Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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(Sumatra) e os Alfoers das Celebes 
(Ploss e Bartels, [1891], 2, 490). Nas Filipinas, havia determinados homens cuja profissão era 
deflorar noivas, caso o hímen não houvesse sido perfurado na infância por uma mulher idosa, às 
vezes contratada para esse fim (Featherman, [1885-91], 2, 474). O defloramento da noiva entre 
certas tribos Esquimós era confiado ao angekok, ou sacerdote (ibid, 3, 406). 
As observações críticas a que me referi dizem dizem respeito a dois pontos. Em primeiro 
lugar, é lamentável que nessas comunicações não se tenha estabelecido uma distinção mais 
cuidadosa entre a simples ruptura do hímen sem relação sexual, e a relação sexual com finalidade 
de efetuar a ruptura. Há apenas uma passagem que nos dá conta, expressamente, de que o 
procedimento se faz em dois atos: o defloramento (efetuado à mão ou por meio de algum 
instrumento) e o ato da relação sexual que se lhe segue. O material em Ploss e Bartels 91891), 
sob outros aspectos tão rico, é quase inútil para nosso propósito, porque em sua apresentação a 
importância psicológica do ato do defloramento é completamente deslocado em favor de suas 
conseqüências anatômicas. Em segundo lugar, gostaríamos de saber de que maneira o 
`cerimonial\u201f do coito (puramente formal, ritual ou oficial), que ocorre nessas ocasiões, difere da 
relação sexual comum. Os autores a que tive acesso, ou se sentiram muito acanhados para 
comentar o assunto, ou mais uma vez subestimaram a importância psicológica desses pormenores 
sexuais. Resta-nos esperar que os relatos de primeira mão de viajantes e missionários possam ser 
mais completos e menos ambíguos; visto que a literatura sobre esta matéria, em sua maior parte 
estrangeira, é, no momento, inacessível, nada posso afirmar de definitivo sobre o assunto. Além do 
mais, poderemos contornar o problema que surgiu em relação a este segundo ponto, se levarmos 
em conta o fato de que um cerimonial de coito simulado poderia afinal apenas representar o 
substituto, e, talvez, de modo geral, a recomposição de um ato que anos antes teria sido 
completamente levado a cabo. 
Vários fatores podem ser acrescentados para explicar esse tabu da virgindade, os quais 
enumerarei e considerarei brevemente. Quando uma virgem é deflorada, de maneira geral, sangra: 
a primeira tentativa de explicação baseia-se, pois, no horror ao sangue entre as raças primitivas 
que consideram sangue como a origem da vida. Observa-se esse tabu do sangue em numerosos 
tipos de práticas que nada têm que ver com a sexualidade; está claramente relacionado com a 
proibição de assassinar e constitui uma medida de proteção contra a primitiva sede de sangue, o 
prazer primevo do homem ao matar. De acordo com esta concepção, o tabu da virgindade se 
relaciona com o tabu da menstruação, que é quase universalmente conservado. Os povos 
primitivos não podem dissociar esse estranho fenômeno do fluxo mensal de sangue de idéias 
sádicas. A menstruação, especialmente, na primeira vez que aparece, é interpretada como a 
mordedura do espírito de um animal, talvez como um sinal de relação sexual com este espírito. 
Ocasionalmente, alguma informação fornece fundamentos para reconhecer o espírito como o de 
um antepassado e, então, apoiados em outras descobertas, chegamos à conclusão de que a 
menina que menstrua é tabu porque constitui propriedade desse espírito ancestral. 
Outras considerações, no entanto, advertem-nos a não superestimar a influência de um 
fator como o horror ao sangue. Afinal ele não foi assim tão forte para impedir práticas tais como a 
circuncisão de meninos e seu equivalente ainda mais cruel nas meninas (excisão do clitóris e dos 
pequenos lábios), que são, em certa extensão, costume nessas mesmas raças, nem para abolir a 
prevalência de outras cerimônias que envolvem derramamento de sangue. Portanto, também não 
seria surpreendente se este horror fosse sobrepujado em benefício do marido na ocasião da 
primeira coabitação. 
