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PROPEDÊUTICA PROCESSUAL

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o interesse em interesse primário e interesse secundário, enquanto o juízo de utilidade considere o bem em si mesmo, como apto diretamente para satisfazer da necessidade, ou o estime, apenas indiretamente, como meio para a consecução de outro bem, que satisfaça à necessidade. 5 Como os bens são limitados, ao contrário das necessidades humanas, que são ilimitadas, surge entre os homens, relativamente a determinados bens, choques de forças que caracterizam um conflito de interesses, sendo esses conflitos inevitáveis no meio social. Ocorre um conflito entre dois interesses, quando a posição ou situação favorável à satisfação de uma necessidade exclui ou limita a posição ou situação favorável à satisfação de outra necessidade. As necessidades do homem aumentam com maior rapidez do que aumentam os bens, e a limitação dos bens, em relação às necessidades, explica que, com frequência, o homem se encontre frente ao dilema, ante duas necessidades, sobre qual deva satisfazer e qual deva sacrificar. Delineia-se, então, um conflito entre dois interesses de um mesmo homem, a que se denomina conflito subjetivo de interesses. Essa modalidade de conflito ocorre quando alguém tem necessidade de alimentar-se e vestir-se, mas possui dinheiro para satisfazer apenas a uma delas; e, como se trata de dois interesses de uma mesma pessoa, o conflito se resolve com sacrifício do interesse menor em favor do interesse maior. Este conflito pode ser relevante para o grupo, na medida em que um desses interesses esteja, mais do que o outro, coligado a um interesse coletivo, mas não haverá aí um conflito entre dois interesses de uma mesma pessoa, mas entre um interesse individual e um interesse coletivo. Como o conflito subjetivo de interesses não se extravasa da pessoa do próprio sujeito nele envolvido, resolve-se quando este faz uma opção; pelo que, uma vez feita a opção, cessa o conflito, que deixa de existir. Pode ocorrer, também, ante a limitação dos bens e as ilimitadas necessidades dos homens, a hipótese de um conflito entre interesses de duas pessoas, ao qual Carnelutti chamou de conflito intersubjetivo de interesses; conflito este que tem particular importância para o Estado, pelo perigo que representa de uma solução violenta, quando ambos os interessados recorrem à força, para fazer com que o seu interesse prevaleça sobre o interesse do outro. Quando o conflito se manifesta entre interesses de diversos homens, diz Carnelutti, adquire uma gravidade bem distinta do que quando se refere a interesses de um mesmo homem. Se dois homens têm fome e o alimento só basta para satisfazer à necessidade de um, o conflito se resolve sem dificuldade, quando se trata de pai e filho, porque a vida do filho é também um interesse do pai; mas, se esses dois homens são estranhos, e a satisfação da necessidade de um não interessa à do outro, ninguém sabe como possa terminar o conflito. Os conflitos podem ocorrer entre interesses individuais, como, por exemplo, se Tício e Caio têm necessidade de alimentar-se, mas não existe alimento senão para um deles; entre interesse individual e interesse coletivo, como o interesse de Tício à segurança pessoal e o interesse coletivo à defesa do território, que reclama a sua exposição aos perigos da guerra; entre dois interesses coletivos, como o conflito entre o interesse à instrução pública e o interesse à defesa pública, quando os meios à disposição do Estado forem suficientes para a satisfação de apenas um deles. Aponta Dias Marques duas causas dos conflitos de interesses: a primeira, de ordem quantitativa, resultante da insuficiência de determinados bens para a satisfação de todas as necessidades que os solicitam (raridade); a segunda, de ordem qualitativa, dada a impossibilidade em que se encontram certos bens, de dar satisfação a necessidades em sentido contrário. É o caso do indivíduo que deve pagar a outrem certa quantia; pagamento que representa um sacrifício para o devedor, embora seja