Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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pessoa; de um lado as circunstâncias acidentais e as influências 
do meio e, do outro lado, as reações conhecidas do indivíduo. Baseada em seu conhecimento dos 
mecanismos psíquicos, propõe-se, então, estabelecer uma base dinâmica para a sua natureza, 
fundamentada na intensidade de suas reações, e desvendar as forças motivadoras originais de 
sua mente, assim como as suas transformações e desenvolvimentos futuros. Se isso tem sucesso, 
o comportamento de uma personalidade no curso de sua vida é explicado em termos da ação 
conjugada da constituição e do destino, de forças internas e poderes externos. Quando tal estudo 
não fornece resultados indubitáveis - e talvez suceda assim no caso de Leonardo - a culpa não 
está nos métodos falhos e inadequados da psicanálise, mas na incerteza e na natureza 
fragmentária do material com ele relacionado, e que a tradição nos legou. Portanto, somente o 
autor deverá ser considerado responsável pelo fracasso, por ter obrigado a psicanálise a exprimir 
sua opinião abalizada, apoiando-se em material tão insuficiente. 
Ainda que o material histórico de que dispomos fosse muito abundante e os mecanismos 
psíquicos pudessem ser usados com a máxima segurança, existem dois pontos importantes onde 
uma pesquisa psicanalítica não nos consegue explicar por que razão é tão inevitável que a 
personagem estudada tenha seguido exatamente essa direção e não outra qualquer. No caso de 
Leonardo, tivemos de sustentar o ponto de vista de que o acaso de sua origem ilegítima e a 
ternura exagerada de sua mãe tiveram influência decisiva na formação de seu caráter e na sorte 
de seu destino, pois a repressão sexual que se estabeleceu depois dessa fase de sua infância 
levou-o a sublimar sua libido na ânsia de saber e estabelecer sua inatividade sexual para o resto 
de sua vida. Mas esta repressão após as primeiras satisfações eróticas da infância não tinha 
necessariamente de se estabelecer; em outra pessoa talvez não tivesse acontecido, ou talvez 
tivesse atingido proporções muito menores. Temos de reconhecer aqui uma margem de liberdade 
que não pode mais ser resolvida pela psicanálise. Assim, também, não podemos afirmar que a 
conseqüência dessa onda de repressão tivesse sido a única possível. É provável que uma outra 
pessoa não tivesse conseguido livrar da repressão a maior parte da sua libido sublimando-a numa 
sede de conhecimentos; sob as mesmas influências, teria sofrido perturbação permanente de sua 
atividade intelectual ou adquirido uma disposição incoercível para a neurose obsessiva. Deixamos, 
portanto, estas duas características de Leonardo que não podem ser explicadas pela psicanálise: 
sua tendência muito especial para a repressão dos instintos e sua extraordinária capacidade para 
sublimar os instintos primitivos. 
Os instintos e suas transformações constituem o limite do que a psicanálise pode discernir; 
daí em diante cede lugar à investigação da biologia. Somos obrigados a procurar a fonte da 
tendência à repressão e a capacidade para a sublimação nos fundamentos orgânicos do caráter, 
sobre o qual se vem erigir posteriormente a estrutura mental. Já que o talento artístico e a 
capacidade estão intimamente ligados à sublimação, temos de admitir que a natureza da função 
artística também não pode ser explicada através da psicanálise. A tendência da pesquisa 
biológica, hoje em dia, é explicar as principais características orgânicas de uma pessoa, como o 
resultado da mistura das disposições masculina e feminina, baseada em substâncias [químicas]. A 
beleza física de Leonardo e o fato de ser canhoto poderão ser mencionadas em apoio a este ponto 
de vista. Não abandonaremos, no entanto, o campo da pesquisa puramente psicológica. Nosso 
objetivo continua a ser demonstrar a relação que existe, seguindo o caminho da atividade 
instintiva, entre as experiências externas de um indivíduo e suas reações. Mesmo que a 
psicanálise não esclareça o poder artístico de Leonardo, pelo menos torna, para nós, mais 
compreensíveis suas manifestações e suas limitações. Parece, em todo caso, que somente um 
homem que tivesse passado pelas experiências infantis de Leonardo poderia ter pintado a Mona 
Lisa e a Sant\u201fAna, ter acarretado um destino tão melancólico para suas obras e ter embarcado 
numa carreira tão extraordinária de cientista, como se a chave para todas as suas realizações e 
fracassos estivesse escondida na sua fantasia infantil sobre o abutre. 
 
