Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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(1918 [1917]) 
(CONTRIBUIÇÃO À PSICOLOGIA DO AMOR III) 
 
 
BEITRÄGE ZUR PSYCHOLOGIE DES LIEBESLEBENS III 
DAS TABU DER VIRGINITÄT 
 
 
(a) EDIÇÕES ALEMÃES: 
(1917 Lido como uma comunicação à Sociedade Psicanalítica de Viena, 12 de 
dezembro de 1917.) 
1918 S.K.S.N., 4, 229-51. (`Beiträge zur Psychologie des Liebeslebens\u201f III. 2ª ed., 1922.) 
1924 G.S., 5, 212-31. 
1924 Em Beiträge zur Psychologie des Liebeslebens., Leipzig, Viena e Zurique: 
Internationaler Psychoanalytischer Verlag. (Págs. 29-48.) 
1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 95-115. 
1947 G.W., 12, 161-80. 
(b) TRADUÇÃO INGLESA: 
`Contributions to the Psychology of Love: The Taboo of Virginity\u201f 
1925 C.P., 4, 217-35. (Trad. Joan Riviere.) 
A presente tradução inglesa, completamente nova, é de Angela Richards. 
Este artigo foi escrito em setembro de 1917, mas só foi publicado no ano seguinte. Apesar 
do espaço de vários anos que separa este artigo dos dois precedentes, pareceu acertado reuni-los, 
visto que o próprio Freud os juntou sob o mesmo título. Totem and Taboo (Totem e Tabu)(1912-13) 
aparecera no meio tempo, já que o segundo artigo da série, e este terceiro, sob certo ponto de 
vista, podem ser considerados como acréscimo ao segundo ensaio dessa obra. Por outro lado, 
entretanto, inclui o exame do problema clínico da frigidez nas mulheres e, sob este aspecto, é o 
equivalente do estudo da impotência nos homens, no segundo artigo da série (vide [1]). 
 
O TABU DA VIRGINDADE 
(CONTRIBUIÇÕES À PSICOLOGIA DO AMOR III) 
 
