Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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ser o 
protótipo do que o homem teme; e a representação da influência que a mulher adquire sobre ele 
através do ato sexual, a consideração que ela em decorrência do mesmo lhe exige pode justificar a 
ampliação desse medo. Em tudo isso, não há nada obsoleto, nada que não permaneça ainda vivo 
em nós mesmos. 
Muitos estudiosos das raças primitivas, que ainda vivem hoje, formularam a teoria de que 
seus impulsos no amor são relativamente fracos e nunca atingem o grau de intensidade que 
estamos acostumados a encontrar nos homens civilizados. Outros observadores contestaram esta 
opinião, mas, de qualquer modo, a prática de tabus, que descrevemos, testemunha a existência de 
uma força que se opõe ao amor pela rejeição de mulheres por serem estranhas e hostis. 
Crawley, numa linguagem que difere apenas ligeiramente da terminologia habitual da 
psicanálise, afirma que cada indivíduo é separado dos demais por um `tabu de isolamento pessoal\u201f 
e que constitui precisamente as pequenas diferenças em pessoas que, quanto ao resto, são 
semelhantes, que formam a base dos sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles. Seria 
tentador desenvolver essa idéia e derivar desse `narcisismo das pequenas diferenças\u201f a 
hostilidade que em cada relação humana observamos lutar vitoriosamente contra os sentimentos 
de companheirismo e sobrepujar o mandamento de que todos os homens devem amar ao seu 
próximo. A psicanálise acredita que descobriu grande parte do que fundamenta a rejeição narcísica 
das mulheres pelos homens, a qual está tão entremeada com o desprezo por elas, ao chamar a 
atenção para o complexo da castração e sua influência sobre a opinião em que são tidas as 
mulheres. 
Podemos ver, no entanto, que estas últimas considerações nos levaram a pesquisar muito 
além do nosso tema. O tabu geral das mulheres não deita nenhuma luz sobre as regras especiais 
em relação ao primeiro ato sexual com a virgem. No que lhes diz respeito, não fomos além das 
duas primeiras explicações, baseadas no horror ao sangue e no medo das primeiras ocorrências e, 
mesmo estas, devemos assinalar, não vão ao âmago do tabu em questão. É perfeitamente claro 
que a intenção que motiva este tabu é negar ou repudiar precisamente o futuro marido, o que não 
pode ser dissociado do primeiro ato sexual, muito embora, de acordo com nossas observações 
preliminares, exatamente essa relação levaria a mulher a se tornar especialmente ligada a esse 
único homem. 
Não nos cabe nesta oportunidade examinar a origem e a significação definitiva das 
observâncias de tabus. Fi-lo em meu livro Totem and Taboo (Totem e Tabu) [1912-13], em que 
dediquei a devida consideração ao papel desempenhado pela ambivalência primitiva na 
determinação da formação de tabus e em que delineei a gênese dos mesmos nos acontecimentos 
pré-históricos que levaram à fundação da família humana. Já não podemos mais reconhecer uma 
significação original desta espécie nos tabus observados entre tribos primitivas de nossos dias. 
Esquecemos tudo muito facilmente, na expectativa de encontrar alguma coisa que, mesmo os 
povos mais primitivos existentes em uma cultura muito distante daquela dos tempos primevos, a 
qual é tão velha quanto a nossa própria cultura, do ponto de vista do tempo e, como a nossa, 
corresponde a um estágio de desenvolvimento posterior, embora diferente. 
