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CamposSulinos

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da região são um indicativo de restrição no zoneamento, associam-se a 
estas fragilidades a valorização da área como uma das poucas no estado com presença do campo nativo 
e a perspectiva, diante das condições de vento, de reserva para parque eólico.
Não levando em consideração critérios de valorização dos argumentos que são contrários à 
silvicultura, abrimos uma questão muito relevante para ser colocada em discussão, o imaginário 
da paisagem pampeana para a cultura gaúcha. Inclusive foi contemplada essa preocupação pelo 
Zoneamento Ambiental: “Não poderão ser implantadas barreiras à visualização dos elementos 
cênicos no que diz respeito à imagem do PAMPA, reconhecido pelo imaginário gaúcho, onde a 
cultura da população é a visualização do horizonte” (SEMA/FEPAM/FZB 2007).
O discurso da ocupação, e contrário ao zoneamento, por sua vez ancora-se no fato da região se 
caracterizar pela presença de grandes e médias propriedades, baixa população rural, infra-estrutura em 
geral baixa, produtividade da terra média (embora em alguns setores seja alta), renda baixa. Entretanto, 
o modelo silvicultor não possibilita grandes mudanças econômicas à população, que continuará com 
seu trabalho, temporário e baixa remuneração, como revelam os conflitos com essas mesmas empresas 
em outras regiões do país.
Contraditoriamente, este mesmo conhecimento tem servido para subsidiar a discussão política 
de comunidades tradicionais e ou movimentos sociais, que também dele se assessoram para promover 
suas reivindicações. A gestão do conflito, portanto, se expressa também nessa esfera. O exemplo 
trazido da expansão da silvicultura no Rio Grande do Sul expressa um confronto político entre os 
representantes das grandes empresas, os silvicultores, o Estado, os movimentos sociais e ecologistas, 
além de pesquisadores vinculados a universidades. Este confronto mediado por um conhecimento 
técnico produzido no interior da administração estadual, com a finalidade de legislar o uso do solo 
gaúcho, acaba por servir mais aos movimentos sociais do que à regulação do Estado. Este instrumento 
subsidiou a discussão política e a defesa do bioma Pampa em diferentes embates. 
Para estimular o debate
O Pampa, na sua atribulada história de constituição e de ocupação, deixou vestígios das forças e 
dos atores mobilizados em sua montagem. Moldou o espírito dos antropóides viajantes, que o escolheram 
como pouso e neles imprimiu uma acuidade visual penetrante, hipnotizado pelo horizonte longínquo.
As idéias aqui apresentadas derivam da pesquisa construída por pesquisadores de diferentes áreas 
junto ao grupo de pesquisa sobre arenização do Departamento de Geografia, Instituto de Geociências 
da UFRGS. Os estudos sistematizados até então, dos quais este texto é uma expressão, baseiam-se 
na interpretação paleoambiental e revelam o Pampa como unidade frágil em constituição recente 
sob ambiente úmido. Como bioma brasileiro, o Pampa, ganhou por decreto federal brasileiro seu dia 
oficial, 17 de dezembro, data escolhida como homenagem ao ambientalista gaúcho José Lutzenberger. 
Reconhecer a importância dessas paisagens, berço dos primeiros aborígines gaudérios, traz consigo 
a responsabilidade de refletir sobre as formas humanas de viver conectado a esse bioma. Com uma 
fisionomia paisagística diversificada, entre tantas unidades de paisagens pampeanas, descortinam-se os 
areais. Para reconstituir a história aqui apresentada, os areais e o que a partir deles se revela constituem 
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uma janela ao passado, ou seja, janela de conservação e fonte de registros de ambientes pretéritos. 
Os povos pré-colombianos, ao habitarem o Pampa, vivenciaram os areais e desde então promoveram 
a construção de uma cultura na interação com os colonizadores. A identidade do bioma Pampa com a 
cultura gaúcha é reveladora da intersecção de várias etnias. Este encontro étnico se revela não só pelos 
registros históricos mas, também, pelo legado cultural crioulo expresso na linguagem que aqui tentamos 
transmitir. A domesticação da caça bovina na Ásia, apropriada pelos europeus e, por estes, difundida 
para as novas terras invadidas, o gado introduzido no Pampa acopla-se estruturalmente à paisagem 
pampeana, irmã das suas origens, e a mantém aproximadamente a sua imagem natural. Esta, por sua 
vez, realimenta a tradição pampeana através de seus elementos. É este bioma, suas paisagens e a cultura 
crioula que se visualizam como ameaçados. A crise anunciada para a economia da Campanha (porção 
do Pampa) e a reestruturação econômica homogenizadora proposta revelam o embate. A proposta da 
silvicultura como alternativa reificadora contraria as propostas de manutenção da diversidade através 
do uso diversificado e da manutenção desse mosaico de paisagens, saberes e fazeres – O Pampa.
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