Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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a nele ter esperanças. O que temos, aqui, é uma constelação terapêutica 
bastante fora do comum, cuja semelhança talvez não se encontre em qualquer outra parte, e que 
pode parecer-lhes estranha, a princípio, até que os senhores reconheçam nela algo que a longo 
tempo lhes tenha sido familiar. Naturalmente, os senhores sabem que as psiconeuroses são 
satisfações substitutivas de algum instinto, cuja presença o indivíduo é obrigado a negar a si e aos 
outras. Sua capacidade de existir depende dessa distorção e da falta de reconhecimento. Quando 
o enigma que elas apresentam é resolvido e a solução é aceita pelos pacientes, essas doenças 
cessam em ser capazes de existir. Em medicina, quase nada há igual a isso, embora, em contos 
de fadas, os senhores ouçam falar de espíritos maus, cujo poder se rompe, tão logo possam 
dizer-lhes o próprio nome - o nome que eles guardaram em segredo. 
Em lugar de uma simples pessoa enferma, ponhamos a sociedade - padecendo como um 
todo de neuroses, embora composta de membros doentes e sadios; e, em lugar da aceitação 
individual, naquele caso, coloquemos, nesse, o reconhecimento geral. Uma pequena reflexão lhes 
revelará, então, que tal substituição não pode alterar, de modo algum, o resultado. O sucesso que 
o tratamento pode ter com o indivíduo, deve ocorrer, igualmente, com a comunidade. As pessoas 
doentes não serão capazes de deixar que as suas diversas neuroses se tornem conhecidas - a sua 
ansiosa superternura que tem em mira ocultar-lhe o ódio, a sua agorafobia que se relaciona com a 
ambição frustrada, as suas atitudes obsessivas que representam auto-censuras por más intenções 
e precauções contra as mesmas - se todos os seus parentes e cada estranho, dos quais desejam 
ocultar os seus processos mentais, conheceram o significado geral de tais sintomas, e se eles 
próprios souberem que, nas manifestações de sua doença, nada estão produzindo que outra 
pessoa, imediatamente, não possa interpretar. O efeito, no entanto, não se limitará ao 
encobrimento dos sintomas - o que, incidentalmente, é amiúde impossível de conseguir porque 
essa necessidade de encobrimento destrói a vantagem de ser doente. A revelação do segredo terá 
atacado, em seu ponto mais sensível, a `equação etiológica\u201f, da qual surgem as neuroses - terá 
tornado ilusória a vantagem da doença; e, em conseqüência, o resultado final da situação 
modificada, provocada pela indiscrição do médico, só pode ser o de que a produção da doença 
será detida. 
Se essa esperança parece, aos senhores, utópica, lembrem-se de que os fenômenos 
neuróticos já têm sido, de fato, dissipados, por esses meios, embora apenas em exemplos bem 
isolados. Pensem sobre quão comuns costumavam ser, antigamente, as alucinações da Virgem 
Maria entre as camponesas. Uma vez que tal fenômeno trouxesse uma multidão de crentes e 
pudesse levar a que se construísse uma capela, no lugar santo, o estado visionário dessas moças 
era inacessível a influência. Hoje em dia, nosso próprio clero modificou sua atitude com relação a 
tais coisas; permite que polícia e médicos examinem a visionária, e, agora, apenas muito 
raramente, existem em aparições da Virgem. 
Ou, permitam-me examina esses desenvolvimentos, que tenho descrito como se tivessem 
lugar no futuro, numa situação análoga que existe em escala menor e, conseqüentemente, mais 
fácil de reconhecer. Suponhamos que certo número de senhoras e cavalheiros, de bom convício 
social, tenham planejado fazer um piquenique, em certo dia, numa hospedaria no campo. As 
senhoras combinaram, entre si, que se uma delas desejasse satisfazer suas necessidades 
fisiológicas, diria que iria colher flores. No entanto, uma pessoa maliciosa soube do segredo e 
mandou imprimir no programa, que se fez circular por todo o grupo: `Pede-se às senhoras que 
desejam retirar-se à toilette, que anunciem que vão colher flores.\u201f Depois disso, por certo, 
nenhuma mulher pensará em aproveitar-se desse pretexto florido, e, do mesmo modo, outras 
fórmulas similares que pudessem estabelecer ficariam seriamente comprometidas. Qual será o 
resultado? As senhoras admitirão, sem pejo, as suas necessidades fisiológicas e nenhum dos 
homens objetará. 
