A Existência Para Além do Sujeito - Feijoo
92 pág.

A Existência Para Além do Sujeito - Feijoo


DisciplinaPsicologia Fenomenologica e Existencial89 materiais777 seguidores
Pré-visualização21 páginas
- E há alguma mudança na estrutura de família, mudança
de casa, de escola. Enfim, algo que chame a atenção de vocês?
A mãe olha para o pai, parecendo estabelecer certa cumpli-
cidade e aguarda. Parecia esperar que ele falasse alguma coisa e
o pai se pronuncia:
- Acho que não, que eu me lembre nada se modificou. Mu-
damos de casa, mas já faz algum tempo, morávamos em uma casa
maior e fomos para um apartamento e a avó materna foi morar
junto no apartamento, mas isso já tem quase dois anos.
Nesse trecho, aparece a atmosfera familiar do afanar, fazer
com que as coisas desapareçam. Aqui aparecem indícios não ver-
bais de que há coisas que não devem aparecer, não devem ser ditas
ao psicólogo. Mãe e pai apresentam uma cumplicidade com rela-
ção ao que deve e não deve ser dito. Mas interpretar o que o gesto
quer dizer é fenomenológico? A fenomenologia não ignora o fato
de que os olhares, como atos de olhar, têm uma direcionalidade.
Quanto à interpretação dos gestos, Husser! (1970) diz que esta de-
pende da inserção do sentido e, assim sendo, não é fenomenológi-
ca. Heidegger coloca-se de outro modo e diz que o gesto é decisivo
para indicar o comportamento que devemos acompanhar.
a analista volta-se para a mãe e pergunta:
- E você, Lea, se lembra de alguma coisa?
Lea responde:
- Antes disto acontecer, de percebermos que estava aconte-
cendo? As notas de Antônio vinham baixando, acho que ele já es-
tava pedindo ajuda, sempre que o seu rendimento cai, percebo aí
um pedido de ajuda.
Novamente, a mãe passa a interpretação de que aquilo que
a criança faz tem outra intenção. Era preciso sair desse tipo de
interpretação, pois, dessa forma, nunca alcançaríamos o que re-
almente está em questão.
a analista, ao perceber indícios de segredos familiares,
respeita a situação, não insiste e vai investigar as outras rela-
ções de Antônio:
116
- E o irmão, como é o relacionamento deles?Agora, o pai as-
sume a dianteira:
- Muito bom, João é uma criança muito dócil. Eles são muito
carinhosos um com o outro, brincam muito, um não tem ciúmes
do outro. Como a idade é próxima, eles são muito amiguinhos.
Agora, João não dá problemas, as notas na escola são sempre boas,
ele é muito inteligente. (A mãe permanece em silêncio).
a analista, então, resolve abrir um espaço para que Lea
se pronuncie:
- E você, Lea, tem algo a acrescentar?
- Não, é tudo isso que ele falou. Só acho que você tem que
prestar mais atenção ao que você fala. Se Antônio ouve o que você
falou, ele vai se sentir diminuído.
O pai responde:
- Só porque estou falando a verdade. É melhor mentir?
A mãe retruca:
- Só estou dizendo para você prestar mais atenção ao que
você está falando.
Ao terminarmos a sessão, perguntei-lhes se Antônio sabia
que eles estavam vindo à entrevista, que essa se destinava a um
acompanhamento psicológico com ele. Eles responderam que
ainda não haviam comunicado, pois estavam esperando ver o
encaminhamento que seria dado pelo psicólogo. Já começando
a psicoterapia propriamente dita, o psicoterapeuta deu início ao
rompimento da atmosfera do segredo, do esconder coisas. Orien-
tei-os a contar ao menino sobre a entrevista, sobre o porquê de
eles pedirem ajuda ao psicólogo e o que vinha preocupando-os
no comportamento dele. Eles concordaram e marcamos o en-
contro com Antônio três dias depois.
Em uma postura antinatural, o analista suspende o "diag-
nóstico" dado pela mãe e pelo médico e volta-se para o fenô-
meno em sua mobilidade estrutural. Neste momento, importa o
sentido que Antônio dá à sua experiência. A postura fenomeno-
lógica implica deslocar-se das interpretações comum ente atribu-
117
idas, asswnindo uma atitude antinatural com relação à questão
que se apresenta. Ou seja, tomando o modo de ser da criança em
sua expressão singular, tem início a atuação clínica. Para tanto,
é preciso que a visada sobre o fenômeno que se apresenta não se
dê a partir de nenhum pressuposto em tese acerca do que pos-
sa ser uma "compulsão a afanar coisas". A atenção do psicólogo
volta-se para a criança em seu modo próprio de comportar-se
e deixando que ela se mostre por si mesma. E isto consiste em
deixá-Ia livre para si mesma, para assim poder assumir a sua li-
berdade e responsabilidade.
