Prévia do material em texto
@LSTUDYMED 1 Letícia Cavalcante - UFDPar Aula 9 | Doenças cerebrovasculares Doencas cerebrais e INTRODUÇÃO • A doença cerebrovascular não é uma doença única e sim envolve várias doenças que resultam na oclusão vascular das artérias ou que predispõem às hemorragias cerebrais • É um déficit neurológico súbito causado tanto por isque- mia (80%) quanto por hemorragia (20%) CLASSIFICAÇÃO • AVC Isquêmico (83%): ateroembolico (maioria – peque- nos e grandes vasos), embólico • AVC hemorrágico (17%): intraparenquimatosa (maioria), subaracnóidea EPIDEMIOLOGIA • É a doença neurológica de maior prevalência • Tem alto custo individual e social (7-8% permanecem in- válidos) • 31 causa de morte em países desenvolvidos e a 1ª de in- capacidade em todo o mundo • No Brasil, é a principal causa de morte em pessoas com mais de 40 anos • A cada 5 segundos, 1 pessoa sofre AVC no mundo; e a cada 2 minutos, 1 pessoa é acometida no Brasil • Das pessoas acometidas, cerca de 20-30% sofrem perda gradual da cognição e atingem a demência em 1 ano • 85% são isquêmicos e 15% são hemorrágicos AVC ISQUÊMICO CONCEITO/CLASSIFICAÇÃO • Acidente vascular cerebral isquêmico é a interrupção do suprimento de sangue em uma área do cérebro • Divide-se em: • Trombótico: são prenunciados, em 50 a 60% dos pacien- tes, por sintomas transitórios, por AlT ou por AVC minimo que leva a um episódio mais devastador • Embólico: costumam ocorrer de forma repentina, po- dendo também apresentar-se com sintomas flutuantes e incertos ACIDENTE ISQUÊMICO TRANSITÓRIO (AIT) • É um déficit neurológico focal, de etiologia isquêmica, com regressão completa em 1 hora, apenas 14% regride em 24 horas • São frequentemente múltiplos AIT de baixo fluxo em grande vaso • Geralmente breve (minutos a algumas horas), estereoti- pado e redicivante • Associado à lesão aterosclerótica da artéria carótida In- terna • Outros locais: tronco da artéria cerebral média ou junção das artérias vertebral e basilar AIT embólico • É mais prolongado (horas), bem definido, único e sinto- mas neurológicos focais • Os êmbolos são originados de artérias extracranianas ou do coração AIT lacunar ou de vasos perfurantes • Causado por HAS ou ateromatose de vasos perfurantes oriundos do tronco das artérias cerebral média, Observação: o horário mais comum para ter AVC é de ma- nhã FISIOPATOLOGIA • Diminuição do fluxo sanguineo cerebral • Diminuição da oferta de oxigénio e glicose • Diminuição do pH intracelular • Alteração da bomba Na+/Ca2+ (aumento Ca2+ Intrace- lular) • Radicais livres, quebra de barreira, resposta inflamatória → edema cerebral • Área de penumbra • A relação entre tempo de isquemia/déficit permanente é de 6hs → por isso tem deve-se agir antes das 6h de is- quemia @LSTUDYMED 2 Letícia Cavalcante - UFDPar Aula 9 | Doenças cerebrovasculares Observação: estruturas que aparecem brancas na TC ce- rebral → osso, sangue, calcificação (fisiológicas ou patoló- gicas), metal (bala de arma de fogo, aparelho de metal), cisticercose Figura. AVC isquêmico: paciente hemiplégico do lado esquerdo FATORES DE RISCO Modificáveis • HAS • Diabetes • Tabagismo • Dislipidemia • Obesidade • Sedentarismo • Aterosclerose de artéria carótida • Anticoncepcionais orais • Aritmias Não modificáveis • Idade • Sexo • Raça o História familiar • Fatores genéticos específicos LOCALIZAÇÃO DA LESÃO E QUADRO CLÍNICO