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CONCEITO e PARTIDO ARQUITETÔNICO

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partindo de princípios de ordem geral, adaptando-os em se-
guida à situação real. O projeto era definido pelo partido que se organizava do geral para o particular. [...] A ca-
sa Baeta projetada por Vilanova Artigas em 1956, segundo o conceito de partido de Le Corbusier, define-se 
pelas empenas das fachadas da frente e dos fundos e pelas aberturas das fachadas laterais, é organizada em 
meios níveis” (9). 
Também empiricamente, em cada situação específica baseada na prática de concursos e avaliações no âmbito 
universitário, é possível identificar a preponderância deste conceito nas discussões entre arquitetos, professores e 
membros das comissões julgadoras, sendo esta a característica fundamental que acaba por se estabelecer como um 
invariante, uma estrutura de pensamento que, pode-se supor, continua válida como aspecto central da teoria de 
projeto e da projetação no Brasil, teoria tributária também dos princípios acadêmicos e modernos herdados pelos 
grandes mestres modernos brasileiros tanto cariocas quando paulistas, em face do seu carisma e de sua longe-
vidade, para além dos fatores conjunturais históricos, resumidos por Futagawa desta maneira: 
"Durante os períodos antes e depois da Segunda Guerra Mundial, a arquitetura brasileira passou por desenvol-
vimento específico através das obras criativas dos arquitetos pioneiros como Lucio Costa, Afonso Reidy, Oscar 
Niemeyer, Vilanova Artigas e Lina Bo Bardi. 
Os princípios do modernismo foram aplicados e adaptados às condições locais do contexto brasileiro, como se 
a idéia do modernismo simpatizasse com o clima tropical do Brasil e da cultura das pessoas que lá vivem. Mais 
tarde, veio à luz uma forma única e original de arquitetura, que só existe no Brasil, e que vai além do movimento 
modernista original. 
O regime militar instalado no Brasil em 1964 provocou vinte anos de estagnação cultural, mas, ao mesmo tem-
po, também isolou a área de arquitetura do movimento pós-moderno que envolvia todo o mundo naquela época. 
Portanto, o Brasil se tornou um dos raros países que conta com sucessores legítimos do movimento modernis-
ta, e esse pano de fundo influencia fortemente a produção dos jovens arquitetos atuais, seguindo o princípio do 
modernismo entre as novas gerações" (10). 
Quero propor a seguir algumas reflexões sobre estes temas acima citados em busca dos novos significados e usos 
destas terminologias, bem como uma compreensão contemporânea a respeito destes mesmos processos. 
 
 
 
 
Ginásio Barueri Croquis de Mario Biselli 
 
 
 
Em primeiro lugar, sobre o que é partido arquitetônico. 
Quando se usa a expressão “adoção do partido”, deve-se observar o fato de que esta afirmação pode pressupor uma 
biblioteca de partidos adotáveis, como se estivessem todas as possibilidades já dadas e catalogadas. Convenhamos, 
analogamente, que adotar um filho é muito diferente de conceber um filho”. 
 
A afirmação de que o partido é a idéia preliminar do edifício a ser construído, ou uma prefiguração do objeto, que o 
projetista elege como ponto de partida e fio condutor, não abrange a totalidade dos modos de projetar, portanto não é 
universal, como também não o é o movimento do todo em direção à parte. Um claro exemplo disto são os projetos 
que envolvem tecnologias de pré fabricação de componentes para aplicação em série, invertendo, portanto, o 
raciocínio, a parte precede o todo (projetos de James Stirling, tais como para o Andrew Melville Hall, 1968, e 
University of St. Andrews Student Residence, 1967). 
 
Proponho aqui pensar sob o pressuposto de que o modo como cada arquiteto projeta é menos relevante do que o 
resultado final do seu trabalho. A sua metodologia, que é sempre particular, tem um interesse menor neste momento. 
Considerando, portanto, o cenário contemporâneo de grande diversidade arquitetônica, o partido arquitetônico é 
compreendido como a idéia que subjaz ao projeto, aquela identificada como idéia principal ou central, quando o 
projeto já se apresenta concluído, não importando quando esta idéia surgiu. É a idéia que o projeto é capaz de 
veicular ou expressar, o conteúdo intelectual de um edifício ou projeto enquanto manifestação, mediada por uma 
linguagem. É da avaliação destas idéias que se ocupam as comissões julgadoras em concursos, professores em 
avaliação etc. 
 
