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KROPOTKIN, P. Ajuda Mutua um fator de evolução

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Piotr Kropotkin
AJUDA MÚTUA:
um fator
de evolução
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Piotr Kropotkin
AJUDA MÚTUA:
um fator de evolução
Piotr Kropotkin
AJUDA MÚTUA:
um fator
de evolução
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Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro...
João Cabral de Melo Neto
Piotr Kropotkin
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um fator
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Piotr Kropotkin
AJUDA MÚTUA:
um fator de evolução
Tradução
Waldyr Azevedo Jr.
São Sebastião 2009
Piotr Kropotkin
AJUDA MÚTUA:
um fator
de evolução
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Tradução baseada na edição publicada por Heinemann, Londres, 1902.
Os apêndices inseridos na edição russa de 1907 foram traduzidos aqui com
base na edição argentina publicada por L. Orsetti, Editorial Americalee,
Buenos Aires, 1946
Revisão:
Danilo Quincozes Morales
Preparação e pesquisa de notas e apêndices:
Mitsue Morissawa
Capa:
Paulo Batista
Ajuda mútua: um fator de evolução / Piotr Kropotkin ; tradução
Waldyr Azevedo Jr. — São Sebastião : A Senhora Editora, 2009.
Título original: Mutual Aid : a Factor of Evolution
Índice para catálogo sistemático:
A Senhora Editora Ltda. (12) 3865-4485
 E-mail: editorial@asenhoraeditora.com.br
www.asenhoraeditora.com.br
Dados internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
 
Bibliografia.
1. Cooperativismo 2. Grupos Sociais 3. Mutualismo I. Título 
ISBN 978-85-88549-05-0
1. Ajuda mútua : Cooperativismo 334
Kropotkin, Piotr, 1842,1921
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
 09-06989 CDD - 334 
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SUMÁRIO
Introdução 11
1. Ajuda mútua entre os animais 19
Luta pela sobrevivência – Ajuda mútua, lei da Natureza e principal fator
de evolução progressiva – Invertebrados – Formigas e abelhas – Aves:
associações para caça e pesca – Sociabilidade – Proteção mútua entre
pequenas aves – Garças; papagaios
2. Ajuda mútua entre os animais (continuação) 40
Migrações de pássaros – Associações de nidificação – Sociedades de outono –
Mamíferos: pequeno número de espécies não-sociáveis – Associações de
caça de lobos, leões etc. – Sociedades de roedores; de ruminantes; de
macacos – Ajuda mútua na luta pela vida – Argumentos de Darwin para
provar a luta pela vida dentro das espécies – Controles naturais da
superpopulação – Suposta exterminação de elos intermediários – Eliminação
da competição na Natureza
3. Ajuda mútua entre os selvagens 72
A suposta guerra de cada um contra todos – A origem tribal da sociedade
humana – O surgimento tardio da família separada – Bosquímanos e
hotentotes – Australianos, papuas – Esquimós, aleutas – Aspectos da
vida selvagem difíceis de serem entendidos pelos europeus – A concepção
de justiça dos daiaques – Direito comum
4. Ajuda mútua entre os bárbaros 100
As grandes migrações – A necessidade de uma nova organização – A co-
munidade aldeã – O trabalho comunal – O procedimento judicial – A lei
intertribal – Exemplos da vida de nossos contemporâneos – Os buriates –
Os cabilas – Os montanheses do Cáucaso – Linhagens africanas
Prefácio 8
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5. Ajuda mútua na cidade medieval 127
O crescimento da autoridade na sociedade bárbara – A servidão nas aldeias – A
revolta de cidades fortificadas: sua liberação; Cartas – A corporação – A dupla
origem da cidade livre da Idade Média – Autojurisdição, autoadministração – A
posição honrosa do trabalho manual – O comércio feito pela corporação e pela
cidade
6. Ajuda mútua na cidade medieval (continuação) 153
Semelhanças e diferenças entre as cidades medievais – As corporações de ofício:
os atributos de Estado em cada uma delas – A atitude da cidade para com os
camponeses; tentativas de libertá-los – Os senhores feudais – Os resultados obti-
dos pela cidade medieval nas artes e no aprendizado – As causas da decadência
7. Ajuda mútua entre nós 179
As revoltas populares no começo do período dos Estados – As instituições de
ajuda mútua atuais – A comunidade aldeã; suas lutas para resistir à abolição
pelo Estado – Os hábitos derivados da vida das comunidades aldeãs, conservados
em nossas aldeias modernas – Suíça, França, Alemanha, Rússia
8. Ajuda mútua entre nós (continuação) 207
Sindicatos criados depois da destruição das corporações pelo Estado – Suas
lutas – Ajuda mútua em greves – Cooperação – Associações livres para fins
diversos – Altruísmo – Inumeráveis sociedades para ação combinada sob todos
os aspectos possíveis – Ajuda mútua na vida das favelas – Ajuda pessoal
Conclusão 230
Apêndices
I. Enxames de borboletas, libélulas etc. 235
II. As formigas 236
III. Ajuda mútua entre os pardais 238
IV. Associações de nidificação 239
V. As aves grandes ajudam as pequenas durante as migrações? 241
VI. Número de animais sociáveis na África Equatorial 243
VII. A sociabilidade dos animais 245
VIII. Os orangotangos já foram mais sociáveis 246
IX. Obstáculos à superpopulação 247
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X. Adaptações para evitar a competição 249
XI. A origem da família 251
XII. Destruição da propriedade privada no túmulo 257
XIII. A “família indivisa” 258
XIV. A origem das corporações 259
XV. O mercado e a cidade medieval 263
XVI. A comunidade aldeã na Inglaterra: os vestígios atuais 264
XVII. A comunidade aldeã na Suíça 267
XVIII. Organizações de ajuda mútua nas aldeias dos Países Baixos nos dias de
hoje 270
XIX. A cooperativa na Rússia 271
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Q
Prefácio à edição de 1914
PIOTR KROPOTKIN
Quando a guerra atual começou, envolvendo praticamente toda a Europa
numa terrível batalha e quando – naquelas partes da Bélgica e da França que
foram invadidas pelos alemães – essa batalha assumiu uma escala nunca
vista de destruição em massa da vida de civis e de pilhagem dos meios de
subsistência da população em geral, “a luta pela vida” tornou-se a explicação
favorita daqueles que tentaram achar uma desculpa para esses horrores.
Um protesto contra tal abuso da terminologia de Darwin apareceu então
numa carta publicada pelo Times. Essa carta dizia que tal explicação era “pouco
mais que uma aplicação à filosofia e à política de ideias inspiradas em grosseiros
mal-entendidos da teoria darwinista (de “luta pela vida” e “vontade de poder”,
“sobrevivência dos mais aptos” e “super-homem”, etc.)”; mas que havia uma
obra em inglês “que interpreta o progresso biológico e social em termos não
do exercício da força bruta e da astúcia, mas de cooperação”.
Doze anos se passaram desde que a primeira edição desta obra foi publicada
e pode-se dizer que sua ideia fundamental - a ideia de que a ajuda mútua
representa na evolução um importante elemento progressista – começa a ser
reconhecida pelos biólogos. A maioria das obras publicadas na Europa nos
últimos tempos que tratam da evolução já dizem que é preciso fazer uma
distinção entre dois aspectos diferentes da luta pela vida: a guerra exterior
das espécies contra condições naturais adversas e as espécies rivais, e a
guerra interna pelos meios de subsistência dentro das espécies. Também se
reconhece que tanto a extensão desse segundo aspecto quanto sua importância
para a evolução têm sido exageradas – para grande consternação do próprio
Darwin –, enquanto a importância da sociabilidade e do instinto social nos
animais, tendo em vista o bem-estar da espécie, foi subestimada, ao contrário
dos ensinamentos deste grande naturalista.
Mas, se a importância da ajuda e do apoio mútuo entre os animais começa
a ser reconhecida