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Professor Esp. Érlon Migliozzi INTRODUÇÃO À TEOLOGIA 2025 by Editora Edufatecie. Copyright do Texto C 2025. Os autores. Copyright C Edição 2025 Editora Edufatecie. O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permitido o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. REITORIA Prof. Me. Gilmar de Oliveira DIREÇÃO ADMINISTRATIVA Prof. Me. Renato Valença DIREÇÃO DE ENSINO PRESENCIAL Prof. Me. Daniel de Lima DIREÇÃO DE ENSINO EAD Profa. Dra. Giani Andrea Linde Colauto DIREÇÃO FINANCEIRA Eduardo Luiz Campano Santini DIREÇÃO FINANCEIRA EAD Guilherme Esquivel DIREÇÃO DE INOVAÇÃO Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal DIREÇÃO DE PLANEJAMENTO E PROCESSOS Prof. Me. Arthur Rosisnski NÚCLEO DE APOIO PSICOLÓGICO E PSICOPEDAGÓGICO Bruna Tavares Fernandes BIBLIOTECÁRIA Tatiane Viturino Oliveira PESQUISADOR INSTITUCIONAL Tiago Pereira da Silva COORDENAÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO (CONPEx) – MODALIDADE PRESENCIAL Profa. Ma. Luciana Moraes COORDENAÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO (CONPEx) – MODALIDADE EaD Prof. Me. Bruno Eckert Bertuol COORDENAÇÃO DO DEPTO. DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS Luiz Fernando Freitas REVISÃO ORTOGRÁFICA E NORMATIVA Beatriz Longen Rohling Carolayne Beatriz da Silva Cavalcante Isabelly Oliveira Fernandes de Souza Jéssica Eugênio Azevedo Louise Ribeiro Marcelino Fernando Rodrigues Santos Maria Clara da Silva Costa Stephanie Rodrigues da Mota Vieira Vinicius Rovedo Bratfisch PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Bruna de Lima Ramos Carlos Firmino de Oliveira Lucas Patrick Rodrigues Ferreira Estevão Vitor Amaral Poltronieri ESTÚDIO, PRODUÇÃO E EDIÇÃO André Oliveira Vaz DE VÍDEO Felipe Souza Oliveira Leandro Tenório Maria Beatriz Paula da Silva Thassiane da Silva Jacinto FICHA CATALOGRÁFICA Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP M634i Migliozzi, Érlon Introdução à teologia / Érlon Migliozzi. Paranavaí: EduFatecie, 2025. 105 p.: il. Color. 1.Teologia. 2. Teologia das religiões (Teologia cristã). 3. Religião – História. 4. Religião – Filosofia. 5. Igreja – catolicidade. 6. Igrejas Pentecostais. I. Centro Universitário UniFatecie. II. Núcleo de Educação a Distância. III Título. CDD : 23 ed. 230 Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577 As imagens utilizadas neste material didático são oriundas do banco de imagens Shutterstock . 3 AUTOR • Especialista em Empreendimentos Educacionais (UCB/RJ). • Bacharel em Teologia (UniFil). • Bacharel em Ciências Econômicas (FAFICOP). • MBA em Liderança (UniFil). • Mestrado Livre em Liderança Pastoral Urbana (STF/UniFil). • Docente do curso de Teologia EaD (UniFatecie). • Consultor Educacional da UniFatecie. Palestrante e ministrante de cursos teológicos livres na área do Velho Testamento e Escatologia. Ministro do Evangelho na Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Consultor empresarial pelo Conselho Regional de Economia de Curitiba/PR. Professor de Matemática e Sistema de Informações Gerenciais e Ensino Religioso na Rede Estadual do Paraná. Além de possuir experiência em sala de aula, tem conhecimento na área administrativa de instituições de ensino, onde assessorou Pro-Reitoria de Extensão e Pós-Graduação e departamentos comerciais. É consultor e perito judicial pelo Conselho Regional de Economia de Curitiba–PR. Informações e contato: Currículo Plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/8601941430171375. Professor Esp. Érlon Migliozzi 4 APRESENTAÇÃO Seja muito bem-vindo (a)! Prezado (a) aluno (a), é sempre ótimo ter você junto conosco. Você já se deparou com situações em que você deseja respostas e aí, você ouve dizer: “Ah, este assunto é um assunto teológico!”? Pois bem, é agora que muitos fazem a opção de ir aos dicionários ou sites e até mesmo questionarem a um líder religioso sobre o que é teologia e quando você resolve fazer uma investigação, você se defronta com pensamentos diferentes, várias disciplinas, nomenclaturas, e parece que ao receber uma resposta simples, você fica mais em dúvida ainda. É por isso que a disciplina de Introdução à Teologia precisa existir na sua grade acadêmica. Para ser um teólogo, você precisa saber por onde a teologia navega, abrange e interage. A teologia é uma ciência que não é exata e, acredite, não coloca ponto final em suas razões. É viva, não está presa ao tempo, tem um perfil místico e um perfil natural, liga a Fé e a Razão, fazendo que cada uma se complete. Convido você a conhecer um pouco mais sobre a teologia, seu conceito, sua necessidade e particularidades. Vamos falar muito sobre a história da Igreja, suas principais ramificações e assim entender por que há diferentes modos de interpretar fatos bíblicos e teológicos. Quais são as bases? Qual é o conteúdo que a teologia possui? Qual seu objeto de estudo? Tudo isso e muito mais estão te esperando nesta disciplina! Entenda que estamos em um nível introdutório e é um requisito imprescindível você buscar mais conhecimento através da leitura complementar. Nossa proposta de estudo vai dar um rumo às suas buscas e aprimoramento, com objetivo de lhe instigar a conhecer mais sobre as disciplinas que fazem parte da grade teológica e, quem sabe, definir o objetivo principal do seu estudo, para você continuar, de agora por diante, no foco daquilo que é sua vocação. Vamos juntos? Bom estudo! 5 SUMÁRIO Práticas Teológicas Teologia Pentecostal Teologia Católica Romana Conhecendo Teologia Professor Esp. Érlon Migliozzi CONHECENDO TEOLOGIA1UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 7 Plano de Estudos • A História da Teologia; • Fundamentos do Estudo Teológico; • Teologia Acadêmica e Ciência; • Teologia Bíblica. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar a Teologia como Ciência e Razão para a Fé; • Compreender os tipos de Filosofias e Interpretações Teológicas; • Estabelecer a importância da Teologia na compreensão do Divino. CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 8 INTRODUÇÃO Caro (a) aluno (a), Acredito que, antes de você optar em fazer um curso teológico, você deve ter buscado informações a respeito. Quando entramos em contato com o mundo teológico, algumas incertezas podem surgir, entre elas, é o objeto de estudo da teologia, o método de estudo e os resultados que este estudo pode proporcionar ao estudante. Em nossa disciplina de Introdução à Teologia, queremos demonstrar, através da história da Igreja e da filosofia, a necessidade da teologia como ciência e como instrumento de fortalecimento da crença. Nesta primeira unidade, vamos tratar dos primórdios da teologia, vamos conhecer juntos os motivos que levam o homem a desenvolver um discurso teológico e como isto impacta o mundo. Falaremos também sobre a história e o conceito da teologia, como surgiuque a prática da teologia na vida cotidiana. Parece simples, mas o teólogo precisa saber como interagir com seu ambiente para conseguir aplicar sua teologia quando lhe convier. Esta definição se aplica à prática individual. E segundo o teólogo cristão Richard R. Osmer (2008), em sua obra “Teologia Prática e introdução”, a teologia se utiliza de quatro questões que produzem quatro reações: O que está acontecendo? Que desencadeará uma tarefa empírico-descritiva. Por que está acontecendo? Com consequência, em uma tarefa interpretativa. O que deve acontecer? Resultando em uma tarefa normativa. E como devemos responder? Com uma tarefa pragmática. Porém, não é desta prática que queremos falar agora, queremos falar sobre a prática da “ciência” teológica católica. A prática teológica no catolicismo tem como sua ferramenta a catequese, ou melhor, especificando, a relação da Igreja com o mundo e, sendo mais específico ainda, como tem se desenvolvido a relação da igreja com o todo, como ela se comunica e dialoga com as diferentes necessidades. Para poder analisar sua ação, a teologia prática se departamentaliza, se dividindo em áreas, as quais são analisadas, cada uma em sua ótica e necessidade. Se retornarmos ao movimento querigmático, vamos lembrar que a preocupação que levou este movimento a surgir foi em estabelecer uma comunicação mais simples entre a teologia e o povo. 45TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 Assim, atualmente, a Teologia Litúrgica e a Teologia Sacramental, surgem como disciplinas na teologia prática, a fim, de analisar e dinamizar a interação dos ritos com os seus fins e propósitos, é algo que faz todo o sentido, pois, o teólogo precisa transmitir o que lhe é inspirado, de forma organizada e simples, trazendo uma compreensão litúrgica. FIGURA 2 - A TEOLOGIA EM PRÁTICA https://www.shutterstock.com/image-photo/mitrapur-india-february-26-2020-faithful-1785021938 MITRAPUR, ÍNDIA - 26 DE FEVEREIRO DE 2020: Católicos fiéis durante uma missa ao ar livre na vila de Mitrapur, Bengala Ocidental, Índia Temos outra disciplina conhecida como Teologia do Direito Canônico, que analisa os procedimentos e normas jurídicas da Igreja e viabiliza a prática nas normas. O direito canônico se utiliza dos mandamentos dados por Jesus à sua Igreja e ao poder que ela exerce. Outra interdisciplinar da teologia prática é a Teologia Pastoral, que cuida da aplicação dos ensinos e ações teológicas da Igreja no dia-a-dia, ou melhor, no cotidiano da comunidade todo. É esta interdisciplinar que traz o dinamismo à liderança da igreja local perante seus membros. Por fim, temos a última interdisciplinar, a Teologia Espiritual, que trata, em resumo, da trajetória do espírito humano em busca de atingir a perfeição e a santidade, que ocorre 46TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 em Cristo Jesus. Esta interdisciplinar se dividirá ainda em duas: ascética e mística, definidas pelo objeto de estudo. A primeira tem como objeto a teoria e a prática da perfeição cristã até o estado contemplativo e a segunda tem como objeto a própria contemplação (Libânio; Murad, 1996, p. 226 - 228). Ao entendermos este tópico sobre a prática teológica católica, vamos observar, quando estudarmos outras correntes teológicas, que a teologia católica se apresenta bem mais organizada neste aspecto de condução e sistematização de suas práticas ministeriais, é um método que surgiu para que os ensinos não sofressem influências na linha de frente da ministração da Palavra. 4. 2 Teologia Sistemática Teologia sistemática nada mais é que um estudo “ordenado” ou “organizado” da Bíblia. É a própria designação da palavra sistemática que quer dizer “conjunto de elementos classificados e organizados entre si segundo um ou mais critérios” (Sistemática, 2021, online). A teologia sistemática parte primeiramente do que diz a Palavra sobre Revelação e em seguida, o que a Palavra nos diz sobre Deus é e assim o que ela diz sobre Jesus e depois sobre tudo o que Jesus fez pelo homem. Assim, fica claro que a base da sistematização é unicamente a Palavra. Na sequência da linha de sistematização, será considerada a doutrina do homem, do pecado, santificação, da Igreja e dos finais dos tempos. Desta forma, fica claro que a sistematização é por tema, assunto, relevância e não é uma ordem cronológica ou de cânon, livros. Então, temos agora um horizonte aberto para sabermos onde vamos buscar um estudo alinhado das prioridades teológicas no estudo teológico. A disciplina de teologia sistemática se subdivide nela mesmo, mantendo a linha geral, ou seja, teremos uma divisão em níveis: sobre a Revelação e Deus, Teologia Sistemática I, sobre o homem, pecado... Teologia Sistemática II, e assim por diante, costumeiramente até o nível sete, sendo sua melhor divisão: 47 NOMES DOS PAPAS - Durante muitos séculos, os Papas eleitos utilizavam os seus nomes de batismo. Porém, isso mudou no ano de 533, com a eleição de Mercúrio. Como não ficaria bem para o representante da Igreja Católica utilizar o nome de um deus pagão, ele optou por mudar o seu nome e decretou que, durante o seu papado, seria chamado de João II. Esse costume passou a ser utilizado pelos seus sucessores, e quase todos os Papas mudam o seu nome desde o século X, sendo que o último a utilizar o nome de batismo durante o pontificado foi Marcelo II, no ano de 1555. Fonte: G1. Saiba como será escolhido o nome do novo Papa. 2013. Disponível em: http:// g1.globo.com/mundo/renuncia-sucessao-papa-bento-xvi/noticia/2013/03/saiba-como-sera-escolhido-o-nome-do-novo- papa.html. Acesso em: 16 set. 2021. SAIBA MAIS TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 QUADRO 1 - ORDEM DA TEOLOGIA SISTEMÁTICA Teologia Sistemática Parte 1 - Introdução. Parte 2 - A Doutrina de Deus. Parte 3 - A Doutrina do Homem. Parte 4 - As Doutrinas de Cristo e do Espírito Santo. Parte 5 - A Doutrina da Aplicação da Redenção. Parte 6 - A Doutrina da Igreja. Parte 7 - A Doutrina do Futuro. Fonte: O autor (2021). http://g1.globo.com/mundo/renuncia-sucessao-papa-bento-xvi/noticia/2013/03/saiba-como-sera-escolhido-o-nome-do-novo-papa.html http://g1.globo.com/mundo/renuncia-sucessao-papa-bento-xvi/noticia/2013/03/saiba-como-sera-escolhido-o-nome-do-novo-papa.html http://g1.globo.com/mundo/renuncia-sucessao-papa-bento-xvi/noticia/2013/03/saiba-como-sera-escolhido-o-nome-do-novo-papa.html 48 SAIBA MAIS CELIBATO - Originalmente, os primeiros sacerdotes católicos não precisavam ser celibatários. “Isso foi sendo reconhecido como um valor importante ao longo dos séculos”, afirma Ribeiro Neto. “Assim, entre os católicos de rito oriental (os ortodoxos), até hoje existem padres casados.” Por volta dos séculos 3º e 4º já existiam movimentos no catolicismo propondo que os religiosos deveriam praticar o celibato. “Mas é no primeiro e no segundo concílios de Latrão, ao longo do século XII, que se estabelece a obrigatoriedade definitiva do celibato aos clérigos católicos romanos”, relata o sociólogo. Outros concílios prévios já mencionaram o tema, propondo a abstenção sexual de sacerdotes e proibindo o casamento de monges e freiras. Fonte: BBC News. Quando e por que a Igreja Católica passou a impor o celibato aos padres. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45489668. Acesso em: 16 set. 2021. A Igreja Católica mantém o celibato porque acredita que os padres celibatários desempenham suas funções religiosas melhor do que os casados, segundo os especialistas. O que você acha e o que você diria? Fonte: o autor (2021). REFLITA TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45489668 49 Chegamos ao final da segunda unidade de nossa Introdução à Teologia e conhecemos a história da primeira igreja cristã e, consequentemente, a primeira linha teológica que surgiu. Como dissemos na introdução, essa é uma linha de tempo muito ampla, são vários acontecimentos, portanto, nos apegamos aos principais.E cada etapa desta história deve ter produzido reações e frutos que não conseguiríamos dimensionar todos aqui, são vários pensadores que criticaram e buscaram a melhoria do sistema religioso preponderante. No primeiro tópico, abordamos a história do catolicismo, iniciamos de um ponto onde a teologia já estava institucionalizada e era alvo de ataques frequentes, tanto internos quanto externos. No segundo tópico, falamos sobre a Reforma Protestante, talvez o maior embate interno na instituição, que não só dividiu os clérigos, como provocou uma reação na instituição. No tópico terceiro, fomos um pouco mais ao sentido acadêmico da teologia católica, pois é necessário entender que a referida corrente teológica tem seus componentes completos, a espiritualidade, a intelectualidade e a eclesialidade, entre tantas outras disciplinas que surgiram no estudo teológico. Por fim, no último tópico, falamos sobre a prática e a academia, no qual pretendemos mostrar como são tratados os métodos da teologia e qual sua finalidade após o curso. Acredito que você tenha sido bem introduzido ao tema e possa, de agora em diante, saber como buscar mais conhecimento sobre a teologia e a Igreja Católica, sabendo que ela contribuiu muito com o cristianismo que conhecemos e ainda, é uma corrente preponderante no mundo. Qual sua concepção sobre a teologia católica? Há algo que você não compreendeu muito bem? Busque se aprofundar mais no material de apoio. Muito obrigado por estarmos juntos!!! Até a Próxima Unidade!!! CONSIDERAÇÕES FINAIS TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 50 LEITURA COMPLEMENTAR RCC – Renovação Carismática Católica Vamos trazer um texto que fala de um movimento de avivamento recente no catolicismo, que está produzindo muitos discípulos pelo mundo afora. Falaremos como se iniciou o movimento carismático no mundo. Este movimento é tido por muitos como um movimento pentecostal na Igreja Católica. Incentivamos os alunos a conhecerem mais sobre o surgimento no Brasil e o desfecho da Igreja em Roma sobre o movimento. O fim de semana de Duquesne: A sociedade Chi Ro estava organizando um retiro para os estudantes da Duquesne, quando ambos os professores, que eram conselheiros desta sociedade, sugeriram uma modificação no tema do retiro, de “sermão da montanha” para “Atos dos Apóstolos”. Segundo recorda Patty Mansfield, então estudante da Duquesne e participante do retiro, “os dois professores não fizeram nenhuma referência específica ao Batismo no Espírito Santo, mas deixaram transparecer um sentimento de antecipação e de alegria, que era profundo”. Isso a levou, com outros estudantes, a ficar curiosa quanto ao que aconteceria no retiro. No dia 17 de fevereiro de 1967, vinte e cinco estudantes aproximadamente, acompanhados pelo capelão do campus, que era um padre da ordem do Espírito Santo, dirigiram-se para um centro de retiros chamado “The Ark and the Dove”, situado na região de North Hills, e pertencente à Diocese de Pittsburg. Os professores orientaram o grupo para cantar o hino “Veni Creator Spiritus” em cada sessão, implorando a vinda do Espírito Santo. As palestras teriam o seu foco nos primeiros quatro capítulos dos Atos dos Apóstolos. Na noite de sexta-feira, logo após a abertura do evento, na Capela, o instrutor conselheiro levantou uma imagem de Nossa Senhora em que ela está com as mãos erguidas em atitude de oração. Ele fez uma descrição de Maria como uma mulher de fé e de oração. Depois da meditação sobre Maria, houve um serviço de contrição e penitência. No dia seguinte, os professores coordenadores haviam convidado Flo Dodge para que participasse do retiro e apresentasse umas palavras aos estudantes. Sua apresentação versou sobre a realeza de Jesus Cristo e sobre o Batismo no Espírito Santo. Para mais TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 51 tarde, à noite, estava programada uma festa de aniversário para alguns dos participantes, mas muitos dos jovens foram sendo individualmente induzidos a se dirigirem para a capela, onde experimentaram, manifestamente, o Batismo no Espírito Santo. No domingo, ouviram uma palestra sobre o segundo capítulo dos Atos dos Apóstolos. No fim do dia, os estudantes se retiraram com a recomendação de lerem o livro de John Sherril, “Eles falam outras línguas”. Durante algumas semanas após o encontro, alguns dos professores e dos alunos da Universidade compareceram às reuniões de oração da casa de Flo Dodge, e depois esta reunião deixou de existir. Certamente, já havia preenchido sua finalidade. Enquanto isso, um dos professores foi a South Bend e testemunhou para um grupo de trinta estudantes e alguns amigos a maravilha que é viver Pentecostes em nossos dias. Estes pediram que se orasse para que recebessem o Batismo no Espírito Santo. Mais tarde, começaram a realizar-se, regularmente, em Notre Dame, encontros católicos carismáticos de oração, e se difundia cada vez mais a Graça do Batismo no Espírito. Duquesne, Notre Dame, Michigan, e um número enorme de católicos são batizados no Espírito Santo. Fonte: COMSHALOM. Você sabe qual a origem da Renovação Carismática Católica? Disponível em: https:// comshalom.org/a-origem-da-rcc/. Acesso em: 15 jun. 2021. TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 52 MATERIAL COMPLEMENTAR • FILME/VÍDEO • Título: Dois Papas • Ano: 2020. • Sinopse: Buenos Aires, 2012. O cardeal argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) está decidido a pedir sua aposentadoria, devido a divergências sobre como o papa Bento XVI (Anthony Hopkins) conduz a Igreja. Com a passagem já comprada para Roma, ele é surpreendido com o convite do próprio papa para visitá-lo. Ao chegar, eles iniciam uma longa conversa onde debatem não só os rumos do catolicismo, mas também afeições e peculiaridades da personalidade de cada um. • Link: https://www.netflix.com/br/title/80174451?source=35. • LIVRO • Título: Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental • Autor: Thomas E. Woods Júnior. • Editora: Quadrante Editora; 10ª edição (26 junho 2019). • Sinopse: Se perguntarmos a um estudante universitário sabendo do contributo da Igreja Católica para a sociedade, a sua resposta talvez se resuma a uma palavra: “opressão”, por exemplo, ou “obscurantismo”. No entanto, essa palavra deveria ser “civilização”. O autor destas páginas, Thomas Woods, doutorado pela Universidade de Columbia, mostra como toda a civilização ocidental nasceu e se desenvolveu apoiada nos valores e ensinamentos da Igreja Católica. • WEB • Caros alunos, acessem o link abaixo para visualizarem o vídeo “O que aconteceu com a Igreja após o Concílio Vaticano II?” • Link do site: https://youtu.be/wQUoa0KtcS. TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 Professor Esp. Érlon Migliozzi TEOLOGIA PENTECOSTAL3UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 54 Plano de Estudos • O Movimento Pentecostal Norte Americano e Sueco; • O Movimento Pentecostal no Brasil; • Teologia Escandinava e Norte Americana; • Desafios atuais da Teologia Pentecostal. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar a Teologia Pentecostal. • Compreender seu tipo de Filosofia e Interpretações Teológicas. • Estabelecer a importância da Teologia Pentecostal na compreensão do Divino. TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 55 Caro(a) Aluno(a), Esta é a terceira Unidade de nosso estudo da disciplina Introdução à Teologia, vamos sair do foco da espinha dorsal da teologia clássica e vamos ter contato com sua primeira teologia de oposição, a teologia protestante. Embora o Catolicismo tenha se dividido séculos antes em romano e ortodoxo, esta divisão não trouxe mudanças radicais na escola teológica e teve uma conotação de divisão mais territorial, uma separação por região, melhor dizendo. A teologia teve alguns questionamentos quanto aos ritos e práticas, mas, não houve êxodo de um lado para outro. Já, neste evento que teve seu desfecho em 1517, a Reforma Protestante, a Igreja Romana foi confrontadacom uma nova teologia e, esta, exerce grande influência até os dias atuais. No primeiro capítulo da unidade, vamos realizar uma introdução relembrando o período da reforma e trazendo as ideias principais que surgiram, porém, vamos dar um salto ao movimento pentecostal, que também é uma divisão do movimento protestante, resultante da Reforma. No segundo capítulo, vamos falar sobre as particularidades da teologia pentecostal no Brasil, afinal, este movimento foi importado e posteriormente, o Brasil tornou-se seu maior exportador e referência em sua teologia. No terceiro capítulo, vamos tratar das raízes que geraram o movimento no Brasil, como suas características se adaptam em solo brasileiro e como influenciou na formação das bases da teologia. E no último capítulo, vamos falar dos desafios do pentecostalismo atualmente, trazer uma reflexão diante dos dados que identificam o maior movimento evangélico do país. Esperamos que você absorva um conteúdo que trará entendimento ao assunto, lembrando, que estamos destacando apenas uma pontinha da história que trouxe muita reflexão aos teólogos contemporâneos e há muito assunto a ser descoberto, partindo desta nossa unidade. Um ótimo estudo e vamos juntos!!!! INTRODUÇÃO TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 56 O MOVIMENTO PENTECOSTAL NORTE AMERICANO E SUECO1 TÓPICO Na unidade anterior, fizemos um breve resumo do movimento protestante conhecido como Reforma, a fim de introduzir o contexto católico da Contrarreforma. Agora, vamos fazer uma nova ponte, desta vez, vamos ligar a reforma ao movimento que surgiu após o pentecostalismo, porém, para sabermos e entendermos sobre o pentecostalismo, precisamos entender a sua raiz, o protestantismo clássico, iniciado lá em 1517 com Lutero. Vamos trazer também um resumo das ideias que vigoram no protestantismo, não mais nos referenciando ao catolicismo, mas, ao dia-a-dia da corrente teológica e alguns nomes e acontecimentos também. 1. 1 Teologia Tradicional Protestante Protestantismo Clássico, Protestantismo Tradicional, Protestantismo Histórico, Evangélicos de Missão ou apenas evangélicos, são as denominações feitas aos grupos de protestantes que surgiram com a Reforma Protestante. Ao contrário do que muitos possam imaginar ou conhecer, embora foi Martinho Lutero que eclodiu a Reforma, sua Igreja, a Igreja Luterana, não seguiu juntamente com as outras denominações que também surgiram da mesma Reforma (Tillich, 1988, p. 258 - 270). TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 57TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 FIGURA 1 - CRONOLOGIA DOS RAMOS DO CRISTIANISMO Fonte: WIKIMEDIA. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cristianismo.JPG. Acesso em: 21 set. 2021. Como isso ocorre? Na segunda fase da Reforma Protestante, vários outros historiadores e teólogos iniciam um processo de institucionalização. Foi na Reforma Suíça, promovida por Ulrico Zuínglio, que fazia parte da primeira reforma também, mas discordava dos luteranos, principalmente nos sacramentos (Tillich, 1988, p. 254). João Calvino publica suas obras “As Institutas” e, com sua ampla divulgação, agregam-se a ele vários outros nomes da teologia protestante, Martin Buber, William Farel, Zuínglio, Heinrich Bullinger, Pietro Martire Vermigli, Teodoro de Beza, John Knox. Assim, nasce uma teologia reformada e leva este nome. Muitos, vinculando a João Calvino, a tratam como Calvinismo, mas o próprio não desejava assim (Cottret, 2010). Neste ponto da história da Igreja, temos o Catolicismo Romano se preparando para a Contrarreforma, o Luteranismo desfrutando de seu novo tempo e começo, a Teologia Reformada ganhando corpo por toda a Europa. Para sermos mais precisos, temos então: O Catolicismo Romano, o Catolicismo Ortodoxo, o Luteranismo e a Teologia Reformada ou Calvinista. Agora, vamos observar um pouco sobre o que consiste a teologia reformada, o que ela acredita e define como base de fé e, assim, descobrir o solo em que vai surgir o pentecostalismo séculos depois. A teologia reformada está alicerçada em cinco pontos, também conhecidos como “Cinco Solas” e está ligada diretamente ao movimento da reforma, porque vai direto aos pontos que a impulsionaram: Sola Fide, Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia e Soli Deo Gloria. Traduzindo: Somente a Fé, Somente a Escritura, 58TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 Somente Cristo, Somente a Graça, Somente a Deus, Glória (Ferreira, 2017, p. 32). Então, estes pontos definem a Teologia Reformada diante da Teologia Católica. E o movimento calvinista vai enfrentar outro embate, os “Arminianos”. Veja como todos os ex-católicos romanos e não luteranos concordavam com os pontos colocados pelos reformadores calvinistas. Já existiam grupos que questionavam a participação do homem na sua salvação (estude sobre o “sinergismo” e “monergismo”), enquanto, calvinistas defendiam que era Deus quem escolhia quem iria salvar, independente da vontade humana, os sinergistas e monergistas acreditavam que o homem tinha participação ou que pela ação do Espírito Santo, o homem poderia ser salvo. Foram várias brigas, discussões e gerou morte, ao ponto de ser convocado um sínodo nacional em Dort, Holanda. Iniciou-se o concílio em 13 de novembro de 1618 e foram 154 reuniões até o dia 09 de maio de 1619. Os arminianos perderam as discussões, sendo considerados hereges, perderam seus cargos eclesiásticos, sendo desapropriados. Certo tempo depois, Maurício de Nassau, governador da Holanda, calvinista, morre, o poder dos calvinistas fica enfraquecido e os arminianos conseguem retornar ao país e fundar suas igrejas. Assim, a Holanda continha um berço arminiano que cresceu e se expandiu pelo mundo. Mas para a teologia, quais reflexões está disputa ocasionou? Vamos fazer uma tabela para demonstrar a diferença entre as duas correntes: TABELA 1 - COMPARATIVA ENTRE CALVINISMO E ARMINIANISMO Calvinismo Arminianismo Depravação Total A depravação é total Expiação Limitada A Expiação destina-se a Todos Graça Irresistível A Graça é Resistível Eleição Incondicional A eleição é condicional Perseverança dos Santos A segurança eterna é também condicional Fonte: O autor (2021). Teríamos muito o que explicar em cada um destes pontos, mas vamos ficar por aqui, pois seria um assunto mais extenso que vamos colocar na leitura complementar para não sairmos do foco. Você diria que a teologia, neste ponto, se dividiu, pulverizou, cresceu, evoluiu? ATENÇÃO: É nesse ponto que muitos alunos de teologia cometem o equívoco de dizer que a teologia ficou humanizada e perdeu crédito para tratar sobre o divino, ou, em outras palavras, não é de Deus. Começam a acreditar que, por haver opções de pensamento, a fé é algo produzido humanamente. Pois bem, é agora que a teologia recebe sabor, tempero. 59TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 Neste ponto de reflexão, vamos descobrir a profundidade do Plano de Salvação e a Graça abundante de Deus para com sua criação. Quero afirmar a você algo que possa ir contra a sua concepção até aqui: “a teologia é ciência humana, é coisa do homem”, mas não é por isso que Deus deixa de existir, de interagir, de se manifestar da forma que lhe convém. A fé não para diante de problemas teológicos. Gostaria muito que você procurasse se posicionar quanto a estes pontos, o que você acha mais correto e, digo mais, como o catolicismo romano, catolicismo ortodoxo, o luteranismo se posicionam nestes assuntos. Se você percebeu, a teologia sistemática já é uma boa opção para você analisar a situação, talvez, o ponto de partida. 1. 2 O Movimento Pentecostal Mundial Saiba que o movimento pentecostal surgiu no Ocidente da América, nos Estados Unidos, mas o pentecostalismo americano ainda tem influência de outras correntes teológicas. No século XVII, na Inglaterra, surgiram um grupo de fiéis chamados Quakers, que, em oposição ao domínio católico romano, pregavam o pacifismo, a simplicidade, rejeitavamorganizações clericais, viviam separados, na pureza moral, na prática do pacifismo, da moral e da filantropia. Estes fiéis, que viviam em constante zelo com a espiritualidade e a conduta do dia-a-dia, se consagram literalmente, a fim de serem cheios do espírito Santo. Deste grupo, imigrantes estiveram em solo americano, antes do surgimento do pentecostalismo (Araújo, 2007, p. 586). Dos Quaquers, surgiram os Shakers, ainda na Inglaterra, e este grupo era conhecido pelos mesmos costumes dos Quaquers, mas diferenciavam pela igualdade entre os sexos e no comportamento frenético durante os cultos religiosos. Este grupo também esteve em solo americano e foi um solo fértil para sua religião. Vamos falar agora do Pietismo, um movimento que surgiu no Luteranismo Ortodoxo (veja como há uma diversidade de escolas teológicas até aqui). Com a expansão do luteranismo pós-reforma, as questões pessoais ficaram em segundo plano, assim surgiram fiéis que, insatisfeitos com esta posição, formaram um movimento que valorizava as experiências pessoais dos fiéis com Deus. Era o luteranismo original da reforma, mas, com um foco no ser humano e não tanto na instituição igreja, proporcionando uma diminuição nos credos e confissões. 60TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 O Pietismo Alemão influenciou diretamente o surgimento do Metodismo, por meio de John Wesley, na Inglaterra. Os metodistas protagonizaram uma disputa, que produziu três movimentos no solo americano, todos eles voltados à prática da santidade e busca contínua do Espírito Santo. Vamos destacar o Movimento de Santidade, um dos grupos que surgiu neste ínterim, por volta de 1890, e produziu grandes pregadores do Evangelho. Vamos ser mais diretos, no verão de 1896, houve um avivamento pentecostal na Carolina do Norte, um movimento influenciado por um metodista e um batista, no qual dizem os relatos que aproximadamente 130 pessoas foram cheias do Espírito Santo e começaram a falar em línguas nesta época (Araújo, 2007, p. 586). Foi na cidade de Eudora, no Kansas, que surgiu um jovem chamado Charles Fox Parham, que pregou o Evangelho desde sua adolescência. Parham ministrava a santificação e realizava curas e milagres e, em 1898, fundou um albergue e publicou uma revista “Fé Apostólica”. Chegamos a um ponto em que você vai entender como se origina a teologia pentecostal. Parham fundou uma escola e seu ensino se baseava somente na Bíblia, com ênfase na leitura do Livro de Atos dos Apóstolos, principalmente no batismo do Espírito Santo, realizava cultos intermináveis e momentos de oração fervorosos. Foi em um destes estudos que Parham se convenceu de que a evidência do Batismo com o Espírito Santo era falar em línguas. Em 1905, no sul do Texas, em Houston, ocorreu a grande contribuição de Parham para o pentecostalismo e, ao chegar de suas ministrações, onde havia curas instantâneas e muitos milagres, ele fundou uma Escola Bíblica e um de seus alunos foi o então jovem William Seymour (Araújo, 2007, p. 595). E qual nossa percepção do que é o pentecostalismo? Podemos dizer que é um movimento que surge da prática da Santidade, da busca pelo ser cheio do Espírito Santo, de ter a Bíblia como único instrumento de fé e da evidência em falar em línguas e milagres, juntamente com um culto com uma liturgia mais participativa. Fica claro que é dos movimentos da igreja que a teologia se ocupa e aqui vemos claramente isto acontecendo. O restante da história é muito rico em detalhes, vamos fazer uma pausa por aqui para podermos tirar outras conclusões e mantermos o foco. Haverá vários avivamentos ocorrendo no solo americano, cada um possuirá uma característica mais evidente. Parham mantém contato com Seymour, seu ex-aluno, mas também um discípulo. Porém, Seymour tem seu ministério diferenciado de Parham em pontos onde o próprio Parham não era muito flexível. Nos anos que estavam vivendo, 61TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 havia a diferença de raças e o preconceito nos Estados Unidos. Parham era de cor branca e Seymour, de origem negra. Isto, entre os dois, não era problema, mas, para Parham, ver negros e mulheres à frente de uma obra eclesiástica não era admissível. Foi o que ocorreu, em 1906, Parham visita Seymour e se depara com uma igreja avivada, com negros e mulheres exercendo ministério sobre brancos. Isto irrita Parham e ele acaba por não mais manter contato com Seymour. Bem, o movimento cresceu ainda mais e a corrente teológica pentecostal já era muito forte e expressiva nos Estados Unidos (Araújo, 2007, p. 595 - 607). E o movimento pentecostal na Suécia, de onde são oriundos os missionários da Assembleia de Deus no Brasil? Os relatos de avivamento também seguem como os relatos americanos, porém, nosso jovem Lewi Pethrus foi o protagonista do avivamento sueco. Pethrus, experimentou a mesma sede e as mesmas manifestações de Seymour. Foi um avivamento muito forte, porém, o diferencial da influência de Pethrus no pentecostalismo, foi não se deter ao denominacionalismo, ao contrário do movimento pentecostal americano, o avivamento sueco fez de Pethrus um pastor itinerante e foi nesta caminhada que provocou as experiências dos jovens que iriam aos Estados Unidos, e posteriormente no Brasil (Araújo, 2007, p. 574). Como nosso foco é entender a teologia e não a história da igreja, trazer a vida de Pethrus aqui, seria uma repetição de fatos já conhecidos, então, vamos agora para o nosso território, o Brasil, ver como se deu o início e em que se baseia o pentecostalismo brasileiro. 62 Houve vários movimentos evangélicos no Brasil, anteriores ao ano de 1910, data em que as manifestações pentecostais ganharam visibilidade. Tivemos as Igrejas Reformadas chegando antes no nosso solo. Presbiterianos, Batistas, fizeram a abertura de uma ministração não católica em nossa nação (Araújo, 2007, p. 582). Porém, vamos falar de um italiano cheio do Espírito Santo em solo americano, seu nome Louis Francescon, se converteu ao presbiterianismo e passou a frequentar a Igreja Presbiteriana Valdense. Francescon recebeu uma profecia dias após ser cheio pelo Espírito Santo, onde iria pregar a mensagem pentecostal para o povo italiano. Ele é considerado o fundador da Assembleia de Deus na Itália (Rolim, 1985, p. 36). FIGURA 2 - LOUIS FRANCESCON - CARTÃO DE IMIGRAÇÃO BRASILEIRO Fonte: WIKIMEDIA. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Louis_Francescon_Brazilian_ immigration_card_1947.jpg. Acesso em: 21 set. 2021. O MOVIMENTO PENTECOSTAL NO BRASIL2 TÓPICO TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Louis_Francescon_Brazilian_immigration_card_1947.jpg https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Louis_Francescon_Brazilian_immigration_card_1947.jpg 63TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 Francescon é o responsável pela primeira igreja pentecostal do Brasil, (1910), a Congregação Cristã do Brasil, que depois trocou de nome para Congregação Cristã no Brasil. Antes, Francescon fundou várias igrejas nos Estados Unidos, todas igrejas Ítalo- americanas, também viajaram para a Argentina e fundaram a Igreja Cristã Pentecostal da Argentina (Araújo, 2007). O que precisamos saber é que a motivação e a bagagem trazida por Francescon são oriundas do mesmo pentecostalismo americano que conhecemos anteriormente. Neste mesmo ano, desembarcaram em Belém do Pará, os fundadores da atual Igreja Assembleia de Deus no Brasil, que iniciou com o nome do ministério de Seymour, Missão Fé Apostólica e, seis anos após, adotou o nome que é até hoje. O que precisamos saber sobre os dois assembleianos é que eles enfrentaram muitas dificuldades no Brasil, barreira de idioma, adaptação cultural. A maior dificuldade que tiveram ocorreu na igreja batista, onde frequentaram. Em um trabalho, um jovem começou a falar em línguas e os motivadores foram os suecos, que haviam ministrado ao jovem. Qual foi a repercussão? A igreja batista era ortodoxae eles foram expulsos juntamente com mais 18 jovens no dia 13 de junho de 1911 e, no dia 18 de junho de 1911, surgiu a segunda igreja pentecostal no Brasil, a Missão Fé Apostólica (Moraes, 2014, p. 17). Qual a teologia pentecostal no Brasil? Deixando a história, agora, vamos entender o pentecostalismo todo, inclusive, como ele é no Brasil. Respondendo à pergunta, a teologia pentecostal é fundamenta na Palavra de Deus, a Bíblia, é histórica, e mantém o pensamento teológico dos reformadores quanto às doutrinas cardeais da fé cristã (Salvação, Batismo com o Espírito Santo, Cura Divina e a Segunda Vinda de Jesus Cristo). Ela enfatiza a doutrina do Espírito Santo (pneumatologia). A teologia pentecostal dá ênfase às experiências pessoais do cristão, que podem ser fundamentadas na Palavra de Deus. Segundo Antônio Gilberto (Gilberto, 2008, p. 52), a teologia pentecostal serviu para a contenção de heresias a respeito da doutrina do Espírito Santo: Os pentecostais resgataram a com unhão com o Cristo vivo, ressuscitado, como nos tempos do Novo Testamento. A batalha contra os liberais, os avanços nos estudos sobre o Espírito Santo e os seus dons, com as suas manifestações nos cultos e na vida pessoal de cada crente, são as principais contribuições do pentecostalismo na construção do pensamento teológico do século XX. Com a doutrina do Espírito Santo sendo enfatizada no meio pentecostal, atitudes heréticas eram identificadas e repreendidas ao longo da história da igreja pentecostal. 64TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 Como, então, se resumem as crenças principais do pentecostalismo? Sobre a Salvação (Soteriologia), os pentecostais creem ser uma transformação espiritual milagrosa, operada na alma e no caráter de toda a pessoa que professa Cristo como seu único e suficiente Salvador. Gilberto (2008, p. 334) cita a salvação como algo bem mais abrangente e definido: Não se trata apenas de livramento da condenação do inferno; a salvação abarca todos os atos e processos redentores, bem como transformadores da parte de Deus para com o ser humano e o mundo (isto é, a criação), através de Jesus Cristo, nesta vida e na outra “Rm I3; Hb 7.25; 2 Co 3.18; Ef 3.19”. A soteriologia pentecostal é, geralmente, mais arminiano que calvinista. No pentecostalismo, a fé e o arrependimento são necessários para a salvação e precisam de uma continuidade. No calvinismo, uma vez que a salvação encontra o homem, este é salvo por definitivo, já para o pentecostalismo que é arminiano neste quesito, a salvação precisa ser conquistada continuamente. E sobre o Batismo com o Espírito Santo? Como vimos na história da Igreja Pentecostal, este quesito é fundamental, na prática, pentecostal e, pelo que podemos observar, o referido batismo ocorre mediante um processo de busca incessante de santidade, uma vida de oração e comunhão espiritual. É tido como o prêmio de algo que se deseja ardentemente. O pentecostal não tem como sua preocupação primeira a instituição eclesiástica, os ritos, a teologia crítica, ele busca a completude do Espírito em sua vida, que é fonte de poder, de Graça, algo que realmente completa a relação Deus-Homem. O que é o batismo com o Espírito. É um revestimento e derramamento de poder do Alto, com a evidência física inicial de línguas estranhas, conforme o Espírito Santo concede, pela instrumentalidade do Senhor Jesus, para o ingresso do crente numa vida de mais profunda adoração e eficiente serviço para Deus “Lc 24.49; At 1.8;10.46.1 Co 14.15,26” (Gilberto, 2008, p. 191). Assim, vemos que para o pentecostal, há uma evidência do encher-se no Espírito, primeiramente o manifesto que é o Dom de falar em línguas estranhas e consequentemente, uma vida transformada. Os pentecostais não restringem os recebimentos dos Dons apenas no período dos Apóstolos e no dia de pentecostes. Nesse sentido, eles são “continuacionistas”, que creem que todos os Dons do Espírito que se manifestaram na igreja primitiva, continuam até agora e são necessários para a igreja. 65TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 As línguas estranhas são apresentadas, também, como um dos dons do Espírito Santo (I Co 12.10,30). Quando comparamos as passagens de Atos 2.17 e 19.6, vemos que os dons espirituais podem ser concedidos por Deus no momento do batismo com o Espírito. Como foi o seu batismo? Como você foi ensinado sobre essas coisas da Bíblia? (Gilberto, 2008, p. 184). Dessa maneira, se ao receber o batismo com o Espírito Santo, a pessoa recebe os Dons, embasando o crer pentecostal, pois hoje pessoas são batizadas ainda. Quanto à profecia, para os pentecostais, não há problema em ter a Bíblia como única regra de fé, a Sola Scriptura, mas, como ocorre com os Dons do Espírito Santo, também, os profetas são levantados atualmente. Para o pentecostalismo, ainda estamos no contexto do Livro de Atos, porém, em tempos mais adiantados. A palavra “profecia” tem duplo sentido, primeiro são as profecias bíblicas e históricas, que estão relatadas e eram específicas para o povo de Deus ou a quem Deus quisesse revelar. Segundo a profecia revelada atualmente, é tida como uma “manifestação espontânea da Graça de Deus” e pode ser dada por aquele a quem o Espírito Santo deseje usar. Também faz parte do continuacionismo. Uma das características da dispensação da graça é o fato de Deus se comunicar com cada crente de modo individual, independentemente de sexo ou faixa etária — por meio de sonhos, visões, profecias e até pequenas coisas naturais do dia-a-dia “cf. At 2.17,18” (Gilberto, 2008, p. 52). No meio pentecostal, é muito comum Deus usar pessoas para profetizar para outras, é o ato de manifestação voluntária do Espírito Santo no meio de seu povo. Foi assim que Francescon, Daniel Berguer e outros evangelistas ocuparam seus lugares e deram sua contribuição, através do recebimento de profecias. Sobre o Dom de Línguas (Glossolalia - Xenoglossia) há dois tipos de dons de língua, um o qual o indivíduo expressa sons inteligíveis (a chamada língua dos anjos), que parecem ter sons e dialetos e formas diferentes, nem sempre são iguais e o dom em falar línguas que existem, mas, o próprio indivíduo não as domina. É como se um brasileiro que não sabe japonês, em instantes, dominasse essa língua sem nunca jamais ter estudado. Operação Milagres é outra manifestação no meio pentecostal que tem forte participação na identidade pentecostal, é o Dom de Cura e de Milagres, também está ligado aos dons experimentados pelos apóstolos e que continuam na igreja. Mas, por que estes dons são manifestos e qual a relação com a fé? 66TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 No original, os dois termos que designam este dom estão no plural: “operações de maravilhas”. São operações de milagres extraordinários, surpreendentes, pasmosos; prodígios espantosos pelo poder de Deus, para despertar e converter incrédulos, céticos, oponentes, crentes duvidosos. “Leia João 6; Atos 8.6,13; 19.11; e Josué 10.12-14” (Gilberto, 2008, p. 198). Com essa explicação acerca dos Dons de milagre, concluímos que na teologia pentecostal, todas as manifestações concorrem para trazer o homem para a presença de Deus, reconhecer a soberania divina e dar continuidade a “segurança do crente”, uma doutrina arminiana que defende que os crentes estão seguros no relacionamento com Deus enquanto estiverem perseverantes na fé. Outra característica que está na linha pentecostal é a liberdade de expressão nos cultos e a manifestação independente de ordem litúrgica, estamos falando sobre manifestações conhecidas como dançar no Espírito, ser arrebatado, ter visões. Não vamos entrar em detalhes sobre outras características pentecostais, como os usos e costumes, por exemplo, pois são características que têm a mesma finalidade das demais práticas, abdicar daquilo que é padrão e tendência do mundo atual, que, muitas vezes não considera padrões morais e podem prejudicar a relação do homem com o EspíritoSanto. Com este breve capítulo, procuramos dimensionar o que consiste a teologia pentecostal e como esta linha teológica está presente, tanto no Brasil, como no mundo. Há diferenciação entre o pentecostalismo do Brasil, para o mundo? Não e sim. Os princípios são geralmente os mesmos, mas, alguns ritos de santidade e formas de se obter a ação do Espírito Santo, podem variar, mas, em suma, todos se resumem em busca e aperfeiçoamento no Espírito Santo. 67 Sabemos que o movimento pentecostal é um movimento multifacetado, mas, precisamos identificar suas principais influências a fim de defini-lo o melhor possível. Já falamos sobre o pietismo alemão, que influenciou americanos e suecos. Sobre a influência de grupos norte-americanos e suecos (escandinavos) no pentecostalismo brasileiro, agora vamos definir melhor o que cada grupo influenciou no estilo pentecostal aqui no Brasil (Araújo, 2007, p. 560). Até meados de 1920, as duas influências não eram tão evidentes, porque estavam sendo lançadas as bases da igreja pentecostal ainda, em grande ascendência, a Assembleia de Deus. Destes anos até a década de 1950, a influência era total sueca, pois, estavam sob controle direto de Daniel Berguer e Gunnar Vingren, com o retorno de Vingren para a Suécia, em 1930, outro sueco assumiu a liderança da denominação. Samuel Nyström foi de suma importância para a denominação. Sueco, era um nome fortíssimo na teologia pentecostal. Nas convenções da denominação, ele era quem trazia as decisões teológicas, era excelente orador e escritor, chegou a produzir um livro que vendeu mais de 5.000 exemplares em uma época em que não se tinha muito hábito de ler livros. Isso demonstra a sede de conhecimento que estava no povo assembleiano da época (Araújo, 2007, p. 562). A grande diferença entre as duas tradições, escandinava e norte-americana, estava no estudo teológico. Os escandinavos eram mais práticos, voltados para a obra expansionista, pregação bíblica. Já os americanos eram mais voltados aos estudos exegéticos, seminários, estudo contínuo e minucioso das Escrituras, produção de material teológico, inclusive, foram eles que blindaram o pentecostalismo brasileiro das heresias. TEOLOGIA ESCANDINAVA E NORTE AMERICANA3 TÓPICO TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 68TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 Esta diferença provocava algo ainda maior. Para se formar obreiros nas primeiras décadas sob a liderança escandinava, eram realizados seminários intensivos de três meses apenas e era visada mais a questão prática. Já na década de 1950 em diante, os americanos intensificaram mais o estudo teológico e exigiram mais da formação de seus obreiros, assim, eram necessários mais estudo e tempo para formar novos obreiros. Com esta mudança, logo percebia-se uma clara diferença entre os obreiros, os suecos eram mais abertos, voltados para a prática e os americanos, mais sistemáticos, metódicos. Podemos dizer que os suecos trabalharam o alicerce e os americanos contribuíram com o corpo do pentecostalismo brasileiro (Araújo, 2007, p. 562). Desta forma, entendemos, mesmo que superficialmente, as diretrizes da educação teológica pentecostal no Brasil. Sugerimos a leitura de biografias, como a de Samuel Nyström, Daniel Berguer e Gunnar Vingren, Lawrence Olson e Raymond Calson. São nomes que contribuíram com a teologia pentecostal no Brasil e trazem mais casos ocorridos na construção da identidade teológica deste movimento. 69 São mais de cem anos de pentecostalismo no Brasil. A maior igreja pentecostal do mundo é brasileira e o maior percentual no grupo evangélico são os pentecostais. Estes dados são dados pelo Censo do IBGE no ano de 2012 e, de lá para cá, não mudaram significativamente, pelo menos, informalmente, pois não tivemos outro censo mais recente. Gostaria de chamar a atenção para dois comentários que estão no site do IBGE e que falam sobre os pentecostais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2012, online) no qual diz que: “(...) evangélicos pentecostais (6,2%) são os grupos com as maiores proporções de pessoas de 15 anos ou mais de idade sem instrução (...)” E “Mais de 60% dos evangélicos pentecostais recebem até 1 salário mínimo...são os evangélicos pentecostais o grupo com a maior proporção de pessoas nessa classe de rendimento (63,7%) (...)” Diante dos dados obtidos pelo IBGE, gostaria de demonstrar de uma forma indireta os maiores desafios dos pentecostais no Brasil. Creio, que renda e educação sejam alvo de todos os brasileiros e que os pentecostais não são diferentes também. Mas, esta é a resposta ao nos perguntar qual o maior desafio, tornar-se atraente para outras classes sociais? Abranger níveis maiores na pirâmide social? Não estamos falando de algo discriminatório, apenas utilizando números e dados reais para nós. Acredito que, frente ao crescimento expressivo e, sem dúvida, especial dos pentecostais no Brasil com todo o mérito que são deles, se há um desafio além do espiritual, o social, e pode estar sendo desvendado. Renda e educação são desafio em quase todas as economias e pode estar vinculado a influência externa. Então qual a saída? DESAFIOS ATUAIS DA TEOLOGIA PENTECOSTAL4 TÓPICO TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 70TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 Talvez seguir para o caminho da criação de escolas seculares, gerando emprego além do conhecimento. Destacamos então a Fala do Doutor Ricardo Marinho (2010) em seu artigo na edição 329 da Revista do Instituto Humanitas Unisinos: Depois de um século de presença no país, o pentecostalismo prossegue crescendo majoritariamente na base da pirâmide social, isto é, na pobreza. Embora contenha um contingente de classe média, recruta a maioria de seus adeptos entre os pobres das periferias urbanas. Um de seus principais desafios, portanto, consiste em tornar-se atraente para as classes médias e mais escolarizadas. Nesse terreno, porém, enfrenta uma série de adversários religiosos mais bem-sucedidos, uma vez que as preferências religiosas das classes médias recaem sobre o catolicismo, o kardecismo, o protestantismo histórico, o esoterismo, entre outras. Sua estreita base social circunscrita às classes populares faz com que o pentecostalismo, não obstante sua vertiginosa expansão numérica e seu crescente poder político e midiático, mantenha-se numa posição claramente subordinada no campo religioso brasileiro. Seu baixo prestígio social deriva igualmente de seu relativo sectarismo e de sua crença na posse exclusiva do monopólio dos bens de salvação ou da verdade divina. Modos de ser e de pensar que se chocam com traços básicos da modernidade (Marinho, 2010, p.5 - 7). São palavras que despertam a teologia pentecostal a contribuir com a mudança de um paradigma, um modelo que está sendo desenhado nas últimas décadas. Cabe à teologia pentecostal cooperar com discernimento e enfrentamento dos desafios. Com exceção das denominações que priorizam o evangelismo de massas e realizam cultos em grandes catedrais (...), as igrejas pentecostais tendem a formar comunidades religiosas relativamente estáveis e pequenas. Isto é, elas são compostas por congregações e pequenos templos em que todos se conhecem, residem no mesmo bairro e compartilham coletivamente crenças, saberes, práticas, emoções, valores, os mesmos modos e estilos de vida, moralidade e posição de classe. (...) São laços gerados por meio do contato pessoal, de relações face a face, estabelecidas em frequentes e sistemáticas reuniões coletivas realizadas semanalmente, ano após ano. Eles tendem, assim, a formar relações fraternais de amizade, de confiança mútua e também de solidariedade com os ‘irmãos necessitados’”. A definição é do sociólogo Ricardo Mariano. Na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line, ele entende que “depois de um século de presença no país, o pentecostalismo prossegue crescendo majoritariamente na base da pirâmide social, isto é,na pobreza”. Na sua visão, o baixo prestígio social do pentecostalismo deriva “de seu relativo sectarismo e de sua crença na posse exclusiva do monopólio dos bens de salvação ou da verdade divina. Modos de ser e de pensar que se chocam com traços básicos da modernidade (Marinho, 2010, p. 05). Quando falamos de desafio, temos áreas a definir e cremos que podemos dizer que está sendo exemplar a área espiritual, ficando o desafio maior na área material, onde a conquista de novos níveis sociais seja o alvo para os próximos anos. 71 CONTROVÉRSIA QUINQUARTICULAR - É um termo usado para se referir puramente aos confrontos teológicos calvinista-arminiano do período de 1609 até 1618, uma época em que o debate tinha sérias conotações políticas na Holanda. Quinquarticular, quer dizer, “ter a ver com cinco pontos” e se refere aos pontos de discórdia levantados pelo partido arminiano em sua publicação dos cinco artigos da remonstrância em 1610. Estas foram rejeitadas pelo Sínodo nos Cânones de Dort, sendo em essência o que se conhece como os cinco pontos do calvinismo. A controvérsia marcou a transformação do movimento arminiano para uma organização eclesiástica separada e perseguida na Holanda. Para os arminianos, foi o início de uma total perseguição após a imposição do decreto, enquanto para os calvinistas isso resultou no estabelecimento de pontos claros sobre as doutrinas iniciadas por João Calvino e esclarecidas por Teodoro de Beza. Fonte: História do Debate Calvinista–Arminiano. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2021. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Hist%C3%B3ria_do_debate_ calvinista%E2%80%93arminiano&oldid=61342571. Acesso em: 8 jun. 2021. SAIBA MAIS TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Hist%C3%B3ria_do_debate_calvinista%E2%80%93arminiano&oldid=61342571 https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Hist%C3%B3ria_do_debate_calvinista%E2%80%93arminiano&oldid=61342571 72 SAIBA MAIS A CONFISSÃO DE WESTMINSTER - Foi produzida pela Assembleia de Westminster, convocada pelo Parlamento inglês em 1643, durante a Guerra Civil Inglesa. A Assembleia de Westminster (1643-1649) constituiu o ponto culminante da elaboração confessional reformada. Os documentos teológicos que dela resultaram, a Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve, tornaram-se os padrões doutrinários mais aceitos pelos reformados ao redor do mundo. Na década de 1640, os puritanos ganharam o controle do Parlamento inglês e entraram em guerra contra o rei Carlos I, que queria manter o sistema episcopal. Esse Parlamento calvinista convocou a Assembleia de Westminster, que se reuniu na famosa abadia de Westminster. Seus integrantes foram cerca de 120 ministros puritanos, ao lado de uns poucos, mais influentes, presbiterianos escoceses. Após extensos debates, o texto da confissão foi concluído no final de 1646. FONTE: Confissão de fé de Westminster. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2021. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Confiss%C3%A3o_de_F%C3%A9_de_ Westminster&oldid=61550746. Acesso em: 06 jul. 2021. Você ouviu muito a palavra “divisão”. Você acredita que novas linhas de pensamento teológico estão dividindo ou multiplicando a abrangência do “Reino de Deus”? Isso também é teologia. Fonte: o autor (2021). REFLITA TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Confiss%C3%A3o_de_F%C3%A9_de_Westminster&oldid=61550746 https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Confiss%C3%A3o_de_F%C3%A9_de_Westminster&oldid=61550746 73 Até este ponto do seu estudo de Introdução à Teologia, você consegue identificar uma teologia totalmente brasileira? Fonte: o autor (2021). REFLITA TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 74 Ao final desta Unidade, podemos estar certos de que já conhecemos o principal sobre a Igreja Histórica, sua espinha dorsal, como surgiu a reflexão teológica e como ela seguiu até os dias atuais. Vamos falar na próxima unidade sobre os mais recentes movimentos teológicos que surgiram mais recentemente, mas para você poder fechar o raciocínio com todas as correntes que gerar movimentos significativos na história teológica cristã, o conteúdo desta unidade explica muito, inclusive, sobre a realidade no Brasil. No capítulo de número um, fizemos uma ligação entre o evento que provocou uma ruptura no clero católico romano e o surgimento de uma teologia menos institucional, deixamos claro que quando ocorreu a Reforma Protestante, não houve só um pensamento teológico que surgiu, o próprio movimento reformador precisou contemplar uma pluralidade em seu meio. Fizemos a menção de um crescimento muito expressivo da teologia pentecostal no Brasil, inclusive, é o maior movimento evangélico no nosso solo. Demonstramos como as correntes escandinava e norte-americana trouxeram suas culturas na teologia pentecostal e quais são as suas contribuições para o movimento. E também falamos de como o pentecostalismo brasileiro está após cem anos de existência, dos seus desafios e de uma linha de crescimento. Esperamos que você possa ter emergido neste contexto pentecostal e adquirido o conhecimento para poder se localizar ao se deparar com alguma prática teológica que precise ser interpretada. Hoje, diante daquilo que você estudou, se você é cristão, você poderia dizer que sua comunidade eclesiástica segue qual linha teológica? Luterana, Católica Romana, Evangélica Tradicional, Evangélica Pentecostal? Se você não pertencer a nenhuma delas, tudo bem, talvez você esteja em uma ramificação, mas, você saberia dizer qual foi a raiz teológica mais próxima? Se você continua em dúvida, convido você para a próxima unidade, que vamos estudar o Neopentecostalismo e revisar alguns pontos importantes daquilo que já estudamos. Até a Próxima Unidade!!! CONSIDERAÇÕES FINAIS TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 75 LEITURA COMPLEMENTAR Arminianismo Arminianismo, um movimento teológico no Cristianismo Protestante que surgiu como uma reação liberal à doutrina calvinista da predestinação. O movimento começou no início do século XVII e afirmou que a soberania de Deus e humana, o livre arbítrio é compatível. O movimento foi nomeado em homenagem a Jacobus Arminius, um teólogo reformado holandês da Universidade de Leiden (1603–1609) que se envolveu em um debate altamente divulgado com seu colega Franciscus Gomarus, um calvinista rígido, a respeito da interpretação calvinista dos decretos divinos a respeito da eleição e reprovação. Para Arminius, a vontade de Deus, como amor incessante, foi o iniciador e árbitro determinante do destino humano. O movimento que ficou conhecido como “O Arminianismo”, no entanto, tendia a ser mais liberal do que Arminius. O arminianismo holandês foi originalmente articulado no Remonstrance (1610), uma declaração teológica assinada por 45 ministros e submetida aos Estados Gerais holandeses. O Sínodo de Dort (1618–19) foi convocado pelos Estados Gerais para aprovar a Remonstrância. Os cinco pontos da Remonstrância afirmam que: (1) a eleição (e condenação no Dia do Juízo) foi condicionada pela fé racional (ou não-fé) de cada pessoa; (2) A expiação , embora qualitativamente adequada para todos os humanos, era eficaz apenas para a pessoa de fé; (3) sem a ajuda do Espírito Santo , nenhuma pessoa consegue responder à vontade de Deus; (4) a graça não é irresistível; e (5) os crentes podem resistir ao pecado, mas não estão além da possibilidade de cair em desgraça. O ponto crucial do Arminianismo Remonstrante reside na afirmação de que a dignidade humana requer uma liberdade de vontade intacta. Os remonstrantes holandeses foram condenados pelo Sínodo de Dort e sofreram perseguição política por um tempo, mas em 1630 eles foram legalmente tolerados. Eles continuaram a afirmar tendências liberalizantes eficazes na teologia protestante holandesa. No século XVIII,John Wesley foi influenciado pelo Arminianismo. Na revista Arminian, editada por ele, ele afirmou que “Deus deseja que todos os homens sejam salvos, falando a verdade em amor”. O Arminianismo foi uma influência importante no Metodismo, TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 76 que se desenvolveu a partir do movimento Wesleyano. Uma versão ainda mais liberal do Arminianismo entrou na construção do Unitarismo Americano. Fonte: ENCICLOPÉDIA Britânica. Arminianismo. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/ Arminianism. Acesso em: 17 set. 2021. TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 77 MATERIAL COMPLEMENTAR • FILME/VÍDEO • Título: ESPERO-VOS DOMINGO (COME SUNDAY) • Ano: 2018. • Sinopse: Uma crise de fé leva o pastor Carlton Pearson a trilhar um novo caminho espiritual que coloca em risco tudo que lhe é mais sagrado. • Link: https://www.netflix.com/br/title/80152625. • LIVRO • Título: Teologia Sistemática de Norman Geisler • Autor: Norman Geisler. • Editora: CPAD. • Sinopse: Mediante uma abordagem filosófica, você obterá o conhecimento necessário sobre as principais doutrinas do Cristianismo. • WEB • Caros alunos, a seguir temos o link de um vídeo no qual abordamos sobre a “Reconstituição da Chegada dos Missionários”. • Link: https://youtu.be/8MlxpTC2gsg. TEOLOGIA PENTECOSTALUNIDADE 3 Professor Esp. Érlon Migliozzi PRÁTICAS TEOLÓGICAS4UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 79 Plano de Estudos • Teologia Neopentecostal; • Tradição; • Teologia Fundamental, Dogmática e Moral; • Teologia Moderna. