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CamposSulinos

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vierem a apresentar uma pequena produção de sementes ou após uma estação desfa-
vorável (Thompson 1993, Bakker et al. 2000). O banco de sementes transitório, juntamente com a 
multiplicação vegetativa, é responsável pelo recobrimento de pequenos espaços abertos na vegetação 
(Thompson 1993). 
A conservação da vegetação dos Campos Sulinos certamente depende da existência de um banco 
de sementes no solo ou da chuva de sementes (distribuição de propágulos por dispersão), pois a mul-
tiplicação vegetativa por si só não é capaz de propiciar a manutenção das populações de uma grande 
parte das espécies nativas em campos utilizados pelo homem (veja também Capítulo 6). Espécies em 
desvantagem (por competição ou estresse ambiental) na vegetação estabelecida, freqüentemente, são 
encontradas em quantidade no banco de sementes do solo. O manejo sustentável para a vegetação 
deve permitir uma produção suficiente de sementes, a fim de manter tanto a chuva de sementes dessas 
espécies, quanto um banco no solo que conserve considerável riqueza, densidade de sementes viáveis 
e variabilidade genética. 
Também a recuperação e a restauração dos Campos Sulinos são dependentes da chuva de 
sementes de espécies nativas ou de seu banco no solo. Sementes de espécies características dos 
vários estágios sucessionais da dinâmica campestre são encontradas viáveis no banco de sementes 
do solo. Do mesmo modo, é comum a formação de um banco de sementes de espécies exóticas 
nos Campos Sulinos, uma vez que estas já se encontram amplamente distribuídas pela região 
(veja Capítulos 24 e 25). Contudo o uso adequado da vegetação estabelecida pode impedir que 
esse banco se manifeste. No contexto atual, a identificação das espécies que compõem o banco de 
sementes do solo e a quantificação do número de sementes viáveis existentes, tanto em campos 
nativos como em campos que sofrem diferentes tipos, intensidades e/ou freqüências de distúrbios 
e manejos, apresenta redobrada relevância, pois os Campos Sulinos estão submetidos a pressões 
antrópicas cada vez maiores e, portanto, necessita-se de avaliações qualitativas que, inicialmente, 
propiciem o conhecimento da real situação da vegetação campestre e, posteriormente, avaliem os 
efeitos da ação antrópica sobre a dinâmica da vegetação e as ações necessárias para a sua conser-
vação e restauração.
Caracterização do banco de sementes do solo nos Campos Sulinos
Os estudos do banco de sementes do solo em Campos Sulinos são incipientes. Contudo, quando 
são analisados, assim como também os inventários realizados em campos semelhantes da América do 
Sul, é possível concluir que as características do banco de sementes do solo neste tipo de vegetação 
lhes são próprias e nem sempre seguem as conclusões obtidas considerando vegetações campestres no 
restante do mundo. Também se observam diferenças no banco de sementes do solo de campos nativos, 
campos antrópicos mantidos por longos períodos sem distúrbios intensos, ou campos alterados há 
bastante tempo em relação àqueles recentemente perturbados. A Tabela 5.1 mostra estudos realizados 
em campos sul-americanos pouco perturbados: nativos e antrópicos.
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 Tabela 5.1 | Inventários do banco de sementes do solo realizados nos campos sul-americanos pouco perturbados, nativos e antrópicos, seus 
respectivos locais, tipo de campo, tamanho de amostra, riqueza, índice de diversidade específica de Shannon (H’) e densidade de sementes no solo, 
listados no sentido leste-oeste.
Referência Local Tipo de campo
Amostra
Riqueza H’ Densidade1Superfície 
(cm²)
Profundidade 
(cm)
Volume 
(cm³)
Garcia 
(2005)
Rio Grande do Sul, 
Brasil Úmido
2 141,37 18 2.544,69 39 2,83 57.001
Maia et al. 
(2003, 2004)
Rio Grande do Sul, 
Brasil
Alagável2
264,88 7 1.854,15
56 59.500
Baixada não 
alagável2 74 32.833
Encosta2 64 13.500
Topo2 76 29.200
Favreto et al. 
