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PSICOPATOLOGIA 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Maria Cecília Beltrame Carneiro 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta aula, entenderemos os principais conceitos em uma primeira 
avaliação do paciente psiquiátrico. Veremos como extrair o máximo de 
informações possíveis do paciente, sem que a entrevista aparente um 
“bombardeio” de perguntas, de modo a fazer com que o paciente se sinta 
confortável e acolhido para contar sua história de vida e suas queixas. 
TEMA 1 – A ENTREVISTA INICIAL COMPLETA 
Inicialmente, temos que ter em mente que a finalidade da entrevista não 
é somente sintetizar a hipótese diagnóstica em si, mas também o plano 
terapêutico a ser proposto e o prognóstico (em jargão médico, “diagnóstico é 
prognóstico”). 
Um olhar mais apurado pode descobrir uma infinidade de dados em 
referências ou observações. A incapacidade de descrever de forma adequada 
aquilo que foi observado e colhido depois de uma investigação ativa leva, 
inevitavelmente, à sua perda ou à diminuição do seu interesse. Especialidades 
médicas dispõem de uma infinidade de exames e outros recursos que podem 
“suprir” as deficiências de uma anamnese malconduzida (embora não sejam 
recomendados, pois como diz a máxima na medicina – a qual cabe bem a outras 
áreas da saúde – “a clínica é soberana”). O psiquiatra e o psicólogo, ao contrário, 
dispõem quase que somente da sua habilidade em entrevistar e observar. 
Claro que alguns dados do exame físico e alguns exames 
complementares fazem parte do arsenal da psiquiatria, ao passo que testes 
objetivos e subjetivos fazem parte da psicologia. Entretanto, alterações 
encontradas em exames como eletroencefalograma, exames de imagem e 
laboratoriais costumam ser solicitados para excluir causas orgânicas (tumores, 
doenças endocrinológicas, epilepsias etc.) e não para confirmar o diagnóstico 
psiquiátrico; já os testes neuropsicológicos auxiliam a determinar condições 
neuropsiquiátricas, de personalidade etc., desde que bem indicados. 
A entrevista propriamente dita se inicia apenas quando nos identificamos 
e fazemos a identificação do paciente. Sua observação, porém, inicia-se muito 
antes disso: já podemos inferir alguns aspectos em relação ao paciente desde o 
momento em que ele nos contata para agendar uma avaliação inicial – quem faz 
o contato, como ele se organiza para atender ao horário proposto, se é pontual 
 
 
3 
e como se comporta caminhando em nossa direção. Portanto, a anamnese (e o 
exame do estado mental, que será apresentado na próxima aula) já terá iniciado 
e os dados relevantes dessa observação deverão ser anotados no seu 
prontuário, durante ou ao final da sessão. Comumente, os pacientes que 
procuram consultório de psiquiatria e de psicologia tendem a estar passando por 
uma situação de vulnerabilidade e perda de sua autoconfiança. Isso, por si só, 
deve ser motivo para que procuremos ser sinceros e francos, inclusive em 
relação às nossas próprias limitações, deixando claro caso não estejamos aptos 
para atender um transtorno mental específico ou uma demanda específica – 
como questões familiares, da infância e adolescência, idosos, vulnerabilidade 
social ou casos ditos “difíceis”, que já passaram por vários profissionais, ou de 
difícil resolução, principalmente quando estamos em formação ou somos recém-
formados. Por vezes é necessário uma autocrítica em prol do bem-estar do 
paciente que nos procura. 
O produto redigido a partir de uma entrevista denomina-se anamnese. A 
anamnese em saúde mental tem muitas peculiaridades se comparada a outras 
especialidades médicas e outras profissões da área de saúde. Os dados de 
identificação de um paciente funcionam como uma espécie de “moldura” em 
relação a tudo o que vai ser investigado e já nos fornecem diversos indícios em 
relação aos caminhos que a entrevista poderá seguir. O primeiro passo é se 
apresentar e identificar o paciente. Frequentemente, ele não sabe como chegou 
até você e nem o que pretendemos “fazer com ele”. Quando nos identificamos 
de maneira clara, eliminamos boa parte deste desconforto, principalmente se for 
um atendimento dito “involuntário” (que ocorre mais frequentemente com 
crianças, adolescentes, pacientes psicóticos ou intoxicados, pacientes com 
comportamento suicida, idosos com suspeita de demência) ou em ambientes 
menos acolhedores, como prontos-socorros, enfermarias de hospital clínico e 
enfermarias de hospitais psiquiátricos. 
