Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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objetivo de nosso trabalho foi explicar as inibições na vida sexual e na atividade artística 
de Leonardo. Tendo isso em vista, podemos resumir o que conseguimos descobrir sobre o curso 
de seu desenvolvimento psíquico. 
Não podemos conhecer direito as circunstâncias de sua hereditariedade; verificamos, por 
outro lado, que as circunstâncias acidentais de sua infância tiveram sobre ele um efeito profundo e 
perturbador. A sua origem ilegítima privou-o da influência do pai, talvez até os cinco anos, e 
deixou-o entregue à carinhosa sedução de uma mãe para quem ele talvez fosse o único consolo. 
Depois que os seus beijos lhe despertaram precocemente a madureza sexual, deve ter 
provavelmente atravessado uma fase de atividade sexual infantil da qual uma única manifestação 
foi definitivamente comprovada - a intensidade de suas pesquisas sexuais infantis. O instinto de 
ver e o de saber foram os mais fortemente excitados pelas impressões mais remotas de sua 
infância; à zona erógena da boca foi dava uma ênfase da qual nunca mais se libertou. Por sua 
conduta posterior, em direção oposta, assim como sua simpatia exagerada pelos animais podemos 
concluir pela existência de fortes indícios de traços sádicos naquele período de sua infância. 
Uma poderosa onda de repressão pôs fim a esse excesso infantil e determinou as 
disposições que se deveriam manifestar nos anos da puberdade. O resultado mais evidente da 
transformação foi o afastamento de toda atividade sexual grosseira. Leonardo estava capacitado 
para viver em abstinência e dar a impressão de ser uma criatura assexuada. Quando ondas de 
excitações da puberdade chegaram ao adolescente, elas não o molestaram forçando-o a procurar 
formações substitutivas custosas e prejudiciais. Devido à sua tendência muito precoce para a 
curiosidade sexual, a maior parte das necessidades de seu instinto sexual puderam ser sublimadas 
numa ânsia geral de saber, escapando assim à repressão. Uma parte muito menor de sua libido 
continuou orientada para fins sexuais e representa a atrofiada vida sexual do adulto. Porque o 
amor que tinha pela mãe foi reprimido, esta parte foi levada a tomar uma atitude homossexual e 
manifestou-se no amor ideal por rapazes. A fixação em sua mãe e nas felizes lembranças de suas 
relações com ela continuou preservada no inconsciente, permanecendo, porém, inativa por algum 
tempo. Desse modo, a repressão, a fixação e a sublimação desempenharam sua parte absorvendo 
as contribuições do instinto sexual para a vida mental de Leonardo. 
Leonardo surge da obscuridade de sua infância como artista, pintor e escultor devido a um 
talento específico que foi reforçado, provavelmente, nos primeiros anos de sua infância pelo 
precoce despertar do seu instinto escoptofílico. Gostaríamos enormemente de descrever o modo 
pelo qual a atividade artística se origina nos instintos primitivos da mente, se não fosse aqui, 
justamente, que falham nossas capacidades. Devemos contentar-nos em enfatizar o fato de que 
dificilmente se pode duvidar - de que a criação do artista proporciona, também, uma válvula de 
escape para seu desejo sexual; e no caso de Leonardo podemos ver, segundo a informação de 
Vasari [ver em [1]] que cabeças de mulheres sorridentes e de lindos rapazes - em outras palavras, 
a representação de seus objetos sexuais - eram freqüentes em suas primeiras tentativas artísticas. 
