Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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de sonhos, aparentemente absurdos, cujo significado já conseguimos desvendar. 
Existe alguma razão para que uma lembrança da infância nos ofereça maiores dificuldades do que 
um sonho? 
Recordando que não convém analisar uma característica peculiar isoladamente, 
apressamo-nos em trazer uma outra que nos parece ainda mais estranha. 
A deusa egípcia Mut, que tinha cabeça de abutre, figura sem nenhuma característica 
pessoal, segundo o artigo de Drexler no léxico de Roscher, fundia-se freqüentemente com outras 
deusas de personalidade mais marcante, tais como Ísis e Hathor, porém conservou, ao mesmo 
tempo, separados, sua existência e seu culto. Uma característica especial do panteão egípcio era 
que os deuses individuais não desapareciam quando ocorria um processo de sincretismo. Ao 
mesmo tempo que sucedia a fusão dos deuses, as divindades individuais continuavam a sua 
existência independente. Ora, essa deusa-mãe com cabeça de abutre era geralmente 
representada pelos egípcios com um falo; seu corpo era de mulher, conforme mostram os seus 
seios, mas possuía também um membro masculino em ereção. Encontramos, portanto, na deusa 
Mut a mesma combinação de características maternais e masculinas que existem na fantasia de 
Leonardo sobre o abutre. Deveremos explicar esta coincidência afirmando que Leonardo tomou 
conhecimento, através da leitura de seus livros [ver em [1]] da natureza andrógina do abutre 
maternal? Uma tal possibilidade é assaz duvidosa; parece que as fontes às quais tinha acesso não 
continham nenhuma informação sobre este notável pormenor. Parece mais plausível buscar a 
explicação dessa coincidência num fator comum operativo, válido para ambos os casos mas 
desconhecidos para nós até este momento. 
A mitologia nos ensina que a constituição andrógina, isto é, uma combinação das 
características masculinas e femininas, era atributo não só de Mut mas também de outras 
divindades, tais como Ísis e Hathor - estes, no entanto, talvez pelo fato de possuírem também uma 
natureza maternal e se confundirem com Mut (Römer, 1903). Ensina-nos, mais, que outras 
divindades egípcias tais como Neith de Saís - de quem se originou, mais tarde, a Atenéia dos 
gregos - foram originariamente representadas como andróginas, isto é, como hermafroditas, e que 
o mesmo se dava com muitos dos deuses gregos, especialmente aqueles que eram associados a 
Dionísio mas também a Afrodite, que mais tarde se limitou a representar uma deusa feminina do 
amor. A mitologia explica que o acréscimo de um falo ao corpo feminino é uma representação da 
força primitiva criadora da natureza, e que todas essas divindades hermafroditas são expressões 
da idéia de que somente a combinação dos elementos masculino e feminino poderão de fato 
simbolizar a perfeição divina. Mas nenhuma dessas considerações nos explica o fato psicológico 
tão estranho de a imaginação humana não vacilar em emprestar a uma imagem que pretende 
essencialmente representar a mãe um atributo da potência masculina que representa exatamente 
o oposto de qualquer idéia maternal. 
As teorias sexuais infantis explicam-nos isso. Existe uma época em que o genital 
masculino é compatível com a imagem da mãe. Quando um menino começa a ter curiosidade 
pelos enigmas da vida sexual, fica dominado pelo interesse que tem pelo seu próprio genital. 