(2000)
Rio Grande do Sul, 
Brasil Pastejado ca. 71,43 7 ca. 500,00 42 ca. 70.094
Haretche & 
Rodríguez (2006)
Departamento de San 
José, Uruguai
Pastejado 251,00
5
1.255,00 ca. 9.580
Não pastejado 251,00 1.255,00 ca. 6.520
Boccaneli & Lewis 
(1994)
Província de Santa Fé, 
Argentina Pastejado 502,65 10 5.026,55 33 28.523
Funes et al. 
(2001)
Província de Córdoba, 
Argentina
Úmido 1.258,00
10
12.580,00 ca. 11 ca. 19.000
Cespitoso alto 1.258,00 12.580,00 ca. 16 ca. 4.000
Pedregoso 1.258,00 12.580,00 ca. 13 ca. 7.000
Funes et al. (2003) Província de Córdoba, Argentina Cespitoso alto 1.256,64 5 6.283,20 73 ca. 2.450
Márquez et al. 
(2002)
Província de Córdoba, 
Argentina
Pastejado 481,06 10 4.810,56
58
1,60 ± 0,24 ca. 8.000
Não pastejado 481,06 10 4.810,56 1,97 ± 0,12 ca. 8.000
1 (sementes viáveis germinadas.m-2); 2 Campo pastejado
Riqueza
O número de espécies, gêneros e famílias encontrado, assim como a composição do banco de 
sementes do solo, são bastante variáveis de acordo com a composição florística da vegetação estabe-
lecida e a localização geográfica do campo. A riqueza do banco de sementes nos Campos Sulinos varia 
entre 39 e 76 espécies. A maioria dos campos sul-americanos apresenta riqueza próxima a esse inter-
valo, podendo ser menor, na casa das 13 espécies (Tab. 5.1).
Maia et al. (2003) registraram uma riqueza menor em campo alagável (56 espécies vasculares) 
em relação a áreas de topo, baixada não alagável e encosta, com 76, 74 e 64 espécies, respectiva-
mente. Funes et al. (2001) encontraram uma riqueza bem inferior, cerca de 11 espécies no banco de 
sementes do solo em campos úmidos argentinos. Campos pedregosos apresentaram maior número 
de espécies, porém não significativamente diferente, e campos cespitosos altos tiveram riqueza signi-
ficativamente maior em comparação com as duas outras fisionomias. Através dos resultados de Maia 
et al. (2003, 2004), de Garcia (2005) e de Funes et al. (2001), pode-se concluir que os campos sul-
americanos úmidos contém bancos de sementes do solo menos ricos do que aqueles melhor drenados. 
As áreas inventariadas na região da Depressão Central do Rio Grande do Sul (Favreto et al. 2000, 
Maia et al. 2003, Maia et al. 2004) apresentaram maior número de espécies que a estudada na região 
do Litoral (Garcia 2005), embora os dois primeiros autores tenham avaliado uma profundidade de 
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solo menor que o terceiro, pois no Rio Grande do Sul, os campos do Litoral são os que apresentam menor 
riqueza florística em relação aos das outras regiões fisiográficas ou fitoecológicas na vegetação estabele-
cida (Ramos 1977, Bueno et al. 1979, Boldrini & Miotto 1987, Eggers & Porto 1994, Girardi-Deiro et al. 
1994, Garcia 2005).
As famílias com maior número de espécies no banco de sementes do solo parecem ser as mesmas 
nos campos do Rio Grande do Sul. Há maior riqueza de Cyperaceae, Poaceae e Asteraceae. Entretanto 
a ordem em que se apresentam e a grandeza são diferentes (Maia et al. 2003, Garcia 2005). 
Densidade
Nos campos sul-rio-grandenses, a densidade do banco de sementes do solo variou de 13.500 
a cerca de 70.094 de sementes viáveis germinadas m-2, perfazendo mais do que o dobro do tamanho 
dos bancos de sementes inventariados em campos sul-americanos e excedendo em muito a densidade 
de 5 a 31.344 sementes m-2 encontrada nas demais vegetações dominadas por gramíneas (Rice 1989, 
Milberg 1992, Schott & Hamburg 1997, Baskin & Baskin 2001, Kalamees & Zobel 2002). O campo 
úmido do Litoral (Garcia 2005) e o campo alagável da Depressão Central apresentaram uma densida-
de semelhante, enquanto em locais com menor umidade no solo o tamanho do banco de sementes foi 
menor (Maia et al. 2003). Também Favreto et al. (2000) e Funes et al. (2001) amostraram densidade 
de sementes significativamente maior