Há uma segunda explicação, que também não leva em conta a sexualidade, que tem, no 
entanto, alcance muito mais geral que a primeira. Sugere que o homem primitivo é vítima de 
perpétua apreensão secreta, tal como, na teoria psicanalítica das neuroses, afirmamos ser o caso 
das pessoas que sofrem de neurose de angústia. Esta apreensão se manifestará de forma mais 
intensa em todas as ocasiões que diferem de qualquer forma do habitual, que envolvam alguma 
coisa nova ou inesperada, algo não compreensível ou misterioso. É esta, também, a origem das 
práticas de cerimoniais, amplamente adotadas por religiões subseqüentes, relativas ao início de 
qualquer novo empreendimento, ao começo de cada novo período de tempo, aos primeiros frutos 
da vida humana, animal ou vegetal. Os perigos que o homem ansioso acredita que o ameaçam 
nunca parecem tão vívidos em sua expectativa como no limiar de uma situação perigosa e, 
também, é a única ocasião em que se proteger contra os mesmos produz alguma ajuda. O primeiro 
ato de relação sexual, no casamento, pode certamente requerer, em ordem de importância, ser 
precedido dessas medidas de precaução. Estas duas tentativas de explicação, baseadas no horror 
ao sangue e no medo dos primeiros acontecimentos, não se contradizem mas, ao contrário, se 
reforçam. A primeira ocasião de relação sexual é, certamente, um ato perigoso, sobretudo se 
implia fluxo de sangue. 
A terceira explicação - a que Crawley prefere - chama a atenção para o fato de que o tabu 
da virgindade é parte de uma grande soma que abrange a totalidade da vida sexual. Não é, 
apenas, o primeiro coito com uma mulher que constitui tabu e sim a relação sexual de um modo 
geral; quase se pode dizer que a mulher inteira é tabu. A mulher não é unicamente tabu em 
situações especiais decorrentes de sua vida sexual, tais como a menstruação, a gravidez o parto e 
o puerpério; além dessas situações, as relações sexuais com as mulheres estão sujeitas a 
restrições tão solenes e numerosas que temos muitas razões para duvidar da suposta liberdade 
sexual dos selvagens. É verdade que, em ocasiões especiais, a sexualidade do homem primitivo 
pode sobrepujar todas as inibições; mas, de maneira geral, parece ser mais fortemente dominada 
por proibições do que o é nas camadas mais altas da civilização. Sempre que o homem se lança 
em um empreendimento especial, como partir para uma expedição, para uma caça ou uma 
campanha, é obrigado a se afastar da mulher e, principalmente, da relação sexual com a mesma; 
pois, de outra forma, ela pode lhe paralisar a força e lhe trazer má sorte. Nos costumes da vida 
diária, há, igualmente, uma tendência inequívoca para manter os sexos separados. As mulheres 
vivem com mulheres, os homens, com homens; a vida de família, como a entendemos, parece 
quase não existir em muitas tribos primitivas. Esta separação vai às vezes tão longe que não se 
permite a um sexo pronunciar em voz alta os nomes próprios dos membros do outro sexo e as 
mulheres criam uma linguagem com um vocabulário especial. As necessidades sexuais podem, de 
tempos a tempos, derrubar novamente essas barreiras de separação mas, em algumas tribos, 
mesmo os encontros entre marido e mulher têm de se realizar fora de casa e às escondidas. 
Toda vez que o homem primitivo tem de estabelecer um tabu, ele teme algum perigo e não 
se pode contestar que um receio generalizado das mulheres se expressa em todas essas regras 
de evitação. Talvez este receio se baseie no fato de que a mulher é diferente do homem, 
eternamente incompreensível e misteriosa, estranha, e, portanto, aparentemente hostil. O homem 
teme ser enfraquecido pela mulher, contaminado por sua feminilidade e, então, mostra-se ele 
próprio incapaz. O efeito que tem o coito de descarregar tensões e causar flacidez pode