um benefício para o credor. O conflito intersubjetivo de interesses ou, simplesmente, conflito de interesses, tende a diluir-se no meio social, mas, se isso não acontece, levando os contendores a disputar, efetivamente, determinado bem da vida, para a satisfação de suas necessidades, delineia-se aí uma pretensão. Para Carnelutti, o conflito pode dar lugar à atitude de um dos sujeitos, concretizada na “exigência de subordinação do interesse de outrem ao interesse próprio”; exigência esta que se chama “pretensão”. A pretensão é, assim, um modo de ser do direito, que tende a fazer-se valer frente a quem não o respeita, ou, em geral, o discute. Registra Carnelutti que, desde que se dedicou ao estudo do processo, percebeu a necessidade de separar a “pretensão” do “direito”, porque, de outro modo, não se poderia admitir uma pretensão infundada, mas, em princípio, confundiu a pretensão com a afirmação do direito, já que não havia percebido que pode ocorrer não só a pretensão infundada, como, também, a pretensão desarrazoada; por isso, passou a definir a pretensão como “exigência de subordinação do interesse alheio ao interesse próprio”, com o que não só a pretensão é separada do direito, como também da razão; sendo esta precisamente aquilo que vincula a pretensão ao direito. A pretensão é, assim, um ato e não um poder; algo que alguém faz e não que alguém tenha; uma manifestação e não uma superioridade da vontade. Esse ato não só não é o direito como sequer o supõe; podendo a pretensão ser deduzida tanto por quem tem como por quem não tem o direito, e, portanto, ser fundada ou infundada. Tampouco, o direito reclama necessariamente a pretensão; pois tanto pode haver pretensão sem direito como haver direito sem pretensão; pelo que, ao lado da pretensão infundada, tem-se, como fenômeno inverso, o direito inerte. Analisando o conceito de pretensão, adverte Carnelutti que essa palavra, no seu valor semântico, sugere a ideia de uma tensão prévia, prae tendo, como a situação de quem quer ir adiante apesar dos obstáculos. Quando a pessoa cujo interesse deveria ser subordinado não concorda com essa subordinação, ela opõe uma resistência à pretensão; resistência esta entendida como a “não adaptação à subordinação do interesse próprio ao interesse alheio”, ou, sinteticamente, a “oposição a uma pretensão”. A resistência pode consistir em que, sem lesar o interesse de outrem, o adversário conteste a pretensão ou, sem contestar a pretensão, lese o interesse; podendo ocorrer, também, que a resistência se estenda a uma e outra, em que contesta a pretensão e lesa o interesse. Tanto a contestação como a lesão da pretensão do mesmo modo que a pretensão são dois atos jurídicos, embora de espécie diversa, sendo a contestação uma declaração de vontade e a lesão da pretensão, uma operação jurídica ou um ato jurídico de evento físico; pelo que se distinguem, em razão da qualidade da resistência, a lide de pretensão contestada e a lide de pretensão insatisfeita. Pode acontecer que, diante da pretensão de um dos sujeitos, o titular do interesse oposto decida pela subordinação, caso em que basta a pretensão para determinar a resolução pacífica do conflito; mas, quando à pretensão do titular de um dos interesses em conflito, o outro oferece resistência, o conflito assume as feições de uma verdadeira lide ou litígio. A lide nada mais é do que um modo de ser do conflito de interesses, pelo que Carnelutti definiua como “conflito de interesses, qualificado pela pretensão de um dos interessados e pela resistência do outro”, ou, sinteticamente, “conflito de interesses, qualificado por uma pretensão resistida ou insatisfeita”. 6 A lide tem um elemento material, que é o conflito de interesses, e um elemento formal, que são a um só tempo a pretensão e a resistência (ou oposição). O conflito de interesses é uma lide, enquanto uma das pessoas formula, contra a outra, uma pretensão, e esta outra oferece resistência. O conceito de lide é controvertido, entendendo alguns que não se trata de um conceito essencialmente processual, porque todo processo pressupõe uma