Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
144 pág.

Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


DisciplinaPsicologia47.796 materiais381.573 seguidores
Pré-visualização50 páginas
complexo paterno e expressar-se 
neles no medo ao pai, desobediência ao pai e desavença do pai. 
As outras inovações na técnica relacionam-se com o próprio médico. Tornamo-nos cientes 
da `contratransferência\u201f, que, nele, surge como resultado da influência do paciente sobre os seus 
sentimentos inconscientes e estamos quase inclinados a insistir que ele reconhecerá a 
contratransferência, em si mesmo, e a sobrepujará. Agora que um considerável número de 
pessoas está praticando a psicanálise e, reciprocamente, trocando observações, notamos que 
nenhum psicanalista avança além do quanto permitem seus próprios complexos e resistências 
internas; e, em conseqüência, requeremos que ele deva iniciar sua atividade por uma auto-análise 
e levá-la, de modo contínuo, cada vez mais profundamente, enquanto esteja realizando suas 
observações sobre seus pacientes. Qualquer um que falhe em produzir resultados numa 
auto-análise desse tipo deve desistir, imediatamente, de qualquer idéia de tornar-se capaz de tratar 
pacientes pela análise. 
Estamos chegando, agora, também, à opinião de que se deve modificar a técnica 
psicanalítica, em certos setores, de acordo com a natureza da doença e das tendências instintivas 
predominantes no paciente. Partimos do tratamento da histeria de conversão; na histeria de 
angústia (fobias), devemos alterar, em certa extensão, o nosso procedimento. Pois esses 
pacientes não podem expressar o material necessário para resolver as suas fobias, uma vez que 
se sentem protegidos por obedecer à situação que se estabeleceu. Não se pode ser 
bem-sucedido, por certo, em persuadi-los a abandonar suas medidas protetoras e a trabalhar, sob 
a influência da ansiedade, desde o início do tratamento. Deve-se, portanto, auxiliá-los ao 
interpretar-lhes o inconsciente, até que possam tomar uma decisão, sem a proteção de sua fobia e 
sem que se exponham a sua ansiedade já grandemente mitigada. Somente depois de assim 
procederem, o material torna-se acessível, e, uma vez dominado, conduz à solução da fobia. As 
outras modificações da técnica, que ainda não me parecem maduras para exame, serão 
requeridas no tratamento das neuroses obsessivas. Nessa conexão, surgem muitas questões 
importantes, as quais, até aqui, não foram elucidadas: até que ponto se deve permitir, durante o 
tratamento, certa satisfação dos instintos que o paciente está combatendo e que diferença faz se 
esses impulsos são ativos (sádicos) ou passivos (masoquistas), em sua natureza. 
Espero que os senhores tenham formado a impressão de que quando soubermos tudo 
quanto, só agora, suspeitamos e realizarmos todas as melhorias na técnica, a que nos conduz uma 
observação mais profunda dos pacientes, o nosso procedimento clínico alcançará grau de precisão 
e certeza de sucesso que se hão de encontrar em todo campo especializado da medicina. 
(2) Disse que muito se tinha de esperar do aumento em autoridade, que nos adviria, na 
medida em que passa o tempo. Não necessito dizer-lhes muito sobre a importância da autoridade. 
Poucas pessoas civilizadas, apenas, são capazes de existir sem confiar em outras ou, até mesmo, 
de vir a ter uma opinião independente. Os senhores não podem exagerar a intensidade de 
carência interior de decisão das pessoas e de exigência de autoridade. O aumento extraordinário 
das neuroses desde que decaiu o poder das religiões pode dar-lhes uma medida disso. O 
empobrecimento do ego devido ao grande dispêndio de energia, na repressão, exigido de cada 
indivíduo pela civilização, pode ser uma das principais causas desse estado de coisas. 
Até o momento, essa autoridade, com seu enorme peso de sugestão, ficou contra nós. 
