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CamposSulinos

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florestais, indicando mudança para um clima mais úmido, semelhante ao 
atual, mas a paisagem manteve-se predominantemente campestre. Portanto, 
os primeiros colonizadores de origem européia encontraram nesta parte da 
América do Sul paisagens campestres, abertas, bastante apropriadas para 
as atividades que aqui se desenvolveram. A história econômica e cultural da 
região não poderia ser dissociada dessa paisagem.
Distúrbios causados pelo fogo e pastejo são importantes nesses ecossistemas 
campestres, influenciando na diversidade de espécies, e em certa medida 
sendo essencial para sua conservação, mas o limiar entre uso sustentável e 
degradação devido a esses distúrbios ainda é insuficientemente conhecido. 
Nos Campos havia grandes herbívoros pastadores, extintos há milhares de 
anos. Queimadas ocorrem desde o início da ocupação humana e a influência 
do gado desde sua introdução no século XVII.
Os Campos garantem serviços ambientais importantes. Têm sido a principal 
fonte forrageira para a pecuária, abrigam alta biodiversidade, garantem a 
conservação de recursos hídricos e oferecem beleza cênica com potencial 
turístico importante. Entretanto, sua conservação tem sido negligenciada 
frente à perda de hábitats campestres ocorrida nas últimas décadas devido à 
conversão em usos agrícola e silvicultural.
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Capítulo 1
 
Dinâmica dos campos no sul do 
Brasil durante o Quaternário Tardio 
Hermann Behling1,2, Vivian Jeske-Pieruschka1, Lisa Schüler1 & Valério De Patta Pillar3
Introdução
A história dos campos no sul do Brasil, incluindo sua origem, desenvolvimento, distribuição, 
composição e biodiversidade, assim como o papel do fogo e do impacto humano, tem sido estudada 
apenas recentemente. Variações espaciais e temporais dos biomas campestres nos trópicos e subtrópicos, 
assim como alterações nos limites entre campo e floresta e mudanças florísticas da vegetação campestre, 
são eventos importantes que contribuem para o entendimento dos atuais campos do sul do Brasil. 
Os ecossistemas de campos subtropicais do Brasil apresentam alta biodiversidade e são o tipo de 
vegetação predominante em algumas áreas da região sul. Uma vegetação em forma de mosaico campo-
floresta, que ainda apresenta um certo aspecto natural, pode ser encontrada em algumas regiões menos 
degradadas, apesar das massivas alterações na paisagem que têm ocorrido pela conversão dos hábitats 
para agricultura e silvicultura. Uma questão importante é se esses campos são naturais ou se teriam sido 
formados através de atividades humanas pré e pós-Colombianas. O clima atual, com condições úmidas, 
deveria favorecer uma paisagem florestal. Por isso a existência desses mosaicos tem instigado naturalistas 
e ecologistas desde há muito tempo. No passado, alguns pesquisadores, como Lindman viajando pela 
região no final do século XIX, observaram que a vegetação deveria ser capaz de expandir sobre esses 
campos e atribuíram a presença do mosaico a uma situação de transição entre floresta tropical, ao 
norte, e vegetação de campo, ao sul (Lindman 1906). Rambo (1956a, b) e Klein (1975), baseando-se 
principalmente em evidências fitogeográficas, conjeturaram que os campos eram o tipo de vegetação 
mais antigo e que a expansão da floresta seria um processo mais recente, decorrente das mudanças no 
clima para condições mais úmidas. Hueck (1966) também questionou como os campos do sul do Brasil 
poderiam existir sob as atuais condições climáticas úmidas, propícias para vegetação florestal.
Foto de abertura: Valério Pillar. Campos de Cima da Serra em São Francisco de Paula, RS.