Localização da lesão Quadro clínico Artéria cerebral anterior Irriga a porção medial do lobo fron- tal e estruturas profundas Fraqueza do membro inferior contralateral Artéria cerebral média Irriga a porção lateral dos hemisfé- rios Hemiparesia, hemi-hipoestesia e hemianopsia homônima contra- laterais, desvio conjugado do olhar, afasia e outros sintomas corticais Artéria cerebral posterior Irriga a porção mesial do lobo tem- poral, lobo occipital e porções do tálamo Perda visual contralateral, hemi- paresia contralateral e altera- ções comportamentais Artéria vertebral Origina as artérias medular anterior e cerebelar póstero-inferior (esta ir- riga a porção inferior do cerebelo e bulbo lateral) Artéria basilar Origina as aa. cerebelares antero- inferior e superior (irrigam parte da ponte e cerebelo) Síndromes alternas entre sensibi- lidade da face e sinais motores no corpo, diplopia, paralisia fa- cial, vertigem, náusea, perda au- ditiva, ataxia, alteração da mar- cha, disfagia e disartria • Atenção: sintomas bulbares (significa que atingiu os ner- vos cranianos) → Tontura, voz anasalada DIAGNÓSTICO (1) Anamnese • Fatores de risco • História prévia de AIT • Curso temporal do déficit • Sintomas acompanhantes (2) Exame físico geral e neurológico (3) Exames de Imagem • TC de crânio (exame de escolha) • RM cerebral • Angiografia • Ultra sonografia carotídea (4) Exame liquórico (5) Exames laboratoriais • Hemograma, TP, TTP • Perfil lipídico • Nivel de homocisteina • Anticorpo anticardiolipina • Anticoagulante lúpico • Anticorpos antinucleares • Fator V de Leiden • Proteínas CeS • Anti-trombina III • HIV • Lactato (nas doenças mitocondriais) DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL • AVCH • Trauma crânio cervical • Meningite/encefalite • Encefalopatia hipertensiva • Processo expansivo (tumor, abscesso) • Crises convulsivas com paralisia persistente (paralisia de Todd) • Migrânea com sinais neurológicos persistentes • Anormalidades metabólicas - Hiperglicemia/coma hiperosmolar - Hipoglicemia - Encefalopatia anóxica pós-parada cardiaca - Abuso de drogas - Doença desmielinizante: esclerose multipla e encefalomi- elite difusa aguda TRATAMENTO NA FASE AGUDA Tratamento de suporte • Vias aéreas e respiração (Glasgow 130 mmHg c/ou PAS > 200mmHg e/ou PAD > 120mmHg • Emergências hipertensivas: Edema agudo de pulmão, ICC, Isquemia miocárdica, dissecção aórtica, encefalo- patia hipertensiva, eclâmpsia Drogas específicas • Trombolíticos (ativador do plasminogênio tecidual re- combinante - rtPA) • Antitrombóticos (anti-agregantes e anticoagulantes) Trombolitico EV (rtPA) Recomendado para pacientes com até 3 horas do início dos sintomas Anti-agregante pla- quetário (AAS) Não deve ser usado em: Candidatos à trombólise (não pode fa- zer os dois pelo risco de hemorragia) Quem usa anticoagulantes Anticoagulação (Meparina) Não é recomendada para uso rotineiro TROMBOLÍTICO (rtPA) • Ativador do plasminogênio tecidual recombiante (RTPA) • Melhora a evolução dos pacientes • Aumenta a chance de ter capacidade funcional sufici- ente para retornar retomar as atividades prévias (30%) • É indicado para pacientes com menos de 3h de instala- ção dos sintomas (janela terapêutica curta) = necessi- dade de avaliação rápida e eficiente • Observação: quanto mais aumenta o tempo para aplicar o trombolítico, mais aumenta o risco de hemorragia