Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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autoria de David Mussa. Revisão geral e técnica de 
Jayme Salomão (Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro). 
 
AS PERSPECTIVAS FUTURAS DA TERAPÊUTICA PSICANALÍTICA 
 
SENHORES, - De vez que os objetivos para os quais nos reunimos aqui, hoje, são 
eminentemente práticos, escolherei para minha conferência introdutória um tema clínico e 
solicito-lhes o interesse, não científico, mas médico. Posso imaginar seus prováveis pontos de vista 
sobre o resultado de nossa terapia e presumo que a maioria dos senhores já passou pelos dois 
estágios que atravessam todos os principiantes, o do entusiasmo pelo aumento inesperado de 
nossas façanhas terapêuticas e o da depressão pela magnitude das dificuldades que impedem 
nossos esforços. Qualquer que seja, no entanto, o grau de desenvolvimento em que cada um dos 
senhores possa encontrar-se, é minha intenção, hoje, mostrar-lhes que, de nenhuma maneira, 
chegamos ao final de nossos recursos no combate às neuroses e que podemos esperar, em pouco 
tempo, melhoria substancial nas nossas perspectivas terapêuticas. 
Penso que este reforço virá de três direções: 
(1) do processo interno, 
(2) do aumento da autoridade; e 
(3) da eficiência geral de nosso trabalho. 
(1) Sob `progresso interno\u201f quero dizer os avanços: (a) em nosso conhecimento analítico, 
(b) em nossa técnica. 
(a) Avanços em nosso conhecimento. Na verdade, estamos ainda muito longe de saber 
tudo o que se requer para o conhecimento dos inconsciente de nossos doentes. É evidente que 
cada avanço em nosso conhecimento significa um acréscimo de nosso poder terapêutico. Na 
medida em que nada compreendemos, nada realizamos; quanto mais compreendermos, mais 
alcançaremos. No início, o tratamento analítico era inexorável e exaustivo. O doente tinha de dizer 
tudo de si e a atividade do médico consistia em pressioná-lo, incessantemente. As coisas, hoje, 
possuem atmosfera mais cordial. O tratamento compõe-se de duas partes - o que o médico infere 
e diz ao doente, e o que o doente elabora de quanto ouviu. O mecanismo de nosso auxílio é fácil 
de entender; damos ao doente a idéia antecipadora consciente [a idéia do que ele espera 
encontrar] e, então, ele acha a idéia inconsciente reprimida, em si mesmo, no fundamento de sua 
similaridade com a idéia antecipadora. É esta a ajuda intelectual que lhe torna mais fácil superar as 
resistências entre consciente e inconsciente. A propósito, devo salientar que este não é o único 
mecanismo de que se faz uso no tratamento analítico; os senhores todos conhecem aquele bem 
mais poderoso que repousa no emprego da `transferência\u201f. E em minha intenção, em futuro 
próximo, tratar desses diversos fatores, que são tão importantes para a compreensão do 
tratamento, em uma Allgemeine Methodik der Psychoanalyse. E, além disso, ao falar-lhes, não 
preciso refutar a objeção de que o valor indicativo que sustenta a correção de nossas hipóteses se 
obscureça, em nosso tratamento, tal como hoje o praticamos; os senhores não devem esquecer-se 
de que se pode encontrar essa evidência em outro lugar e de que se pode realizar um 
procedimento terapêutico da mesma forma que uma investigação teórica. 
Permitam-me, agora, tocar em um ou dois setores em que novas coisas temos para 
aprender e em que, de fato, novas coisas devemos descobrir, a cada dia. Há, acima de tudo, o 
setor do simbolismo nos sonhos e no inconsciente - tema ardentemente contestado, como os 
senhores sabem. Não é pequeno o mérito de nosso colega, Wilhelm Stekel, que, imperturbado por 
todas as objeções levantadas por nossos opositores, empreendeu um estudo dos símbolos 
oníricos. Há ainda, por certo, muito a aprender aqui; a minha Interpretation of Dreams (A 
Interpretação de Sonhos), escrita em 1899, aguarda importante ampliação das pesquisas no 
simbolismo. 
 
