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CONCEITO e PARTIDO ARQUITETÔNICO

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ou quando o próprio cliente é a 
autoridade no que tange às funções, muito comum no ramo das indústrias. 
 
Em todos esses casos, a despeito dos limites, o arquiteto encontrará espaço para introduzir uma idéia, ora migrando 
da forma para a matéria (Herzog & de Meuron, Estádio Allianz Arena, 2005, na Alemanha, e Estádio Nacional "Ninho 
do Pássaro", 2008, na China), ora enfocando radicalmente o design (como em Massimiliano Fuksas, no projeto do 
Aeroporto Internacional Shenzhen na China, ver AV proyectos 026 2008, p. 46) ou a tecnologia construtiva (Renzo 
Piano, Estadio de Bari, 1990, na Itália, e Richard Rogers, Aeroporto de Barajas, 2006, Espanha), etc. 
 
Em segundo lugar, cabe indagar, o que é a “caixa preta”? 
O que ainda pode ser dito sobre a adoção/ invenção/ formulação do Partido Arquitetônico, o momento crítico 
imponderável, a caixa preta? 
 
Igreja Tamboré Croquis de Mario Biselli 
 
 
Vamos admitir que os arquitetos fazem projetos e isto é um fato; portanto, em algum momento um determinado 
conjunto de informações se torna uma idéia para um edifício. O campo das idéias em arquitetura implica em um vasto 
campo de estudo da teoria e da história, mas este não é o espaço para desenvolver esse tipo de exercício intelectual 
e acadêmico. 
 
Vamos apenas considerar, de maneira mais simples, que este fato se relaciona com um fenômeno humano de 
grande interesse das ciências humanas, por um lado, e da filosofia, passando no século XX pelo estruturalismo, 
semiologia e semiótica: o fenômeno da linguagem, compreendida como manifestação e processo intrínsecos às 
diversas mediações sígnicas. 
 
A capacidade humana de inventar linguagens, a possibilidade de inventar distintas linguagens – verbais e não 
verbais – e transitar e fazer transposições entre estas (transtextualidade) são os mecanismos do intelecto típicos da 
arte e da arquitetura. Compreendida em maior ou menor grau como linguagem, a arquitetura é uma atividade desta 
mesma natureza de mediação e manifestação da idéia (14). 
 
Assim procedem os artistas, um poeta descreve uma paisagem (transposição do ícone para o texto), um escritor 
descreve um personagem (ícone para texto), um desenhista produzindo um retrato falado (ícone para texto e de novo 
para ícone), e tantas outras atividades do homem, um artista pintando um retrato (ícone para ícone), um ator em 
cena (texto para texto mais imagem), sempre pressupondo interpretação de um conteúdo numa linguagem seguido 
de uma expressão em outra. 
 
O partido arquitetônico, neste contexto, se dá no momento em que o texto, compreendido como articulação 
semântica – pensamento e idéia - expressa na linguagem verbal, se transforma em ícone, transposição da linguagem 
verbal para a linguagem não verbal, ou de maneira mais precisa, a operação que faz o arquiteto é de texto e ícone 
para ícone, pois o programa é texto e o lugar é ícone. 
 
Casa LPVM, Guaecá Croquis de Mario Biselli 
 
 
 
 
As transposições entre linguagens podem inicialmente sugerir a idéia de tradução, mas as tentativas empreendidas 
no sentido de estudar a arquitetura - tanto como história como prática projetual - a partir das estruturas da língua de 
forma automática – como tradução literal - apenas exacerbaram as diferenças estruturais entre estas linguagens, 
diferenças que implicam, para a arquitetura, num grau superior de liberdade no nível da expressão, dada a ausência 
de vínculos com as regras e convenções a que está sujeita a linguagem fala/texto: 
 
“O que se deve evitar nessa análise é a aplicação mecânica do modelo da linguagem à arquitetura, como 
fizeram diversos estudos semióticos. A aplicação mecânica de um modelo especificamente desenvolvido para a 
linguagem em outros sistemas semióticos, como a arquitetura, apenas permite reconhecer o que é semelhante 
à linguagem no nível da ideologia, mas não define as diferenças de estrutura interna entre a linguagem e, outros 
sistemas semióticos. 
 