Contra-indicações para trombólise • Inicio > 3 horas ou o paciente não foi visto normal nas úl- timas 3 horas • Déficit melhora rapidamente sugerindo AIT • Sintomas sugestivos de hemorragia subaracnóide - HSA (cefaleia intensa e súbita, rigidez de nuca e alteração de consciência, mesmo com CT normal)• História de hemorragia Intracraniana, aneurisma ou MAV cerebral • Uso de anticoagulantes com TP>15s ou de heparina nas últimas 48 h • HAS (PAS >185 ou PAD >110mmHa) • Glicemia 85 anos (avaliar risco/beneficio) • Pacientes muito graves (NIHSS>22) ou com déficit neuro- lógico muito discreto (NIHSS100kg, a dose é de 90 mg) • Não deve ser feito após essa fase pois: não é mais efici- ente e haverá reperfusão de um tecido necrótico, trans- formando-o em AVCH PROTOCOLO PARA USO DE RTPA (1) Chegada do paciente ao balcão de triagem Tempo de 5 minutos: (2) Triagem suspeita de doenças cerebrovascular e comu- nica ao médico (3) Transportado para sula de atendimento a paciente agudos (4) Serviço de radiologia é comunicado sobre a necessi- dade de TC de urgência Tempo de 15 minutos: Na sala de emergência: (5) Manter boa via aérea, respiração e circulação (6) A enfermagem deve garantir 2 acessos EV (infusão de líquidos e coleta de material para exames) (7) Médico termina o exame e preenche a escala do NIH para AVE Tempo de 30 minutos: Na sala de emergência: (8) Homoglicoteste e ECG são realizados (9) O médico obtém a historia e quando niciaram os sinto- mas com o paciente a família (10) O médico deve obter o consentimento informado com o paciente e a família (11) Caso o paciente seja candidato ao rt-PA EV, diminuição lenta da PA pede ser iniciada se necessário Tempo de 45 minutos: Serviço de radiologia (12) TC é examinada pelo neurologista e/ou radiologista procurando hemorragia intracraniana ou massas ou hipo- densidades maiores que ½ da área irrigada pela cerebral média (13) Hemograma e plaquetas já devem estar disponíveis (14) O médico completa o exame do paciente (incluindo a escala de NIH para AVE), e completa o check-list dos crité- rios de inclusão ou exclusão para o rt-PA EV (15) O médico completa o processo de consentimento com o paciente e a família →No serviço de radiologia (16) Se a TC demonstra a existência de hemorragia suba- racnoidea ou intraparenquimatosa, o paciente não deve receber rt-PA (17) Determinar se as plaquetas, TP e TTP são normais (18) Consultar neurocirurgião visando a clipagem de aneu- risma ou drenagem de hematoma nas hemorragias intra- cerebrais (19) Observar o paciente para detectar precocemente hi- drocefalia ou aumento da pressão intracraniana →No serviço de radiologia (20) Se o paciente não preenche todos os critérios para in- clusão no tratamento com rt-PA, não utilizar esta medica- ção (21) Se a TC não mostra hemorragia iniciar aspirina ou clopidogrel e procurar a etiologia do AVEi Tempo de 50 minutos: Na sala de emergência (22) rt-PA EV na dose de 0.9 mg/ke (máximo 90 mg) 10% é administrado em bolo em 1 minuto e o resto em infusão EV gota a gota em 1 hora Tempo de 60 minutos: (23) Manter o paciente em observação da PA, do exame neurológico (Escala de AVE do NIH é usada criteriosa- mente) (24) Restante dos exames laboratoriais são examinados (25) Médicos e enfermagem registram suas observações, incluindo o consentimento verbal →Se hemorragia intracraniana é suspeitada em paciente recebendo rt-PA (nova