Existe ainda uma série de relações que podem ser estabelecidas entre os 
dados da identificação e um risco aumentado para certas condições 
psiquiátricas: 
1. Idade: há faixas etárias com maior risco para certas condições. O início 
da esquizofrenia e do transtorno bipolar, por exemplo, tipicamente se dá 
entre a adolescência e começo da vida adulta, enquanto as demências 
ocorrem nas idades avançadas. Transtornos do neurodesenvolvimento 
 
 
4 
(como deficiência intelectual, transtorno do espectro autista, transtorno do 
déficit de atenção e hiperatividade) invariavelmente apresentam sintomas 
na infância; 
2. Profissão: é menos prevalente a ocorrência de transtornos mentais 
especificamente causados por uma certa atividade profissional ou contato 
frequente com determinadas substâncias, como intoxicações por metais 
pesados em pintores (artistas ou de paredes), de substâncias químicas 
em frentistas de postos de gasolina, ou por alguns pesticidas em 
indivíduos que trabalham em plantações de tabaco (que são associados 
à depressão e risco aumentado para suicídio). Aqui vale uma curiosidade: 
– o famoso pintor holandês Vincent Van Gogh, motivo de muitas 
discussões e especulações diagnósticas (até hoje não se sabe bem ao 
certo que condição mental grave apresentava), apresentava, entre outros 
quadros, intoxicação por chumbo e solventes de tintas, diretamente 
relacionados ao seu ofício e às tentativas de suicídio por intoxicação 
exógena. 
Por outro lado, cada vez mais se estudam os efeitos exercidos por 
determinadas situações no trabalho, como a Síndrome de Burnout, a qual foi 
oficializada recentemente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma 
síndrome crônica. Como um “fenômeno ligado ao trabalho”, a OMS incluiu a 
síndrome de burnout na CID-11 (que deve entrar em vigor em 1º de janeiro de 
2022). É caracterizada como uma síndrome ocupacional, que pode acarretar 
sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia, apatia ou distanciamento 
emocional, sentimentos de negativismo relacionados ao próprio trabalho e 
prejuízo no rendimento laboral. Além de correlações clínicas, a profissão 
costuma ser uma das marcas principais da nossa individualidade. 
1. Escolaridade: do ponto de vista semiológico, costumamos utilizar o 
desempenho escolar de uma pessoa como fator importante na avaliação 
do seu desenvolvimento intelectual na infância, adolescência e escolha 
de profissão. Esse dado é, com muita frequência, importante e diferencial 
em diversos quadros, como em transtornos específicos da aprendizagem, 
deficiência intelectual, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. 
Além disso, pacientes com baixa escolaridade têm maior propensão a 
transtornos mentais comuns; 
 
 
5 
2. Estado civil: este dado tem muita importância quando avaliamos fatores 
de risco para suicídio. É fato comprovado a partir de diversas fontes, pelo 
menos entre os ocidentais, a elevação do risco de suicídio para aqueles 
que vivem sozinhos, como solteiros, divorciados e, especialmente, viúvos 
(Almeida et al., 2020); 
3. Naturalidade e nacionalidade: as doenças mentais são as que melhor se 
distribuem do ponto de vista social, pois atingem todas as classes, raças, 
etnias e faixas etárias. Do ponto de vista sociocultural, a população 
imigrante apresenta maior vulnerabilidade para sintomas de ansiedade, 
maior pessimismo em relação ao futuro, muitas vezes 
produzidos/agravados pela perda da redesocial de apoio, pelo 
distanciamento devido ao não conhecimento da língua e pelas mudanças 
no seu estatuto social (Penha, 2012). A ocorrência de transtornos mentais 
também pode ocorrer em famílias ou indivíduos que mudam de cidade ou 
região do país. Vale ressaltar em nosso contexto atual a questão dos 
refugiados, os migrantes involuntários, que apresentam risco aumentado 
para quadros de ansiedade, de manifestações depressivas, de sintomas 
hipocondríacos, sintomas de transtorno de estresse pós-traumático e um 
aumento no consumo de álcool e substâncias ilícitas, acompanhadas ou 