POUCAS particularidades da vida sexual dos povos primitivos são tão estranhas a nossos 
próprios sentimentos quanto a valorização da virgindade, o estado de intocabilidade da mulher. O 
alto valor que o pretendente atribui à virgindade da mulher parece-nos tão fortemente enraizado, 
tão natural, que ficaremos quase perplexos se tivermos de oferecer razões para justificar essa 
opinião. A exigência de que a moça leve para seu casamento com determinado homem qualquer 
lembrança de relações sexuais com outro nada mais é, realmente, que a continuação lógica do 
direito à posse exclusiva da mulher, que constitui a essência da monogamia, a extensão desse 
monopólio para incluir o passado. 
Partindo deste ponto, não temos dificuldade em justificar o que a princípio parecia um 
preconceito, quando nos referimos a nossos pontos de vista sobre a vida erótica das mulheres. 
Seja quem for o primeiro a satisfazer o desejo de amor de uma virgem, longa e penosamente 
refreado, e que ao fazê-lo vence as resistências que nela foram criadas através das influências de 
seu meio e de sua educação, este será o homem que a prenderá num relacionamento duradouro, 
possibilidade esta que jamais se oferecerá a qualquer outro homem. Essa experiência cria, na 
mulher, um estado de sujeição que garante que sua posse permanecerá imperturbada e que a 
torna capaz de resistir a novas impressões e tentações estranhas. 
A expressão `sujeição sexual\u201f foi escolhida, por von Krafft-Ebing, (1892) para descrever o 
fenômeno de uma pessoa adquirir um grau de dependência, invulgarmente alto, e carente de 
autoconfiança em relação a outra pessoa com quem mantém um relacionamento sexual. Esta 
sujeição pode, em certa circunstância, estender-se bastante, ir até a perda de toda vontade 
independente e até fazer a pessoa sofrer os maiores sacrifícios de seus próprios interesses; o 
autor, no entanto, não deixa de salientar que certa proporção dessa dependência `é absolutamente 
necessária, se o laço for destinado a durar um período de tempo razoável. Certa medida de 
sujeição sexual é, de fato, indispensável para a manutenção do casamento civilizado e para 
manter afastadas as tendências à poligamia que o ameaçam e, em nossas comunidades sociais, 
este fator é comumente levado em consideração. 
Segundo von Krafft-Ebing a formação da sujeição sexual decorre da associação de um 
`grau invulgar da condição de estar amando e da franqueza de caráter\u201f de uma pessoa, e do 
egoísmo sem limites da outra. A experiência analítica, no entanto, não pode nos deixar satisfeitos 
com este simples esforço de explicação. Podemos observar, antes, que o fator decisivo é a 
proporção de resistência sexual que é vencida e, além disso, o fato de que o processo de vencer a 
resistência se concentra e ocorre apenas uma vez. Este estado de sujeição é, em conseqüência, 
muito mais freqüente e mais intenso nas mulheres que nos homens, conquanto seja verdade que 
ocorra nos últimos muito mais amiúde hoje que antigamente. Sempre que se nos ofereceu a 
oportunidade de estudar a sujeição sexual nos homens, esta se revelou como resultante da 
superação de impotência psíquica, por meio de determinada mulher a quem, subseqüentemente, o 
homem em questão permaneceu sujeito. Muitos casamentos estranhos e não poucos 
acontecimentos trágicos - alguns mesmo de amplas conseqüências - parecem ser explicados por 
essa origem. 
Voltando à atitude dos povos primitivos, é incorreto descrevê-la afirmando que não 
atribuíam valor à virgindade e oferecer como prova disto o fato de que realizam o defloramento das 
moças fora do casamento e antes do primeiro ato de relação sexual marital. Ao contrário, o 
defloramento, para eles, parece que também é um ato significativo; tornou-se, porém, matéria de 
tabu - de uma proibição que se pode descrever como religiosa. Em lugar de reservá-la para o noivo 
da moça e futuro companheiro no casamento, o costume determina que ele se absterá de 
executá-la. 
Não é parte de minha intenção fazer uma compilação completa da evidência literária de 
que existe esse costume da proibição, aprofundar sua distribuição geográfica e enumerar todas as 
formas em que ela se manifesta. Limitar-me-ei, portanto, a declarar o fato de que a prática da 
ruptura do hímen dessa maneira, fora do casamento subseqüente, é muito disseminada entre as 
raças primitivas que vivem ainda hoje. Como diz Crawley, `Essa cerimônia do casamento consiste 
na perfuraçãodo hímen por uma pessoa designada que não o marido; é muito comum nos estágio 
mais baixos de cultura, especialmente na Austrália.\u201f (Crawley, 1902, 347.) 
No entanto, se o defloramento não é para ser conseqüência do primeiro ato de relação 
sexual marital, então, é porque deve ter sido executado antecipadamente - não importa de que 
maneira nem por quem. Transcreverei algumas passagens do livro de Crawley, acima mencionado, 
que fornecem informações sobre esses pontos, mas que também dão vaza a algumas 
observações críticas. 
(Ibid., 191.) `Assim na tribo Dieri e em suas vizinhas (na Austrália) é costume universal 
perfurar o hímen da menina quando ela atinge a puberdade (Journal of Royal Anthropological 
Institute, 24, 169). Nas tribos Portland e Glenelg isto é feito à noiva por uma mulher idosa; e, às 
vezes, com essa finalidade são solicitados homens brancos para deflorar as moças (Brough Smith, 
[1878], 2, 319).\u201f 
(Ibid, 307) `A ruptura artificial do hímen, às vezes, ocorre na infância, mas, geralmente, na 
puberdade... É freqüentemente acompanhada, como na Austrália, por um ato cerimonial de 
relações sexuais.\u201f 
(ibid., 348) (A respeito das tribos australianas entre as quais vigoram as conhecidas 
restrições ao casamento exógamo, segundo Spencer e Gillen [1899]:) `O hímen é perfurado 
artificialmente e, então, os homens da assistência têm acesso (cerimonial, bem entendido) à moça 
em ordem determinada.... O ato se realiza em duas partes, perfuração e relação sexual.\u201f 
(Ibid., 349.) `Uma preliminar importante do casamento entre os Masai (da África Equatorial) 
é a execução dessa operação na menina (J. Thomson, [1887], 2, 258). Esse defloramento é 
efetuado pelo pai da noiva entre os Sakais (Malásia), os Battas