Passa a considerar essa parte de seu corpo valiosa e importantíssima para ele e crê que ela deve 
existir nas outras pessoas com as quais ele se acha parecido. Como não pode adivinhar a 
existência de outra conformação genital igualmente importante, é forçado a forjar a hipótese de 
que todos os seres humanos, tanto os homens quanto as mulheres, possuem um pênis igual ao 
seu. Este preconceito se torna de tal maneira imbuído no investigador infantil que não desaparece 
nem mesmo quando, pela primeira vez, chega a observar o genital das meninas. Sua percepção 
mostra-lhe que há alguma coisa diferente do que ele possui mas é incapaz de admitir que o 
conteúdo de sua percepção é que ele não pode encontrar um pênis nas meninas. A sua falta 
parece-lhe uma coisa sinistra e intolerável e procurando uma solução de compromisso chega à 
conclusão de que as meninas também possuem um pênis, somente que é ainda muito pequeno; e 
que, depois, ele crescerá. Mais tarde, quando percebe que isso não acontece, encontra outra 
explicação: as meninas também tinham um pênis, mas ele foi cortado e em seu lugar ficou apenas 
uma ferida. Este avanço teórico já implica experiências pessoais de caráter penoso: nesse 
intervalo o menino já terá ouvido ameaças de lhe cortarem o órgão que tanto preza, caso venha a 
demonstrar um interesse demasiadamente ostensivo por ele. Sob a influência dessa ameaça de 
castração, ele agora interpreta de modo diferente o conhecimento adquirido sobre os genitais 
femininos; daí em diante receará por sua masculinidade e, ao mesmo tempo, menosprezará as 
infelizes criaturas que já receberam o cruel castigo, conforme ele presume. 
Antes de a criança ser dominada pelo complexo de castração - isto é, numa época em que 
a mulher ainda conserva para ela todo o seu valor - ela começa a exteriorizar um intenso desejo 
visual, como atividade erótica instintiva. Quer ver os genitais de outras pessoas, a princípio 
provavelmente para compará-lo com o seu próprio. A atração erótica que sente por sua mãe logo 
se transforma em um desejo pelo seu órgão genital, que supõe ser um pênis. Com a descoberta 
que fará, mais tarde, de que as mulheres não possuem pênis, este desejo muitas vezes se 
transforma no seu oposto, dando origem a um sentimento de repulsa que, na época da puberdade, 
poderá ser a causa de impotência psíquica, misoginia e homossexualidade permanente. Porém a 
fixação no objeto antes tão intensamente desejado, o pênis da mulher, deixa traços indeléveis na 
vida mental da criança, quando esta fase de sua investigação sexual infantil foi particularmente 
intensa. Um culto fetichista cujo objeto é o pé ou calçado feminino parece tomar o pé como mero 
símbolo substitutivo do pênis da mulher, outrora tão reverenciado e depois perdido. Sem o saber, 
os `coupeurs de nattes\u201e desempenham o papel de pessoas que executam um ato de castração 
sobre o órgão genital feminino. 
Enquanto as pessoas se mantiverem na atitude ditada pela nossa civilização de desprezo 
pelos órgãos genitais e pelas funções sexuais, não poderão absolutamente compreender as 
atividades da sexualidade infantil e provavelmente fugirão ao assunto afirmado ser incrível o que 
aqui dissemos. Para compreender a vida mental das crianças necessitamos recorrer a analogias 
encontradas nos tempos primitivos. Para nós, durante muitas gerações os genitais foram sempre 
as partes `pudendas\u201e, motivo de vergonha e até mesmo (devido a posterior repressão sexual bem 
sucedida) de repugnância. Se fizermos um histórico extenso da vida sexual de nossa época e 
sobretudo das classes que são o sustentáculo da civilização humana, seremos tentados a declarar 
que é a contragosto que a maioria daqueles que vivem nos dias de hoje obedecem à lei de 
propagar a espécie; sentem-se, nesse processo, diminuídos em sua dignidade humana. Entre nós, 
somente a classe menos culta de nossa sociedade difere desse ponto de vista sobre a vida sexual. 
Para a classe mais alta e refinada, ela constitui uma coisa que se oculta, desde que é considerada 
culturalmente inferior, e quando se permitem dar-lhe vazão, fazem-no contra a sua consciência. 
Nos tempos primitivos da raça humana, a concepção era diferente. Dados trabalhosamente 
compilados por estudiosos da civilização apresentam testemunho irrefutável de que primitivamente 
os genitais eram o orgulho e a esperança dos seres humanos; eram adorados como deuses e 
transmitiam a essência