Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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divina de suas funções a todas as novas atividades humanas. Como 
resultado da sublimação de sua natureza básica criaram-se inúmeras divindades: e quando a 
conexão entre a religião oficial e a atividade sexual se tornou oculta da consciência geral, cultos 
secretos se dedicavam a conservá-la viva entre um certo número de iniciados. Durante o decurso 
do desenvolvimento cultural tanta coisa divina e sagrada foi, em última essência, extraída da 
sexualidade, que o remanescente, quase esgotado, foi desprezado. Mas, dado o caráter indelével 
de todos os processos mentais, não é de admirar que mesmo as formas mais primitivas do culto 
genital existissem até bem pouco tempo e que a linguagem, os costumes e as superstições da 
humanidade de hoje contenham ainda remanescentes de todas as fases deste processo de 
desenvolvimento. 
Notáveis analogias biológicas levam-nos a descobrir que o desenvolvimento mental do 
indivíduo repete, de modo abreviado, o processo do desenvolvimento humano; e as conclusões a 
que chegaram as pesquisas psicanalíticas acerca da mente infantil, referentes à importância 
concedida aos genitais na infância, não são tão inverossímeis. A hipótese infantil de que sua mãe 
tem um pênis será, portanto, a origem comum de que derivam tanto a mãe-deusa andrógina como 
a Mut egípcia, e a `coda\u201e do abutre na fantasia infantil de Leonardo. Na verdade, ao classificar de 
hermafroditas, no sentido médico, essas representações de deuses, cometemos realmente uma 
impropriedade. Em nenhuma delas existe realmente a combinação dos genitais dos dois sexos - 
uma combinação que se observa em algumas malformações e que constituem uma deformação 
repulsiva; a única coisa que acontecia era que o órgão masculino era acrescentado as seios, que 
são a característica da mãe, como se dá também na representação infantil do corpo materno. Esta 
forma do corpo materno, criação reverenciada da fantasia primitiva, foi conservada fielmente pela 
mitologia. Podemos apresentar agora a seguinte interpretação da ênfase dada à cauda do abutre 
na fantasia de Leonardo: `Isso foi numa época em que a minha curiosidade afetuosa era toda 
dirigida à minha mãe, e que eu pensava ter ela um órgão genital igual ao meu.\u201f Constitui mais uma 
evidência das precoces pesquisas sexuais de Leonardo que, em nossa opinião, tiveram influência 
decisiva sobre toda a sua vida futura. 
Neste ponto, um pouco de reflexão mostrará que não nos satisfaz ainda o modo pelo qual 
foi explicada a cauda do abutre na fantasia infantil de Leonardo. Parece haver nela alguma coisa 
mais que não conseguimos ainda compreender. A mais notável de todas elas foi ter sido 
transformado o ato de mamar no seio materno em ser amamentado, isto é, em passividade, 
portanto, numa situação cuja natureza é indubitavelmente homossexual. Quando nos lembramos 
da probabilidade histórica de Leonardo ter-se comportado em sua vida como uma pessoa 
emocionalmente homossexual, ocorre-nos perguntar se esta fantasia não indicaria a existência de 
uma relação causal entre as relações infantis de Leonardo com a mãe e sua posterior 
homossexualidade manifesta, ainda que ideal [sublimada]. Não nos atreveríamos a inferir qualquer 
conexão dessa natureza da reminiscência confusa de Leonardo se não soubéssemos, pelos 
estudos psicanalíticos de pacientes homossexuais, que tal ligação existe de fato e é, na verdade, 
condição intrínseca e necessária. 
Os homossexuais, que em nossos dias se têm defendido energicamente das restrições 
impostas por lei às suas atividades sexuais, gostam de ser apresentados, por intermédio de seus 
teóricos defensores, como pertencendo a uma espécie diferente, como um estágio sexual 
intermediário ou como um `terceiro sexo.\u201f Eles se declaram homens inatamente compelidos, por 
disposições orgânicas, a achar prazer com outros homens, o que não conseguem com mulheres. 