não de comportamentos agressivos (Martins-Borges, 2013). O ano de 
2019 foi o maior em número de solicitações de reconhecimento de 
condição de refugiado no Brasil, sendo mais frequentes pedidos de 
venezuelanos, haitianos e cubanos (Silva, 2020); 
4. Religião: esse dado pode nos ajudar a avaliar melhor certas crenças 
compartilhadas por certos grupos e, com isso, reduzir a chance de 
cometer juízos de valor. O fato de seguir uma religião é fator protetivo 
frente ao suicídio, de um modo geral. Pessoas com maior envolvimento 
religioso, sem levar em consideração a filiação religiosa, possuem 
menores chances de desenvolver o comportamento suicida (Rasic et al., 
2011; Osafo et al., 2013). Por outro lado, alguns fenômenos psicóticos 
podem ser difíceis de serem diferenciados, em um primeiro momento, de 
rituais religiosos ou crenças. Estudos realizados no Brasil mostram que 
pacientes internados por transtornos psiquiátricos pertencentes a grupos 
evangélicos têm uma maior frequência de diagnósticos de psicoses 
(Dalgalarrondo, 2004), e pertencer a religiões minoritárias (como igrejas 
 
 
6 
evangélicas pentecostais e espiritismo kardecista) pode associar-se à pior 
saúde mental (Baptista, 2004) e qualidade de vida, o que possivelmente 
seria reflexo de um processo social de busca de novos agrupamentos 
religiosos por pessoas em situação de sofrimento. 
Ao menos durante estágios e no início de sua vida profissional, tente se 
disciplinar na aplicação de um roteiro semiestruturado de entrevista, para que, 
no futuro, com maior experiência e gestão do tempo de sessão, você possa 
realizá-la de forma mais livre. Vemos, com bastante frequência, profissionais 
valerem-se do expediente de pedir ao paciente que fale “sobre a sua infância” 
ou “sobre os seus problemas”. Porém, sem ter treinamento para saber como 
direcionar estas perguntas abertas, muitas vezes, a investigação se perde. É 
claro que, muito provavelmente, nos primeiros minutos de contato com o 
paciente, ele irá manifestar o que o trouxe até ali, porém, devido a vários fatores, 
apenas isso não será suficiente. 
Existem certas “linhas” de investigação para cada um dos transtornos 
psiquiátricos. Assim, quando algum dado colhido faz surgir uma suspeita 
qualquer, o entrevistador deverá seguir aquela “pista” até o seu esgotamento, ou 
seja, até a sua confirmação ou afastamento. É como se fosse o trabalho de um 
garimpeiro, que a partir do encontro de algumas pepitas, procura pelo veio que 
levará à mina do mineral em vista, e há que se ter paciência até que seu objetivo 
seja concluído. Muitas vezes, esse processo pode se prolongar por quase toda 
uma entrevista, ou mesmo por várias sessões, a depender da colaboração do 
paciente. 
TEMA 2 – AS QUATROS TAREFAS DA ENTREVISTA PSIQUIÁTRICA 
2.1 Estabelecer uma aliança terapêutica 
De acordo com revisão de Carlat (2007) sobre o assunto, até 50% dos 
pacientes abandonam o tratamento antes da quarta sessão. Podemos pensar 
em vários motivos para que isso aconteça: alguns podem não ter formado boa 
aliança com seus terapeutas, outros não estavam interessados em se tratar e 
ainda podem ter reduzido o estresse que os levou a buscar atendimento, 
somente com os atendimentos iniciais. 
O ato de entrevistar e se mostrar interessado pela história do paciente 
auxilia (e muito!) na formação do vínculo terapêutico. Escutar uma pessoa com 
 
 
7 
total atenção é uma disciplina muito difícil de atingir, a qual exige concentração 
intensa em tudo o que ela está tentando dizer verbalmente ou não, além do 
respeito a ela. É muito mais fácil concentrar o foco no que está sendo dito do 
que no que está por trás: por exemplo, se o paciente comenta “nos últimos 
meses parece que meu médico tem precisado aumentar a dose da medicação”, 
o profissional pode responder “sim, talvez o senhor responda a doses maiores 
mesmo”, ou pode perguntar “isso te preocupa?”. Muito provavelmente, a última 
pergunta fará o paciente desenrolar o motivo pelo qual abordou este assunto. 
