Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos  - VOLUME XI
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Sigmund Freud -Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos - VOLUME XI


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de obter a compreensão (insight) através de um 
sonho de uma mulher recém-casada, em que era reconhecível a reação à perda de sua virgindade. 
Delatava, espontâneamente, o desejo da mulher de castrar seu jovem marido e guardar o pênis 
dele para ela. Evidentemente, também havia lugar para uma interpretação mais inocente de que o 
que ela desejava era o prolongamento e a repetição do ato, mas vários pormenores do sonho não 
se enquadradavam nesse significado e, tanto o caráter como o comportamento subseqüente da 
mulher que teve o sonho evidenciaram em favor do aspecto mais grave. Por trás dessa inveja do 
pênis, manifesta-se a amarga hostilidade da mulher contra o homem, que nunca desaparece 
completamente nas relações entre os sexos e que está claramente indicada nas lutas e na 
produção literária das mulheres `emancipadas\u201f. Em uma especulação paleobiológica, Ferenczi 
atribuiu a origem dessa hostilidade das mulheres - não sei se foi ele o primeiro a fazê-lo - à época 
em que os sexos se tornavam diferenciados. A princípio, em sua opinião, a cópula realizou-se 
entre dois indivíduos semelhantes, um dos quais, no entanto, transformou-se no mais forte e forçou 
o mais fraco a se submeter à união sexual. Os sentimentos de amargura decorrentes dessa 
sujeição ainda persis-tem na disposição das mulheres hoje em dia. Não creio que haja qualquer 
inconveniente em utilizar essa especulações desde que não se empreste a elas demasiado valor. 
Depois desta enumeração dos motivos da reação paradoxal das mulheres ao 
defloramento, cujos traços ainda persistem na frigidez, podemos resumir dizendo que a 
sexualidade imatura de uma mulher descarrega-se no homem que primeiro lhe faz conhecer o ato 
sexual. Assim sendo, o tabu da virgindade é bastante razoável e podemos compreender a regra 
que decreta que exatamente o homem que deve ingressar numa vida em comum com essa mulher 
evite esse perigos. Nos estágios mais altos da civilização, a importância atribuída a esse perigo 
diminui em face de sua promessa de sujeição e, sem dúvida, de outros motivos e persuasões; a 
virgindade é considerada uma propriedade a que o marido não é solicitado a renunciar. Mas, a 
análise de casamento infelizes nos ensina que os motivos que procuram levar a mulher a se vingar 
do seu defloramento não estão completamente extintos, mesmo na vida psíquica das mulheres 
civilizadas. Creio que deve chamar a atenção do observador o número extraordinariamente 
elevado de casos em que a mulher permanece frígida e se sente infeliz em um primeiro 
casamento, ao passo que, depois que este se dissolveu, ela se torna uma esposa meiga, capaz de 
fazer feliz o seu segundo marido. A reação arcaica esgotou-se, por assim dizer, no primeiro objeto. 
O tabu da virgindade, no entanto, mesmo independentemente disto, não desapareceu em 
nossa existência civilizada. É conhecido da crença popular e oportunamente os escritores têm-se 
utilizado desse material. Uma comédia da autoria de Anzengruber mostra como um simples 
camponês é dissuadido de casar com sua noiva pretendida porque ela é `uma rapariga que lhe 
cobrará primeiro a vida\u201f. Por esse motivo, ele concorda em que ela case com outro homem e está 
disposto a aceitá-la quando ficar viúva e não for mais perigosa. O título da peça, Das Jungferngift 
[`O Veneno da Virgem\u201f], traz-nos à lembrança o hábito dos encantadores de serpentes que, 
primeiro, fazem as cobras venenosas morderem um pedaço de pano a fim de, depois, lidarem com 
elas sem perigo. 
