Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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a um único tipo de `homossexualidade\u201f. Devemos 
também admitir que o número de casos de homossexualismo deste tipo, em que podemos 
reconhecer as causas determinantes assinaladas por nós, é bem maior do que aqueles em que ele 
de fato se concretiza. Portanto, nós também não podemos negar a influência exercida por fatores 
constitucionais desconhecidos, aos quais geralmente se atribui toda a homossexualidade. Não 
teríamos tido motivo algum para entrar na gênese psíquica da forma de homossexualidade que 
estudamos se não houvesse um forte pressentimento de que Leonardo, cuja fantasia sobre o 
abutre foi o nosso ponto de partida, fosse, na verdade, um homossexual exatamente desse tipo. 
Conhecem-se poucos detalhes sobre o comportamento sexual do grande artista e 
cientista, mas devemos crer na possibilidade de as afirmativas de seus contemporâneos não terem 
sido totalmente erradas. À luz de tais afirmativas, portanto, ele nos parece ter sido um homem 
cujas necessidades e atividades sexuais eram excepcionalmente reduzidas, como se uma 
aspiração mais elevada o houvesse colocado acima das necessidades animais comuns da 
humanidade. Haverá sempre uma dúvida quando se trata de saber se ele terá alguma vez 
procurado a satisfação sexual direta e, se o fez, de que maneira; ou teria ele prescindido 
completamente de qualquer ato dessa natureza? Achamos justo, no entanto, procurar nele 
também as forças emocionais que impulsionam outros homens imperativamente à prática do ato 
sexual; pois não podemos imaginar a vida mental de nenhum ser humano sem que tivesse havido 
em sua formação o desejo sexual em seu sentido mais amplo - libido - mesmo que tal desejo se 
tivesse afastado de sua finalidade original, ou fosse refreado, e não chegasse a exercer-se. 
Não podemos esperar encontrar em Leonardo senão indícios de inclinação sexual 
não-transformada. Estes indícios, porém, apontam uma direção que nos faz reconhecer nele um 
homossexual. Sempre foi notório que ele somente admitia como alunos meninos e rapazes que 
fossem belos. Tratava-os com gentileza e consideração, tomava conta deles e, quando doentes, 
cuidava-os ele próprio como uma mãe cuida de seus filhos, e assim como o teria tratado a sua 
própria mãe. Como os escolhia pela beleza e não pelo talento, nenhum deles - Cesare da Sesto, 
Boltraffio, Andrea Salaino, Francesco Melzi e outros mais - veio a tornar-se um pintor de 
importância. Geralmente não eram capazes de se libertar de seu mestre e, após a sua morte, 
desapareceram sem terem deixado qualquer marca definitiva na história da arte. Quanto a outros, 
como Luini e Bazzi, chamado Sodoma, cujos trabalhos lhes permitem classificar-se como seus 
discípulos, talvez jamais os tivesse conhecido pessoalmente. 
Ser-nos-á provavelmente alegado que a conduta de Leonardo para com seus alunos nada 
tem a ver com motivos de ordem sexual, e que portanto não justifica deduções sobre a sua 
particular inclinação sexual. Respondendo a isso, gostaríamos de demonstrar, com o devido 
cuidado, que o nosso ponto de vista explica algumas características peculiares do comportamento 
do artista que de outro modo permaneceriam um mistério. Leonardo mantinha um diário onde fazia 
anotações com sua letra miúda (escrevendo da direita para a esquerda) somente para seu próprio 
uso. É digno de nota que naquele diário ele tratava a si próprio na segunda pessoa. `Aprende a 
multiplicação de raízes com Mestre Luca.\u201f (Solmi, 1908, 152). `Faze com que o Mestre d\u201fAbacco te 
ensine a quadratura do círculo.\u201f (Loc. cit.) Ou, durante uma viagem: `Estou indo para Milão tratar 
de assuntos referentes a meu jardim\u2026 Manda fazer duas malas. Faze com que Boltraffio te mostre 