Mas será que não devemos fazer objeções aos achados de uma investigação que atribui a 
circunstâncias acidentais, referentes à sua constelação parental, uma influência tão decisiva no 
destino de uma pessoa? O que, por exemplo, fez com que o destino de Leonardo viesse a 
depender de sua origem ilegítima e da esterilidade de sua primeira madrasta, Donna Albiera? 
Creio que ninguém terá o direito de fazê-lo. Se considerarmos que o acaso não pode determinar 
nosso destino, será apenas um retorno ao ponto de vista religioso sobre o Universo, que o próprio 
Leonardo estava a ponto de superar quando escreveu que o sol não se move [ver em [1]]. 
Sentimo-nos naturalmente decepcionados por ver que um Deus justo e uma providência bondosa 
não nos protegem melhor contra tais influências durante o período mais vulnerável de nossas 
vidas. Ao mesmo tempo, estamos sempre demasiadamente prontos a esquecer que, de fato, o que 
influi em nossa vida é sempre o acaso, desde nossa gênese a partir do encontro de um 
espermatozóide com um óvulo - acaso que, no entanto, participa das leis e necessidades da 
natureza, faltando-lhe apenas qualquer ligação com nossos desejos e ilusões. A distribuição dos 
fatores determinantes de nossa vida entre as `necessidades\u201f de nossa constituição e o `acaso\u201f de 
nossa infância pode ser ainda incerta em seus detalhes; mas não será mais possível duvidar 
precisamente da importância dos primeiros anos de nossa infância. Nós todos ainda sentimos 
muito pouco respeito pela natureza, que (nas palavras obscuras de Leonardo, que lembram o 
Hamlet) `está cheia de inúmeras razões [`ragioni\u201f] que nunca penetram a experiência.\u201f 
Cada um de nós, seres humanos, corresponde a uma dessas inúmeras experimentações 
por meio das quais as `ragioni\u201f da natureza são compelidas a compartilhar a experiência. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AS PERSPECTIVAS FUTURAS DA TERAPÊUTICA PSICANALÍTICA (1910) 
 
DIE ZÜKNFTIGEN CHANCEN DER PSYCHOANALYTISCHEN THERAPIE 
 
(a) EDIÇÕES ALEMÃS: 
1910 Zbl. Psychoan., 1 (1-2), 1-9. 
1913 S.K.S.N., 3, 288-298. (2ª ed. 1921.) 
1924 Technik und Metapsychol., 25-36. 
1925 G.S., 6, 25-36. 
1943 G.W., 8, 104-115. 
(b) TRADUÇÕES INGLESAS: 
`The Future Chances of Psychoanalytic Therapy\u201f 
1912 S.P.H. (2ª ed.), 207-215. (Trad. A. A. Brill.) (3ª ed. 1920.) 
`The Future Prospects of Psycho-Analytic Therapy\u201f 
1924 C.P., 2, 285-296. (Trad. Joan Riviere.) 
A presente tradução inglesa baseia-se na publicada em 1924. 
Este trabalho foi proferido em forma de comunicação para a abertura do Segundo 
Congresso de Psicanálise, realizado em Nurembergue, em 30 e 31 de março de 1910. Como uma 
visão geral da posição contemporânea da psicanálise, pode-se compará-lo com uma conferência 
similar `Lines of Advance in Psycho-Analytic Therapy\u201f (Linhas de Desenvolvimento da Terapêutica 
Psicanalítica) (1919a) proferida por Freud oito anos depois no Congresso de Budapeste. Em 
especial, a segunda parte do presente trabalho, que trata da técnica, prefigura a terapia `ativa\u201f que 
constituiu o tema principal do último trabalho. 
 
NOTA DO EDITOR BRASILEIRO 
 
A presente tradução brasileira é de