 
 
Igreja Tamboré Croquis de Mario Biselli 
 
De fato, a idéia central de um projeto pode nascer no início do processo ou durante o processo - tal como descrito 
nos textos anteriormente citados – ou pode mesmo anteceder ao processo, como é o caso dos arquitetos teóricos, 
cujas reflexões oportunamente se aplicarão na prática. Analisemos alguns exemplos de definições enunciadas por 
arquitetos que questionaram a teoria do projeto, revisando as tradicionais concepções da coerência e lógica, 
funcional e construtiva, do modernismo. É possível observar também que em seus projetos há sempre uma idéia 
central, não obstante a diferença de abordagem. 
 
Robert Venturi propõe o abrigo decorado, um caixa funcional inexpressiva acrescida de uma fachada bidimensional 
ornamentada e comunicativa segundo a natureza do edifício. 
 
"Venturi prefere os abrigos decorados, porque ele afirma que a sua comunicação é mais eficaz, embora os 
arquitetos modernos tenham se dedicado durante muito tempo a projetar 'patos'. O pato é, em termos semió-
ticos, um signo icônico, porque o significante (forma) tem certos aspectos em comum com o significado (com-
teúdo). O abrigo decorado depende de outros significados – a escrita ou a decoração – que são 
signos simbólicos" (11). 
 
Aldo Rossi propõe: a forma fica, a função muda. Por que então a função deve determinar a forma? A forma deve ser 
determinada pelo ‘lugar’. 
“A primeira grande crítica de Rossi foi ao que denominou de funcionalismo ingênuo do movimento moderno, que 
ao priorizar a explicação da cidade apenas pela função, deixava de entendê-la pelo que tinha mais significativo: 
o conhecimento da arquitetura pelo mundo de suas formas. A função era de uma circunstância que fazia uso da 
forma como um ato social. Ela nunca ia além de seu tempo, enquanto a forma permanecia” (12). 
Peter Eisenman sobrepõe à realidade do projeto – função, programa, lugar, topografia – disciplinas ou conceitos 
sobre os quais explorar ou deconstruir a forma, tal como assim se define: 
 
“Os conceitos, nos quatro projetos, transitam, se justapõe, interagem em ato. Malhas, escalas, rastros e dobras 
são freqüentemente concomitantes. Na exposição foram pensados como detonadores de pensamento, como 
balizas para a percepção e inteligibilidade da obra de Peter Eisenman. Mas a concomitância entre inteligibili-
dade e percepção, este movimento duplo parece ser recorrente e indissociável na reflexão e produção da arte” 
(13). 
 
 
 
Igreja Tamboré Croquis de Mario Biselli 
Mais recentemente Herzog e de Meuron adotam modelos de exploração e geração de forma, caracterizado como um 
processo contínuo com auxílio do computador e sem final determinado, como no projeto para o Pavilhão Jinhua 
Structure II – Vertical Basilea (ver AV Proyectos 007 2005, p. 40). 
 
E numa postura contemporânea mais radical, no sentido de uma autonomia da forma, sobrepujando tudo o mais, 
destaca-se os projetos de Frank Owen Gehry (Guggenheim Bilbao, 1997, e Walt Disney Concert Hall, 2003) e Zaha 
Hadid (tais como Contemporary Arts Center, 2003, em Cincinatti e MAXXI Museo, 2010, em Roma). 
 
A idéia central (ou Partido) pode ser identificada mesmo em situações onde a configuração funcional é um dado, uma 
condicionante ou determinante, fato comum quando em projetos para estádios, ginásios esportivos, teatros e em 
alguns casos, aeroportos. Via de regra configurações funcionais rígidas por tradição

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