Direi algumas palavras acerca de um dos símbolos que se reconheceram recentemente. 
Ouvi dizer, pouco tempo atrás, que um psicólogo, cujos pontos de vista eram algo diferentes dos 
nossos sonhos, salientara a um de nós, que, conquanto tudo o que se disse e se fez, sem dúvida 
exageramos a significação sexual oculta dos sonhos: o seu próprio sonho mais comum era o de 
subir escadas e, por certo, não poderia haver nada de sexual naquilo. Pusemo-nos alerta no 
tocante a essa objeção e começamos a voltar nossa atenção para o aspecto dos degraus, escadas 
e escadas de mão nos sonhos e ficamos logo em posição de mostrar que as escadas (e coisas 
análogas) eram, inquestionavelmente, símbolos da cópula. Não é difícil descobrir a base da 
comparação: chegamos ao topo numa sucessão de movimentos rítmicos e com crescente perda 
de fôlego e, depois, com alguns saltos rápidos podemos crescer de novo. Assim, o modelo rítmico 
da cópula é reproduzido no subir as escadas. Nem devemos omitir em trazer à evidência o uso 
lingüístico. Ele nos revela que `trepar\u201f [em alemão `steigen\u201e] se usa como equivalente direto do ato 
sexual. Falamos de um homem como um `Steiger\u201e [um `trepador\u201f] e de `nachsteigen\u201e [`correr atrás 
de\u201f, literalmente `trepar\u201f]. Em francês os degraus de uma escada chamam-se `marches\u201e e `un vieux 
marcheur tem o mesmo sentido que o nosso `ein alter Steiger\u201e [`um velho devasso\u201f]. O material do 
sonho de onde tais simbolismos, recentemente reconhecidos, foram extraídos, ser-lhes-á 
apresentado, no devido tempo, pela comissão que estamos formando para o estudo coletivo do 
simbolismo. Os senhores encontrarão algumas observações sobre outro símbolo interessante, o do 
`salvamento\u201f e suas alterações em significação, no segundo volume do nosso Jahrbuch (Anuário). 
Mas, devo interromper aqui ou não chegarei aos meus outros objetivos. 
Cada um dos senhores pode saber, de sua própria experiência, que atitude bastante 
diferente terá para um novo caso de enfermidade, quando certa vez se apoderou, profundamente, 
da estrutura de alguns casos característicos. Imaginem que tenhamos chegado a uma fórmula 
sucinta dos fatores que, comumente, participam da constituição das diversas formas de neurose, 
como aconteceu, até aqui, na estruturação dos sintomas histéricos, e considerem como isso pode 
estabelecer, firmemente, nosso julgamento prognóstico! Assim como um obstetra pode dizer, ao 
examinar a placenta, se ela foi completamente expelida ou se ainda permanecem seus fragmentos 
nocivos, do mesmo modo nós, independentemente do resultado e do estado do paciente, no 
momento, lograremos saber se nosso trabalho foi bem-sucedido ou se teremos de esperar 
recaídas e novas crises de enfermidade. 
(b) Apressar-me-ei em torno das inovações no setor da técnica, onde, na verdade, quase 
tudo ainda aguarda a posição final e muita coisa, somente agora, começa a esclarecer-se. Há, 
hoje, dois objetivos na técnica psicanalítica: poupar o esforço do médico e dar ao paciente o mais 
irrestrito acesso ao seu inconsciente. Como sabem, nossa técnica passou por uma transformação 
fundamental. À época do tratamento catártico, o que almejávamos era a elucidação dos sintomas; 
afastamo-nos, depois, dos sintomas e devotamo-nos, em vez disso, a desvendar os `complexos\u201f, 
para usar uma palavra que Jung tornou indispensável; agora, no entanto, nosso trabalho objetiva 
encontrar e sobrepujar, diretamente, as `resistências\u201f, e podemos confiar em que venham à luz, 
justificadamente, sem dificuldade, os complexos, tão logo se reconheçam e se removam as 
resistências. Alguns dos senhores têm sentido, desde então, a necessidade de que se possa fazer 
uma pesquisa dessas resistências e classificá-las. Pedir-lhe-ei que examinem seu material e vejam 
se podem confirmar a afirmação generalizada de que, nos pacientes masculinos, a maioria das 
resistências importantes ao tratamento parecem derivar-se do