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar a Teologia Neopentecostal. • Compreender os tipos de disciplinas Teológicas Acadêmicas Básicas. • Estabelecer a importância da Tradição e da Teologia Moderna. PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 80 Caro (a) aluno (a), Chegamos à quarta e última Unidade de nosso estudo da disciplina Introdução à Teologia, esta unidade vem consolidar a parte introdutória da Teologia, como disciplina acadêmica. Após as disciplinas introdutórias e de conteúdo bíblico, ético e moral e acadêmico, agora vamos ser apresentados à primeira matéria, que, de fato, representa o curso e seu propósito. De uma forma direta, demonstraremos como o conteúdo teológico é formado na história da Igreja, através dos acontecimentos que culminaram em eventos históricos religiosos de grande significado. Logo no primeiro capítulo tratamos do Neopentecostalismo, um movimento no qual tem sua teologia definida e sua posição em destaque, porque trata-se do movimento que mais cresce no Brasil e é constante alvo de reflexões na teologia. Falar sobre neopentecostalismo é falar de um fato e uma tendência, mas igualmente foram os movimentos anteriores, este, poderá dar origens a outras linhas teológicas? Posteriormente, no segundo capítulo, trataremos sobre a chamada “Tradição”. Tanto para católicos e protestantes, também é um ponto de teologias e identidade. A tradição é um objeto que acompanha paralelamente à Palavra de Deus, é mais que um simples capítulo contínuo da história da Igreja. Nesse ponto, a teologia clássica e a teologia contemporânea buscam falar sobre a Revelação. No terceiro capítulo, vamos tratar de três blocos de disciplinas acadêmicas que necessariamente devem se formar em sua grade curricular. A Teologia Fundamental, Dogmática e Moral trazem os princípios para a formação do conteúdo teológico. E finalmente, vamos falar sobre a Teologia moderna e nos inclinarmos mais para a tendência de assuntos e conflitos que podem surgir em meio às mudanças sócio-políticas mundiais, embora os grandes movimentos religiosos de hoje surgiram pequenos e em locais normais e assumiram grandes proporções. Lembre-se: “É só Introdução à Teologia”. Um ótimo estudo e vamos juntos!!!! INTRODUÇÃO PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 81 Muito bem, chegamos ao movimento contemporâneo da teologia, sua ramificação teológica expressiva mais nova (1970). Vamos falar agora sobre o neopentecostalismo ou terceira onda do pentecostalismo. Neopentecostalismo quer dizer um “novo Pentecostes”, mas, na sua questão de interpretação, não quer dizer sobre um novo derramamento do Espírito Santo e tampouco uma nova ação milagrosa, antes não revelada, ou um novo “dom” do Espírito inédito (Mariano, 1999). Talvez você se pergunte também por que a terceira onda do pentecostalismo. A primeira foi o movimento relatado no Livro de Atos, capítulo de número dois, e a segunda onda foi o pentecostalismo “tradicional” ou “clássico” que vimos na unidade anterior. Note que a onda produz movimento, portanto, a terceira onda (que produz o movimento) do neopentecostalismo é a onda do momento, ou seja, é o mais novo movimento teológico. É importante dizer que esta onda não perde bases bíblicas, portanto, não tem como neopentecostalismo, as teologias liberais (liberais porque se usam de outros princípios também) como: teologia feminista, teologia liberal, entre outras. Vamos entender um pouco mais sobre esta teologia. O que se define como característica teológica o neopentecostalismo? Lembre-se de que trouxemos um tópico na unidade anterior falando sobre os desafios dos pentecostais no Brasil. Cremos que, na metade da década de 1970, isso já havia sido pensado. O novo pentecostalismo difere do pentecostalismo clássico no aspecto da santidade, pois rejeita as práticas de usos e costumes e tem seu foco na prosperidade dos seus adeptos, ou seja, os TEOLOGIA NEOPENTECOSTAL1 TÓPICO PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 82PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 bens terrenos são sinal de comunhão com Deus. A ideia de raiz petista, em que o homem deixa as coisas do mundo para se separar para que Deus derrame o seu Espírito para manifestar poder e criar mais intimidade com o homem, no novo pentecostes, não é assim: No plano teológico neopentecostal, caracterizam-se por enfatizar a guerra espiritual contra o Diabo e seus representantes na terra, por pregar a Teologia da Prosperidade, difusora da crença de que o cristão deve ser próspero, saudável, feliz e vitorioso em seus empreendimentos terrenos, e por rejeitar usos e costumes de santidade pentecostais, tradicionais símbolos de conversão e pertencimento ao pentecostalismo (Mariano, 1999, p. 124). De acordo com Mariano, o novo movimento se caracteriza pela ênfase na “guerra espiritual”, o que seria isso? Não é necessário analisarmos muito ou trazermos concepções de outros pensadores e teólogos aqui. Vamos fazer uma reflexão teológica sobre o assunto. Na teologia católica romana, o homem dependia de Deus e da Instituição para alcançar a Salvação de sua alma, correto? Com a Reforma Protestante, o homem passa a conhecer uma “Graça de Deus” mais libertadora ainda, não há mais indulgências e o homem conhece a Graça imerecida, irresistível, ou seja, é Deus puro na questão da Salvação. Com o pentecostalismo tradicional, o homem depende de Deus e a “Segurança do Crente” é mantida enquanto o fiel estiver debaixo da vontade de Deus, OK? Qual é a descoberta agora? O neopentecostalismo coloca a Graça de Deus e a Segurança do Crente, condicionada à ação do “inimigo” o Diabo, ou o próprio Satanás, como preferir, e na ação de seus demônios. Em alguns seguimentos do novo pentecostalismo, você precisa repreender a ação demoníaca sobre sua vida constantemente e, em outros, você precisa repreender e cumprir os mandamentos. Você conseguiu entender esta simples explicação? Podemos tecer comentários acerca disto? Sim, mas vamos conferir como surgiu tudo isso antes de tomarmos nossas conclusões. Lembre-se de que a teologia tem seu conteúdo e esse conteúdo surge em meio à igreja, à comunidade. Como surgiu o neopentecostalismo? Um estudo só termina quando se esgota toda a ciência sobre o assunto. A teologia não tem um ponto final definitivo. Na unidade anterior, colocamos o que o IBGE apontou como o momento do pentecostalismo brasileiro: expressivo na massa mais carente e compouca expressão em faixas sociais mais elevadas. Pois bem, isso foi há dez anos e não mudou muito realmente, mas apresenta sinais de mudança. Já existem vários empresários declarados pentecostais, seminários teológicos, escolas de nível básico e médio, pertencentes aos pentecostais, que surgem no país com frequência. 83PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 O pentecostalismo está caminhando, sim, mas não é um movimento midiático, não é um movimento que quer crescimento abandonando raízes teológicas, o pentecostalismo preza por um crescimento coerente. O que isso quer dizer? Quer dizer, que a teologia do novo pentecostes ocupou o lugar que o pentecostalismo não buscou, a comunicação com a grande massa, não poupou tempo e investiu em programas de TV, rádios, e trouxe algo que preenche com algo a mais a alma sedenta. Surge um evangelho de Jesus Cristo que apresenta pontos de contato visíveis e palpáveis, um evangelho cuja missão é apresentar resultados e este resultado é mudança para uma vida melhor. TABELA 1 - EVANGÉLICOS NO BRASIL Evangélicos (em milhões de Fiéis) Protestantes Tradicionais 7,7 Não Determinados 9,2 Pentecostais e Neopentecostais 25,3 Total Evangélicos 42,2 Fonte: Censo IBGE, 2010. Não podemos afirmar e nem sermos ignorantes ao ponto de não reconhecer que haja milagres, curas, no meio neopentecostal, afinal, Deus opera como ele deseja, mas os líderes do neopentecostalismo utilizam a demonstração das curas e milagres para a autopromoção. Esta autopromoção fica evidente com as chamadas e os convites que enfatizam que em tal denominação Deus irá fazer e o proselitismo religioso começa a provocar vai e vem de fiéis. Este artigo não está contra este movimento, de maneira nenhuma, pois se uma pessoa alcançar uma bênção e glorificar a Jesus por isso, dando-lhe o crédito, quem serei eu em ser contra? “E a Jesus Glória!”, esse é um princípio que cogito como correto e idôneo. Mas, vamos para a história, ela nos demonstrará este resumo. Não, em 1950, os missionários americanos realizaram uma tentativa de montar um ministério voltado para a teologia neopentecostal que conhecemos hoje: O segundo grupo de igrejas implantado no Brasil, que não obteve nomenclatura consensual na literatura acadêmica, começou na década de 1950, quando dois missionários norte-americanos da International Church of The Foursquare Gospel criaram, em São Paulo, a Cruzada Nacional de Evangelização. Por meio dela, iniciaram o evangelismo focado na pregação da cura divina, que atraiu multidões às concentrações evangelísticas na capital paulista e acelerou a expansão do pentecostalismo brasileiro. Em 1953, fundaram a Igreja do Evangelho Quadrangular no Estado de São Paulo. No rastro de suas atividades de evangelização, surgiram Brasil Para 84PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 Cristo (1955, SP), Deus é Amor (1962, SP) e Casa da Bênção (1964, MG). Os missionários da Quadrangular conferiram ênfase teológica à cura divina, seguindo o bem-sucedido movimento de cura propagado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Como estratégia proselitista, além da ênfase na cura, essa vertente pentecostal notabilizou-se pelo intenso uso do rádio e pela pregação itinerante com o emprego de tendas de lona (Mariano, 1999, p. 123). A Igreja Universal do Reino de Deus é nosso ponto de referência nesta análise e, para tal, vamos observar o seguinte: o pentecostalismo precisou de 100 anos para consolidar duas igrejas de expressão, a Assembleia de Deus e a Congregação Cristã no Brasil. A Congregação Cristã teve seu perfil mais sectário, se isolou das demais denominações, mas está em expressão ainda. A Assembleia de Deus evoluiu de forma diferente, criou uma convenção e se divide em vários ministérios e sua teologia é compartilhada para outras denominações pentecostais. Se considerarmos o tempo de existência da IURD, com toda certeza, vamos constatar um crescimento mais rápido que as igrejas pentecostais. Antes, precisamos esclarecer que a IURD não foi a única denominação a construir a teologia neopentecostal: O neopentecostalismo teve início na segunda metade dos anos de 1970. Cresceu, ganhou visibilidade e se fortaleceu no decorrer das décadas seguintes. A Universal do Reino de Deus (1977, RJ), a Internacional da Graça de Deus (1980, RJ), a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (1976, GO) e a Renascer em Cristo (1986, SP), fundadas por pastores brasileiros, constituem as principais igrejas neopentecostais do país (Mariano, 1999, p. 123 - 124). A IURD surgiu com a divulgação do Evangelho de forma simples, exercendo uma valorização dos Ritos Sagrados, algo que no pentecostalismo havia sido deixado em últimos planos. Por exemplo: no pentecostalismo, as assembleias de Deus promoviam cultos ao ar livre. Nestes cultos, havia curas, libertação e apelos aos que queriam seguir sua doutrina e entregar sua vida para Jesus. Na IURD, os trabalhos são rigorosamente ocorridos dentro de seus templos, é ali que está a unção de cura e bênção divina, assim, o fiel precisa ir ao templo, não é qualquer lugar, algo que nos remete a nossa origem católica romana. Veja a tabela a seguir: 85PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 TABELA 2 - EVANGÉLICOS NO BRASIL Pentecostais (em milhões de Fiéis) Assembleia de Deus 12,3 Congregação Cristã do Brasil 2,28 Igreja Universal do Reino de Deus 1,87 Igreja do Evangelho Quadrangular 1,80 Fonte: Censo IBGE, 2010. Assim, o novo pentecostalismo traz uma cultura religiosa de reverência e com o toque de liberdade. Assim, exemplifica Ricardo Mariano: Encabeçado pela Igreja Universal, o neopentecostalismo é a vertente pentecostal que mais cresce atualmente e a que ocupa maior espaço na televisão brasileira, seja como proprietária de emissoras de TV, seja como produtora e difusora de programas de televangelismo. Do ponto de vista comportamental, é a mais liberal. Haja vista que suprimiu características sectárias tradicionais do pentecostalismo e rompeu com boa parte do ascetismo contracultural tipificado no estereótipo pelo qual os crentes eram reconhecidos e, volta e meia, estigmatizados. De modo que seus fiéis foram liberados para vestir roupas da moda, usar cosméticos e demais produtos de embelezamento, frequentar praias, piscinas, cinemas, teatros, torcer para times de futebol, praticar esportes variados, assistir à televisão e vídeos, tocar e ouvir diferentes ritmos musicais. Práticas que, nos últimos anos, também foram sendo paulatinamente permitidas por igrejas pentecostais das vertentes precedentes, com exceção da Deus é Amor, que manteve incólume a velha rigidez ascética. Em todas as vertentes permanece, porém, a interdição ao consumo de álcool, tabaco e drogas e ao sexo extraconjugal e homossexual (Mariano, 1999, p.124). Ao analisarmos este contexto, vamos perceber que o neopentecostalismo é a corrente mais inclinada a acomodar a sociedade abrangente e a seus valores, interesses e práticas. A igreja apresentou-se com estratégia, valorizou a liberdade contemporânea, agiu de forma Paulina, como diz na carta de Paulo aos Coríntios: Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais. E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns. E eu faço isto por causa do evangelho, para ser também participante dele (Bíblia, I Coríntios 9, 21 - 23). 86PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 Quanto à fundação da IURD, ocorreu em 1977, na Zona Norte do Rio de Janeiro, no local onde era uma pequena funerária. Em trinta anos, já era o maior fenômeno religioso na mídia e destacava-se tambémno campo religioso. Mariano (1999, p.125) pontua que: Um dos principais responsáveis pela constituição desse verdadeiro império religioso, o fluminense Edir Bezerra Macedo, seu líder e fundador, tornou-se crente evangélico aos dezoito anos, ingressando na Igreja de Nova Vida por meio da influência de uma irmã. Antes era católico e frequentava a Umbanda. Permaneceu na Nova Vida de 1963 até 1975, quando, contrariado com seu elitismo de classe média, deixou-a para fundar a Cruzada do Caminho Eterno. Dois anos depois, nova cisão: saiu para formar, junto com outros crentes, a Universal do Reino de Deus. Algo importante que precisamos saber é que houve um crescimento de Edir Macedo na liderança da IURD. O então líder Soares perdeu espaço para Edir diante da crescente popularidade que ele adquiria nos programas que apresentava e isso culminou com a saída de Soares juntamente com Roberto Augusto Lopes da IURD. Soares fundou então sua denominação e Lopes retornou para a política. Foi o primeiro Deputado Federal eleito na IURD. E Edir Macedo implantou o sistema Episcopal na IURD em 1990 e se tornou vitalício no cargo, mas problemas com a justiça o fizeram abdicar. Mariano (1999) nos diz: Em 1980, implementou o governo eclesiástico episcopal, no qual assumiu o posto de bispo primaz e o cargo vitalício de secretário-geral do presbitério, cargo do qual renunciaria em 1990 para evitar que eventuais sanções penais contra si atingissem a igreja (Mariano, 1999, p. 127). E neste período, a IURD sofreu fiscalização da Polícia Federal e Edir Macedo precisou sair do Brasil, assim que pode, e com isso fundou a IURD em solo americano, algo que contribuiu para o crescimento denominacional, posteriormente, em vários outros países. 87PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 FIGURA 1 - IGREJA UNIVERSAL NO EXTERIOR https://www.shutterstock.com/image-photo/hialeah-fl-usa-april-2021-facade-1958839906 Hialeah, FL, EUA: abril de 2021: Fachada da Igreja Universal do Reino de Deus em Hialeah, Flórida. Entidade local de culto. Teologia, Bíblia e Deus. Como podemos ver na foto acima, a Igreja Universal e o neopentecostalismo alcançaram pontos fora do Brasil. Assim, demonstra Ricardo Mariano: Nesse período conturbado da história da Universal, Macedo procurou rarear sua presença no Brasil e estendê-la nos Estados Unidos, onde fundara uma filial em 1986. Decidiu, então, nomear o pastor Renato Suhett para substituí- lo na direção da igreja no Brasil, para logo em seguida enfraquecê-lo, ao transferir funções administrativas a outros bispos e dividir o poder eclesiástico em quatro regiões no país. Em meados da década de 1990, consagrou dezenas de novos bispos para assumir funções de direção em nível regional, estadual e nacional. Para evitar cismas, reestruturou o poder eclesiástico, criando três instâncias hierárquicas: Conselho Mundial de Bispos, Conselho de Bispos do Brasil e Conselho de Pastores. Com isso, a igreja manteve os princípios de verticalidade e concentração de seu governo episcopal, que continuou encimado por Macedo (Mariano, 1999, p. 130). Então, acreditamos que você já conhece o necessário para entender como a teologia praticada no neopentecostalismo se originou. É necessário compreender que o modelo no https://www.shutterstock.com/image-photo/hialeah-fl-usa-april-2021-facade-1958839906 88PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 qual a IRD apresentou foi algo extremamente diferente daquilo que a religião brasileira conhecia. Templos abertos 24 horas por dia, a santidade praticada de modo diferente do catolicismo e do pentecostalismo, uma abordagem midiática, uma relação de benefício para quem serve a Deus (não há necessidade de abdicação e santidade do pentecostalismo). Outro fato importante é que Edir Macedo até montou um Seminário Teológico para sua denominação, mas, quando viu que isso tiraria o tempo de seus pastores, decidiu fechar o seminário. A educação passou a ser dirigida pelo próprio Edir Macedo para seus líderes através dos meios de mídia digital. Não nos opomos às linhas teológicas existentes, enquanto teólogos, pois é nosso conteúdo de reflexão, só podemos manifestar nossa opinião quando é pertinente. Precisamos saber que cada indivíduo, professor, aluno, fiel, tem a sua crença e cabe-nos, quando solicitado, dar a devida orientação para a razão cumprir seu papel crítico e arrazoe a fé existente. Portanto, através deste capítulo, nós encerramos o conteúdo sobre as origens teológicas predominantes, agora, nos próximos capítulos desta unidade, vamos tratar alguns assuntos pertinentes ao nosso conhecimento. Será que existe tradição na IURD, nas Igrejas Pentecostais e na Igreja Católica Romana? E nas Igrejas Protestantes? 89 TRADIÇÃO2 TÓPICO PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 Tradição, segundo o dicionário, tem o sentido de “entregar”, e quer dizer “passar adiante”, é uma comunicação que ocorre por uma ou várias vias, oral, escrita, etc (Tradição, 2021, online). Ela revela um conjunto de comportamentos, costumes, rumores, memórias, crenças, lendas, práticas, doutrinas e leis transmitidos para indivíduos de uma comunidade, fazendo parte da cultura. Podemos dizer que faz parte da continuidade do passado (Japiassú; Marcondes, 1993, p. 269). Na Igreja Católica, a tradição é algo muito ímpar, porque é e traz a base do conhecimento, leis e regras acerca de tudo o que a Igreja construiu ao longo dos séculos. Na teologia católica a tradição se divide em Oral e escrita (igual ao judaísmo), sendo: Oral – Consiste no testemunho dos apóstolos acerca da revelação de Jesus Cristo, os quais delegou os apóstolos para a continuação da mensagem do Evangelho e posteriormente passada para a liderança da Igreja, para o Papa, sendo a continuação dos apóstolos. Escrita – São os Testamentos ou Evangelhos, que contêm a parte escrita e inspirada do testemunho dos apóstolos. A Igreja Católica diz que nem toda a tradição oral foi registrada e que, ainda hoje, ela é transmitida de geração para geração e através da “Revelação” que o “Magistério” é exercido na instituição católica romana. Esta autoridade do Magistério é soberana e definiu o Cânone Bíblico, por exemplo. As primeiras Igrejas Reformadas consideram que a Bíblia é uma autoridade superior à tradição da Igreja, pois é a Palavra direta e inspirada de Deus, ou seja, é a fonte primária 90PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 da fé cristã. A Igreja Luterana tem uma tradição mais ligada à teologia reformada, porém mantém alguns costumes pré-reforma no sentido dos ritos e sacramentos. E assim, cada grupo religioso terá sua tradição, cabe ao teólogo respeitá-las como objeto de encontro das razões para as práticas religiosas. Identificar as tradições existentes de uma comunidade faz parte da cosmovisão. Para trabalhar com a Tradição, é necessário despir-se de preconceitos e imergir no ambiente eclesiástico com que está tendo contato. Trazemos este breve tópico neste momento do estudo, porque é algo que precisa ser entendido para um bom conhecimento teológico. Sabemos que ao nos introduzirmos na Teologia Católica, teremos um conteúdo diferente do conteúdo da Teologia Reformada, isto pode ser grosseiramente entendido como ponto de vista, mas é algo maior, envolve regras e construção de teorias. Além disso, reflete a história teológica do grupo com que se está tendo contato. Qual a tradição que você está tendo contato? Como é a tradição da igreja à qual você frequenta? Fica uma dica para uma ótima reflexão teológica. 