Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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sujeitar seus sentimentos ao domínio da 
pesquisa e reprimir a sua livre expressão; mas para si mesmo havia ocasiões em que o que 
suprimira forçava um meio de expressão. A morte da mãe, a quem tanto amara em certa época, foi 
uma delas. O que temos diante de nós nesses apontamentos sobre as despesas do enterro é a 
expressão, sob um disfarce quase irreconhecível, de sua tristeza pela morte da mãe. Ficamos 
pensando o porquê desse disfarce, e na verdade não o podemos entender se o consideramos um 
processo mental normal. Porém, processos semelhantes são por nós bem conhecidos nas 
condições anômalas da neurose, sobretudo na que é conhecida como `neurose obsessiva\u201f. Nestes 
casos podemos observar como a expressão de sentimentos intensos, que se haviam tornado 
inconscientes graças à repressão, é deslocada para ações triviais e às vezes mesmo tolas. A 
expressão desses sentimentos reprimidos foi de tal modo enfraquecida pelas forças que a eles se 
opõem, que seríamos levados a considerá-los insignificantes; mas a compulsão imperativa que 
leva a executar esse ato trivial revela a verdadeira força dos impulsos - força que se origina no 
inconsciente e que a consciência gostaria de negar. Somente comparando esta situação com a 
que ocorre na neurose obsessiva é que poderemos explicar as anotações de Leonardo relativas às 
despesas com o enterro de sua mãe. Em seu inconsciente, ele ainda se achava ligado a ela por 
sentimentos de matiz erótico, como acontecera em sua infância. A oposição que se originou na 
subseqüente repressão deste amor infantil não lhe permitiu reverenciar sua mãe em seu diário, de 
modo diferente e melhor. Mas o que emergiu como um compromisso desse conflito neurótico tinha 
de ser externado; e foi assim que esta anotação veio a fazer parte de seu diário e chegou ao 
conhecimento da posteridade como coisa ininteligível. 
 
Não nos parece muito ousado aplicar às notas sobre as despesas com os alunos aquilo 
que descobrimos nas notas sobre o enterro. Seriam elas, portanto, outro testemunho dos esparsos 
remanescentes dos impulsos libidinais de Leonardo, que encontravam assim expressão, de 
maneira compulsiva e sob forma distorcida. Sob esse ponto de vista, sua mãe e seus alunos, que 
representavam a imagem de sua própria beleza infantil, haviam sido seus objetos sexuais - tanto 
quanto a repressão sexual que dominava sua natureza nos permite reconhecê-los - e a compulsão 
a anotar detalhadamente os seus gastos com eles revelava, desse modo estranho, seus conflitos 
rudimentares. Assim, pareceria que a vida erótica de Leonardo pertencia realmente ao tipo de 
homossexualidade cujo desenvolvimento psíquico conseguimos desvendar, e a emergência da 
situação homossexual em sua fantasia do abutre tornar-se-ia inteligível para nós; porque seu 
significado era exatamente o que já havíamos afirmado relativamente a esse tipo. Teríamos de 
traduzi-lo assim: `Foi através dessa relação erótica com minha mãe que me tornei um 
homossexual.\u201f 
 
IV 
Ainda não demos por terminada a análise da fantasia do abutre de Leonardo. Com 
palavras que tão claramente sugerem a descrição de um ato sexual (`e fustigou muitas vezes sua 
cauda contra meus lábios\u201f), Leonardo acentua a intensidade das relações eróticas entre mãe e 
filho. Da ligação desta atividade de sua mãe (o abutre) com a dominância da zona bucal, não será 
difícil adivinhar que a fantasia contém uma outra lembrança. Podemos traduzi-la assim: `Minha 
mãe beijou-me apaixonada e repetidamente na boca.\u201f A fantasia surge da lembrança de ser 
alimentado no seio e de ser beijado pela mãe. 
