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2 - QUEM É O PSICÓLOGO CLÍNICO

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a responder a estas demandas e estiveram de início mais comprometidas com o vértice disciplinar. (Por sinal, quando desenvolvem esta escuta, se clinicizam.) As outras áreas de conhecimento, igualmente, quan do respondem a estas demandas adotam o método clínico, o da escuta do excluído, o da escuta do virtual, o da escuta 1o ‘não- positivo’ na dupla acepção de ‘o que não goza em princípio de valor elevado’ (é, na verdade, uma espécie de dejeto) e ‘do que não tem a positividade das coisas que podem se mostrar e serem nomeadas’.
É claro que há diferentes maneiras de interpretar essa mis são e essas maneiras podem ser entendidas também a partir dos três pólos:
— no pólo disciplinar, trata-se da redução do excluído, ou seja, pratica-se aqui (ou tenta-se) a ‘cura dos sintomas’;
— no pólo do romantismo, a meta é a de dar vias de ex pressão ao excluído;
— finalmente, sob a ótica liberal trata-se de proporcionar meios de representação e integração do excluído de forma a am pliar o autodomínio do sujeito, de ampliar o campo da sua au tonomia.
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Gostaria neste momento, de sugerir de forma convincente que todas essas maneiras traem a mjssão da clínica: em primeiro lugar porque elas praticam, de uma forma ou de outra, a dissi mulação da cisão entre o fenomenal e o meta-fenomenal (como, por exemplo, se consciente e inconsciente pudessem alguma vez coincidir); em segundo lugar elas promovem a dissolução (ima ginária) do conflito entre disciplinas, liberalismo e romantismo que é intrínseco aos processos contemporâneos de constituição das subjetividades (como por exemplo, e usando termos da psi canálise, se Isso, Eu e Super-eu pudessem alguma vez entrar em acordo definitivo). Ora, fazer isto implica em tomar-se surdo ao interditado, ou seja, praticar a clínica dessa maneira implicaria na esterilização do virtual, do não-positivo.
A clínica define-se, portanto, por um dado éthos: em outras palavras o que define a clínica psicológica como clínica é a sua ética: ela está comprometida com a escuta do interditado e com a sustenta ção das tensões e dos conflitos.
Há interessantes questionamentos que decorrem destas
idéias e que incidem no problema da ‘identidade profissional’
do psicólogo:
— devemos conceber o psicólogo clínico como um ofertador de serviços (bens) a serem consumidos e a serem avaliados e re gulados pela lógica e pela ética do mercado e dos direitos do con sumidor?
— ou o psicólogo clínico deve ser entendido como um dis positivo terapêutico, mas também histórico? Talvez o clínico seja a escuta de que o nosso tempo necessita para ouvir a si mesmo naquilo em que lhe faltam as palavras. Se assim for, serão outros os padrões éticos a que deveríamos responder e a ética da ‘defesa do consumidor’ estaria aqui completamente deslocada.
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