Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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os mais complicados brinquedos mecânicos, que exibia em festejos da corte e 
recepções cerimoniosas, pois relutamos em conceber o artista usando o seu talento em coisas tão 
sem importância. No entanto, ele não parecia aborrecer-se em gastar assim o seu tempo pois 
Vasari conta-nos que fazia essas coisas mesmo sem receber encomendas: `Quando estava lá (em 
Roma) pegou um pedaço de cera e com ele modelou bichos muito delicados, que enchia de ar; 
quando soprava, eles voavam e quando o ar escapava, caíam no chão. Para um lagarto estranho, 
que o vinhateiro de Belvedere encontrou, fez umas asas tiradas da pele de outros lagartos e 
encheu-as com mercúrio, de maneira que elas se agitavam e tremiam quando o lagarto caminhava. 
Em seguida, fez-lhe uns olhos, uma barba e chifres, domesticou-o e o guardou numa caixa, para 
com ele assustar todos os seus amigos\u201f. Tais habilidades muitas vezes serviam para exprimir 
pensamentos mais sérios. `Algumas vezes limpava os intestinos de um carneiro tão 
cuidadosamente que poderiam depois caber na concha de sua mão. Levava-os, então, para um 
grande quarto, ajustava-os a um fole de ferreiro situado numa sala contígua e os enchia, a ponto 
de virem a ocupar a sala inteira, assim forçando as pessoas que lá estavam a se refugiarem num 
canto. Dessa forma, ele mostrava como se tornavam transparentes à medida que se enchiam de 
ar; e pelo fato de que a princípio eles ocupavam pouco espaço, e que gradualmente 
espalhavam-se pela sala inteira, ele os comparava ao gênio.\u201f O mesmo prazer brincalhão de 
esconder coisas, fazendo-as depois reaparecer sob os mais engenhosos disfarces, encontra-se 
em suas fábulas e adivinhações. Estas últimas eram feitas sob a forma de `profecias\u201f: quase todas 
eram ricas em idéias mas notoriamente desprovidas de espirituosidade. 
Os jogos e brincadeiras com que Leonardo ocupava sua imaginação, em alguns casos, 
levaram os seus biógrafos, que não lhe compreendiam este lado do caráter, a interpretá-lo 
erroneamente. Nos manuscritos milaneses de Leonardo, existem, por exemplo, alguns rascunhos 
de cartas para o `Diodario de Sorio` (Síria), Vice-rei do Sagrado Sultão da Babilônia\u201f, nas quais 
Leonardo se apresenta como sendo um engenheiro enviado àquelas regiões orientais para a 
execução de determinados trabalhos; nelas defende-se da acusação de preguiça; fornece algumas 
descrições geográficas de cidades e montanhas, e conclui com o relato de um fenômeno da 
natureza que teria acontecido quando lá se encontrava. 
Em 1883, J. P. Richter tentou provar com esses documentos que Leonardo havia 
realmente feito todas essas observações quando em viagem a serviço do Sultão do Egito, e até 
mesmo adotara a religião maometana, quando no Oriente. Segundo ele, a visita deu-se antes de 
1843 - isto é, antes de ter-se instalado na corte do Duque de Milão. Mas a argúcia de outros 
autores facilmente reconheceu a evidência do que a suposta viagem de Leonardo ao Oriente 
realmente significava - uma produção imaginária do jovem artista, criada para seu próprio 
divertimento e na qual ele encontrou expressão para um desejo de conhecer o mundo e enfrentar 
aventuras. 
Outro provável exemplo de criação de sua imaginação encontra-se na `Academia Vincina\u201f, 
que chegou a ser admitida devido a existência de cinco ou seis emblemas, com motivos 
laboriosamente entrelaçados, ostentando o nome da Academia. Vasari menciona esses desenhos 
mas não faz referência à Academia. Müntz, que reproduziu um desses emblemas na capa de seu 
extenso trabalho sobre Leonardo, é um dos poucos que acredita na realidade de uma `Academia 
Vinciana\u201f. 