Por maior que seja a nossa vontade, por motivos humanitários, de acatar suas declarações, 
devemos analisar as suas teorias com reservas, pois foram feitas sem levar em conta a gênese 
psíquica da homossexualidade. A psicanálise oferece meios para preencher essa lacuna e para 
testar as afirmativas dos homossexuais. Embora só tenha conseguido colher dados de um número 
reduzido de pessoas, todas as investigações empreendidas até agora produziram o mesmo 
resultado surpreendente. Em todos os nossos casos de homossexuais masculinos, os indivíduos 
haviam tido uma ligação erótica muito intensa com uma mulher, geralmente sua mãe, durante o 
primeiro período de sua infância, esquecendo depois esse fato; essa ligação havia sido despertada 
ou encorajada por demasiada ternura por parte da própria mãe, e reforçada posteriormente pelo 
papel secundário desempenhado pelo pai durante sua infância. Sadger chama atenção para o fato 
de as mães dos seus pacientes homossexuais serem muitas vezes masculinizadas, mulheres com 
enérgicos traços de caráter e capazes de deslocar o pai do lugar que lhe corresponde. Observei 
ocasionalmente a mesma coisa, porém me impressionei mais com os casos em que o pai estava 
ausente desde o começo, ou abandonara a cena muito cedo, deixando o menino inteiramente sob 
a influência feminina. Na verdade, parece que a presença de um pai forte asseguraria, no filho, a 
escolha correta de objeto, ou seja, uma pessoa do sexo oposto. 
 
Depois desse estágio preliminar, estabelece-se uma transformação cujo mecanismo 
conhecemos mas cujas forças determinantes ainda não compreendemos. O amor da criança por 
sua mãe não pode mais continuar a se desenvolver conscientemente - ele sucumbe à repressão. 
O menino reprime seu amor pela mãe; coloca-se em seu lugar, identifica-se com ela, e toma a si 
próprio como um modelo a que devem assemelhar-se os novos objetos de seu amor. Desse modo 
ele transformou-se num homossexual. O que de fato aconteceu foi um retorno ao auto-erotismo, 
pois os meninos que ele agora ama à medida que cresce, são, apenas, figuras substitutivas e 
lembranças de si próprio durante sua infância - meninos que ele ama da maneira que sua mãe o 
amava quando era ele uma criança. Encontram seus objetos de amor segundo o modelo do 
narcisismo, pois Narciso, segundo a lenda grega, era um jovem que preferia sua própria imagem a 
qualquer outra, e foi assim transformado na bela flor do mesmo nome. 
Considerações psicológicas mais profundas justificam a afirmativa de que um homem que 
assim se torna homossexual, permanece inconscientemente fixado à imagem mnêmica de sua 
mãe. Reprimindo seu amor à sua mãe, conserva-o em seu inconsciente e daí por diante 
permanece-lhe fiel. Quando parece perseguir outros rapazes e tornar-se seu amante, na realidade 
está fugindo das outras mulheres que o possam levar à infidelidade. Em casos individuais, a 
observação direta tem-nos permitido demonstrar que o homem que dá a impressão de ser sensível 
somente aos encantos de outros homens sente-se, na verdade, atraído pelas mulheres, como 
qualquer homem normal; mas em cada ocasião procura transferir imediatamente a excitação 
provocada pela mulher para um objeto masculino e, desse modo, repete incessantemente o 
mecanismo pelo qual adquiriu sua homossexualidade. 
Estamos longe de querer exagerar a importância dessas explicações sobre a gênese 
psíquica da homossexualidade. É óbvio que elas discordam completamente das teorias adotadas 
pelos defensores dos homossexuais, mas sabemos também que não são bastante claras para 
chegar a uma conclusão definitiva sobre esse problema. Aquilo que, por motivos práticos, é 
geralmente chamado de homossexualidade poderá ser o resultante de uma variedade enorme de 
processos inibitórios psicossexuais; o processo particular que destacamos é, talvez, apenas um 
entre muitos outros e talvez corresponda