No verdor de sua mocidade, Leonardo parece trabalhar sem inibição. Assim como tomava seu pai 
como modelo para a conduta exterior de sua vida, também atravessou um período de masculina 
força criadora e produção artística quando um destino feliz o fez encontrar, em Milão, um pai 
substituto na figura do duque Ludovico Moro. Mas logo encontramos a confirmação de nossa 
experiência, isto é, que a repressão quase total de uma vida sexual real não oferece as condições 
mais favoráveis para o exercício das tendências sexuais sublimadas. O padrão imposto pela vida 
sexual termina por se impor. Sua atividade e sua capacidade de tomar rápidas decisões começam 
a falhar; sua tendência à indecisão e à protelação se fazem sentir como elemento perturbador na 
`Última Ceia\u201f e, influenciando sua técnica, tiveram um efeito decisivo no destino daquela grande 
obra. Lentamente desenvolveu-se nele um processo somente comparável às regressões nos 
neuróticos. O desenvolvimento que o levou a tornar-se um artista ao atingir a puberdade cedeu 
lugar ao processo que o tornou pesquisador e que tem suas determinantes na primeira infância. A 
segunda sublimação do seu instinto erótico cedeu lugar à sublimação original, cuja forma tinha sido 
preparada por ocasião da primeira repressão. Tornou-se um pesquisador, a princípio a serviço de 
sua arte, porém, mais tarde, independentemente dela e mesmo dela se afastando. Com a perda de 
seu patrono, substituto de seu pai, e com as sombras que, progressivamente, lhe marcavam a 
vida, esta substituição regressiva assumiu proporções cada vez maiores. Tornou-se 
`impacientissimo al pennelo\u201e conforme nos conta um correspondente da condessa Isabella d\u201fEste, 
que desejava ardentemente possuir um quado seu. Seu passado infantil passou a dominá-lo. Mas 
a pesquisa, que toma agora o lugar da criação artística, parece ter contido alguns traços que 
caracterizam a atividade de impulsos inconscientes; insaciabilidade, rigidez de comportamento e 
falta de capacidade para adaptar-se às circunstâncias reais. 
Ao atingir o ápice de sua vida, quando ingressava na casa dos cinqüenta - época em que 
as características sexuais das mulheres já sofreram a involução, enquanto nos homens a libido, 
com freqüência, apresenta um enérgico surto - sofreu ele uma nova transformação. Camadas 
ainda mais profundas de seu conteúdo anímico tornaram-se mais uma vez ativas; mas esta nova 
regressão veio beneficiar a sua arte que se encontrava num processo de atrofiamento. Encontrou a 
mulher que lhe despertou a lembrança do sorriso feliz e sensual de sua mãe; e, influenciado por 
eta lembrança reaguçada, voltou a encontrar o estímulo que o guiava no princípio de suas 
tentativas artísticas, na época em que retratou mulheres sorridentes. Pintou a Mona Lisa, a 
`Sant\u201fAna com Dois Outros\u201f e a série de retratos misteriosos caracterizados pelo sorriso 
enigmático. Com a ajuda do mais antigo de todos os seus impulsos eróticos goza o triunfo de, uma 
vez mais, dominar a inibição na sua arte. Este último desenvolvimento vai-se tornando impreciso 
para nós, com as sombras da velhice que se aproxima. Antes disso, seu intelecto se elevara até o 
mais alto grau de realização formulando uma concepção do mundo que de muito ultrapassou a sua 
época. 
Nos capítulos anteriores, já mostrei o que pode justificar este retrato do curso do 
desenvolvimento de Leonardo - propondo estas subdivisões de sua vida e explicando, dessa 
forma, sua vacilação entre a arte e a ciência. Se as afirmativas que fiz provocaram críticas, mesmo 
de amigos e conhecedores da psicanálise, de ter eu apenas escrito uma nova psicanalítica, 
responderei que jamais superestimei a certeza desses resultados. Como tantos outros, sucumbi à 
atração desse grande e misterioso homem, em cuja natureza podemos entrever poderosas 
paixões instintivas que, no entanto, somente se podem exprimir de modo tão impreciso. 
Seja qual for a verdade sobre a vida de Leonardo, não podemos abandonar nossa 
tentativa de encontrar uma explicação psicanalítica antes de completarmos uma outra tarefa. 
Devemos fixar, de modo geral, os limites do que a psicanálise pode conseguir no campo da 
biografia: de outro modo, todo esclarecimento que não for logo comprovado será considerado 
como um fracasso nosso. O material de que dispõe a psicanálise para uma pesquisa consta de 
dados da história da vida de uma