Transpondo da literatura médica, existem estudos mostrando que o 
médico interrompe o paciente em média a cada 18 segundos (Beckman; Frankel, 
1984), sendo a consulta dominada por perguntas do profissional e, assim, as 
necessidades do paciente podem ser ignoradas ou deixadas de lado. Um dos 
erros mais comuns na prática clínica é fazer uma pergunta e já respondê-la sem 
dar a chance de o paciente se manifestar: “e então, como está seu apetite? Tem 
se alimentado bem?”. Michael Balint (1955), médico psicanalista e grande 
estudioso da relação médico-paciente, afirmava que “se você fizer somente 
perguntas, irá receber somente respostas e nada mais”. Portanto, saber 
equilibrar perguntas abertas e fechadas é essencial na boa condução de uma 
anamnese. 
2.2 Coletar dados de sinais e sintomas diretos 
É a coleta da história psiquiátrica, dos dados relevantes ao longo da vida 
do indivíduo até chegar na história atual (que veremos adiante). Inclui histórico 
familiar, doenças clínicas, hábitos de vida, círculo social e familiar. A obtenção 
de um histórico prévio detalhado permite comparar o curso do quadro do 
paciente com estudos de psicopatologia e classificações diagnósticas atuais, 
aumentando a chance de uma avaliação correta e tratamento bem indicado. 
2.3 A entrevista 
A habilidade de entrevistar um paciente sem parecer mero preenchimento 
de um checklist de sinais e sintomas é uma das tarefas mais importantes e 
essenciais, e você a aperfeiçoará durante toda a sua vida profissional. A 
entrevista é um processo ativo de sondagem, no qual são feitas perguntas 
específicas em momentos oportunos do processo, usando habilidades de 
 
 
8 
transição e otimizando o tempo disponível. Um exemplo de pergunta de transição 
(a qual auxilia no direcionamento da entrevista) em uma hipótese de transtorno 
de personalidade: “anteriormente, você mencionou que seu marido a deixou 
anos atrás, como você costuma lidar com situações de rejeição?”. 
2.4 Propor plano terapêutico 
 Este tópico propõe-se a discutir maneiras de negociar o tratamento e 
garantir a adesão do paciente ao plano proposto. Se o sujeito não compreender 
suas orientações e seu embasamento para uma formulação diagnóstica, muito 
provavelmente sua entrevista terá sido em vão (falaremos adiante do papel 
importante da psicoeducação). 
TEMA 3 – AS TRÊS FASES DA ENTREVISTA 
Como qualquer avaliação realizada por profissionais de saúde, a 
entrevista deve ter início, meio e fim. Precisamos estruturar mentalmente como 
a entrevista se desenrolará, controlar seu ritmo e direcionar assuntos, quando 
necessário. O bom entrevistador consegue coletar o maior número de 
informações relevantes em um espaço de tempo pré-determinado. Aqui, vamos 
discorrer sobre a estrutura de uma avaliação inicial. No próximo tópico, 
voltaremos para detalhar melhor a fase intermediária da entrevista. 
3.1 Fase de abertura 
 Nos primeiros minutos da sessão, o objetivo é conhecer um pouco do 
paciente, dar-lhe abertura para que possa contar, sem interrupções, sobre sua 
motivação em procurar ajuda. Além disso, é nessa etapa que o paciente está 
decidindo se confia e tem segurança no profissional que acabou de conhecer. A 
sensação de rapport começa desde o primeiro segundo de contato entre vocês, 
e a aliança terapêutica éo ingrediente principal no sucesso psicoterápico. Ser 
você mesmo, mostrar-se cortês, afetuoso e sensível à situação do paciente 
auxiliam nesse processo. 
3.2 Fase intermediária da entrevista 
 À medida que a sessão transcorre, o entrevistador irá traçar uma linha de 
raciocínio direcionando para possíveis diagnósticos e verificando quais sintomas 
 
 
9 
e contextos requerem maior detalhamento. Por exemplo, sintomas ansiosos, 
dificuldade para dormir ou uso de álcool podem ser os temas mais prevalentes 
e você irá traçar uma forma de explorá-los, tanto no presente como no passado. 