91 TEOLOGIA FUNDAMENTAL, DOGMÁTICA E MORAL3 TÓPICO PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 Na teologia, encontramos áreas do saber distintas, que formam a grade acadêmica nos assuntos imprescindíveis da teologia. Existem disciplinas curriculares obrigatórias que formam grandes núcleos básicos e disciplinas optativas ou específicas, que podem ou não ser vistas num curso de teologia. Há várias maneiras de se formar uma grade de um curso de teologia,o estudo que tem como objeto o próprio Deus e suas interações. Abordaremos a sua criação, qual o ponto em que ela se diferencia da filosofia e da ciência e qual sua parte comum. Continuaremos nosso estudo tratando dos fundamentos teológicos e os métodos que a ciência utiliza, afinal, como é estudar sobre o divino? Provavelmente não é tão complexo quanto imaginamos. Temos o conceito de que teologia é algo que se pratica nas paredes da igreja, porém, através do tópico Teologia Acadêmica e Ciência, vamos entender então que na teologia temos muito o emprego da razão para dar confiança ao processo da fé. Finalmente, desmistificamos um termo que muitos acreditam ser uma teologia paralela à teologia acadêmica, a teologia Bíblica, que tanto atrai alunos e fala tanto de espiritualidade. Sendo assim, convido você a entrar neste aprendizado que realmente se propõe a introduzir o estudo teológico na sua grade acadêmica, de forma simples e bem sistematizada, para que seu aprendizado produza uma teologia prática em sua vida e você possa optar em qual nível teológico deseja estar. Um ótimo estudo e vamos juntos!!!! CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 9 A HISTÓRIA DA TEOLOGIA1 TÓPICO 1 Nada mais sugestivo na disciplina de Introdução à Teologia, como o seu próprio enunciado. A palavra introdução, segundo o dicionário Oxford e Aurélio, possui uma particularidade comum em seu significado, eles atribuem o mesmo sentido à palavra, como, sendo, “o ato ou efeito de abrir, ou dar início a uma tese”. Portanto, entendemos que essa disciplina precisa ser o início de uma grade acadêmica, ou dar o sentido inicial a ela, assim, como toda introdução, vamos falar muito sobre a história, vamos buscar entender a origem da Teologia em suas diferentes correntes de interpretação e filosofias. A Teologia, como ciência, é um assunto muito importante no seguimento religioso, porém, não está limitada, atualmente, somente ao estudo religioso ou acadêmico, com vistas ao sacerdócio ou ao próprio ambiente interno eclesiástico. Atualmente, a Teologia tem se destacado para dar compreensão e entendimento em ambientes coletivos dos mais diversos, ambientes corporativos, clínicos, por exemplo. Sabendo que nossa disciplina fala de Teologia, vamos conceituar esta palavra. De acordo com dois teólogos referenciados no assunto, o Doutor João Batista Libânio e o Doutor Afonso Murad. Primeiramente, o conceito da Palavra Teologia se resume em: O termo teologia compõe-se etimologicamente de dois termos, que lhe definem já grandemente a natureza: THEÓS + logía = Deus + ciência. No centro está Deus, seu objeto principal. Qualquer reflexão teológica refere-se de alguma maneira a Deus. Ao determinar-se mais exatamente o estatuto teórico, ver-se-á como tal referência se produz (Libânio; Murad, 1996, p. 63). CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 10 A palavra “teologia” teve sua origem no mundo grego, com Platão, se referindo aos que discursavam sobre os deuses (Boff, 1998 [1944], p. 550). O conceito de teologia tem uma função tripla e é facilmente observado. Suas funções são: Crítica, Pedagógica e Política, crítico porque tem o caráter investigativo e interrogativo, pedagógico porque pode modificar o caráter individual e coletivo e político porque se origina e se forma com tal postura. Posteriormente, Aristóteles, aprendiz de Platão, vai atribuir à teologia um cunho filosófico, limitando à mesma a teoria (Boff, 1998 [1944], p. 554). É importante analisar que a teologia surgiu com a busca pelo “logos”, ou seja, o “divino”. Com a criação dos mitos, conhecidos desde a Grécia Antiga, para descobrir a origem de determinados fenômenos, principalmente os naturais, o homem começou a se deparar com a realidade de um mundo invisível, metafísico, o qual era o desencadeador de determinados fenômenos. De outro modo, podemos dizer que o homem começou a ter razão de um mundo além do visível e a necessidade de entendê-lo. FIGURA 1 - SANTO AGOSTINHO (AGOSTINHO DE HIPONA) Fonte: https://www.shutterstock.com/image-photo/turin-italy-march-15-2017-fresco-671249005 Turim, Itália - 15 de março de 2017: O afresco de Santo Agostinho médico da igreja na cúpula da Igreja Basílica Maria Auxiliatriz por Giuseppe Rollini (1889-1891). CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 11 Foi no século IV que o conceito da Teologia adquiriu um significado cristão, por meio de Agostinho de Hipona, o qual definiu o termo como “raciocínio ou discussão sobre a Deidade”. O “start” para o pensamento teológico é que o divino existe sendo manifesto através do físico ou sobrenatural. Nesta época, a teologia está sendo desenvolvida no ambiente religioso apenas. Alguns filósofos e religiosos buscam trazer a razão da fé, como o próprio Agostinho, de uma forma mais real aos períodos anteriores (Boff, 1998 [1944], p. 554). Vamos revisar e resumir até este ponto do nosso estudo: O conceito de teologia se inicia no período pré-Socrático, mas, é com Platão que surge o termo "teologia''. Os filósofos pré-socráticos rejeitavam explicações simples e tradicionais sobre os “mitos”, assim, eles introduziram questionamentos como: De onde tudo vem? Do que tudo é criado? Entre outros questionamentos, assim, entendemos que o conceito da teologia estava sendo desenvolvido pela primeira vez, ou, que se tem conhecimento. Platão (380 a.C.) vem na sequência e de uma forma simples, utiliza o termo pela primeira vez em referência a compreensão da natureza divina, no seu livro “A República”, no Livro II, Capítulo 18, ele traz a teologia com o sentido de “discurso sobre Deus”. Logo após, Aristóteles, em seus escritos de Metafísica, emprega numerosas vezes o termo, mas, com duplo sentido, primeiro como ramo fundamental da filosofia e em segundo plano como denominação do pensamento mitológico, anterior à filosofia. Aristóteles, em suas teorias, apresenta uma forma de divisão da filosofia, sendo: a matemática, a física e a “teologia” (teologia, esta, semelhante à metafísica). No Séc. IV d. C., Agostinho de Hipona adota o nome e o conceito de teologia como um raciocínio ou estudo de Deus. Neste período, conhecido como Patrística, a teologia se conceituou como referência ao conhecimento e ao ensino sobre a natureza de Deus. Já na Escolástica, passou a ser a disciplina acadêmica que adotava como método a racionalização das doutrinas da religião cristã. Foi a partir do século XVII que começou a usar o termo teologia para se referir ao estudo de ideias e ensinamentos religiosos “que não são especificamente cristãos”, inclusive. O termo teologia não se resume apenas ao meio cristão, pode ser utilizado pelos vários segmentos de fé que atribuem uma relação divina em sua crença, como, budismo, umbanda e outras religiões. Fazer teologia é fazer ciência, mas, além do exercício de razão, a Teologia tem como componente principal a fé, que extrapola, em muitas vezes, a razão. Vemos que a história da teologia demonstra claramente que ela veio para contribuir com a fé, para dar base para crenças e alicerçar o conhecimento dos atributos e das relações de Deus com os homens e a natureza. CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 12 2. 1. Fé e Razão: Os fundamentos ou métodos do estudo teológico se concentram em suas “Fontes de Conhecimento e Princípios Básicos”. No estudo da teologia, dois componentes são fundamentais para a compreensão da matéria: o primeiro é a Fé e o segundo, a Razão. Assim, vamos utilizar a Fé, como ponto inicial, para organizarmos nossa linha de raciocínio. Veja a definição do teólogo Euler Renato Westphal (2010): O método em teologia diz respeito à maneira e o ponto de partida com que se desenvolve a reflexão teológica. Podemos partir da premissa de uma postura ateia, ou de uma postura anti-intelectual, ou da afirmação às Escrituras ou, ainda, de suspeita às Escrituras. Podemos partir de uma concepção liberal de Jesus, que vê Cristo somente como exemplo de um ser humano de moral elevada. Podemosporém vamos falar e apresentar estas disciplinas básicas de uma perspectiva acadêmica (Libânio; Murad, 1996, p. 215). A Teologia Sistemática ou Dogmática compreende várias disciplinas resultantes da elaboração teórica da Igreja durante os dois mil anos do cristianismo. Veja como o doutor Libânio descreve o conjunto da Dogmática: A matéria-prima da dogmática é o dado revelado, aprofundado, reinterpretado e enriquecido pela tradição viva e regulada pelo magistério, no correr da história. Normalmente, os institutos privilegiam, na carga horária, as disciplinas centrais: cristologia, eclesiologia, sacramentos (em geral, e especificamente os sete sacramentos), Trindade, antropologia teológica (criação, pecado, graça e salvação). A dogmática abarca ainda pequenos tratados como a escatologia e a mariologia (Libânio e Murad, 1996, p. 224). Alguns autores preferem o termo “Sistemática” e não “Dogmática”, porém, são o mesmo. Assim, evita-se o risco de se concentrar em fórmulas e métodos dogmáticos e pende-se para um lado da compreensão do processo orgânico de autocompreensão da fé. A Teologia sistemática tem diferentes abordagens nas Tradições Eclesiásticas: 92PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 Com a dogmática-sistemática, entra-se na principal área diferenciadora da teologia católica, em relação aos evangélicos e ortodoxos. Os grupos cristãos não-católicos veem com certa desconfiança o excessivo peso que a teologia católica dá à dogmática. Os evangélicos acentuam mais a teologia bíblica, aceitando a dogmática elaborada pelos primeiros concílios ecumênicos. Entretanto, na atualidade, alguns teólogos protestantes, como K. Barth, P. Tillich, W. Pannenberg e Moltmann entre outros, têm elaborado excelentes, profundos e amplos tratados de sistemática, oferecendo valiosa contribuição para suas igrejas e para os companheiros católicos. Os ortodoxos vão um pouco além dos evangélicos, ao aceitar as afirmações dogmáticas até a patrística tardia, bem como alguns pronunciamentos do magistério católico. Movem-se, no entanto, em outra esfera de reflexão, mais tradicional e mística e menos especulativa, se compreendida sob o ponto de vista ocidental (Libânio e Murad, 1996, p. 225). A Teologia Fundamental é uma disciplina que lança as bases do conhecimento teológico e arrasa sobre os fatos que integram a realidade cristã. Assim, uma das definições que mais se encaixa no contexto da realidade da teologia fundamental é: A teologia fundamental não explicita todos os conteúdos decisivos do ato de crer, função que cabe à dogmática. Explicita o ato de crer em suas diversas dimensões: de razoabilidade e mistério, de liberdade e necessidade, de conhecimento e compromisso etc (Libânio e Murad, 1996, p. 213). É o setor da teologia que mais está relacionado com os eventos e mentalidade contemporânea, é ela quem está mais próxima do diálogo com a ciência e o saber humano. “Valoriza sobremaneira a experiência existencial e religiosa, visando identificar aí os pontos de inserção da fé.” (Libânio e Murad, 1996, p. 213). O primeiro bloco da Teologia Fundamental é a disciplina Introdução à Teologia, que tem o seguinte resumo conceitual: (…) basicamente mostra em que consiste o conhecimento teológico, caracteriza seu estatuto epistemológico e método, recorda os grandes passos de sua história e aponta suas tarefas hodiernas (Libânio e Murad, 1996, p. 213). No segundo bloco da Teologia Fundamental, está o círculo hermenêutico da existência cristã, parte da Revelação, que encontra na encarnação e nos ensinos de Jesus sua plenitude. Mostraremos a seguir os elementos constitutivos da fé e seus graus de explicitação: Reflete sobre as condições básicas que possibilitam a experiência de fé em determinado contexto sócio histórico e cultural. Cabe ainda à fundamental descortinar como se faz o processo de interpretação do evento cristão, na relação viva entre Revelação, Fé, Escritura, Tradição e Sinais dos Tempos (Libânio e Murad, 1996, p. 214). A teologia fundamental é entendida hoje mais comumente como a reflexão sobre a primeira realidade cristã, a revelação de Deus, testemunhada de 93PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 modo pleno por Jesus Cristo. Reflexão, portanto, sobre os fundamentos da dogmática, feita de maneira crítica, mas conduzida pela fé, desvendando- lhes os motivos de credibilidade (Libânio e Murad, 1996, p. 214). Define-se, portanto, mais pela sua finalidade e objeto e menos pelo método. O objeto é a revelação de Deus, que é, por sua vez, acontecimento e mistério. A finalidade é permitir ao ser humano, inteligente e livre, fazer uma opção de fé a esta intervenção de Deus, compatível com sua natureza espiritual (Libânio e Murad, 1996, p. 214). Na Teologia Moral, a Moral era considerada uma parte prática da teologia e pertencia à dogmática, mas ultimamente não é vista nesta única ótica, devido à valorização da dimensão prática de toda a teologia. Ao contrário do que se ouve dizer, a moral necessita de consistente sustentação teórica por ser área complexa do pensar teológico. Ao mesmo tempo, ela toca em muitos aspectos práticos e significativos não somente da pastoral, mas também da vida pessoal do aluno, exercendo influxo existencial indiscutível. (Libânio e Murad, 1996, p. 221). Então, o ensino e aprendizagem da teologia moral procura refletir sobre a resposta concreta que o cristão dá a Deus nas diversas áreas: pessoal, comunitário, social e político. A teologia moral também se divide em dois grandes blocos de disciplinas: a) Teologia Moral Fundamental: Reflexão global das bases e critérios do agir cristão. b) Este bloco irá refletir a ética específica sobre diversos setores da existência humana: sexualidade, moral, política, bioética, ética ecológica, entre outras. 94 TEOLOGIA MODERNA4 TÓPICO PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 O período moderno e contemporâneo se inicia no Séc. XVII d.C. até os dias atuais, e nos mostra ciclos que se repetem na história da Igreja. No qual: [...] distinguindo-se as seguintes “divisões”: 1º, séculos XVII e XVIII, cenário da ruptura entre os âmbitos espiritual e intelectual, é neste século que a teologia evangélica tem sua gênese, exatamente no interior da ortodoxia confessional, todavia, o fundamentalismo é o resultado dos “revivals” evangélicos dos séculos XIX e XX; 2º, século XIX, centro de polêmicas e tensões, mas também ocorrem vislumbres de “renovações”; 3º, século XX, [...] o discurso teológico que originalmente propunha a “glória de Deus”, evolui em direção à defesa e à valorização do humanum (Gibellini, 1998, p. 279 - 299). Por exemplo, estudamos que a Igreja estava estagnada e a Escola Romana e a Escola de Tübingen reagiram, produzindo material teológico e teologia viva aos olhos do mundo. Agora, vemos no século XIX um levante de conhecimento, desejando provar a fé por meio de material rico em reflexões teológicas (Libânio e Murad, 1996, p. 140). Observamos que a tendência da teologia passada foi muito mais a busca da teoria, resultando em sabedoria escrita, dogmatizada, sistematizada. A teologia moderna está sendo desafiada a romper no lado mais simples, pregar a Salvação em Cristo Jesus, ser mais ativa no lado relacional entre Deus-Jesus-Homem e sobrepor aos métodos já conhecidos da contextualização do Evangelho. Precisamos enfatizar então que, para ser um teólogo na atual modernidade, é necessário que o estudante se apegue a história de homens, pensadores e teólogos, que fizeram diferença na teologia mediante inovações na área da exposição bíblica, e estudar 95 ANGLICANISMO - O anglicanismo é uma forma de cristianismo. É parte do ramo protestante da religião cristã. O anglicanismo desenvolveu-se na Inglaterra, no século XVI, os líderes da Igreja apresentaram os chamados Trinta e Nove Artigos, que afirmavam as crenças da Igreja. Eles seguem a Bíblia e acreditam em dois sacramentos principais, ou sinais especiais de fé: o Batismo e a Sagrada Comunhão.A Igreja Anglicana foi criada quando o rei Henrique VIII separou a Igreja da Inglaterra da Igreja Católica, em meados do século XVI. Ele fez isso porque o papa Clemente VII se recusou a lhe conceder a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão. Henrique queria manter a Igreja inglesa tal como era, com a única diferença de que ele seria o líder, em vez do papa. Na época, outros povos na Europa também estavam rompendo com a Igreja Católica, a Reforma Protestante. Fonte: BRITANNICA Escola. Anglicanismo. 2021. Disponível em: https://escola.britannica.com. br/artigo/anglicanismo/480606. Acesso em: 20 set. 2021. SAIBA MAIS Quais são os fatores que, ao longo da história da Igreja, têm sido fundamentais para a discordância e o posterior surgimento de novas “religiões”? Poder político, posses, domínio? O que você elencaria? Fonte: O autor (2021) REFLITA PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 homens que fizeram história como Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Lutero, Calvino, John Huss, entre muitos outros, é um diferencial para iniciar um ciclo de novas ideias, de atualização e tantas coisas que possam contribuir com a proclamação da Mensagem de Deus. A mensagem da nova teologia moderna é esta: “não ter a história da Igreja como um consumidor final, mas, como um produto a ser trabalhado e distribuído para todos os consumidores.” https://escola.britannica.com.br/artigo/anglicanismo/480606 https://escola.britannica.com.br/artigo/anglicanismo/480606 96 Chegamos ao fim de mais uma Unidade e de mais uma disciplina também. Ter estudado a Introdução à Teologia nos ajudou a entender que a história da Igreja nos acompanhará em muitas reflexões teológicas. Descobrimos que quem faz o conteúdo teológico é a Igreja e, por muito tempo, foi ela quem fez a teologia também. Digo isto, porque atualmente falar do Divino não é mais uma exclusividade dos grandes líderes eclesiásticos e também não se limitou aos antigos locais de retiro e busca de revelação divina. Hoje, sua escola, sua turma e você têm papel importante na história da teologia. Mediante academias e pensadores, podemos encontrar verdadeiros diamantes teológicos, diamantes, porque podem ser lapidados e até quebrados, mas são o que há de mais forte que a natureza produziu. Estudando o neopentecostalismo na primeira unidade, vimos, através da história de igrejas como a IURD, a possibilidade de se ter novos pensamentos e interpretar a ação de Deus de forma diferente. O surgimento do neopentecostalismo não terminou nas tendências teológicas. Por meio de uma breve introdução sobre tradição, entendemos que os conhecimentos e experiências adquiridas ao longo da caminhada da Igreja na face da terra, tem um papel importante para as igrejas e para a teologia. Como tratamos essas experiências e como fazemos delas, parte do nosso saber teológico é um ponto fundamental. Vimos também, no terceiro capítulo, uma breve introdução de como são formados os blocos de disciplinas na teologia e como cada uma se coloca para fechar o círculo hermenêutico que existe em todo teólogo. Enfim, falamos sobre a Igreja Moderna, ou melhor, a Teologia Moderna, ficando assim a certeza de que a teologia sempre estará à espera de um novo fato, um novo acontecimento ou pensamento que surja. Afinal, a teologia não coloca ponto final definitivo em suas definições. Desejo encontrá-los em novos níveis teológicos e, então, em qual nível você pretende atuar para contribuir com a sua ação teológica? Shalom!!! CONSIDERAÇÕES FINAIS PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 97 LEITURA COMPLEMENTAR Movimento carismático A Renovação Carismática Católica, ou o Pentecostalismo Católico, como foi inicialmente conhecida, teve origem com um retiro espiritual realizado nos dias 17-19 de fevereiro de 1967, na Universidade de Duquesne (Pittsburgh, Pensylvania, EUA). Em uma carta enviada dois meses após (29 de abril de 1967), a um professor, Monsenhor Iacovantuno, Patti Gallagher, uma das estudantes que participou do retiro, assim relatou o que aconteceu naqueles dias: Tivemos um Fim de Semana de Estudos nos dias 17-19 de fevereiro. Preparamo- nos para este encontro, lemos os Atos dos Apóstolos e um livrinho intitulado “A Cruz e o Punhal” de autoria de David Wilkerson. Fiquei particularmente impressionada pelo conhecimento do poder do Espírito Santo e pelo vigor e a coragem com que os apóstolos conseguiram espalhar a Boa Nova, após o Pentecostes. Eu supunha, naturalmente, que o Fim de Semana me seria proveitoso, mas devo admitir que nunca poderia supor que transformaria a minha vida! Durante os nossos grupos de discussão, um dos líderes colocou em tela o fato de que devemos confirmar constantemente os nossos votos de Batismo e de Crisma, assim como devemos ter a alma mais aberta para o Espírito de Deus. Pareceu-me curioso, mas um pouco difícil de acreditar quando me foi dito que os dons carismáticos concedidos aos apóstolos são ainda dados às pessoas atualmente – que ainda existem sinais do poder divino e milagres – e que Deus prometeu emanar o seu Espírito para que se fizesse presença a todos os seus filhos. Decidimos, então, efetuar a renovação dos votos de Batismo e de Crisma como parte do serviço da missa de