre mim, abriu-me a boca com sua cauda e com ela fustigou-me repetidas vezes os 
lábios.\u201f 
O que encontramos aqui é, portanto, uma recordação de infância, e sem dúvida de 
natureza bem estranha. Não só estranha pelo que conta como pela idade a que se refere. Que 
uma pessoa possa lembrar-se de alguma coisa da época de sua amamentação talvez não seja 
impossível, porém essa recordação não poderá, certamente, ser considerada real. No entanto, o 
que a memória de Leonardo afirma - que um abutre abriu a boca da criança com sua cauda - 
parece tão pouco provável e tão fabuloso, que uma outra hipótese seria talvez mais cabível e poria 
um fim às duas dificuldades antes mencionadas. Nessa outra versão, a cena do abutre não seria 
uma recordação de Leonardo, porém uma fantasia que ele criou mais tarde transpondo-a para sua 
infância. 
 
É deste modo que muitas vezes se originam as lembranças da infância. Muito diferentes 
das lembranças conscientes da idade adulta, elas não se fixam no momento da experiência para 
mais tarde serem repetidas; somente surgem muito mais tarde, quando a infância já acabou; nesse 
processo, sofrem alterações e falsificações de acordo com os interesses de tendências ulteriores, 
de maneira que, de um modo geral, não poderão ser claramente diferençadas de fantasias. Talvez 
se possa melhor explica-lhes a natureza comparando-as com o começo da crônica histórica entre 
os povos da antiguidade. Enquanto as nações eram pequenas e fracas, não cuidavam de escrever 
a sua história. Os homens lavravam suas terras, lutavam com seus vizinhos defendendo sua 
sobrevivência e procuravam conquistar mais território e riquezas. Foi uma época de heróis e não 
de historiadores. Seguiu-se outra época - a da reflexão; os homens sentiram-se ricos e poderosos 
e agora sentiam uma necessidade de saber de onde tinham vindo e como haviam evoluído. Os 
relatos históricos, que começaram por anotar os sucesso do presente, voltam-se então para o 
passado recolhendo lendas e tradições, interpretando os vestígios da antiguidade que subsistiam 
ainda em costumes e usos, e dessa maneira criou-se uma história do passado. Era inevitável que 
essa história primitiva fosse a expressão das crenças e desejos do presente, e não a imagem 
verdadeira do passado; muitas coisas já haviam sido esquecidas enquanto outras haviam sido 
destorcidas e alguns remanescentes do passado eram interpretados erradamente, de modo a 
corresponderem às idéias contemporâneas. Além do mais, o motivo que levava as pessoas a 
escreverem história não era uma curiosidade objetiva mas sim o desejo de influenciar seus 
contemporâneos, de animá-los e inspirá-los, ou mostrar-lhes um exemplo onde mirar-se. A 
memória consciente do homem com relação aos acontecimentos do seu período de madureza 
pode bem ser comparada ao tipo primitivo de relatos da história [uma crônica dos acontecimentos 
da época]; enquanto as lembranças que ele tem de sua infância correspondem, quanto às suas 
origens e credibilidade, à história das origens de uma nação compilada mais tarde e sob 
influências tendenciosas. 
 
Portanto, se a história de Leonardo a respeito do abutre que o visitou no berço houver sido 
apenas uma fantasia de uma época posterior, poderíamos concluir não valer a pena dedicar-lhe 
tanto tempo. Poderíamos satisfazer-nos em explicá-la a partir da tendência, que ele próprio não 
esconde, de considerar a sua preocupação com o vôo dos pássaros como sendo uma fatalidade 
de seu destino. No entanto, menosprezando essa história cometeríamos uma injustiça tão grande 
como faríamos se desprezássemos o conjunto de lendas, tradições e interpretações encontradas 
na história primitiva de uma nação. A despeito de todas as distorções e mal-entendidos elas ainda 
representam a realidade do passado: representam aquilo que um povo constrói com a experiência 
de seus tempos primitivos e sob a influência de motivos que, poderosos em épocas passadas, 
ainda se fazem sentir na atualidade; e, se fosse possível, através do conhecimento de todas as 
forças atuantes, desfazer essas distorções, não haveria dificuldade em desvendar a verdade 
histórica que se esconde atrás do acervo lendário. Isto se aplica também às lembranças da 
infância ou às fantasias do indivíduo. O que alguém crê lembrar da infância não pode ser 
considerado com indiferença; como regra geral, os restos de recordações - que ele próprio não 
compreende - encobrem valiosos testemunhos dos traços mais importantes de seu 
desenvolvimento mental. Como hoje contamos nas técnicas da psicanálise com excelentes 
métodos que nos ajudam a trazer para a superfície esses elementos ocultos, podemos tentar 
preencher a lacuna que existe na história da vida de Leonardo analisando a sua fantasia infantil. E 
se ao fazê-lo não ficarmos satisfeitos com o grau de certeza