 Além disso, também se investiga o contexto social, laboral ou escolar, 
doenças clínicas associadas e histórico familiar. Dependendo do histórico, 
começar do primeiro momento em que a pessoa apresentou prejuízos na sua 
vida pode impedi-la de discorrer sobre a situação atual; por outro lado, é muito 
comum o entrevistador usar a maior parte da entrevista explorando praticamente 
só o histórico mais recente, pois é o momento mais sensível e doloroso que ele 
irá compartilhar com você. Portanto, ter em mente perguntas de transição são 
estratégias sugeridas para mudar o tópico sem parecer insensível. 
Também é possível indagar qual foi o “ponto de virada” que fez o paciente 
procurar ajuda, quando o paciente percebeu que estava em sofrimento e quais 
são os possíveis fatores estressores associados. Quando a entrevista é bem 
conduzida, ela lembra uma dança, na qual a troca de informações flui sem 
obstáculos, e o paciente sente que está participando de uma conversa fascinante 
sobre sua vida, em vez de estar sendo “o tempo todo analisado” por um estranho. 
Novamente, pode soar repetitivo, mas interessar-se pela história de vida, 
demonstrar curiosidade com os interesses, profissão e hobbies daquele 
indivíduo tornam o momento menos engessado e desconfortável, sendo mais 
fácil de coletar informações relevantes. 
3.3 Fechamento 
 Ocorre nos minutos finais da entrevista, momento em que você fará uma 
súmula para o paciente sobre suas impressões do caso, de uma forma que ele 
consiga compreender o que está acontecendo com ele e qual é a proposta de 
tratamento. Psicoeducar o paciente sobre seu transtorno diminui sua ansiedade 
com o que de fato está acontecendo com ele, além de mostrar que ele não é o 
único a padecer de tal sofrimento, dando a sensação de pertencimento e 
melhorando a adesão ao tratamento que será proposto. Ainda, posicioná-lo de 
acordo com sua expertise no assunto desmistifica informações que ele possa ter 
encontrado na internet ou em literatura pouco recomendada, apurando o nível 
de confiança na sua condução do caso. 
 A apresentação da hipótese diagnóstica para o caso nem sempre precisa 
ser feita em termos técnicos, mas sim de uma forma que o paciente entenda. 
 
 
10 
Assim, em vez de “transtorno depressivo maior”, pode-se dizer que ele está 
passando por uma depressão clínica. 
 O próximo passo será investigar o que o paciente sabe sobre seu 
transtorno e possibilidade de tratamento. Oriente sobre a etiologia, fatores de 
risco, fatores estressores e discuta e estabeleça com ele um plano terapêutico 
compartilhado, salvo exceções em que o paciente não apresenta condições de 
decidir sozinho, como: comportamento suicida, psicose, agitação ou iminência 
de agressividade, ou seja, situações em que o paciente pode colocar-se em risco 
ou a terceiros. Nesses casos, a presença de um familiar ou cônjuge é necessária, 
a fim de decidir a melhor conduta. 
 A adesão também se consolida se o profissional finalizar a sessão com a 
próxima data e hora agendadas para um período curto e, se forem necessários, 
fizer outros encaminhamentos (médico, fonoaudiologia, terapeuta ocupacional 
etc.). Estabelecer limites no contato fora da sessão e formas de o contatar se 
houver emergência também faz parte do fechamento e continuidade do 
acompanhamento. 
TEMA 4 – HISTÓRIA DA DOENÇA ATUAL 
Se extrapolarmos este termo geral da medicina, seriam literalmente as 
queixas estritamente relacionadas aos acontecimentos recentes, porém, na 
saúde mental, a abordagem será diferente. A maior parte das condições 
psiquiátricas tende a ter um curso crônico, ou seja, uma lenta instalação e longa 
duração (ainda que vários transtornos apresentem fases de remissão). A História 
da Doença Atual (HDA) de nossos pacientes pode se iniciar décadas antes da 
avaliação clínica. Certamente, caberá aqui uma tentativa de desfazer o mal-
entendido que se formou em relação à palavra crônico, a qual é frequentemente 
associada à deterioração global da personalidade, quando, na verdade, refere-
se apenas ao tempo de instalação e evolução de uma doença, o que não implica, 
necessariamente, em deterioração ou incapacitação (alguns quadros 
apresentam episódios únicos, outros estabilizam com tratamento de manutenção 
e outros realmente incapacitam o paciente ao longo da vida e necessitam de 
reabilitação). 