Retornemos ao nosso caso mais sério. Certo número de pessoas, ao defrontar-se, em 
suas vidas, com conflitos que constataram muito difíceis de resolver, fogem para a neurose e, 
desse modo, retiram da doença vantagem inequívoca, embora, com o tempo, acarrete bastante 
prejuízo. Que terão de fazer essas pessoas, se sua fuga para a enfermidade for barrada pelas 
revelações indiscretas da psicanálise? Terão de ser honestas, confessar quais os instintos que 
nelas estão em atividade, em face do conflito, lutar por aquilo que desejam ou renunciar ao 
mesmo; e a tolerância da sociedade, que está fadada a seguir-se, como resultado do 
esclarecimento psicanalítico, ajudá-las-á em sua tarefa. 
Lembremo-nos, no entanto, de que nossa atitude perante a vida não deve ser a do fanático 
por higiene ou terapia. Devemos admitir que a prevenção ideal de enfermidade neuróticas, que 
temos em mente, não seria vantajosa para todos os indivíduos. Um bom número daqueles que, 
hoje, fogem para a enfermidade não suportariam o conflito, sob as condições que supomos, mas 
sim, sucumbiriam, rapidamente, ou causariam prejuízo maior que a sua própria doença neurótica. 
As neuroses possuem, de fato, sua função biológica, como um dispositivo protetor, e têm sua 
justificação social: a `vantagem da doença\u201f, que proporcionam, não é sempre uma vantagem 
puramente subjetiva. Existe alguém entre os senhores que, alguma vez, não examinou a 
causalidade da neurose, e não teve de admitir que esse era o mais suave resultado possível da 
situação? E dever-se-iam fazer tais pesados sacrifícios, a fim de erradicar as neuroses, em 
especial, quando o mundo está cheio de outras misérias inevitáveis? 
Devemos, então, abandonar nossos esforços para explicar o significado oculto da neurose 
como sendo, em última instância, perigoso para o indivíduo e nocivo para as funções da 
sociedade? Devemos renunciar a retirar conclusões práticas de uma parte da compreensão 
científica? Não; penso que, apesar disso, nosso dever repousa noutra direção. A vantagem da 
enfermidade, que proporciona as neuroses é, não obstante, no todo, e, finalmente, prejudicial aos 
indivíduos e, igualmente, à sociedade. A infelicidade que nosso trabalho de esclarecimento pode 
causar, atingirá, afinal, apenas alguns indivíduos. A modificação, para uma atitude mais realista e 
respeitável, da parte da sociedade, não será comparada, a preço bastante elevado, através desses 
sacrifícios. Acima de tudo, porém, todas as energias que se consomem, hoje em dia, na produção 
de sintomas neuróticos, que servem aos propósitos do mundo da fantasia, isolado da realidade, 
ajudarão, mesmo que não possam ser postos de imediato em uso na vida, a fortalecer o clamor 
pelas modificações, em nossa civilização, através das quais, unicamente, podemos procurar o 
bem-estar das gerações futuras. 
Desejaria, portanto, deixá-los ir com a segurança de que, ao tratarem seus pacientes 
psicanaliticamente, estarão cumprindo com o seu dever em mais de um sentido. Os senhores não 
estarão trabalhando, apenas, a serviço da ciência, ao fazer uso de uma única oportunidade, para 
descobrir os segredos da neuroses; estarão, não apenas, dando aos seus pacientes o remédio 
mais eficaz para os seus sofrimentos, de que dispõem hoje em dia; estarão contribuindo, com a 
sua parcela, para o esclarecimento da comunidade, através do qual esperamos alcançar a 
profilaxia mais radical, contra as perturbações neuróticas, ao longo do caminho indireto da 
autoridade social. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A SIGNIFICAÇÃO