Mesmo que seja possível conceber a linguagem como um sistema complexo de regras subjacentes, e, portanto, 
que seja viável compará-la com os sistemas explícitos e implícitos de regras da arquitetura, as regras 
arquitetônicas são definidas por uma determinada facção de uma determinada classe social, ao passo que a 
língua não é propriedade de ninguém, nem em geral nem em particular.. 
 
Os sistemas de regras arquitetônicas não exibem nenhuma das propriedades da langue – não são finitos, não 
tem uma organização simples nem determinam a manifestação do sistema. Ademais, as regras arquitetônicas 
estão em constante fluxo e mudam radicalmente. 
 
A aplicação mecânica do modelo da língua/fala à arquitetura ocidental fortalece a ideologia arquitetônica, 
porque nega as diferenças entre a arquitetura e a língua e ignora o lugar da linguagem natural na arquitetura. 
 
Além disso, o fato mais importante talvez seja que essa aplicação automática nega a presença de “algo” que 
define uma importante diferença entre a arquitetura e a linguagem – o aspecto criativo da arquitetura. Na língua, 
o indivíduo pode usar, mas não modificar o sistema da linguagem (langue). O arquiteto, ao contrário, pode e faz 
modificações no sistema, que é inventado a partir de um sistema de convenções” (15). 
 
 
 
 
Teatro de Natal Croquis de Mario Biselli 
 
 
E mesmo o referido sistema de convenções, ou contrato social, compreendido como base da linguagem, constitui um 
elemento limitador para a expressão em arquitetura: 
 
“Não havia nenhuma razão especial para que os ingleses designassem um animal de Bull, os franceses o 
chamassem de boeuf e os alemães de Ochs. [...] Mas porque a relação entre significante e significado era 
arbitrária, devia ser respeitada por todos. Ninguém pode mudar isso unilateralmente; há um contrato social entre 
todas as pessoas que falam inglês de que elas devem usar a palavra bulltoda a vez que quiserem se referir a 
esse animal específico. 
 
Se alguém usar outra palavra, ou inventar uma nova palavra para esse fim, ninguém o compreenderá; ele terá 
quebrado o contrato social. Note-se de passagem que, com poucas exceções, não existe um contrato social 
para o significado da arquitetura, e esta é uma diferença fundamental entre a arquitetura e a linguagem” (16). 
 
O homem de início pensou sobre as coisas, depois começou a pensar sobre o próprio pensamento, principalmente 
depois de Descartes, que levou tudo para dentro do intelecto (“je pense, donc je suis” – Discours de la Méthode, 
1637). 
 
Com os arquitetos não haveria de ser diferente. Em meio a dificuldades de solução para um projeto o arquiteto 
freqüentemente se interroga sobre seu pensamento, seu método (que em projetos anteriores funcionara tão bem!). 
 
Mas o projeto de arquitetura, embora circundado de problemas técnicos e profundamente vinculado ao uso, é por 
natureza um processo criativo avesso a enquadramentos, formatações, metodologias ou fórmulas. Permanece, 
portanto, e como desde sempre, aberto à infinita inovação, ao espírito dos tempos, à antecipação de tendências, à 
revisão de paradigmas, e, no pólo oposto, a novas visitas e itinerários interpretativos pelas tradições do passado. 
 
Torres Empresariais na Rua Afonso Brás Croquis de Mario Biselli 
 
 
notas 
1 
BANHAM, Reyner. Teoria e projeto na primeira era da máquina. São Paulo, Perspectiva, 1979, p. 40. 
2 
LEMOS, Carlos. O que é arquitetura. São Paulo, Brasiliense, 2003, p. 40-41. 
3 
Alfonso Corona Martinez. Prefacio. In: CANEZ, Ana Paula; SILVA, Cairo Albuquerque (org). Composição, partido e 
programa – uma revisão de conceitos em mutação. Porto Alegre, Ritter dos Reis, 2010, p. 35. 
4 
AMARAL, Cláudio Silveira. Descartes e a caixa preta no ensino-aprendizagem

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