Ao longo da entrevista, você invariavelmente caracterizará a primeira 
“crise” de um paciente, bem como a atual e suas circunstâncias. O escrutínio das 
demais crises dependerá da frequência, uma vez que alguns pacientes sofreram 
 
 
11 
várias, inclusive cursando com internações, interrupções de medicação e fatores 
estressores ambientais importantes. O delineamento da situação de um paciente 
nos períodos de remissão ou “intercríticos” e o fato dele ter retornado (ou não) 
aos níveis prévios de adaptação costuma ser de grande valia até para o próprio 
diagnóstico da condição com a qual o paciente sofre. A boa caracterização dos 
níveis prévios de adaptação de um paciente é absolutamente necessária, até 
para que tenhamos um referencial de maneira a bem avaliar os resultados da 
terapêutica aplicada. 
Frequentemente, médicos e psicólogos incorrem no erro de julgar que um 
“nível de melhora” alcançado por um paciente não foi suficiente, porém, sem o 
parâmetro do funcionamento prévio e da resiliência. Além disso, estabelecer 
uma linha do tempo para os acontecimentos de interesse clínico costuma ser 
muito útil para correlacionar episódios de morbidade, inclusive da natureza 
etiológica. 
Um olhar para a história da nosologia (ramo da medicina que estuda e 
classifica as doenças) mostra que diversos transtornos mentais surgiram, 
desapareceram, retornaram, tiveram seu nome modificado e assim por diante. 
Além disso, é sempre bom não perder de vista essa dimensão histórica e pensar 
que o mesmo pode acontecer com transtornos nas classificações atuais, os 
quais podem simplesmente desaparecer ou passar a receber outro nome. Nesse 
sentido, nossas classificações funcionam muito mais como bússolas que nos 
orientam por qual caminho seguir com aquele paciente em específico, sem 
esquecer de toda a sua individualidade. 
TEMA 5 – OUTROS QUESITOS A SEREM INVESTIGADOS 
 Na História Familiar, procuramos saber se mais familiares consanguíneos 
apresentam ou apresentaram um quadro psiquiátrico, já que a maioria desses 
apresenta algum componente genético herdado. Dentro do mesmo tópico, 
elaboramos também uma impressão inicial a respeito da dinâmica do núcleo 
familiar do qual o paciente provém. Com isso, é possível não só identificar o 
papel nela desempenhado, como também fazer uma razoável ideia acerca das 
demais pessoas da família, especialmente se existe um suporte de familiares 
que possam colaborar com o andamento do tratamento ou resistência e 
dificuldade por parte de outros para compreender o sofrimento de seu ente. 
 
 
12 
Um bom critério para discriminar os casos nos quais alguma intervenção 
junto à família é imprescindível, dispensável ou mesmo prejudicial é o grau de 
dependência do paciente em relação a ela. Esse é, aliás, o mesmo princípio que 
implica a necessidade quase absoluta da participação da família nos tratamentos 
de crianças em geral ou de idosos com declínio cognitivo. Em outras palavras, 
avaliarse a dependência torna a família necessária no tratamento – isto é, 
pacientes vulneráveis – ou tem cunho patológico; por outro lado, pacientes 
afastados de seu núcleo familiar podem denotar relacionamento conflituoso ou 
até histórico de negligência. 
 Diversas doenças clínicas e medicações podem estar envolvidas na 
etiologia de quadros psiquiátricos ou agravá-los, como anemias, doenças da 
tireoide, tumores cerebrais, traumatismos cranianos, epilepsia. Medicações 
como corticoides podem influenciar em quadros de humor ou alteração de 
comportamento em crianças. 
NA PRÁTICA 
Talvez uma analogia da medicina geral seja útil aqui: um médico 
experiente apalpa um fígado aumentado no abdômen de seu paciente. Ele 
convida os estudantes de medicina a apalparem o abdômen com as duas mãos 
para que possam aprender a identificar esta alteração. O método 
fenomenológico de empatia empregado em psiquiatria e psicologia é mais difícil 
de ensinar do que este. É como se o profissional tivesse que realizar este exame 
sem as mãos. Primeiro, ele precisa “treinar” o paciente a apalpar seu próprio 
abdômen de maneira correta e, depois, descrever de forma precisa o que sentiu 
(tarefa nada fácil, não é mesmo?). Dessa maneira, o profissional interpreta a 
descrição do paciente, se o fígado está de fato aumentado, se é uma 
interpretação errônea do paciente, se o paciente está tentando manipular que 
seu fígado está alterado ou ainda exagerando no seu tamanho (veremos tudo 
isso no exame do estado mental). 
