Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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mesma importância dada aos números. 
Casos de repetição desta natureza são por nós chamados de perseveração. É um meio 
excelente para revelar a nuance afetiva. Faz-nos lembrar, por exemplo, as palavras de São Pedro 
no Paraíso de Dante, contra o seu indigno representante na terra: 
 
Quegli ch\u201fusurpa in terra il luogo mio, 
Il luogo mio, il luogo mio, che vaca 
Nella presenza del Figliuol di Dio, 
Fato há del cimiterio mio cloaca. 
Se não existisse uma inibição afetiva em Leonardo, a anotação feita em seu diário teria 
sido redigida mais ou menos assim: `Hoje às 7 horas meu pai morreu - Ser Piero da Vinci, meu 
pobre pai!\u201f Porém o deslocamento da perseveração para um detalhe tão indiferente no relato de 
sua morte, a hora em que ele faleceu, esvazia a anotação de qualquer emoção e deixa 
transparecer a existência de algumas coisa que se deseja ocultar ou suprimir. 
Ser Piero da Vinci, tabelião e descendente de tabeliães, era homem dotado de grande 
energia e que veio a tornar-se próspero e estimado. Casou-se quatro vezes. Suas duas primeiras 
mulheres morreram sem lhe deixar filhos e foi somente a sua terceira mulher que o presenteou 
com seu primeiro filho legítimo, em 1476, época em que Leonardo já atingira a idade de 24 anos, e 
de há muito deixara a casa do pai para viver no estúdio de seu mestre Verrocchio. Com a quarta e 
última mulher, com quem se casou já na casa dos cinqüenta, teve mais nove filhos e duas filhas. 
É fora de dúvida que seu pai exerceu também influência importante no desenvolvimento 
psicossexual de Leonardo, não somente de modo negativo por sua ausência durante sua primeira 
infância, mas também de modo direto, por sua presença no período posterior da infância de 
Leonardo. Quem deseja a própria mãe na infância não poderá evitar o desejo de substituir o pai e 
de identificar-se com ele na imaginação, e depois constituir como tarefa de sua vida obter 
ascendência sobre ele. Quando Leonardo foi recebido em casa de seu avô, antes de ter 
completado cinco anos, sua jovem madrasta Albiera terá certamente substituído sua mãe em sua 
afeição, e ele terá sentido o que pode ser chamado de relações normais de rivalidade com seu pai. 
Como sabemos, uma decisão no sentido da homossexualidade somente se concretiza nos anos da 
puberdade. Quando esta decisão ocorreu no caso de Leonardo, sua identificação com o pai perdeu 
toda a significação para sua vida sexual mas manteve-se presente em outras esferas de atividade 
não-erótica. Sabemos que gostava de luxo e de roupagens finas, e que possuía criados e cavalos, 
embora, segundo Vasari, `pouco possuísse e pouco produzisse.\u201f A responsabilidade por estes 
gostos não deve ser atribuída somente à sua sensibilidade ao belo; reconhecemos neles também 
uma compulsão a copiar e ultrapassar seu pai. Seu pai fora um grande cavalheiro para a pobre 
camponesa, e seu filho por isso nunca deixou de sentir o desejo de representar também o grande 
cavalheiro - o impulso de `to out-herod Herod\u201f, - e mostrar ao pai o que vinha a ser um verdadeiro 
gentil-homem. 
Não há dúvida de que o artista criador se considera como o pai de sua obra. Para 
Leonardo, o reflexo de sua identificação com o pai foi prejudicial para sua pintura. Criava a obra de 
arte e depois dela se desinteressava, do mesmo modo que seu pai se desinteressara por ele. O 
cuidado que seu pai demonstrou, mais tarde, em nada conseguiu alterar esta compulsão; porque a 
compulsão derivada das impressões dos primeiros anos de infância, e o que foi reprimido e se 
tornou inconsciente, não pode ser corrigido pelas experências futuras. 