encerramento, no domingo à noite. No entanto, o Senhor tinha em mente outras coisas para nós!... No sábado à noite, havíamos programado uma festinha de aniversário para alguns dos colegas, mas as coisas foram simplesmente acontecendo sem alternativa. Fomos conduzidos para a capela, um de cada vez, e recebemos a graça denominada de Batismo no Espírito Santo, no Novo Testamento. Isto aconteceu de maneiras diversas para cada uma das pessoas. Fui atingida por uma forte certeza de que Deus é real e que nos ama. Orações que eu nunca tive coragem de proferir em voz alta, saltavam dos meus lábios. (...) Este não era, pois, um simples bom fim de semana, mas, na realidade, uma experiência PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 98 transformadora de vida que continua prosseguindo e se desenvolvendo em crescimento e expansão. Os dons do Espírito já são hoje manifestos – e isto posso testemunhar, porque tenho ouvido pessoas orando em línguas, outras praticam curas, discernimento de espíritos, falam com sabedoria e fé extraordinárias, profetizam e interpretam. Eu, agora, tenho certeza de que não há nada que tenhamos de suportar sozinhos, nenhuma oração que não seja atendida, nenhuma necessidade que Deus não possa cobrir em sua riqueza! E, no depender dele e louvá-lo com fidelidade, eu sinto uma tremenda sensação de liberdade. Podemos tentar viver como cristãos, morrendo para nós mesmos e para o pecado, mas esta será uma luta desanimadora se não contarmos com o poder do Espírito. Ainda existem tentações e problemas, mas agora tenho a certeza e a confiança em Deus, agora ele me dá segurança. Realmente, transforma-me a viver nele. É verdade que na Crisma, nós recebemos o Espírito Santo e somos seus templos, mas nós não nos abrimos o suficiente para receber em nossas vidas, os seus dons e o seu poder. É certo que o Espírito Santo é o nosso professor: eu dele aprendi tanto e em tão pouco tempo! As Escrituras vivem! Amém! Estou segura de que jamais poderia ter acumulado por minha própria conta tanto conhecimento, apesar de todo o esforço desenvolvido e com as melhores intenções que tivesse. (…) Eu me vi, de repente, conversando com as pessoas sobre Cristo e,, vendo desde logo, o resultado desse trabalho! Eu jamais teria ousado fazer essas coisas no passado, mas agora, é ao contrário: é impossível deixar de fazê-lo. É como disseram os apóstolos depois de Pentecostes: “Como podemos deixar de falar sobre as coisas que vimos e ouvimos!” (…). Estas notícias se divulgaram rapidamente, causando um grande impacto no meio religioso universitário. O “Fim de Semana de Duquesne”, como ficou mundialmente conhecido este retiro, tem sido geralmente aceito como o ponto de partida quedeu origem à Renovação Carismática Católica, cuja abrangência estender-se-á, num curto período, por inúmeros países. Fonte: Histórico da RCC. Disponível em: https://www.rccbrasil.org.br/institucional/historico-da-rcc.html. Acesso em: 21 set. 2011. PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 99 MATERIAL COMPLEMENTAR • FILME/VÍDEO • Título: Nada a Perder: Contra Tudo. Por Todos • Ano: 2018 • Sinopse: É baseado na trilogia homônima Nada a Perder e no livro O Bispo: A História Revelada de Edir Macedo, de Douglas Tavolaro. É estrelado por Petrônio Gontijo, interpretando o protagonista, Day Mesquita, interpretando sua esposa Ester Bezerra, e Beth Goulart, interpretando a mãe Dona Geninha. É também a primeira representação de Silvio Santos no cinema. • Link: https://youtu.be/5BdcofHX2WI. • LIVRO • Título: Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil • Autor: Ricardo Mariano. • Editora: Edições Loyola; 5ª edição. • Sinopse: Este livro analisa o neopentecostalismo, vertente pentecostal responsável pelas principais transformações teológicas, estéticas e comportamentais por que vem passando o movimento pentecostal. Elaborado e escrito de uma perspectiva sociológica e baseado em extensa pesquisa empírica, almeja, além de familiarizar o leitor com a história das crenças, das práticas e do funcionamento das igrejas neopentecostais, atestar a ruptura com o ascetismo contracultural e a progressiva acomodação desses religiosos e suas denominações à sociedade e à cultura de consumo. Mudanças consideráveis, de caráter secularizante, cujos efeitos mais visíveis têm consistido em torná-los cada vez menos distintos e, por consequência, cada vez menos um retrato negativo dos símbolos de nossa brasilidade. PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 100 • WEB • Caros alunos, o link abaixo é de um vídeo no qual relata o “Início da Renovação Carismática Católica no Brasil.” • Link: https://youtu.be/cL6-Hcsw7k0. PRÁTICAS TEOLÓGICASUNIDADE 4 101 CONCLUSÃO GERAL Caro (a) aluno (a), chegamos ao final, parabéns! Que bom que você chegou até aqui! A teologia é um estudo que não acaba, sim, isso é verdade! Quando elaboramos esta disciplina, buscamos trazer os assuntos e a divisão que você precisava para poder entender que o conteúdo teológico é muito amplo e, em determinados momentos, nós precisamos avaliar nosso foco e seguir por ele durante algum tempo. Por exemplo, você já se decidiu se o conteúdo teológico que você está absorvendo vai ser utilizado no ministério pastoral, acadêmico, institucional, ou em outra situação que possa ser o seu desejo? Falando assim, você percebe que a introdução teológica mexe com sua vocação (e você teve um pouquinho deste conceito nesta unidade). Introduzir um aluno à sua matriz acadêmica exige muita responsabilidade, pois precisamos demonstrar que você também estará fazendo parte da teologia. Não há como entrar no universo teológico e continuar a analisar os fatos à nossa volta da mesma forma como antes. Vimos que os homens mudaram a história, tanto inovando como retendo o conteúdo e os métodos. É fato que a teologia implica na sociedade, no seu estilo de vida e utiliza- se dela para colher seu grande material. A teologia é viva e acompanha os movimentos religiosos e espirituais, buscando simplificar o objetivo de sua existência. A grande contribuição que você também pode tirar desta disciplina é saber que a Fé e a Razão são companheiras e alicerçam a crença no divino. E é sua missão, também, fazer com que ambas continuem exercendo seu propósito corretamente. Peço a você, aluno (a), que cresça em conhecimento e, no final deste curso teológico, você se lembre desta disciplina e tenha a certeza de que você poderia reescrevê-la, melhor ainda e contribuir com a excelência das ciências da Fé! Muito obrigado! Lute por aquilo que você acredita! 102 ARAÚJO, Israel de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. BÍBLIA. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição revisada e atualizada no Brasil. Brasília: Sociedade Bíblia do Brasil, 1969. BOFF, C. Teoria do Método Teológico. Petrópolis: Vozes, 1998. CIÊNCIA. In: DICIO, Dicionário Online de Português. Porto: 7Graus, 2021. Disponível em: https://www.dicio.com.br/ciencia/. Acesso em: 03 ago. 2021. COTTRET, Bernard. Histoire de la Réforme protestante. França: Tempus, 2010.Disponível em: https://www.dicio.com.br/sistematica/. Acesso em: 06 ago. 2021. FERREIRA, Franklin. Pilares da Fé. São Paulo: Vida Nova, 2017. GEORGE, T. Teologia dos reformadores. São Paulo. Vida Nova, 1993. GIBELINI, Rosino. A Teologia do Século XX. Tradução de José Paixão Netto. São Paulo: Edições Loyola, 1998. GILBERTO, Antônio. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo 2010: número de católicos cai e aumenta o de evangélicos, espíritas e sem religião. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013- agencia-de-noticias/releases/14244-asi-censo-2010-numero-de-catolicos-cai-e-aumenta- o-de-evangelicos-espiritas-e-sem-religiao. Acesso em: 09 ago. 2021. REFERÊNCIAS 103 JAPIASSÚ, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1993. LIBANIO, J. B.; MURAD, A. Introdução à Teologia. São Paulo. Loyola, 1996. MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo do Brasil. São Paulo: Loyola, 1999. MARINHO, Ricardo. O pentecostalismo no Brasil, cem anos depois. Uma religião dos pobres. Revista do Instituto Humanitas de Ensino, ed. 329, 2010, p. 5-7. MORAES, Isael Araujo de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014. OSMER, R. R. Practical Theology: An Introduction. Michigan/EUA. William B. Eerdmans Publishing Company. 2008. RODRIGUES, E. H. da S. 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ENDEREÇO MEGAPOLO SEDE Praça Brasil , 250 - Centro CEP 87702 - 320 Paranavaí - PR - Brasil TELEFONE (44) 3045 - 9898 Unidade 1 - 2024 Unidade 2 - 2024 Unidade 3 - 2024 Unidade 4 - 2024 Site UniFatecie 3: Botão 19: Botão 18: Botão 17: Botão 16:partir de uma abordagem que vê Jesus como Senhor, como Rei, como Deus, ignorando o aspecto da sua humanidade. Podemos colocar a fé como referencial básico para a elaboração teológica, mas também podemos colocar a dúvida como dúvida metodológica no sentido de questionar as coisas da fé, buscando encontrar respostas. É possível ter a dúvida como pergunta que não busca respostas, mas a dúvida que vive em função das próprias dúvidas e somente para confirmar as suspeitas em relação às Escrituras. Temos outras formas de procedimento metodológico. Podemos partir da fé para compreender (Westphal, 2010, p. 80). A razão e a fé, quando se fala em Teologia, precisam ser entendidos como parte integrante, uma da outra, assim, a reflexão teológica é bem constituída: FUNDAMENTOS DO ESTUDO TEOLÓGICO2 TÓPICO CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 13 Primeiro eu creio para então buscar a compreensão daquilo que creio. De outro lado, busca-se a compreensão intelectual em primeiro lugar, para então avistar a fé. Ambos os elementos não se excluem, mas devem ser buscados numa relação simbiótica entre fé e razão, que são dois elementos que constituem a própria teologia (Westphal, 2010, p. 80). Um componente da Fé é a Crença, que se resume em convicção em algo como verdadeiro, e a Fé, que nada mais é que o sentimento total de confiança em uma crença. Segundo Euler Renato Westphal (2010), o método tem papel principal na reflexão teológica: Quando falamos em método na Teologia, precisamos entender que há uma dependência total do conteúdo e este exerce influência direta: Quando falamos do método em teologia, estamos colocando um segundo elemento ao lado deste, que é o conteúdo. Muitas vezes, pensa-se que o método pode ser dissociado do conteúdo, mas o método influencia o conteúdo e o conteúdo influencia o método. Ambos se condicionam. Há elementos que devem e podem ser dissociados, mas nunca podemos pensar que ambos se encontram em esferas totalmente diferentes. Isso fica plasmado à medida que formos avançando nas nossas reflexões. Quando abordamos a questão do método estaremos logo falando do conteúdo, inclusive a recíproca também é verdadeira (Westphal, 2010, p. 81). A Fé precisa extrapolar a razão em determinados momentos, mas a fé é a iluminação da razão. É a fé que vai impulsionar a razão para o criticismo sadio e a afirmação da crença: A teologia tem, em primeiro lugar, uma função existencial, pois ao falar de Deus, o teólogo é aquele que está existencialmente envolvido no círculo teológico. Não se pode falar de Deus sem tê-lo experimentado. Não conhecemos a graça de Deus em Jesus Cristo sem primeiro termos conhecido a nossa condenação. A experiência de Deus tem a ver com a experiência da nossa própria falência e da consciência de nossa própria maldade. Isso Deus nos revela através da sua Palavra e do seu Espírito. Portanto, somente pode fazer teologia quem antes teve um encontro pessoal com o Deus vivo e verdadeiro (Westphal, 2010, p. 81 - 82). Precisamos nos atentar que não há sobreposição de valores entre fé e razão. Fé e Razão existem lado a lado e sua relação não é meio a meio, ou 50% de cada. A relação fé e razão é completa, 100% de fé e 100% de razão caminhando juntos: A dimensão existencial da teologia não pode tomar o lugar do aspecto científico do labor teológico, mas ambos precisam se complementar. Não podemos colocar a fé e a razão como alternativas que se excluem mutuamente, mas ambas devem existir para que a fé seja inteligente e a inteligência seja levada cativa sob a obediência de Cristo. Assim como uma teologia preocupada somente com a dimensão existencial é unilateral, a teologia científica que não considera a participação da vida do teólogo peca por fazer de Deus um objeto CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 14 de estudos, como se este objeto pudesse ser dissecado, analisado, servindo como uma coisa que pudesse ser manipulada pelo ser humano (Westphal, 2010, p. 81 - 82). 2. 2 Principais Fontes da Teologia: Segundo o teólogo Leonardo Boff (1998), a Teologia se utiliza de três fontes principais em sua reflexão: a Fé-Palavra, a Fé-Experiência e a Fé-Prática, que, na verdade, são relações da Fé e estas relações produzem reflexão, diálogo, um verdadeiro discurso teológico reflexivo. Vamos entender o significado destas fontes. Quando a Fé e a Palavra estão juntas, um discurso surge e este discurso é um discurso teológico, e a Fé é a base de que a sabedoria humana não pode ir contra ela. A fé tem suas determinações e estas são as três (Boff, 1998, p. 111). Primeiramente, o que seria a Fé-Palavra? Segundo descreve o teólogo Leonardo Boff (1998), entendemos haver uma relação entre Fé e Palavra e esta relação constitui um princípio que traz especificações para a Teologia. A FÉ É O FIRME FUNDAMENTO DA TEOLOGIA, esta fé é a Fé-Palavra e não doutrina. A Palavra produz a doutrina, e esta, a reflexão teológica. Ainda, seguindo a afirmação de Boff (1998), a teologia tem como seu princípio objetivo a revelação. A fé torna-se o princípio subjetivo, assim, temos uma fé revelada e o princípio formal da teologia é a Palavra de Deus. Toda a reflexão teológica deve ser trazida para a ótica da Palavra de Deus. A reflexão de Deus, sob a ótica da fé, forma o princípio formal subjetivo da teologia, sendo a Fé-Palavra (Boff, 1998, p. 112). Fazer teologia está ligado em confrontar as experiências humanas com a Palavra, ou melhor, a Bíblia. As Escrituras são testemunhas da revelação e essa revelação em nós deve encontrar correspondência, ou seja, há uma relação de “ação” da Palavra de Deus e “reação” do indivíduo. Devemos receber, assim, a Palavra com amor, que também é uma fonte de toda a palavra teológica. A teologia autêntica é a revelação de Deus através da Palavra e a teologia está fundamentada no testemunho da Palavra, assim, afirma Westphal (2010): A teologia está fundamentada no testemunho da Palavra, nela encontramos o testemunho da revelação de Deus em Jesus Cristo na Palavra de Deus, no Antigo e no Novo Testamento. A Palavra de Deus chama pessoas da morte para a vida. A teologia autêntica é resposta do ser humano a Deus, que se revela através da Palavra. A Palavra de Deus é Evangelho, pois ali Deus revela sua santidade, sua ira, sua inacessibilidade. No entanto, é no Evangelho, na Palavra de Deus, que encontramos a revelação do Deus misericordioso que aceita e abraça os filhos perdidos e coloca o ser humano CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 15 arrependido para dentro da sua aliança. Através da Palavra de Deus nos é dito que somos pecadores agraciados, e que Deus não nos vê como somos, mas que ele vê Cristo em nosso lugar. Nós somos condenados, pois em nossa natureza e essência estamos totalmente perdidos. Ainda assim, Deus não nos exclui, mas se reconcilia conosco. Ele anuncia sua palavra de anistia para nós condenados. Ele não vê a mim em minha maldade e perdição, mas Jesus se coloca entre mim e Deus, e a justiça que está em mim não é a minha, mas a de Jesus Cristo. Deus se solidariza com este homem Jesus, e Deus habita entre nós na pessoa do Nazareno (Westphal, 2010, p. 90). 2. 3 Jesus Cristo como Raiz Teológica: Não é só a fé que é o ponto de partida importante para o estudo da teologia, mas, também, a encarnação de Deus em Jesus Cristo nos dá compreensão da fé e é um importante conteúdo da teologia. Segundo Westphal (2010, p. 88): A teologia parte do seu conteúdo fundamental que é a história concreta do Deus-Homem, que é Jesus Cristo. A fé é o ponto de partida da teologia. Jesus Cristo, testemunhado nas Escrituras, é o seu conteúdo. A razão é o instrumento que pensa a fé e a revelação, colocando-os de forma ordenada para a compreensão humana. A compreensão da fé inicia no acontecimento da encarnação de Deus em Jesus Cristo. Na pessoa de Cristo, nós temos a autor revelação de Deus. Jesus não é nenhum herói, mas Deus mesmo assumiu a forma humana, fazendo-se ser humano com todas as suaslimitações e sua desgraça. O homem Jesus de Nazaré é o Deus eterno, criador do céu e da terra. Nele temos a consumação final da salvação para toda a humanidade. A teologia tematiza a realidade da revelação do amor de Deus em Jesus Cristo e seu significado para a realidade da humanidade. O conteúdo de toda a teologia é a pessoa de Jesus Cristo. Aqui está a verdadeira fonte e o conteúdo de toda a teologia e, ao mesmo tempo, em Cristo está o ponto de convergência para o falar teológico. Assim, a Fé é o ponto de partida da Teologia e Jesus Cristo, o conteúdo, porque, nele, temos a revelação de Deus. Os temas e assuntos teológicos deveriam ser unicamente derivados da pessoa de Jesus Cristo. O que vimos e o que conhecemos de Jesus Cristo nos aproxima de Deus. Diz Westphal (2010, p. 88): Quando ouvimos Jesus, então buscamos a Palavra que foi testemunhada pelas testemunhas oculares. Estas devem ser interpretadas, pois não temos autoridade canônica e não nos encontramos na mesma linha sucessória dos apóstolos. O Espírito Santo nos abre os olhos aos mistérios da Palavra de Deus. Então, a grande receita para ser um ótimo e excelente teólogo é ter uma relação profunda com o Espírito Santo, compreender que a teologia tem total relação com a sua Palavra, a Bíblia, ter experiência e prática e, com certeza, ter Jesus Cristo como fonte principal. CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 16 3. 1 Teologia e Ciência: Primeiramente, vamos retornar um pouco no nosso conteúdo e solidificar um conhecimento necessário para o teólogo adquirir compreensão acerca da teologia. A teologia é uma ciência, mas o que é ciência? Segundo o dicionário online, o conceito de Ciência diz: “Reunião dos saberes organizados obtidos por observação, pesquisa ou pela demonstração de certos acontecimentos, fatos, fenômenos, sistematizados por métodos ou de maneira racional: as normas da ciência.” (Ciência, 2021, online). Assim, entendemos que a ciência é uma coletividade de conteúdo e experiências, devidamente sistematizadas e resultantes de normas. TEOLOGIA ACADÊMICA E CIÊNCIA3 TÓPICO CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 17 FIGURA 2 - CONCEITO DE NEGÓCIO DE MÃO DE MEGAFONE COM TEXTO CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO, ILUSTRAÇÃO VETORIAL https://www.shutterstock.com/image-vector/megaphone-hand-business-concept-text-science-1013209075 Conceito de negócio de mão de megafone com texto Ciência versus religião, ilustração vetorial. Quando falamos de fé e ciência, precisamos saber que não há embates entre as duas. A ciência vem como a razão, provar e normatizar o conhecimento, já a fé é a exploradora de novos acontecimentos. Podemos estar seguros quanto à relação entre fé e ciência, pois a fé se dedica a dizer, muitas vezes, quem fez e a ciência em revelar como se fez. A ciência é compreendida como lógica e a lógica da fé não traz um ponto final ou definitivo, pode, mas está limitado ao tempo. Em sua definição de Teologia como Ciência, Libânio e Murad (1996), dizem que a ciência teológica não é uma ciência no sentido de ter evidências a respeito de seus princípios, mas, como uma ciência subordinada à ciência de Deus: Os princípios da teologia só se tornam evidentes na ciência mesma de Deus, é, na ciência que Deus tem de si. A teologia recebe da ciência de Deus — ciência subordinante — os seus princípios. Está em continuidade com essa ciência de Deus, em que as verdades reveladas participam da evidência divina pela revelação e fé. É conhecimento certo e dedutivo, mas a seu modo. CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 18 A teologia, como ciência subalterna, subordina-se à ciência superior de Deus e dos santos. Adquire, por isso, mais dignidade que aquelas que se fundam em princípios conhecidos à luz natural do intelecto e por si evidentes. Estribando-se na própria ciência de Deus, que não se pode equivocar nem pode enganar-nos, toda verdade teológica se faz normativa para as outras ciências. Em qualquer conflito de intelecção, a teologia nessa compreensão levava vantagem inegável. Tutelava, por isso, tranquilamente todos os outros saberes humanos (Libânio; Murad, 1996, p. 80). 3. 