o torno e faze-o polir uma pedra. Deixa o livro para Mestre Andrea il Todesco.\u201f (Ibid., 203) Ou, 
então, uma resolução de importância bem diversa: `Deves mostrar em teu tratado que a terra é 
uma estrela, como a lua ou coisa parecida, e assim provar a nobreza de nosso mundo.\u201f (Herzfeld, 
1906, 141.) 
No referido diário, que, igual ao que acontece nos diários de outros mortais, muitas vezes 
comenta em poucas palavras os acontecimentos mais importantes do dia ou mesmo nem os 
menciona, existem algumas notas que, pela sua estranheza, são relatadas por todos os biógrafos 
de Leonardo. São apontamentos de pequenas quantias de dinheiro, gastas pelo artista - anotadas 
com uma precisão minuciosa como se houvessem sido feitas por um austero ou parcimonioso 
chefe de família. No entanto nada há sobre qualquer extravagância maior ou nenhuma evidência 
de que fizesse parte de sua natureza anotar sempre suas despesas. Uma destas anotações 
refere-se a uma capa nova que comprou para seu aluno Andrea Salaino: 
Brocado de prata 15 lire 4 soldi 
Enfeite de veludo vermelho 9 lire - soldi 
Galões 9 soldi 
Botões 12 soldi 
Outra nota muito detalhada soma todas as despesas que fez por causa do mau caráter e 
do costume de furtar de outro aluno: `No dia vinte e um de abril de 1940 comecei este livro e 
recomecei o cavalo. Jacomo procurou-me no dia se Santa Madalena, em 1940: ele tem dez anos.\u201f 
(Nota à margem: `gatuno, mentiroso, egoísta, voraz.\u201f) `No segundo dia, mandei cortar-lhe duas 
camisas, um par de calças e uma jaqueta e, quando separei o dinheiro para o pagamento, ele o 
roubou de minha bolsa e jamais consegui fazê-lo confessar, embora tivesse certeza disso.\u201f (Nota à 
margem: 4 lire\u2026\u201f) O relatório sobre as faltas do menino continua por aí a fora e termina com a 
demonstração das despesas: `No primeiro ano, uma capa, 2 lire; 6 camisas, 4 lire; 3 jaquetas, 6 
lire; 4 pares de meias, 7 lire; etc.\u201f 
Os biógrafos de Leonardo não desejam de modo algum procurar a solução dos problemas 
mentais de seu personagem partindo de suas pequenas fraquezas e peculiaridades; e o 
comentário que habitualmente fazem sobre essas contas estranhas são para ressaltar-lhes a 
gentileza e a consideração para com os alunos. Esquecem-se de que o que carece de explicação 
não é o comportamento de Leonardo mas sim o fato de ter deixado, acerca dele, esses 
testemunhos. Como é impossível acreditar que seu motivo tenha sido deixar provas de sua 
bondade, devemos pressupor ter sido outra razão, de natureza afetiva, que o levou a fazer esses 
apontamentos. Será difícil adivinhar qual o motivo e nós nada poderíamos sugerir, não fora o fato 
de ter sido encontrado outro apontamento de despesas, entre os papéis de Leonardo, que 
esclarece essas estranhas notas, tão pouco importantes, sobre as roupas de seus alunos etc.: 
 
Despesas com o funeral de Caterina 27 florins 
2 libras de cera 18 florins 
Para o transporte e levantamento da cruz 12 florins 
Essa 4 florins 
Carregadores 8 florins 
4 padres e 4 sacristãos 20 florins 
Para soar o sino 2 florins 
Para os escavadores 16 florins 
Pela licença - para os funcionários 1 florim 
Total 108 florins 
Despesas anteriores 
Médico 4 florins 
Açúcar e castiçais 2 florins 
Total 16 florins 
 
Total completo 124 florins 
 
 
O escritor Merezhkovsky é o único que nos diz quem foi essa Caterina. Baseado em duas 
breves notas ele concluiu que a mãe de Leonardo a pobre camponesa de Vinci, foi a Milão em 
1493 para visitar seu filho, que tinha, então, 41 anos; que lá adoeceu e Leonardo a internou num 
hospital, e quando morreu foi homenageada por ele com esse custoso enterro. 
Esta interpretação feita pelo escritos psicólogo não pode ser provada mas é tão verossímil 
e está tão de acordo com tudo o que conhecemos da atividade emocional de Leonardo, que não 
posso deixar de aceitá-la como correta. Ele conseguira