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CamposSulinos

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exemplo de 
Conflito Ecológico Distributivo (Alier 2007). Evocamos, particularmente, aquele que acompanhamos 
mais de perto e cujo relato pode ajudar a elucidar os conflitos existentes. Estes conflitos poderão, 
muitas vezes, aparentar defesa da natureza exclusivamente, mas são na essência conflitos de territórios, 
em confrontos assumidos por diferentes agentes sociais. 
Recentemente (em 2005), o então governador do Estado Germano Rigotto decide promover o 
desenvolvimento da silvicultura (monocultura) com eucalipto como forma de crescimento econômico, 
em particular na metade sul do Rio Grande do Sul.
Do ponto de vista sócio-econômico, o objetivo seria transformar a matriz econômica da metade sul 
do Rio Grande do Sul, histórica e culturalmente pastoril, em região de produção de madeira e celulose. 
As bases desse empreendimento estão assentadas na construção de um pólo de produção de celulose 
em terras do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina (O Cone Sul), implantar fábricas de celulose (as 
papeleiras tão discutidas e geradoras de conflito recente entre o Uruguai e Argentina) e promover o 
escoamento dessa produção através de vias navegáveis, como a Lagoa dos Patos, pelo Porto de Rio 
Grande, e o Rio Uruguai para escoamento pelo Mar del Plata. O destino é o mercado internacional.
Esta política engendrada por grandes empresas de produção de celulose, e assumida pelo atual 
governo do Rio Grande do Sul (2007), divide territorialmente o Estado em três áreas de interesse de três 
empresas produtoras de eucalipto: Aracruz (na Depressão Central e região de Porto Alegre), Votorantim 
(na região do entorno e retaguarda das cidades de Pelotas e Rio Grande) e Stora-Enso na fronteira 
sudoeste, mais localmente nos municípios de Maçambará e São Francisco de Assis, entre outros.
A empresa sueco-finlandesa Stora-Enso tem sua área de atuação na região sudoeste. Seus 
investimentos iniciais foram da ordem de US$ 50 milhões na aquisição de 50 mil hectares e não se 
restringem a essa porção de território, ao contrário estendem-se também pelo Uruguai, nas mesmas 
proporções e na perspectiva de implantar empresas de produção de celulose. A área de interesse da Stora-
Enso está localizada na faixa de fronteira cujas terras, por legislação federal, não podem ser adquiridas. 
Muitas das terras já vendidas ao capital estrangeiro localizam-se em faixa de fronteira e são 
impedidas de serem regularizadas com base em lei federal. 
“A empresa sueco – finlandesa tem encontrado dificuldades para regularizar o registro de suas terras 
em zona de fronteira no estado por ser uma companhia de capital estrangeiro – ela precisa de uma 
autorização especial do governo federal para efetuar o registro. Para resolver essa questão e regularizar 
suas terras o registro vem sendo feito em nome de executivos da própria empresa, que na prática 
passam a serem grandes latifundiários.” (geral/Valor econômico 4 de julho de 2007).
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A introdução da monocultura do eucalipto constitui-se em uma mudança na matriz econômica de 
forma conservadora e concentradora de renda. Neste caso, em parte, capital estrangeiro. 
Sob outro aspecto, cabe registrar as manifestações relativas à defesa do bioma Pampa. Estas 
manifestações têm de um lado uma perspectiva ecológica de manutenção da vida para além do humano. 
Esta defesa recebe o apoio dos movimentos sociais pelo acesso a terra, na medida em que a garantia da 
diversidade do bioma Pampa não deverá excluir a possibilidade da diversificação da produção econômica 
e manutenção da vida, visão de mundo que perpassa a luta dos movimentos sociais pela terra. 
 A mediação desse conflito é feita com base, por vezes, em fundamentos técnico-científicos. Este 
conhecimento tem dado sustentação ora para um ora para outro segmento social. O exemplo trazido, o 
instrumento técnico de gestão exigido em legislação, ou seja, a construção de um Zoneamento Ambiental 
é nesse embate a expressão máxima desse conflito. 