2 Teologia e Academia: Da mesma forma que estudamos em outros cursos e níveis de escolaridade, temos na teologia uma infinidade de recursos, de disciplinas, que servirão para tecer a teia do conhecimento teológico em nós. Para que estou estudando teologia? Esta é a pergunta correta que devemos fazer para entender quais são as possibilidades e níveis que pretendemos atingir ao estudarmos. Para ser um pouco mais elucidado em minha exposição, a você aluno, quero dar, como exemplo, os estudantes de medicina, que podem estudar todos as mesmas disciplinas, mas, alguns servirão nos hospitais, outros em comunidades, outros em clínicas particulares e outros assumirão a academia e serão novos professores. Na teologia não é diferente, vamos estudar o mesmo conteúdo, mas vamos dar foco a situações possivelmente diferentes. Alguns serão Teólogos Profissionais. São os teólogos que agem unindo o conhecimento acadêmico em resposta às necessidades do Povo de Deus. São pensadores, críticos e defensores da fé sadia, voltados para o zelo com a veracidade das Escrituras e a boa prática das mesmas. Outros são teólogos pastorais, aqueles que promovem a evangelização e a prática da fé, são os líderes eclesiásticos, que utilizam as Escrituras para apascentar o rebanho de Cristo na face da Terra. Ainda, há os Teólogos Populares, que praticam a teologia de forma simples, oral, falada, na prática, são os congregados à fé, que adquirem o conhecimento de forma menos formal e guiados pelo Espírito da Verdade. A Teologia não é uma ciência exata, também, sua abrangência e profundidade não podem ser medidas com um padrão. Para não sermos errôneos, podemos dizer que a cada década, o mundo conhece algo novo no sentido de pensamento cristão e teológico, CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 19 os eventos que envolvem a fé não são totalmente rígidos e o surgimento de novos métodos interpretativos puxam o teólogo de sua zona de conforto e ocasionam a reflexão teológica constante. FIGURA 3 - UNIVERSIDADE DE BOLONHA (A MAIS ANTIGA DA EUROPA) https://www.shutterstock.com/image-photo/bologna-italy-may-27-2018-facade-1823229221 BOLONHA, ITALIA – Maio/2018 – Fachada da Universidade de Bolonha – Considerada uma das mais antiga faculdade do mundo, surgiu em 1088 d.C. Um fato muito importante a ser observado é que seguindo o movimento da Escolástica, as primeiras universidades surgiram com foco para resolver problemas teológicos entre a fé e a ciência, é o caso da Universidade Al-Azhar, no Cairo, criada em 998 d.C. a pedido do vizir Yaqub para que o califa Aziz ministrasse instrução e alimentação a 36 estudantes da mesquita. A Universidade de Bolonha, na Itália, foi criada em 1088 d.C., também com a teologia como fonte principal na grade acadêmica. A teologia também possui outros níveis organizacionais, tais como a Teologia Bíblica e a Teologia Sistemática. CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 20 3. 3 Teologia Sistemática: A teologia Sistemática, também conhecida como “Dogmática”, é o conjunto de disciplinas elaboradas ao longo da história da Igreja. Este conjunto de ensinos não se vale de doutrinas ou ensino denominacional restrito, vale-se da pura reflexão cristã, sob um olhar humanista. A teologia sistemática reelabora conceitos fundamentais, como a revelação, graça, sacramentos, entre outros, isto, de acordo com um estudo sistematizado e cronológico, entendendo que cada afirmação pode ser provisória dentro do campo teológico (Libânio e Murad, 1996, p. 224 - 225). Na Teologia Sistemática é que se pratica a cronologia da teologia, onde são definidos três momentos: O Retrospectivo – onde se analisa o fato e a consequência no passado. O Introspectivo – no qual se reflete sobre cada objeto teológico e sua posição no presente e por último, a Prospecção dos Fatos, em que se entendeo objeto de estudo, seu potencial e identificam-se os pontos a serem melhorados. CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 21 A Teologia Bíblica é uma das áreas que mais chama a atenção dos estudantes, primeiro porque, quando surge, dá a impressão de que as demais teologias não são bíblicas e esta seria a teologia correta. Assim, ocorre um desentendimento e um certo desvio ou conceito errado das demais nomenclaturas. Não se trata de um ramo teológico, mas de uma disciplina, a qual tem a Bíblia como principal fundamento de estudo. A Bíblia é o principal instrumento de evangelização e propagação da crença, é a ferramenta do evangelismo. Nesse sentido, a teologia Bíblica estudará o Antigo e Novo Testamento, baseando-se em exegese, que nada mais é que estudar minuciosamente cada texto ou período sugerida. A exegese é uma disciplina pré- teológica e não é considerada teologia porque não trata diretamente da fé. Quando utilizamos o método de exegese na teologia bíblica, podemos observar que em algumas situações os textos se completarão e em outros haverá conflito. A teologia bíblica é cativante ao estudante porque não traz conflitos ou criticismo, e, como leitura das Escrituras, é alimento para o espírito (Libânio; Murad, 1996, p. 220). Enfim, trago este tópico para orientá-lo desde o início que não há uma teologia mais correta que outra, ou seja, a chamada teologia bíblica é um método que precisa de outros para trazer para fora o verdadeiro sentido dos textos sagrados. Muitos alunos entram nos cursos teológico dizendo que vão se prender a teologia bíblica porque é espiritualizada e não há necessidade de criticismo ou métodos mais refinados para se entender a compreensão do divino, assim, criam um pré-conceito de outras disciplinas teológicas e se frustram quando precisa recorrer aos métodos sistematizados. TEOLOGIA BÍBLICA4 TÓPICO CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 22 A teologia só irá acrescentar conteúdo benéfico e retirar enganos e equívocos que, muitas vezes, travam a fé e sua prática na vida do indivíduo. A Universidade de Alazar ou Al-Azhar está localizada no Cairo, Egito. Está anexa à mesquita homônima. Foi fundada como escola de teologia no Califado Fatímida, (xiita) em 988, sendo a segunda mais antiga universidade do mundo. Nacionalizada em 1960, em 1961 disciplinas não-religiosas foram adicionadas ao seu currículo, tais como Medicina, Farmácia, Engenharia e Agricultura. Em 1962, admitiu pela primeira vez estudantes femininas. Fundada como um centro de aprendizagem islâmica, seus alunos estudam o Alcorão e a lei islâmica em detalhe, sendo necessário, para admissão, saber de cor o Alcorão ou pelo menos importantes partes dele. Foi uma das primeiras universidades do mundo, e a única no mundo árabe a sobreviver como uma universidade moderna, incluindo temas seculares no currículo. Hoje é o centro principal da literatura árabe e da aprendizagem islâmica sunita no mundo. Fonte: UNIVERSIDADE DE ALAZAR. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Universidade_de_ Alazar&oldid=58352551. Acesso em: 26 maio 2020. SAIBA MAIS CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 23 SAIBA MAIS A Universidade de Bolonha é considerada uma das universidades mais antigas do mundo, tendo sido fundada em Bolonha, na Itália, em 1088. Constantemente é ranqueada entre as melhores do mundo, figurando entre as Universidades de Elite Mundial. Em 2020, a Alma Mater sobe três posições e faz história ao se tornar a universidade europeia mais preparada para o futuro e 6ª no ranking mundial do Times Higher Education. Em 1364, vários teólogos começaram o ensino de Teologia. Em Bolonha passaram períodos de estudo Dante Alighieri, Francesco Petrarca, Guido Guinizzelli, Cino da Pistoia, Cecco d’Ascoli, Re Enzo, Salimbene de Parma e Coluccio Salutati. Fonte: UNIVERSIDADE DE BOLONHA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Universidade_de_Bolonha&oldid=59050212. Acesso em: 15 ago. 2020. Diante da história das universidades mais antigas do mundo em funcionamento, temos um exemplo de ensino teológico islâmico, a Universidade de Alazar, praticamente a mais antiga do mundo. Diante deste fato apresentado, podemos dizer que a teologia cristã evolui? Fonte: O autor (2021). REFLITA CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Universidade_de_Bolonha&oldid=59050212 24 Chegamos ao final de nossa introdução à disciplina de Teologia. Nos propomos a trazer um conteúdo simples e conceitual sobre Introdução à Teologia e, como dissemos no início da unidade, o objetivo maior era situar você dentro do assunto, demonstrando as possibilidades que a teologia pode lhe oferecer, além do que já era conhecido no meio religioso. Quando falamos da história da teologia, demonstramos como o assunto faz parte da história da humanidade e como repercutiu e repercute atualmente. A história da teologia, na verdade, foi produzida, na maioria, fora das paredes dos templos da Idade Antiga e Idade Média. Vimos também que os fundamentos teológicos e os métodos são um bom elo entre a fé e a razão, no qual, se ambos andarem juntos em sua totalidade, muitas necessidades teológicas serão supridas e consequentemente haverá um acréscimo à crença individual ou coletiva. O diálogo entre Fé e Razão é mais necessário do que se imagina e é perfeitamente bem-vindo. Ao falarmos de Academia e Ciência, demonstramos que a teologia não termina definitivo suas descobertas, que há níveis na teologia em que se pode focar e trabalhar. Não é somente algo restrito ao meio eclesiástico, mas, envolve o ensino como todo. Com a explicação sobre teologia bíblica, observamos que realmente, se desejamos resolver conflitos no entendimento da própria palavra, precisamos de completar a exegese bíblica com as demais áreas da teologia, assim, obteremos um resultado mais claro. Então, essa unidade buscou ser introdutória aos eventos centrais que fizeram da teologia uma das ciências mais praticadas no mundo e uma das mais antigas, inclusive. Espero que você tenha absorvido o conteúdo e esteja preparado, agora, para subirmos o nível e possamos trazer mais conceitos e métodos para nossa bagagem. Até a Próxima Unidade!!! Shalom!!! CONSIDERAÇÕES FINAIS CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 25 As mulheres e a Teologia Entre os ramos e enfoques teológicos, encontramos um que precisa ser mencionado e tem feito parte na atualidade expressivamente, estamos falando da Teologia Feminista. A proposta deste enfoque teológico é refletir acerca do espaço da mulher nas diferentes áreas, social, familiar, eclesial, movimentos feministas e todo o contexto em que a mulher possa se inserir. Catarina Halkes, uma importante teóloga feminista holandesa, define assim: As mulheres se tornam, pela primeira vez, concretamente, sujeito da vivência de sua própria experiência de fé, bem como da formulação da mesma e da reflexão sobre ela, e, portanto, da teologização (...) A teologia feminista é uma teologia crítica da Libertação, que não se baseia no caráter particular da mulher· como tal, mas em suas experiências históricas de sofrimento, em sua opressão psíquica e sexual, em sua infantilização e sua invisibilização estrutural em consequência do sexismo nas Igrejas e na sociedade. (... ) Abrange em sua reflexão sobre a fé todos os que não têm liberdade e são considerados objetos, mas estão conscientes de que são as mulheres que, praticamente sempre e em toda a parte, estão entre os oprimidos dos oprimidos” (C. Halkes, 1980, citado por Libânio; Murad, 1996, p. 255). Com a proposta de uma análise crítica, a teologia feminista propõe uma desconstrução das posturas e ações discriminatórias do sexo feminino. A teologia feminista realiza análise crítica, exploração construtiva e transformação conceptual, colaborandoassim para o florescimento da Tradição viva da Igreja, Sua ação deconstrutora se fixa na denúncia e superação do sexismo (atitudes, posturas, ações discriminatórias contra o sexo feminino), principal expressão da visão androcêntrica (centrada no homem varão) que vigora em grande parte das atuais sociedades do planeta. Fenômeno não superficial, a discriminação contra a mulher deita suas raízes em antropologia deficiente, patriarcal, que associa o ser humano ideal ao varão, ente do sexo masculino (Libânio; Murad, 2003, p. 256 - 257). É uma desconstrução para reconstruir. Como dissemos que na teologia, nem sempre podemos pôr um ponto final, a teologia feminista prova isto, pois ela promove uma reflexão que produz frutos para um discurso teológico correto. Já se fazem sentir os frutos da teologia feminista nas convicções e descobertas básicas aceitas pela comunidade teológica internacional e lentamente assimiladas nos textos de teologia acadêmica. Assim, na Bíblia redescobrem- LEITURA COMPLEMENTAR CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 26 se as figuras de mulheres; na dogmática, purifica-se a imagem de Deus de suas conotações masculinas e patriarcais, pelo resgate de características maternas (Deus Pai materno, ou Deus Pai-mãe) e comunitário-familiares (a Trindade); na teologia moral incorpora-se a perspectiva da mulher, especialmente no âmbito da sexualidade; na liturgia, faz-se exceler o valor de expressões simbólicas.” (Libânio; Murad, 2003, p. 256 - 257). Sob a ótica de uma hermenêutica feminista, vemos que os avanços deste enfoque teológico têm sido significativos e contribuído com a compreensão do papel da mulher na sociedade toda. De certa forma, podemos concluir que a teologia feminista, ainda que nova, perante a tradição já existente, vem ocupando seu espaço de maneira significativa, não só, defendendo seus interesses, mas, abrindo o leque para outras situações que envolvam homens e mulheres e assim, a teologia feminista vai, lentamente, conquistando seu lugar. Fonte: LIBANIO, J. B.; MURAD, A. Introdução à Teologia. São Paulo. Loyola, 1996. p. 255 - 258. CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 27 MATERIAL COMPLEMENTAR • FILME/VÍDEO • Título: Santo Agostinho • Ano: 2015. • Sinopse: Filme clássico, situa-se na fase crucial do declínio do império romano e da invasão pelos Visigodos e Vândalos. O Doutor da Igreja, Agostinho é um dos grandes nomes do cristianismo e um dos maiores filósofos da humanidade. Aos 70 anos, ele narra a história de sua juventude, seus excessos e transgressões, a crise existencial que o levou à conversão e a persistente ação de sua mãe, Santa Mônica. O ator Franco Nero interpreta Agostinho na sua velhice, Alessadro Preziosi o recria em sua atormentada juventude e Mônica Guerritore, a mãe de Agostinho. • Link: https://www.paulinas.com.br/produto/santo-agostinho-dvd- duplo-206-min-885. • LIVRO • Título: Introdução à Teologia • Autor: João Batista Libânio. • Editora: Edições Loyola, 1996. • Sinopse: O livro foi escrito em 1996 e se refere ao desenrolar do processo teológico na história da Igreja católica. A obra possui um caráter introdutório, portanto o método empregado pelo autor é de introduzir os leitores em uma visão geral do modo como fazer teologia e do modo como foi sendo feita a teologia no decorrer dos séculos e nos últimos anos no Brasil. O objetivo deste trabalho é apresentar uma resenha crítica da obra. CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 28 • WEB • Veja o link abaixo no qual relata uma entrevista com Leonardo Boff (22.4.19) - sobre os “Valores éticos e empatia sintetizados num ser ímpar”. • Link do site: https://youtu.be/pwFvYJMxntc. CONHECENDO TEOLOGIAUNIDADE 1 Professor Esp. Érlon Migliozzi TEOLOGIA CATÓLICA ROMANA2UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 30 Plano de Estudos • Teologia Católica; • Reforma e Contrarreforma; • Espiritualidade, Intelectualidade e Eclesialidade; • Teologia Prática e Teologia Sistemática. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar a Teologia Católica Romana; • Compreender seu tipo de Filosofia e Interpretações Teológicas; • Estabelecer a importância da Teologia Católica na compreensão do Divino. TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 31 Caro (a) aluno (a), Entramos na segunda unidade de nossa Introdução à Teologia e vamos participar da história da primeira igreja cristã, consequentemente, a primeira linha teológica que surgiu, portanto, vamos ter uma linha de tempo muito ampla, pois, as demais correntes teológicas, as igrejas e as demais teologias que surgem, derivam da teologia católica, trazem componentes e, de certa forma, surgem também em reação à mesma. No primeiro tópico, vamos abordar a história do catolicismo, mas de uma forma diferente, vamos iniciar no século XIV, onde a igreja começou a enfrentar oposição, consequentemente, precisou se reestruturar para sobreviver. Até este período da história da igreja, o crescimento foi, de certa forma, natural. Agora, vamos falar de um crescimento exigido sob demanda, no qual podemos dizer que é um crescimento forçado e necessário. No segundo tópico, vamos abordar de maneira bem simples e direta o maior desafio da Igreja Católica, a Reforma Protestante e como a Igreja contra-atacou este movimento, posteriormente, no próximo tópico, vamos nos aprofundar mais no assunto “Reforma Protestante” e também falar de três componentes da teologia, a Espiritualidade, a Intelectualidade e a Eclesialidade, temas que fazem parte significativa na grade curricular do teólogo católico. Por fim, no último tópico, vamos falar de teologia prática e sistemática, a fim de desmistificar estes termos. Espero que você esteja desejoso de aprender um pouco mais da história da Igreja, que, também, é uma disciplina muito importante dentro do seu currículo e, agora, você terá contato com uma grande parte da principal linha da história. Não deixe de utilizar os recursos disponibilizados em seu material, aprofunde-se mais e veja quanto é importante a teologia para o mundo. Um ótimo estudo e vamos juntos!!!! INTRODUÇÃO TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 32 TEOLOGIA CATÓLICA1 TÓPICO 1. 1. Os bastidores da Igreja Católica dos Séculos XIV ao XVIII Partindo da unidade anterior, podemos entender que a teologia surgiu em um tronco único, ou seja, não tinha suas divisões e sua interpretação era única. A teologia foi praticada no meio filosófico e dentro da Igreja, pelos seus pensadores, para resolverem os problemas teológicos que houvessem, ou procurar compreendê-los. O termo “teologia” foi sendo fundamentado ao longo dos tempos e cada vez mais utilizado, assim, após a obra de Eusébio de Cesaréia (260 - 340 d.C.) em sua obra “História Eclesiástica” o uso do termo passou a ser mais utilizado, principalmente no Ocidente, e o tornou conhecido como o primeiro historiador cristão (Libânio; Murad, 1996, p. 66). Porém, vamos adiantar bem mais a frente, no ponto onde a teologia católica precisa se fortalecer e dialogar para não sofrer rupturas e descaracterizações, foi nos séculos XIV e XV que o pensamento medieval começou a desmoronar, ele atuava no campo político- religioso e no campo do pensamento, assim, inicia um processo, em que, do tronco teológico, surgiriam galhos e estes, após quase cinco séculos, vão produzir novos ramos. Veja como Libânio descreve este momento: Os séculos XIV e XV viram o lento desmonte da ideia-chave do pensamento medieval, a saber, a “ordem universal” determinada por Deus, na qual todas as coisas têm seu lugar. A idade moderna traz incríveis novidades, tais como: o capitalismo mercantil com seu espírito aventureiro e conquistador, o contato comercial e cultural com o Oriente, o movimento filosófico que afirma a supremacia da razão e do indivíduo racional, as manifestações artísticas e o humanismo renascentista. Uma avalanche de tendências desagregantes TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 33TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 se precipita sobre a cristandade:subjetivismo e individualismo, nacionalismo, laicismo, secularização. Elas atuam no sentido de diluir as grandes sínteses alcançadas no plano político-religioso (o império e o papado) e no pensamento (dialética e sistematização escolásticas). A teologia escolástica não assimila o " giro cartesiano” da razão, nem o individualismo emergente. A Reforma protestante, iniciada por Lutero e seus companheiros no século XVI, golpeia duramente a unidade católica da Europa (Libânio; Murad, 1996, p. 135). Nos séculos seguintes (XVI e XVII), haverá um período de reestruturação na teologia católica, com o evento da Contrarreforma, onde vários pensadores se levantarão para organizar e defender os assuntos pertinentes ao catolicismo romano. Os séculos XIV e XV viram o lento desmonte da ideia-chave do pensamento na teologia destacam-se a Escola de Salamanca e os teólogos Jesuítas. (...) A Teologia combativa marca estes séculos. Neste espírito, Roberto Belarmino, figura notável, elabora o Catecismo Romano (Libânio; Murad, 1996, p. 136). Nos séculos seguintes, o mundo passa por fortíssimas transformações culturais e sociais e sofre ataques, agora, do sistema econômico e político global, não são apenas lutas internas, mas, o mundo sofre revoluções que culminam com a implantação de novos sistemas econômicos e políticos, assim, agora, a teologia precisa se guardar das influências de uma nova sociedade. Os séculos XVIll e XIX assistem as transformações ainda mais incisivas: a consolidação do capitalismo, a revolução francesa e outras revoluções burguesas, as mudanças radicais no modo de produção do campo e da cidade (revolução industrial e agrícola), o advento da mentalidade urbana, o crescimento da filosofia moderna com Kant, Hegel e Marx e a irrupção do movimento socialista. A teologia assume posição de defesa, reafirma que o sistema a: aristotélico-tomista constitui a única "filosofia perene". A reflexão teológica não se deixa contaminar com as pretensiosas filosofia da modernidade. Busca-se a restauração da velha teologia medieval com a “neoescolástica", que atinge seu ponto alto no Concílio Vaticano I. ao proclamar o dogma do primado e da infalibilidade papal. A teologia, portanto, ao seguir a tendência dominante na Igreja, nega-se a dialogar com o mundo moderno. Ao contrário, trata de combatê-lo. evocando a nostalgia do mundo da cristandade, ainda sobrevivente (Libânio; Murad, 1996, p. 136). A teologia preponderante nesta época caracteriza-se pela submissão ao ensino, ou seja, o magistério, o qual é a característica fundamental da Igreja neste período. É o ensino que combate as heresias e se levanta como grande arma para eliminar os conflitos internos na instituição Igreja. “Especializa-se nas tarefas de expor, definir, defender, provar e confirmar a fé ortodoxa, examinar e condenar os erros. Deixe sua função de pesquisa para se tomar exposição autoritativa da doutrina.” (Libânio; Murad, 1996, p. 136). 34TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 A teologia tem seu papel importante na estruturação da fé cristã e nas crenças católicas. Segundo Libânio e Murad (1996, p.136), “os teólogos chegam a constituir um poder de fato na instituição da Igreja católica. Graças a eles é que o catolicismo moderno fica marcado pela preocupação com a homogeneidade, a ortodoxia, a clareza.” É neste momento que há um crescimento excessivo da dependência teológica no clérigo. Os primeiros beneficiários são exatamente os clérigos, os religiosos e os diocesanos, os quais passam a ter a obrigatoriedade de possuir um curso teológico e, como consequência, a formação sacerdotal sofre uma vulgarização irremediável. A teologia se desenvolve assim, sobrepondo três áreas: Fundamental, Dogmática e Moral: Na fundamental, prevalece a apologética, cujas demonstrações não visam a suscitar a fé, mas sim a mostrar a credibilidade do testemunho dado à revelação por Jesus Cristo e sua Igreja. Contra os incrédulos, funda racionalmente a necessidade de uma religião e divindade do cristianismo católico (Libânio; Murad, 1996, p. 137). Já a teologia moral se estrutura sobretudo a partir da lei, que é divina, natural e positiva nos dez mandamentos. E a teologia Dogmática utiliza do método regressivo, ou seja, partem de uma tese, remetendo-a ao ensinamento atual do magistério eclesiástico. 1. 2 O renascimento da teologia católica no início do Séc. XIX Antes de falarmos do Concílio Vaticano II, que foi um marco na mudança da teologia católica, precisamos entender alguns personagens que foram preponderantes nesta mudança, no caso, instituições. Neste momento, surgem duas escolas, a primeira é a Escola de Tübingen, na Alemanha, no ano de 1817, onde a academia teológica de Württemberg incorpora à Universidade como Faculdade Teológica Católica. Suas conquistas: Diálogo com o romantismo e o idealismo alemão, busca a fusão do método especulativo com o método histórico positivo, compreende a Igreja como lugar de continuação da manifestação divina. Ela fez um retorno à patrística e à escolástica. A segunda instituição foi o Colégio Romano, que, em meio a uma derrocada na teologia local, se sobressaiu com a crítica textual dos monumentos, os quais, com as recentes descobertas arqueológicas, entram, assim, em contato com a escola alemã. Libânio e Murad (1996) traduzem o sucesso destas instituições da seguinte forma: 35TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 As Escolas Romana e Tübingen emergem como exemplos significativos de esforços renovadores empreendidos por várias instâncias teológicas. Apresentam alguns pontos em comum: realizam estudos positivos, críticos e históricos. Aproveitam-se das descobertas arqueológicas. Intentem ir de encontro ao pensamento moderno. A crítica bíblica, a ciência, das religiões e a história dos dogmas questionam princípios da teologia reinante. A nova postura funda-se sobre a história comparada. Ao considerar o desenvolvimento do pensamento e ao pôr em xeque a concepção fixista da Escritura e a visão monolítica do dogma com suas verdades absolutas. Em suma, a concepção histórica entra lentamente na teologia ameaçando desestabilizar o sistema especulativo vigente (Libânio; Murad, 1996, p. 140). 1.3 O despertar da teologia católica no início do Século XX O século XX inicia-se de uma maneira muito positiva para a Igreja Católica, Roma e Alemanha produzem uma teologia inovadora e promissora, e então, a França começa a produzir dicionários e revistas de grande envergadura, com estudos de exegese, patrologia, história das religiões, dogmas e história da Igreja. O movimento neotomista desencadeado pelo Papa Leão XIII, ganha espaço e se desenvolve. Com o desenvolvimento da “Apologética da Imanência”, desenvolvida por M. Blondel, que trabalha com o perfil do homem concreto e histórico, procurando pontos de abertura para a revelação cristã. Blondel, de certo modo, está propondo uma resposta construtiva para o modernismo. Resumindo: O método da imanência de Blondel favorece a percepção da espiritualidade e necessidade da revelação. Nem tudo ocorreu no mesmo ritmo, os intitulados modernistas, atingiram um pico em suas contribuições: O movimento "modernista", assim chamado pela pretensão de seus protagonistas de adaptarem o catolicismo ao pensamento moderno, mesmo a custo de certa descontinuidade com o ensinamento tradicional da Igreja e suas formas institucionais, floresce na primeira década de nosso século. Faz eco à teologia protestante liberal do final do século passado, como aparece, por exemplo, em Schleiermacher e Sabatier. Sofre influência do agnosticismo dos neokantianos, panteísmo e evolucionismo dos neo-hegelianos e o vitalismo dos pragmáticos. Seu principal corifeu é A. Loisy (1857 - 1940), professor do Instituto Católico de Paris (Libânio; Murad, 1996, p. 142). Então, o golpe fatal nos crescentes modernistas veio quando os exegetas e historiadores do dogma propõem reformular o conceito de revelaçãoe dogma, introduzindo na igreja aspectos evolucionistas, imanentistas e subjetivistas. E assim, introduzem o pensar histórico do sujeito ao progresso, contra a rigidez dogmática da Igreja. Diz Libânio e Murad (1996) que: 36TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 A Igreja oficial desfecha-lhe violento processo de perseguição. Pio X denomina-o "suma de todas as heresias" (Dz 2105, 2114), condenando-o por meio de dois documentos: Lamentali (Dz 2001-2065) e "Pascendi" (Dz 2071 - 2109), em 1907. O primeiro, decreto pontifício, simplesmente enumera 65 afirmações dos modernistas, reprovando-as e prescrevendo-as em bloco. O segundo, carta encíclica, faz detalhada análise e acre juízo do movimento. A condenação elimina não só os exageros, mas também o espírito renovador que o movimento traz em si. Favorece desta forma a reação integrista, freia o desenvolvimento das ciências bíblicas e de outras áreas da teologia, reforça a fixação na teologia manualística (Libânio; Murad, 1996, p. 143). Como dissemos no início de nossos estudos, não há como estudar a teologia sem estudar a história das grandes Igrejas. No caso, vimos como funcionou o caminhar teológico na Igreja Católica. Até este momento da história, temos uma teologia que foi única e incontestada, que passou por um embate interno, no qual surgiu o protestantismo. Passou, também, por pressão externa, através do surgimento do Iluminismo e outras filosofias liberais, somadas à evolução da sociedade e ao despertar para um mundo mais corporativo, vencendo estes desafios, mas agora recebe uma sentença que provoca uma pausa em sua evolução. Porém, nos vinte anos entre a primeira e a segunda Grande Guerra, a teologia católica se desenvolveu sobremaneira, produzindo métodos e reflexões ímpares. Em resumo, houve um grande movimento para aproximar a teologia da espiritualidade e estes movimentos envolveram os dominicanos franceses, os jesuítas, os beneditinos e os carmelitas. A teologia, além de espiritualizada, começa a receber influência do humanismo e a teologia observa um enfoque com mais atenção, e assim surge a preocupação da teologia ao passar a ser com o bem-estar presente do homem. A problemática humana começa a ser assunto de teologia. Elaboram-se escritos sobre a moral familiar e as relações entre Igreja e Estado, o progresso, as relações sociais. O humanismo cristão, sobretudo com J. Maritain, traz novo alento à espinhosa questão do natural-sobrenatural, que subjaz à teologia da graça. Na eclesiologia, ressaltam-se as dimensões espiritual, sobrenatural e comunitária da Igreja, em contraposição ao juridicismo e ao individualismo (Libânio; Murad, 2003, p. 144). 1. 4 O Movimento Querigmático Neste tempo, surgiu o movimento querigmático, protagonizado por um grupo de teólogos de Innsbruck, na Áustria (J. A. Jungman, H. Rahner, J. B. Lotz), o qual, se resume em estudar a teologia e desenvolvê-la para atender a necessidade dos fiéis que 37TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 não tinham capacidade de absorver os termos teológicos, assim, a teologia era estudada nos seus termos teológicos já existentes e, também, era instruída de forma que o pregador alcançasse a eloquência e a vivacidade da Palavra, fazendo-se de um excelente pregador e conseguindo passar a mensagem a todos, desde o mais simples. Então, teríamos duas teologias, a primeira, já conhecida entre os teólogos, a erudita, e a segunda, que era a querigmática, voltada à pregação da Palavra com ênfase no plano salvífico de Deus na história. Utiliza-se de recursos pedagógicos na apresentação da mensagem cristã e uma teologia mais do coração que intelectual, utiliza imagens e estilo simples, distanciando-se muito dos manuais de teologia. Infelizmente, o movimento se afasta muito do eixo de existência entre as teologias propostas e, inevitavelmente, perde espaço. A teologia querigmática diagnostica completamente a doença no corpo da teologia, mas prescreve medicação equivocada. Acentua demasiadamente a separação em duas teologias. Toda teologia deve ser simultaneamente querigmática, servindo à evangelização, e científica, atenta à sistematicidade e coerência de seu discurso. Certamente o tipo de interlocutor exige acentos diversos. Mas a teologia na época só conhecia um tipo de cientificidade, herdada do tomismo. E neste momento ela não comportava abertura para a pastoral. Mesmo assim, a teologia querigmática produz frutos benéficos, gerando renovação no ensino e busca de teologia com incidência existencial, utilizável na pregação. Alerta para a dimensão pastoral da teologia, promove também volta às fontes da Escritura e dos Santos Padres (Libânio; Murad, 1996, p. 145). Com esta base que estudamos, podemos entender por que a teologia católica segue como tal, para entendermos que o catolicismo procura manter suas origens e sua institucionalidade. Nos tópicos a seguir, veremos o que foi a Reforma Protestante e entenderemos mais sobre a teologia católica também. Sugiro que você acesse o material complementar que estamos indicando e continue a conhecer a história da teologia católica, você estará conhecendo o momento de vários novos movimentos teológicos e de definição da teologia católica contemporânea. 38 REFORMA E CONTRARREFORMA2 TÓPICO TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 2.1. Pré-Reforma: No Séc. XII d.C., um homem chamado por Pedro Valdo (Pedro, por ser comparado ao apóstolo Pedro e Valdo, por ser um Valdez), comerciante de Lyon, na França, se converteu ao cristianismo e ao ter contato com a Bíblia, decidiu adquirir um exemplar em linguagem popular e passou a pregar a Palavra sem ser sacerdote. Ao mesmo tempo, renunciou seu ofício e dividiu seus bens aos pobres. Os seguidores de Valdo são conhecidos como “valdenses” e se caracterizam por não reconhecer a soberania eclesiástica de Roma, renunciavam ao culto a imagens e tinham como direito que cada fiel tivesse um exemplar das escrituras sagradas em sua própria Língua. No Séc. XIV d.C. tivemos outro precursor importante da Reforma, o inglês John Wycliffe, que defendia que a Igreja deveria retornar às origens, era contra o enriquecimento do clero e acreditava que o poder da Igreja deveria se limitar às questões religiosas. 39TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 FIGURA 1 - JOHN HUSS EM SEU OFÍCIO https://www.shutterstock.com/image-photo/john-huss-jan-hus-monument-vitkov-656150191 MONUMENTO DE JOHN HUSS (JAN HUS), MEMORIAL NACIONAL DE VITKOV, PRAGA, REPÚBLICA CHECA - 6 DE JUNHO DE 2017: O reformador e padre boêmio está pregando aos guerreiros. Movimento hussitista contra a igreja católica Logo em seguida, surge João Huss, pensador tcheco, que continua o pensamento de Wycliffe e também reúne fiéis à sua causa (George, 1993, p. 38 - 41). Com esta breve introdução, demonstramos o que já havia em oposição ao catolicismo. 2. 2 Reforma Protestante: Foi no início do século XVI que um monge alemão chamado Martinho Lutero, convencido das ideias dos pré-reformadores (João Huss, Wycliffe, Valdo), realizou três sermões contra as indulgências cobradas pela Igreja Católica. No dia 31 de outubro de 1517, ele afixou as 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, com um convite aberto a 40TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 uma disputa escolástica sobre elas. Assim, temos o início da chamada Reforma Protestante (George, 1993). Mas, primeiramente, quem foi Martinho Lutero? Vamos ver o que nos diz o Dr. Timothy George em sua breve biografia de Lutero: Martinho Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483, em Eisleben, filho de um minerador de prata de classe média. Destinado para o estudo de Direito, voltou-se para o mosteiro, no qual, após muitas lutas, desenvolveu uma nova compreensão de Deus, da fé e da igreja. Isso o envolveu num conflito com o papado, seguido de sua excomunhão e da fundação da Igreja Luterana, a qual presidiu até morrer, em 1546 (George, 1993, p. 51). Martinho Lutero, condenava a avareza do paganismona igreja, bem como, a cobrança de indulgências, estes eram os pontos principais, embora, há outros a serem defendidos e debatidos pelo reformador. As 95 teses foram traduzidas para o alemão e em pouco tempo, um mês, e suas cópias estavam por toda a Europa. Obviamente, Lutero foi processado pela igreja e em 1520 foi excomungado e exilado no Castelo de Wartburg, em Eisenach, onde permaneceu por cerca de um ano e ali, trabalhou em traduzir a Bíblia para o alemão, a qual, em 1522, estava sendo impressa o Novo Testamento. Para esta unidade o que precisamos entender sobre a Reforma Protestante é o fato que a publicação e os fatos posteriores, desencadearam uma série de movimentos contra o clero da época, padres renunciaram seus votos de castidade, houve um movimento de desaceleração no recebimento de indulgências. Lutero se casou e com isto, outros padres também seguiram seu exemplo. Este ato culminou com o rompimento definitivo de Lutero com a igreja católica romana. Na ótica do clero católico, houve um enorme prejuízo à imagem da instituição eclesiástica e por alguns anos, o catolicismo procurou regenerar suas práticas. 2. 3 Contrarreforma: Este tema, neste momento, nos chama mais a atenção porque estamos falando de teologia católica e a contrarreforma foi uma estratégia desta teologia para se defender e buscar o apogeu que tinha anteriormente. Então, enfim, o que é a contrarreforma? Podemos entender que foi o esforço da Igreja Católica para conter o crescimento do protestantismo pela Europa, mediante várias ações conjuntas. 41TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 Como iniciou a contrarreforma? Iniciou-se no Concílio de Trento no ano de 1545 e durou 18 anos, indo até 1563. Foi convocado pelo papa Paulo III e dividido em três encontros, as discussões tinham como centro o combate às heresias e o fortalecimento da Igreja Católica. As questões doutrinárias foram os primeiros atos a serem discutidos no Concílio, tais como, o pecado original, sacramentos, ritualismo, papel de Maria, Jesus, entre outros, foi mantida a infalibilidade do papa, mas, diante dos ataques protestantes, a igreja recuou no quesito “venda de indulgências”, proibindo esta prática. Não foi somente por meio de princípios que a contrarreforma ocorreu. A ação também aconteceu na proibição da venda e leitura de certos livros, que eram contra o catolicismo romano. Houve a instituição da catequese, a fim de doutrinar os membros e a confirmação da transubstanciação, do celibato e da hierarquia clerical, também eram imposição para os sacerdotes católicos na época e deviam ser também de conhecimento de todo o povo. Surgiu a Companhia de Jesus, uma importante frente de jesuítas, aptos a catequizar e reciclar o ensino religioso para qualquer nação. Inácio de Loiola foi o grande fundador dessa companhia em 1534. Foram reativados os “Tribunais do Santo Ofício” e instaurou-se a inquisição. Nos países onde o catolicismo perdia fortemente terreno para o protestantismo, aqueles que faziam a opção de não serem católicos eram julgados como hereges e queimados vivos (George, 1993). Enfim, neste breve resumo sobre a contrarreforma, percebemos que, na verdade, o movimento de defesa da teologia católica não trouxe consideráveis inovações, mas uma fixação das ordens católicas já existentes. De fato, o maior benefício para todos, ocorreu devido à Reforma Protestante, porque, com a ascensão do protestantismo, o povo foi liberto da cobrança de indulgências. No Brasil, os jesuítas contribuíram muito com a formação da sociedade. Eles eram contra a escravidão indígena e práticas bizarras que poderiam ser praticadas, também promoveram a educação e a catequização do povo escravo. 42 ESPIRITUALIDADE, INTELECTUALIDADE E ECLESIALIDADE3 TÓPICO TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 3. 1 Espiritualidade: A espiritualidade é a essência natural e parte integrante da teologia, ela não causa dano ou descrédito à teologia, por abalar sua cientificidade. Libânio e Murad (1996) conceituam a relação entre espiritualidade e teologia como algo necessário ao futuro teólogo: Ao articular-se com a espiritualidade, a teologia recria, como na patrística, as condições para ser "mistagogia", introdução ao mistério divino. Constata-se, com tristeza, que alunos do terceiro ou quarto ano de teologia, após estudar tanto tempo a "doutrina sagrada", avançaram muito pouco na vida de fé, no seguimento a Jesus. Poder-se-ia contra-argumentar que o curso de teologia não se destina primariamente a esta finalidade. Alimenta-se espiritualidade no espaço eclesial, não no espaço acadêmico: seminário, casa de formação ou grupo/pastoral dos leigos, conforme o caso. Mas a pergunta irrenunciável permanece: como a intelecção das verdades da fé pode ajudar a sua vivência? De que forma a compreensão impulsiona o coração a entregar-se de forma mais madura a Deus, e as mãos a abrir-se na causa da evangelização?” (Libânio; Murad, 1996, p. 241). A Espiritualidade é totalmente necessária para uma teologia completa, afinal, a teologia tem seu componente de fé, de busca pelo oculto: “Na feliz expressão de J. Sabrina, a espiritualidade, ao incidir na teologia, muda-lhe o rosto, dá-lhe sabor, confere-lhe características ímpares: teologal, popular e dialogal (criatura!).” (Libânio; Murad, 2003, p. 241). 43TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 3. 2 Intelectualidade: A intelectualidade é a capacidade de fazer uma reflexão profunda de determinados eventos, no qual diz respeito à personalidade do indivíduo, que em seus níveis de inteligência, pode possuir preponderância ou se inclinar para um determinado tipo, por exemplo, podemos ter uma inteligência crítica mais forte que uma inteligência analítica, assim, nossa intelectualidade irá refletir nos nossos resultados. Antonin Gilbert Sertillanges, escritor da obra “A vida intelectual”, escrita em 1920, detalha como a vida intelectual influencia em uma vocação autêntica: Falar de vocação equivale a designar os que pretendem fazer do trabalho intelectual a sua vida, ou porque dispõem do tempo vago para entregarem ao estudo, ou porque, no meio de ocupações profissionais reservam para si, como feliz suplemento e recompensa, o profundo desenvolvimento do espírito. Digo profundo, para descartar uma ideia de tintura superficial. Uma vocação não se satisfaz com leituras vagas nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer penetração continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responderá ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouve comunicar-nos (Sertillanges, 2010, p. 06). O fundamento da vocação intelectual se manifesta primeiramente no aprender a pensar, depois, se manifesta de realidade, com um misto de utopia e por fim, manifesta sua lucidez de realidade, assim, o fruto é a liberdade responsável do intelecto. A vida intelectual é uma vocação e depende do desejo em realização. A intelectualidade na atualidade exige criticidade e capacidade de dialogar, assim, seu fruto pode ser compreendido. 3. 3 Eclesialidade: A Eclesialidade nada mais é que o coletivo, o trabalhar com e em prol de um grupo. O teólogo não caminha sozinho, ele não trabalha só e seus frutos não são para ele apenas e a comunidade agrega à teologia, no qual precisa considerar as manifestações populares dos fiéis. O que os fiéis professam como verdade é critério para validar um ensino. O teólogo precisa estar em sintonia com a comunidade e com a igreja, manter suas origens teológicas e contrastar com a realidade vivida na comunidade em que estiver inserido. O teólogo deve analisar o contexto do local e respeitar as crenças e verdades professadas pelos locais. Falar de Eclesialidade é dizer que a teologia vai até o povo que precisa da pregação da Palavra, como conceito simples. 44 TEOLOGIA PRÁTICA E TEOLOGIA SISTEMÁTICA4 TÓPICO TEOLOGIA CATÓLICA ROMANAUNIDADE 2 4. 1 Teologia Prática A Teologia Prática nada mais é