cefaleia, HAS aguda ou vômitos) 1 - parar a infusão de rt-PA 2 - TC de crânio sem contraste 3 - solicitar TP, TTP, plaquetas, fibrinogênio e tipo sanguíneo 4 - preparar para administração de EV de crioprecipitado com fator ViII e fibrinogênio (6 a 8 unidades) 5 - preparar também plaquetas para infusão (6 a 8 unida- des) →Se a TC confirma hemorragia intracraniana 1 - obter resultados dos exames de coagulação e fibrino- gênio 2 - considerar a transfusão de crioprecipitado, fibrinogênio e/ou plaquetas 3 - considerar consultoria com a hematologia e neuroci- rurgia Tempo de 75 minutos Na CTI (26) Monitoramento hemodinâmico contínuo e aplicação frequente da escala de AVE da NIH (27) Paciente é submetido a exames para determinar o tratamento adequado para prevenção secundária do AVEi ANTI-TROMBÓTICOS Anti-agregantes • AAS, ticlopidina, clopidogrel, dipiridamol • Beneficio discreto, mas significativo com seu uso iniciado nas primeiras 48h (estudos randomizados) @LSTUDYMED 5 Letícia Cavalcante - UFDPar Aula 9 | Doenças cerebrovasculares • Deve ser prescrito o mais breve possível, exceto se o pa- ciente for candidato à trombólise e não estejam usando anticoagulantes. Assim como também se tiver alteração de força encaminhar para fisioterapia e déficit de fala para fonoaudióloga Anticoagulantes (heparina) • A anticoagulação plena com heparina na fase aguda é controversa • Pode aumentar o risco de transformação hemorrágica sintomática • E útil na aterosclerose dos grandes vasos cranianos e embolia cardiogénica • Heparina subcutânea em baixas doses (5.000 UI 2x/dia) → é segura na fase aguda do AVCI; reduz eventos trom- boembolíticos; previne a embolia pulmonar em pacien- tes imobilizados Comparação das drogas anti-agregantes plaquetárias Antiagregantes plaquetários Redução do risco relativo Efeitos colaterais maiores Aspirina Droga de referencia Gastrite e ulcera péptica Ticlopidina 2% Diarreia, rash, neuropenia Clopidogrel 7,3% Rash, diarreia, purpura trombo- citopenica Dipiridamol + aspirina 23% Cefalia COMPLICAÇÕES NA FASE AGUDA • Edema e hipertensão intracraniana:Principal causa de morte na 11 semana (pico no 39 e 5% dia) • Crises epilépticas: 90% ocorrem no 19 dia • Transformação hemorrágica: Apresenta letalidade de 50% nos AVCIs extensos; O uso de anticoagulantes e trombolíticos aumentam a chance de transformação hemorrágica sintomática • Outras complicações: Pneumonia aspirativa, disfagia, trombose venosa profunda, depressão FATORES DE MAU PROGNÓSTICO • Idade > 60 anos • Desvio das estruturas da linha média > 10 mm • Escala de Coma de Glasgow 30 ml de hemorragia • Conservador: pouco sangue, até 30 ml de hemorragia Figura. Primeira imagem: grande volume, tratamento cirúrgico; Segunda imagem: pequeno volume, tratamento conservador Tratamento cirúrgico (1) Objetivos • Exclusão do aneurisma • Prevenção das complicações, como ressangramento e vasoespasmo (2) Critérios • Volume do hematoma • Localização do hematoma • Presença de sangue nos ventrículos • Quadro clínico do paciente (3) Clipagem do aneurisma CONCLUSÕES • AVCH não pode ser diferenciado de AVCI somente por critérios clínicos • Frequentemente, há deterioração nas 24 a 48 horas após a hemorragia • Hemorragia intraventricular é uma complicação temida do hematoma intracerebral REFERÊNCIAS Rodrigues MM, Bertolucci PHF. Neurologia para o clínico ge- ral. 1 Edição. Editora Manole, 2014.