A necessidade de regulação: o embate sobre o Zoneamento Ambiental
O zoneamento ambiental para a atividade relativa à silvicultura é uma exigência legal em escala fe-
deral e estadual. Está previsto, no caso do Rio Grande do Sul, no Código Estadual do Meio Ambiente: Lei 
11520/2000. Diante da política de ampliação da silvicultura no Estado fica evidente a necessidade de tal zo-
neamento. Este foi elaborado pela SEMA/FEPAM (Fundação Estadual de Proteção Ambiental), em 2007. 
O trabalho de elaboração do Zoneamento envolveu tempo, especialistas e pesquisadores de órgãos 
públicos e privados, instituições de pesquisa e universidades, além da discussão ampliada com diferentes 
segmentos sociais. Resultou deste Zoneamento, uma proposta não necessariamente restritiva, mas 
limitadora da silvicultura. Entretanto, desde o momento em que a proposta foi divulgada, a discussão e 
o desejo de desconsiderá-la (por parte dos agentes interessados na expansão dessa atividade, governo, 
empresários, proprietários (alguns)), além de ficar evidente, promoveram uma ampliação do debate, 
envolvendo parte da comunidade do Rio Grande do Sul. 
Esta não aceitação gerou conflitos de ordem política que implicaram em substituições, por 
exemplo, na direção da FEPAM, intervenções por parte do Governo, com o processo e instalação de nova 
comissão para elaborar um “novo” Zoneamento. Além de montagem de Audiências Públicas totalmente 
comandadas pelos interesses políticos e econômicos, a propaganda da silvicultura desde a mídia até as 
escolas, através de prêmios oferecidos às crianças do ensino fundamental pela elaboração de redações 
relativas ao tema (intervenção direta dos interesses privados em espaços públicos, como as escolas 
municipais e estaduais do ensino fundamental).
 Diante de tal conjuntura, o movimento social, que poderia ter radicalizado considerando que o 
Zoneamento Ambiental era ainda permissivo à silvicultura, encaminha a discussão objetivando defender 
o Zoneamento, trata-se de aceitar uma proposta menos restritiva do que o esperado. 
As restrições ao plantio em paisagens do sudoeste do Rio Grande do Sul
No caso específico em análise, a região sudoeste do RS, o Zoneamento Ambiental (SEMA/FEPAM/
FZB 2007) definiu quatro unidades de paisagem (PC3, PC4, PC5, PC 6) como áreas de média e alta 
restrição. Estas unidades localizam-se desde o sudoeste do Rio Grande do Sul (fronteira com o Uruguai) 
até o Rio Ibicuí, em áreas de abrangência dos municípios de São Francisco de Assis e Maçambará. As 
restrições nessas áreas decorrem das características da região, elaboradas através de mapeamentos 
de diferentes indicadores e utilizadas como suporte ao Zoneamento. A região sudoeste, com base no 
Zoneamento, apresenta-se como uma região campestre associada a espécies nativas que caracterizam 
ambientes pretéritos (ex: Parque do Espinilho), déficit hídrico muito alto nos meses de verão, baixa e 
média disponibilidade hídrica superficial, e vulnerabilidade dos aqüíferos considerada média alta. Além 
disso, constitui uma área de ocorrência de espécies ameaçadas de aves e mamíferos, além de espécies da 
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flora, que incluem ocorrências restritas e raras (veja Capítulo 4). A fragilidade do solo e a ocorrência de 
areais são também características regionais restritivas. Nesse sentido, o Zoneamento indica restrição 
dos solos para a silvicultura. Observa-se ainda, na leitura do Zoneamento, a inexistência de parques, 
reservas nacionais ou estaduais. Apenas a APA (Área de Proteção Ambiental) da Bacia do Ibirapuitã 
constitui área de preservação nesse espaço territorial. Além disso, há registro de reservas indígenas 
e comunidades quilombolas e os sítios arqueológicos, embora estejam pouco estudados, revelam um 
passado de ocupação significativo.
As fragilidades naturais