A natureza generosa deu ao artista a capacidade de exprimir seus impulsos mais secretos, 
desconhecidos até por ele próprio, por meio dos trabalhos que cria; e estas obras impressionam 
enormemente outras pessoas estranhas ao artista e que desconhecem, elas também, a origem da 
emoção que sentem. Será que nada existe na obra de Leonardo para testemunhar aquilo que sua 
memória conservou como uma das impressões mais fortes de sua infância? Deveríamos 
certamente poder encontrar alguma coisa. Porém, se considerarmos a transformação enorme que 
terá de sofrer qualquer impressão vivida por um artista antes que ela venha a ser transformada em 
uma contribuição para uma obra de arte, teremos de observar um grande comedimento ao 
proclamarmos a nossa certeza quanto aos resultados a que chagamos em nossas pesquisas; 
sobretudo com referência a Leonardo. Qualquer pessoa que pense nas pinturas de Leonardo 
recordar-se-á de um sorriso notável, ao mesmo tempo fascinante e misterioso, que ele punha os 
lábios de seus modelos femininos. É um sorriso imutável, desenhado em lábios longos e curvos; 
tornou-se uma característica do seu estilo e o termo `Leonardiano\u201f tem sido usado para defini-lo. 
Este sorriso no rosto estranhamente lindo da florentina Mona Lisa del Giocondo tem causado, em 
todos que o contemplam, os efeitos mais fortes e controvertidos. [Ver Lâmina II.] Este sorriso 
requer uma interpretação e de fato tem merecido as mais variadas explicações sem que nenhuma 
ainda tenha conseguido satisfazer. `Voilà quatre siècles bientôt que Monna Lisa fait perdre la tête a 
tous ceux qui parlent d\u201felle, après l\u201favoir longtemps regardée.\u201f 
Muther (1909, 1, 314) escreveu: `O que sobretudo enfeitiça o espectador é a magia 
demoníaca desse sorriso. Centenas de poetas e escritores já escreveram sobre essa mulher que 
ora parece sorrir-nos tão sedutoramente, ora parece fitar o espaço, friamente e sem alma. E 
ninguém jamais decifrou o enigma de seu sorriso nem leu o significado de seus pensamentos. 
Tudo, até mesmo a paisagem, assemelha-se a um sonho e parece sofrer a influência opressiva da 
sensualidade.\u201f 
A idéia de que dois elementos diferentes estejam combinados no sorriso de Mona Lisa já 
foi suscitada por diversos de seus críticos. Muitos deles vêem na expressão da linda florentina a 
mais perfeita representação dos contrastes que dominam a vida erótica das mulheres; o contraste 
entre a reserva e a sedução, e entre a ternura mais delicada e uma sensualidade implacavelmente 
exigente, destruindo os homens como se fossem seres estranhos. Este é o ponto de vista de 
Müntz (1899, 417): `On sait quelle énigme indéchiffrable et passionnante Monna Lisa Gioconda ne 
cesse depuis bientôt quatre siècles de proposer aux admirateurs pressés devante elle. Jamais 
artiste (j\u201femprunte la plume du délicat écrivain qui se cache sous le pseudonyme de Pierre de 
Corlay) \u201ca-t-il traduit ainsi l\u201fessence même de la féminité: tendresse et coquetterie, pudeur et 
sourde volupté, tout le mystère d\u201fun coeur qui se réserve, d\u201fun cerveau qui réflechit, d\u201fune 
personnalité que se garde et ne livre d\u201felle-même que son rayonnement\u2026\u201d O escritor italiano 
Angelo Conti (1910, 93) descreve que viu no Louvre o retrato iluminado por um raio de sol. `La 
donna sorrideva in una calma regale: i suoi istinti di conquista, di ferocia, tutta l\u201feredità della specie, 
la volontà della seduzionne e dell\u201fagguato, la grazia del inganno, la bontà che cela un proposito 
crudele, tutto ciò appariva alternativamente e scompariva dietro il velo ridente e si fondeva nel 
poeme del suo sorriso\u2026 Buona e malvagia, crudele e compassionevole, graziosa e felina, ella 
rideva\u2026\u201f 
Leonardo passou quatro anos pintando esse retrato, talvez de 1503 até 1507, durante a 
sua segunda permanência em Florença, época em que tinha mais de cinqüenta anos. Segundo 
Vasari, durante o trabalho Leonardo empregou todos os meios ao seu alcance para divertir essa 
senhora e conservar-lhe no semblante o sorriso famoso. No seu estado atual, o quadro conserva 
pouco de todos os detalhes delicados que seu pincel, na época, reproduziu sobre a tela; enquanto 
foi pintado, foi proclamado