Situações difíceis: 
• O paciente hostil: responder o paciente da mesma maneira não é só 
antiético como improdutivo. A melhor maneira de conduzir a situação é 
mostrando-se disponível para ajudar e fazendo uma breve detecção da 
origem deste comportamento para encaminhar a melhor abordagem (por 
 
 
13 
exemplo, transtorno do humor reagudizado, psicose, emergência 
hospitalar, solicitar familiar na sala etc.); 
• O paciente persecutório: geralmente, está em quadro psicótico agudo e 
qualquer pessoa à sua volta representa uma ameaça naquele momento. 
Simplificar a avaliação também é uma boa saída, já que sua alteração de 
juízo da realidade está alterada e ele terá pouco ou nenhuma escuta. 
Nesses casos, intervenção médica é mandatória e emergencial; 
• O paciente com suspeita de transtorno de personalidade: conduzindo a 
entrevista de forma cronológica, focando principalmente nas suas 
relações interpessoais, conseguimos tentar traçar possíveis padrões 
disfuncionais; 
• O paciente tímido ou ansioso: iniciar sempre com perguntas neutras 
(nome, onde mora, profissão, estado civil, nome de familiares etc.) e 
assuntos para “quebrar o gelo” para, então, gradativamente, começar a 
formular perguntas mais diretivas. 
Outra dica prática importante que pode comprometer todo o raciocínio 
clínico: não aceite jargões fornecidos pelos pacientes, como “nervoso”, 
“deprimido”, “tenho pânico”. É preciso pedir que ele explique o que quer dizer 
com essas palavras (paciente diz que está “nervoso” – é um termo leigo genérico 
que pode significar várias sensações subjetivas internas, como irritabilidade, 
ansiedade, angústia etc.). 
FINALIZANDO 
Conduzir uma entrevista satisfatória depende de uma série de variáveis, 
além do treinamento e sensibilidade do profissional, a saber (Dalgalarrondo, 
2018): 
Do paciente, de sua personalidade, de seu estado mental e emocional 
no momento, de suas capacidades cognitivas etc. Às vezes, o 
entrevistador precisa ouvir muito, pois o indivíduo “precisa muito falar, 
desabafar, descrever seu sofrimento para alguém que o ouça com 
atenção e respeito”; outras vezes, o entrevistador deve falar mais para 
que o paciente não se sinta muito tenso ou retraído. 
– Do contexto institucional da entrevista (caso a entrevista se realize 
em pronto-socorro, enfermaria, ambulatório, centro de saúde, Centro 
de Atenção Psicossocial [CAPS], consultório particular, consultório de 
rua etc.). 
– Dos objetivos da entrevista (diagnóstico clínico; estabelecimento de 
vínculo terapêutico inicial; entrevista para psicoterapia, tratamento 
farmacológico, orientação familiar, conjugal, pesquisa, finalidades 
forenses, trabalhistas; etc.). 
 
 
14 
E, por fim, mas não menos importante, da personalidade do 
entrevistador. Alguns profissionais são ótimos entrevistadores, falam 
muito pouco durante a entrevista, sendo discretos e introvertidos; 
outros só conseguem trabalhar bem e realizar boas entrevistas sendo 
espontaneamente falantes e extrovertidos”. 
Evitar posturas excessivamente rígidas ou emotivas demais, 
julgamento de valores, responder de forma agressiva a um paciente 
hostil ou provocador e direcionar o paciente quando este está sendo 
muito prolixo e desviando frequentemente do motivo e andamento da 
sessão. 
 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
ALMEIDA, T. K. P et al. Prevalência da tentativa de suicídio e os fatores 
associados em pacientes com transtorno psíquico. Arch. Health. Sci. v. 27, n. 
1, p. 51-55, jan./mar. 2020. 
BAPTISTA, A. S. D. Estudo sobre as práticas religiosas e sua relação com 
a saúde mental de idosos: um estudo na comunidade. Tese (Doutorado em 
Medicina) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, 
São Paulo, 2004. 
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