1 Department of Palynology and Climate Dynamics, Albrecht-von-Haller Institute for Plant Sciences – Georg-August-University of Göttingen (Untere Karspüle 
2, 37073 Göttingen, Germany)
2 Autor para correspondência: Hermann.Behling@bio.uni-goettingen.de 
3 Departamento de Ecologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
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O conhecimento da origem dos campos é de suma importância para sua conservação e manejo. Se, 
por um lado, os mosaicos de campo e floresta são conseqüência humana, causados por desmatamento, 
então um trabalho de manejo da vegetação deveria ser focado na reposição completa da vegetação 
florestal. Porém, se os campos são originais e têm prevalecido desde o passado devido a diferentes 
regimes climáticos, então um alto valor deveria ser atribuído a tais relictos naturais, com a sua alta 
biodiversidade e também suas formas de manejo tradicionais. Informações pré-históricas e históricas, 
que envolvam o conhecimento sobre a intensidade do fogo e a freqüência de queimadas, bem como os 
efeitos de ambas sobre a vegetação, também poderiam ser aplicadas na criação de planos de manejo 
sustentável a longo prazo e trabalhos de monitoramento. 
Outras questões importantes a serem abordadas são: Como se formou esse tipo de vegetação em 
forma de mosaico no sul do Brasil? Foi seu desenvolvimento causado pelo desmatamento e queima das 
florestas por ação humana em períodos pré- e pós-Colombianos? Ou teria sido um processo climático 
natural que conduziu à expansão da floresta? As queimadas nos campos são (foram) naturais ou de 
origem antrópica? Qual teria sido o efeito dos grandes herbívoros pastadores, extintos há milhares de 
anos, sobre a evolução das espécies campestres atuais? Qual o efeito das alterações climáticas, do fogo e 
do impacto humano sobre a biodiversidade da região no decorrer do tempo? Como deveríamos manejar 
e conservar as florestas, ricas em espécies, e ecossistemas de campo, também ricos em espécies?
Temos como objetivo, a partir de exemplos do sul do Brasil, demonstrar a importância do 
conhecimento sobre a vegetação do passado e sobre a dinâmica do ambiente para a compreensão dos 
ecossistemas campestres de uma forma holística. Tais informações são essenciais e devem ser consideradas 
no planejamento de estratégias para conservação, restauração e manejo de ecossistemas campestres.
A região Sul-Brasileira
A região sul-brasileira compreende os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A 
Planície Costeira ao longo do litoral atlântico, a Depressão Central, a Campanha e a Serra do Sudeste no 
Rio Grande do Sul, assim como a região do Planalto Sul-Brasileiro (entre 500 e 1200 m de altitude) são 
as principais regiões fisiográficas que caracterizam a paisagem no sul do Brasil. A região do Planalto 
com mais de 1200 m de altitude é formada pela Serra Geral, mais ao sul, continuando em direção 
nordeste através da Serra do Mar.
O clima no sul do Brasil é controlado pelo anticiclone do Atlântico Sul. Esse sistema de alta 
pressão semi-permanente transporta massas de ar tropicais úmidas do oceano para o continente em 
direções leste e nordeste durante todo o ano. Adicionalmente, a variação anual da Zona de Convergência 
Intertropical (ITCZ) causa chuvas abundantes no sul do Brasil durante os meses de verão (outubro – 
março) e chuvas escassas gerando períodos mais secos de abril à setembro. O encontro das frentes frias 
polares, oriundas da Antártica, com as massas de ar tropicais produzem fortes chuvas. Esse fenômeno 
ocorre, principalmente, nas regiões sul do Brasil. Uma das conseqüências é que essas regiões possuem 
uma estação seca curta ou não pronunciada (Nimer 1989, Hastenrath 1991).
A vegetação potencial natural atual do sul do Brasil inclui, principalmente, ecossistemas florestais – 
Mata Atlântica (stricto sensu Floresta Ombrófila Densa), Floresta com Araucária e Florestas Estacionais 
(veja também Capítulo 2). A Mata Atlântica, sensível a geadas, alcança seu limite sul de ocorrência no 
Brasil, estendendo-se como um cinturão ao longo da costa atlântica e sobre as escarpas leste da Serra 
Geral e da Serra do Mar (Klein 1978, Por 1992). A temperatura média anual é em torno de 17° e 24°C,