Na época da Renascença - e também muito depois - todo artista dependia de algum nobre 
de alta linhagem, um benfeitor e patrono, que lhe dava encomendas e de cujas mãos dependia a 
sua fortuna. Leonardo encontrou seu patrono em Ludovico Sforza, chamado II Moro, um homem 
ambicioso e amante do esplendor, diplomata astuto, porém de caráter inconsciente e em quem não 
se podia confiar. Na sua corte em Milão, Leonardo passou o período mais brilhante de sua vida, a 
seu serviço seu poder criador atingiu o mais alto grau de realização, como o atestam a Última Ceia 
e a estátua eqüestre de Francesco Sforza. Ele deixou Milão antes da desgraça de Ludovido 
Sforza, que morreu prisioneiro numa fortaleza na França. Quando teve a notícia do destino de seu 
patrono, Leonardo escreveu em seu diário: `O duque perdeu seu ducado, sua propriedade e sua 
liberdade, e nunca terminou nenhuma das obras que empreendeu.\u201f É interessante, e sobretudo 
significativo, que ele fizesse ao seu patrão a mesma acusação que a posterioridade lhe viria fazer. 
Era como se quisesse fazer de alguém que pertencesse à categoria paternal, responsável por ter 
deixado suas obras inacabadas. Na verdade, não errou no que afirmou acerca do duque. 
 
Se sua imitação do pai o prejudicou como artista, sua rebeldia contra ele foi a determinante 
infantil do que foi talvez uma realização igualmente sublime no campo da pesquisa científica. 
Segundo a comparação admirável de Merezhkovsky (1903, 348), era como um homem que 
despertara cedo demais, na escuridão, enquanto os outros ainda dormiam. Ele teve a coragem de 
fazer a declaração que contém a justificação de toda pesquisa independente: `Aquele que apela 
para a autoridade quando existe diferença de opinião, está fazendo mais uso da memória do que 
da razão.\u201f Foi assim que se tornou o primeiro cientista natural moderno e uma abundância de 
descobertas e de idéias sugestivas recompensaram sua coragem de ter sido o primeiro homem, 
desde o tempo dos gregos, a indagar os segredos da natureza baseando-se unicamente na 
observação e em seu próprio julgamento. Mas quando ensinava que a autoridade deveria ser 
desprezada e que a imitação dos `antigos\u201f deveria ser repudiada, e ao afirmar constantemente que 
o estudo da natureza era a fonte de toda verdade, não fazia senão repetir - na mais alta 
sublimação que o homem pode atingir - o ponto de vista resoluto que já se impusera ao menino, 
quando fitava atônito o mundo em redor. Se transformarmos novamente a abstração científica em 
experiência individual concreta, veremos que os `antigos\u201f e a autoridade correspondem 
simplesmente a seu pai, e a natureza vem a ser novamente a mãe gentil e carinhosa que o 
amamentou. Na maioria dos seres humanos - tanto hoje como nos tempos primitivos - a 
necessidade de se apoiar numa autoridade de qualquer espécie é tão imperativa que o seu mundo 
se desmorona se essa autoridade é ameaçada. No entanto, Leonardo pôde dispensar esse apoio; 
não teria podido fazê-lo se nos primeiros anos de sua vida não tivesse aprendido a viver sem o pai. 
Sua ulterior investigação científica, caracterizada por sua ousadia e independência, pressupõe a 
existência de pesquisas sexuais infantis não inibidas pelo pai e representa uma prolongação das 
mesmas com a exclusão do elemento sexual. 
Quando alguém, como aconteceu com Leonardo, escapa à intimidação pelo pai durante a 
primeira infância e rompe as amarras da autoridade em suas pesquisas, muito nos admiraríamos 
se continuasse sendo um crente, incapaz de se desfazer dos dogmas religiosos. A psicanálise 
tornou conhecida a íntima conexão existente entre o complexo do pai e a crença em Deus. 
Fez-nos ver que um Deus pessoal nada mais é, psicologicamente, do que uma exaltação do pai, e 
diariamente podemos observar jovens que abandonam suas crenças religiosas logo que a 
autoridade paterna se desmorona. Verificamos, assim, que as raízes da necessidade de religião se 
encontram no complexo parental. O Deus todo-poderoso e justo e a Natureza bondosa 
aparecem-nos como magnas sublimações do pai e da mãe, ou melhor, como reminiscência e 
restaurações das idéias infantis sobre os mesmos.