Todos os nossos sucessos terapêuticos foram alcançados em face dessa sugestão: é 
surpreendente que se tenham conseguido quaisquer sucessos em tais circunstâncias. Não devo 
deixar que me levem a descrever minhas experiências satisfatórias durante o período em que, 
sozinho, representava a psicanálise. Posso dizer, apenas, que, quando assegurava a meus 
pacientes que sabia como aliviar-lhes, permanentemente, os sofrimentos, olhavam em torno da 
minha modesta sala, que refletia a ausência de fama e de título, e me consideravam como 
possuidor de um sistema infalível numa casa de jogo, de quem as pessoas dizem que, se pudesse 
fazer o que professa, pareceria bem diferente do que é. Nem realmente era agradável realizar uma 
operação psíquica enquanto os colegas, cujo dever seria o de assistir, se deliciassem, 
particularmente, em cuspir no campo operatório, quando aos primeiros sinais de sangue, ou de 
agitação do paciente, os seus parentes começassem por ameaçar o cirurgião. Uma operação, por 
certo, se destina a produzir reações; em cirurgia, estamos acostumados a isso, há muito tempo. As 
pessoas simplesmente não acreditavam em mim, como, até mesmo, hoje em dia, não crêem muito 
em qualquer de nós. Sob tais condições, não poucas tentativas destinavam-se ao fracasso. Para 
avaliar o aumento de nossas perspectivas terapêuticas, quando recebermos o reconhecimento 
geral, os senhores devem pensar na posição de um ginecologista, na Turquia e no Ocidente. Na 
Turquia, tudo o que ele pode fazer é sentir o pulso de um braço, que se lhe estende, através de um 
buraco na parede: e os alcances clínicos estão em proporção com a inacessibilidade de seu 
objeto. Nossos adversários, no Ocidente, querem permitir-nos mais ou menos o mesmo grau de 
acesso às mentes de nossos pacientes. Mas, agora que a força da sugestão social impele as 
mulheres doentes ao ginecologista, transformou-se ele no seu assistente e salvador. Confio em 
que não dirão que o fato de a autoridade de sociedade, vindo em nossa ajuda e aumentando tanto 
nossos êxitos, nada faria por provar a validez de nossas hipóteses - argumentando do mesmo 
modo que os senhores, visto que se supõe que a sugestão logre fazer qualquer coisa, os vossos 
sucessos seriam, então, êxitos de sugestão e não de psicanálise. A sugestão social é favorável, no 
presente, a tratar os pacientes nervosos pela hidropatia, dieta e eletroterapia, mas isso não 
capacita que tais recursos possam vencer as neuroses. O tempo há de mostrar se o tratamento 
psicanalítico pode realizar mais. 
Agora, no entanto, devo, mais uma vez, arrefecer as expectativas dos senhores. A 
sociedade não terá pressa em conferir-nos autoridade. Está determinada a oferecer-nos 
resistência, porque adotamos em relação a ela uma atitude crítica; assinalamos-lhe que ela própria 
desempenha papel importante em causar neuroses. Da mesma maneira que fazemos de um 
indivíduo nosso inimigo pela descoberta do que nele está reprimido, do mesmo modo a sociedade 
não pode responder com simpatia a uma implacável exposição dos seus efeitos danosos e 
deficientes. Porque destruímos ilusões, somo acusados de comprometer os ideais. Poderia 
parecer, portanto, como se a condição de que espero tão grandes vantagens, para as nossas 
perspectivas terapêuticas, jamais se preencherá. E, todavia, a situação não é, no momento, tão 
desesperançosa quanto se poderia pensar. Embora sejam poderosos os próprios interesses e 
emoções dos homens, não obstante o intelecto também é um poder - um poder que se faz sentir 
não imediatamente, é verdade, mas, sobretudo, seguramente, no fim. As mais ásperas verdades, 
finalmente, são ouvidas e reconhecidas, depois que os interesses que se feriram e as emoções 
que se instigaram tiveram exaurido a própria fúria. Tem sido sempre assim, e as verdades 
indesejáveis, que nós, psicanalistas, temos de dizer ao mundo, contarão com o mesmo destino. 
Apenas não acontecerá muito depressa; devemos ser capazes de esperar. 
(3) Finalmente, tenho de explicar-lhes o que quero dizer com a `eficiência geral\u201f de nosso 
trabalho e como chego