 
O tabu da virgindade, e alguma coisa sobre sua motivação, foi representado, da maneira 
mais vigorosa, por uma conhecida caracterização dramática, a de Judite, na tragédia de Hebbel, 
Judith und Holofernes (Judite e Holofernes), Judite é uma dessas mulheres cuja virgindade é 
protegida por um tabu. Seu primeiro marido foi paralisado na noite nupcial por uma misteriosa 
ansiedade e nunca mais ousou tocá-la. `Minha beleza é como a beladona\u201f, diz ela `Seu deleite traz 
a loucura e a morte.\u201f Quando o general assírio está cercando sua cidade, ela concebe o plano de 
seduzi-lo com sua beleza e de destruí-lo, usando assim um motivo patriótico, para esconder outro, 
sexual. Depois de haver sido deflorada por esse homem poderoso, que se gaba de seu vigor e de 
sua insensibilidade, ela encontra forças em sua fúria para lhe cortar a cabeça, tornando-se assim a 
libertadora de seu povo. A decapitação é nossa conhecida como símbolo substituto da castração; 
Judite é, assim, a mulher que castra o homem que a deflorou, o que constitui justamente o desejo 
da mulher recém-casada, expresso no sonho que comuniquei. É claro que Hebbel sexualizou 
intencionalmente a narrativa patriótica do Apócrifo do Velho Testamento, pois, nela, Judite pode se 
gabar, depois ao voltar, que não foi violada, e nem existe no texto bíblico qualquer menção de sua 
misteriosa noite nupcial. Mas, provavelmente, com a fina percepção de poeta, ele percebeu o velho 
motivo, que se havia perdido na narrativa tendenciosa, e apenas restituiu seu primitivo conteúdo ao 
material. 
Sadger (1912) demonstrou, em uma análise penetrante, como Hebbel foi influenciado em 
sua escolha do material por seu próprio complexo paterno, e como chegou a tomar a defesa da 
mulher tão freqüentemente, na luta entre os sexos, e a sentir seu caminho nos impulsos mais 
ocultos de sua mente. Ele também transcreve os motivos que o próprio poeta dá para as 
alterações que fez no material, e corretamente considera-as artificiais e como se pretendessem 
justificar exteriormente algo de que o poeta, ele próprio, não tem consciência, ao passo que no 
fundo o esconde. Não pretendo contestar a explicação que Sadger dá ao fato de Judite, que 
segundo a narrativa da Bíblia é uma viúva, ter de se transformar em uma viúva virgem. Ele se 
refere à finalidade encontrada nas fantasias infantis de negar as relações sexuais dos pais e de 
transformar a mãe em uma virgem ilesa. Mas eu acrescento: depois que o poeta provou a 
virgindade de sua heroína, sua sensível imaginação frisa-se na reação hostil desencadeada pela 
violação de sua virgindade. 
Podemos então dizer, em conclusão, que o defloramento não tem apenas a única e 
civilizada conseqüência de amarrar a mulher permanentemente ao homem; desencadeia, também, 
a reação arcaica de hostilidade para com ele, que pode assumir formas patológicas, bastante 
freqüentemente expressas no aparecimento de inibições no lado erótico da vida marital, e às quais 
poderemos atribuir o fato de que segundos casamentos tantas vezes dêem mais certo que o 
primeiro. O tabu da virgindade, que nos parece tão estranho, o horror com que, entre os povos 
primitivos, o marido evita o ato do defloramento, são plenamente justificados por essa reação 
hostil. 
É interessante que, em nossa condição de analista, possamos encontrar mulheres em 
quem as reações opostas de sujeição e hostilidade encontrem, ambas, expressão e permaneçam 
intimamente associadas entre si. Há mulheres dessa espécie que parecem ter-se desavindo 
completamente com seus maridos e que mesmo assim só podem fazer esforços vãos para se 
libertar. Tantas vezes quantas queiram endereçar seu amor a qualquer homem, a imagem do 
primeiro, conquanto não seja mais amado, intervém com efeito inibitório. A análise, portanto, nos 
ensina que essas mulheres, de fato, ainda se sentem ligadas a seus primeiros maridos em estado 
de sujeição, mas não mais por afeição. Não se podem afastar deles, porque ainda não 
completaram sua vingança contra eles e, em casos mais acentuados, nem mesmo trouxeram os 
impulsos de vingança para a consciência. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A CONCEPÇÃO PSICANALÍTICA DA PERTURBAÇÃO PSICOGÊNICA DA