Hoje, encontramos, entre os povos primitivos, tabus já elaborados em um sistema 
complicado exatamente da mesma espécie dos que os neuróticos de nosso meio desenvolvem 
com suas fobias e observamos velhos temas substituídos por novos que se adaptam uns aos 
outros de forma harmoniosa. Deixando de lado esses problemas genéticos, então, podemos voltar 
ao conceito de que o homem primitivo institui um tabu quando teme algum perigo. De modo geral, 
esse perigo é de natureza física, pois o homem primitivo, a essa altura, não é impelido a 
estabelecer duas distinções que, para nós, não podem ser ignoradas. Ele não separa o perigo 
material do psíquico, nem o real do imaginário. Em sua concepção animista do universo 
consistentemente aplicada, todo perigo decorre da intenção hostil de algum ser dotado de alma 
como ele próprio, e isto se aplica tanto aos perigos que o ameaçam, procedentes de alguma força 
natural, como aos perigos procedentes de outros seres humanos ou animais. Mas, por outro lado, 
ele está acostumado a projetar seus próprios impulsos internos de hostilidade no mundo exterior, 
isto é, a atribuí-los aos objetos que sente como desagradáveis ou mesmo, meramente, estranhos. 
Desta maneira, as mulheres também são consideradas como sendo desses perigos, e o primeiro 
ato sexual com a mulher destaca-se como um perigo de especial intensidade. 
Eu, por exemplo, acredito que encontraremos alguma indicação sobre o que é esse perigo 
intensificado e por que ele ameaça, precisamente, o futuro marido, se examinarmos mais 
detidamente o comportamento, nas mesmas circunstância, de mulheres de nosso próprio estágio 
atual de civilização. Submeter-me-ei antecipadamente como resultado desse exame, que tal perigo 
realmente existe, de modo que, no caso do tabu da virgindade, o homem primitivo está se 
defendendo de um perigo corretamente pressentido, apesar de psíquico. 
Consideramos como reação normal que a mulher, em subseqüência à introdução do pênis, 
abrace o homem, apertando-o contra ela no auge da satisfação, e observamos essa atitude como 
expressão de sua gratidão e prova de sujeição duradoura. Mas sabemos que não é regra, de 
maneira alguma, que a primeira ocasião do ato sexual conduza a esse comportamento; muito 
freqüentemente significa apenas desapontamento para mulher, que permanece fria e insatisfeita e, 
geralmente, requer bastante tempo e freqüente repetição do ato sexual, antes que também 
comece a encontrar satisfação no mesmo. Há uma sucessão ininterrupta dos casos de simples 
frigidez inicial que logo desaparece, até a triste manifestação de permanente e obstinada frigidez 
que nenhum esforço carinhoso da parte do marido pode vencer. Acredito que essa frigidez nas 
mulheres ainda não é suficientemente compreendida e, exceto para aqueles casos que devem ser 
atribuídos à potência insuficiente do homem, clama por elucidação, possivelmente através de 
fenômenos coligados. 
Não quero introduzir, a esta altura, as tentativas - que são freqüentes - de fugir da primeira 
ocasião de relação sexual, porque estão abertas a diversas interpretações e são, na maioria das 
vezes, conquanto nem sempre, compreendidas como expressão da tendência geral feminina a 
tomar uma atitude defensiva. Em oposição a este conceito, acredito que se pode esclarecer o 
enigma da frigidez da mulher por determinados casos patológicos nos quais, depois da primeira, e 
por certo, depois de cada experiência repetida de relação sexual, a mulher dá expressão manifesta 
de sua hostilidade para com o homem, injuriando-o, levantando a mão contra ele ou, realmente, 
batendo-lhe. Em um caso muito evidente deste tipo, o qual logrei submeter a uma análise 
completa, isto aconteceu, embora a mulher amasse muito o homem, costumasse exigir relações 
sexuais com ele e, inequivocamente, encontrasse nas mesmas grandes satisfação. Penso que 
esta reação, estranha e contraditória, é conseqüência dos mesmos impulsos que, comumente, só 
podem encontrar expressão na forma de frigidez - isto é, que podem deter a reação de ternura 
sem, ao mesmo tempo, lograrem eles próprios se colocar em ação. No caso patológico, 
encontramos separados, por assim dizer, em seus dois componentes, o que no exemplo bastante 
comum de frigidez se une para produzir um efeito inibidor, tal qual o processo que há muito 
reconhecemos nos chamados `sintomas bifásicos\u201f da neurose obsessiva. O perigo que assim