Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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Biologicamente falando, o sentimento religioso 
origina-se na longa dependência e necessidade de ajuda da criança; e, mais tarde, quando 
percebe como é realmente frágil e desprotegida diante das grandes forças da vida, volta a sentir-se 
como na infância e procura então negar a sua própria dependência, por meio de uma regressiva 
renovação das forças que a protegiam na infância. A proteção contra doenças neuróticas, que a 
religião concede a seus crentes, é facilmente explicável: ela afasta o complexo paternal, do qual 
depende o sentimento de culpa, quer no indivíduo quer na totalidade da raça humana, 
resolvendo-o para ele, enquanto o incrédulo tem de resolver sozinho o seu problema. 
O caso de Leonardo não parece desmentir este ponto de vista relativo à religião. Enquanto 
vivo, foram-lhe feitas acusações de heresia e de apostasia contra o Cristianismo (o que, na época, 
significava a mesma coisa) que foram claramente descritas na primeira biografia que Vasari [1550] 
escreveu sobre ele. (Müntz, 1889, 292ss.) Na segunda edição (1568) de sua Vite, Vasari suprimiu 
estas observações. Devido à suceptibilidade enorme de sua época no tocante a questões 
religiosas, bem podemos compreender por que Leonardo, até mesmo em seus cadernos evitou 
qualquer comentário direto à sua posição face ao Cristianismo. Em suas pesquisas, jamais se 
deixou induzir em erro por influência dos relatos sobre a Criação, contidos nas Sagradas 
Escrituras; pôs em dúvida, por exemplo, a possibilidade de um dilúvio universal, e em geologia fez 
cálculos em termos de centenas de milhares de anos sem hesitação maior do que a dos homens 
dos tempos modernos. 
Entre as suas `profecias\u201f existem algumas que certamente teriam ofendido a sensibilidade 
de um crente cristão. Assim, por exemplo, em `Sobre o hábito de rezar defronte às imagens de 
santos\u201f: 
 
`Os homens falarão com homens que nada percebem, que têm os olhos abertos mas que 
nada vêem; falarão com eles e não terão resposta; implorarão as graças daqueles que têm orelhas 
mas nada ouvem; acenderão luzes para quem é cego.\u201f (Segundo Herzfeld, 1906, 292.) 
Ou, então, `Sobre o luto na Sexta-feira Santa\u201f: 
`Em toda a Europa, inumeráveis povos chorarão a morte de um único homem que morreu 
no Oriente.\u201f (ibid., 297.) 
Sobre a arte de Leonardo, já foi dito que ele despiu as sagradas figuras de todos os 
vestígios de sua ligação com a Igreja, tornando-as humanas, para nelas representar grandes e 
belas emoções humanas. Muther o elogia por libertar-se do ambiente de decadência que 
prevalecia na época e por restituir ao homem o seu direito à sensualidade e à alegria de viver. Nas 
anotações que nos mostram Leonardo, entregue à sondagem dos grandes mistérios da natureza, 
há um número enorme de passagens onde ele manifesta a sua admiração pelo Criador, última 
causa de todos esses nobres segredos; mas nada existe que possa indicar que desejou manter 
relações pessoais com esse divino poder. As reflexões que encerram a profunda sabedoria dos 
últimos anos de sua vida exalam a conformação do homem que se entrega ao , às leis 
da natureza, e que nenhuma misericórdia espera da bondade ou da graça de Deus. Parece não 
haver dúvida de que Leonardo superou tanto a religião dogmática quanto a pessoal, e que 
afastou-se muito da concepção cristã do mundo, através do seu trabalho de pesquisa. 
As descobertas, anteriormente mencionadas [ver a partir de [1]], que fizemos sobre o 
desenvolvimento da vida mental infantil, levam-nos a crer que no caso de Leonardo também as 
suas primeiras pesquisas na infância se orientaram para os problemas da sexualidade. Ele próprio 
se denuncia, sob disfarce transparente, ao relacionar sua ânsia de pesquisa à fantasia do abutre e 
ao destacar o problema do vôo das aves como assunto para o qual se sentia fatalmente impelido 
por uma série de circunstâncias. Um trecho sobremodo obscuro de suas anotações referentes ao 
vôo das aves, e que se assemelha a uma profecia, demonstra muito bem o grau de interesse 
afetivo que o fazia fixar-se na idéia de poder um dia imitar, ele próprio, esse vôo: `O grande 
pássaro alçará o seu primeiro vôo partindo do dorso de seu Grande Cisne; fará o mundo ficar 
maravilhado, será por todos descrito e será a glória eterna do ninho onde nasceu.\u201f Provavelmente 
esperava que ele próprio chegaria a voar um dia e conhecemos, pelos sonhos realizadores de 
desejos, que felicidade se aguarda da realização dessa esperança. 
 