É provável que o instinto brincalhão de Leonardo tenha desaparecido nos seus anos de 
maturidade, e que encontrasse derivativo na atividade de pesquisa que representou o último e 
mais alto nível de expansão de sua personalidade. A sua longa duração, no entanto, nos ensina 
como lentamente o indivíduo se desliga de sua infância, se nos dias infantis desfrutou a maior 
felicidade erótica, coisa nunca mais conseguida. 
 
 
VI 
Seria fútil tentar negar que os leitores de hoje não apreciam a patografia. Eles encobrem 
sua aversão alegando que a investigação patográfica de um grande homem jamais conduz à 
compreensão de sua importância e de seus feitos, e que, portanto, constitui uma impertinência 
sem sentido estudar nele aspectos que poderiam ser facilmente encontrados em qualquer outra 
pessoa. Mas esta crítica é de tal maneira injusta que só poderá ser compreendida se a tomamos 
como um pretexto ou uma desculpa. A patografia não tem como finalidade tornar inteligíveis os 
feitos dos grandes homens; e seguramente ninguém poderá ser censurado por não realizar algo 
que jamais prometeu. Os verdadeiros motivos para essa oposição são diferentes. Podemos 
descobri-los se nos lembrarmos de que os biógrafos se fixam em seus livros de uma maneira toda 
especial. Muitas vezes escolhem o herói como assunto de seu estudo porque - segundo razões de 
sua vida emocional pessoal - desde o começo sentiram por ele uma afeição especial. Dedicam 
suas energias a um trabalho de idealização, destinado a incluir o grande homem na série de seus 
modelos infantis - revivendo neles, talvez, a idéia infantil que faziam de seu pai. Para satisfazer 
este desejo, eliminam até as características fisionômicas de sua personagem; apagam as marcas 
das lutas de sua vida, com resistências internas e externas, e nela não toleram nenhum vestígio de 
fraqueza ou imperfeições humanas. Apresentam-nos, assim, uma figura ideal, fria, estranha, em 
vez de uma pessoa humana com a qual nos pudéssemos sentir remotamente relacionados. Isto é 
lastimável, pois assim sacrificam a verdade em benefício de uma ilusão, e por causa de suas 
fantasias infantis abandonam a oportunidade de penetrar nos mais fascinantes segredos da 
natureza humana. 
O próprio Leonardo, com seu amor à verdade e sua sede de conhecimento, não 
desencorajaria qualquer tentativa de descobrir o que determinava seu desenvolvimento mental e 
intelectual, tomando como ponto de partida as peculiaridades triviais e os enigmas de sua 
natureza. Nós o homenageamos quando dele aprendemos algo. Em nada ficará diminuída sua 
grandeza ao fazermos um estudo dos sacrifícios que lhe custou o desenvolvimento a partir de sua 
infância, e se juntarmos os fatores que o marcaram com o estigma trágico do fracasso. 
Devemos assinalar insistentemente que nunca classificamos Leonardo como um neurótico 
ou um `doente dos nervos\u201f, conforme a denominação usual imprópria. Qualquer um que proteste 
contra o fato de ousarmos examiná-lo sob a luz dos conhecimentos adquiridos no campo da 
patologia ainda se estará apegando aos preconceito que nós já abandonamos. Não mais 
consideramos que a saúde e a doença, ou que os normais e os neuróticos se diferenciem tanto 
uns dos outros e que traços neuróticos devem necessariamente ser tomados como sendo prova de 
uma inferioridade geral. Hoje em dia, sabemos que os sintomas neuróticos são estruturas que 
funcionam como substitutos para algumas conseqüências de repressão, à qual devemos 
submeter-nos no curso de nosso desenvolvimento, desde a criança ao ser humano civilizado. 
Sabemos, também, que todos nós produzimos essas estruturas substitutivas e que somente o seu 
número, intensidade e distribuição nos poderá justificar na utilização do conceito prático de doença 
e inferir a presença de uma inferioridade constitucional. Partindo das indicações escassas que 
temos sobre a personalidade de Leonardo, estamos inclinados a classificá-lo como próximo ao tipo 
de neurótico que descrevemos como `obsessivo\u201f; e poderíamos comparar suas pesquisas à 
`meditação obsessiva\u201f dos neuróticos e suas inibições como aquilo que chamamos de `abulias\u201f. 
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