A criança, ao se apresentar ao analista, deve ser recebida a
partir daquilo que vai acontecer na relação nesse momento es-
tabelecida. Para tanto, o analista deverá assumir uma atitude fe-
nomenológíca, e, assim .suspender todo e qualquer pressuposto
que anteriormente se fez presente, inclusive no relato dos pais.
Para exemplificar este modo de proceder clinicamente, apresen-
taremos um trecho desse atendimento:
Antônio compareceu à sessão, acompanhado do pai. Estava
muito bem arrumado. O pai me apresentou a ele. O menino sor-
riu e prontamente dirigiu-se à sala, mostrando certo entusiasmo.
A fim de saber se os pais haviam seguido sua orientação, o ana-
lista iniciou com a seguinte pergunta:
- Teuspais te disseram o porquê de você vir à psicóloga?
Antônio consentiu com um gesto e disse:
- Eu sei por que estou aqui, mas tenho medo, vergonha de
dizer. Eu também rôo unha, às vezes, mas nem sei por quê.
Após um silêncio prolongado, retoma:
- Também gosto de contar algumas mentirinhas. Mas lá em
casa todo mundo gosta de contar algumas mentirinhas. Às vezes,
meu pai pede para eu contar, às vezes minha mãe pede para eu
contar, só minha avó é que não pede. Meu pai pediu para eu men-
tir para o guarda e dizer que eu tinha 12 anos, para que ele não
multasse meu pai porque eu estava no banco dafrente. Minha mãe
fez a mesma coisa para eu entrar no hospital para ver meu primo.
118
Todos contam mentirinhas. Na escola, meu amigo Carlos faz os
mesmos erros que eu. Se eu tenho um lápis, Carlos também quer
o lápis. Ele acaba pegando meu lápis. Eu peguei o bonequinha de
meu irmão, peguei escondido. Aí o que acontece, Laura me acu-
sou de ter pego um lápis dela. Eu não peguei, eu tinha igual. Não
peguei o de Laura, mas ela disse para todo mundo que fui eu. Aí,
para ela não ficar triste comigo, eu dei um card game para ela.
Após um longo silêncio, Antônio propôs uma brincadeira
de erros e acertos e, assim, poder continuar as revelações. À es-
querda do papel pediu que eu escrevesse "erros" e à direita" acer-
tos" e a brincadeira consistia em pensarmos nós dois o que se
enquadraria em cada uma dessas colunas. Antônio prontamente
preenche a primeira linha da coluna erros com o seguinte: "Pegar
escondido" e na coluna acertos: "Pedir verdadeiro"
"Pegar escondido" "Pedir verdadeiro"
Bonequinho do irmão: peguei para
brincar, depois ia devolver.'
Agenda: fiquei um pouquinho triste,
depois passou, mas ainda não ao passou."
Bonequinho do primo: peguei para
brincar, depois devolvi e troquei por
objetos. II
Troquei. "
Peguei as coisas do papai e ele
descobriu"
Pedi ao papai. "
o erro que aconteceu: eu fui no porta-
óculos do meu irmão e peguei 1 carro e
dois cards. 15
Coloquei de volta.
Peguei coisas do meu avô e do meu pai. 16
9 Verdades que assumi
10 Mentiras que preguei
11 Mentiras que preguei
12 Mentiras que preguei
13 Verdades que assumi
14 Mentiras que preguei
15 Verdades que assumi
16 Verdades que assumi
119
Antônio suspende a brincadeira e diz:
- Eu queria contar um problema: Pedro vai ter a festa de
aniversário dele, só que vai ser na casa dele. Eu não tenho vontade
de ir, sabe? Eu não quero ir à festa, tem muita gente que rouba e
também tem um pequeno probleminha, acusam a pessoa de uma
coisa que ela não fez. Alex rouba as coisas dos outros. Eu desconfio
também da Flávia, ela também pega as coisas dos outros. Mas não
é só isso não, tem outro problema, meu pai vai sair com João, e eu
também quero ficar com meu pai, sair com os dois.
- Então você tem dois motivos para não querer ir à festa.
- Tem outro, tenho medo de não controlar.
- Tem
Jéssica
Jéssica fez um comentário
Fico feliz em ajudar! Bom proveito, abraços!
2 aprovações
Alisson
Alisson fez um comentário
Que incrível. Muito obrigado pelo upload
1 aprovações
Carregar mais