Mas por que será que tantas pessoas sonham sentindo-se capazes de voar? A resposta 
que nos dá a psicanálise é que voar, ou ser um pássaro, é somente um disfarce para outro desejo, 
e que mais de uma conexão, seja por meio de palavras ou de coisas, leva-nos a reconhecer esse 
desejo. Quando consideramos que às crianças perguntadoras dizemos que os bebês são trazidos 
por um grande pássaro, tal como a cegonha; quando nos lembramos de que os antigos povos 
representavam o falo como possuindo asas; que a expressão mais comum, em alemão, para a 
atividade sexual masculina é `vögeln\u201e [`passarear\u201f: `Vogel\u201e é a palavra alemã para `pássaro\u201f; que o 
órgão masculino é chamado de `l\u201fuccello\u201e [`o pássaro\u201f] em italiano - vemos que todos esses dados 
constituem apenas uma pequena fração de um conjunto de idéias correlatas que nos mostram que, 
nos sonhos, o desejo de voar representa verdadeiramente a ânsia de ser capaz de realizar o ato 
sexual. Este é um desejo que surge nos primeiros anos da infância. Quando o adulto relembra sua 
infância, esta parece-lhe como tendo sido uma época feliz, na qual se gozava o momento e se 
encarava o futuro sem nenhum desejo; é por essa razão que ele inveja as crianças. No entanto, se 
as próprias crianças nos pudessem contar a sua história nessa época, elas provavelmente o fariam 
de modo diferente. Parece que a infância não é bem esse idílio bem-aventurado que 
retrospectivamente destorcemos; ao contrário, as crianças durante toda a sua infância sentem-se 
fustigadas pelo desejo de crescer e de fazer o que fazem os grandes. Este desejo reflete-se em 
todas as brincadeiras. Sempre que as crianças sentem, no curso de suas explorações sexuais, 
que, nesse terreno tão misterioso e tão importante para elas, existe alguma coisa maravilhosa 
permitida aos adultos, mas que elas estão proibidas de conhecer e de fazer, sentem um desejo 
violento de ser capazes de fazê-lo e sonham-no sob a forma de voar, ou preparam este disfarce de 
seu desejo para ser usado mais tarde em seus sonhos de voar. Assim, a aviação, que em nossos 
dias está finalmente conseguindo realizar esse objetivo, tem também suas raízes eróticas infantis. 
 
Ao admitir que desde sua infância sentia-se ligado de maneira especial e pessoal ao 
problema do vôo, Leonardo confirma que as suas pesquisas infantis eram dirigidas para questões 
sexuais; e era isso exatamente o que esperávamos, de acordo com a investigação que fizemos 
sobre crianças de nossa época. Pelo menos esse problema escapara à repressão que mais tarde 
o afastaria da sexualidade. Com ligeiras variantes em seus significados, o mesmo assunto 
continuou a interessá-lo, desde os anos de sua infância até a época de sua plena maturidade 
intelectual; e é muito possível que não tivesse conseguido a destreza que desejava, quer no 
sentido sexual primário, quer no sentido mecânico, e que permaneceu frustrado em ambos os 
desejos. 
Na verdade, o grande Leonardo permaneceu como uma criança durante toda a vida, sob 
diversos aspectos; diz-se que todos os grandes homens conservam algo de infantil. Mesmo 
quando adulto, continuava ele a brincar, o que constituiu mais um motivo por que freqüentemente 
pareceu estranho e incompreensível para seus contemporâneos. A nós não satisfaz, porém, saber 
que construía