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CamposSulinos

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de debate inter-setorial a partir de 2004, com a instalação de empresas transnacionais 
do ramo da celulose na metade sul do Rio Grande do Sul. Indubitavelmente, o reconhecimento do 
Pampa como um bioma independente, em nível nacional (IBGE 2004), contribuiu para a mobilização 
de setores governamentais e não-governamentais ligados ao meio ambiente em torno da conservação 
dos campos sul-brasileiros.
Entre as principais funções atribuídas aos campos nativos está a manutenção da biodiversidade, 
que se traduz em diversos serviços ambientais úteis ao homem (veja Capítulos 8 e 9), como o provimento 
de recursos genéticos, a polinização e a estabilização de ecossistemas, incluindo agroecossistemas 
intensivamente manejados no entorno de áreas preservadas (White et al. 2000, Bilenca & Miñarro 2004, 
Bugalho & Abreu 2008). Embora não possam ser comparados com ecossistemas ecologicamente mais 
complexos e multiestratificados – como as florestas tropicais – em termos de diversidade de espécies, 
os campos temperados constituem ricas comunidades biológicas e, assim, representam uma importante 
Foto de abertura: Glayson Ariel Bencke. Paisagem campestre no Alegrete, RS.
1 Museu de Ciências Naturais, Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul. E-mail: gabencke@fzb.rs.gov.br
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contribuição à biodiversidade do planeta. Além disso, historicamente, os campos temperados têm abrigado – 
ou costumavam abrigar – algumas das maiores concentrações de vida silvestre do planeta (TGCI 2008). 
Este capítulo sintetiza e sistematiza informações gerais sobre a fauna campestre do Brasil 
meridional, com ênfase nos campos do Rio Grande do Sul e em grupos taxonômicos mais bem 
conhecidos, principalmente as aves e os mamíferos. O objetivo é fornecer um panorama substanciado 
e analítico da importância dos campos nativos para a conservação da diversidade da fauna no sul do 
Brasil. Em um segundo momento, aspectos relevantes da ecologia das comunidades faunísticas de 
ecossistemas campestres são abordados como base para uma discussão geral sobre estratégias de 
conservação da fauna dos campos da região. Ao longo do texto, os termos “Campos Sulinos” e “campos 
sul-brasileiros” são usados com a definição e abrangência geográfica adotadas no workshop Estado 
Atual e Desafios para a Conservação dos Campos (Pillar et al. 2006) (veja Capítulo 2).
A fauna dos Campos do Sul do Brasil
Diversidade
Os campos constituem o hábitat principal de uma parcela expressiva da fauna do sul do Brasil 
e, em especial, do Rio Grande do Sul, onde esse ecossistema ocupa uma superfície maior. Algumas das 
espécies mais populares e emblemáticas da fauna gaúcha são animais essencialmente campestres, como a 
ema (Rhea americana), a perdiz (Nothura maculosa), o quero-quero (Vanellus chilensis), a caturrita 
(Myiopsitta monachus), o joão-de-barro (Furnarius rufus), o zorrilho (Conepatus chinga) e o graxaim-
do-campo ou “sorro” (Lycalopex gymnocercus). Entre os mamíferos, pelo menos 25 das cerca de 96 
espécies continentais não-voadoras do Rio Grande do Sul habitam campos, sendo 14 de forma exclusiva e 
11 de forma facultativa ou em combinação com outros hábitats (Eisenberg & Redford 1999, González 2001, 
Fontana et al. 2003, Reis et al. 2006, Cáceres et al. 2007, Bencke et al. no prelo). Entre as aves, 120 das 
578 espécies nativas continentais são primariamente adaptadas a hábitats campestres ou savânicos, o que 
representa 21% do total (dados inéditos baseados em diversas fontes e na experiência pessoal do autor).
As informações disponíveis não permitem estimativas tão precisas para os demais grupos de 
vertebrados. No entanto, Garcia et al. (2007) compilaram uma lista de 50 espécies de anfíbios para 
a ecorregião Campos, ou Uruguayan Savanna (sensu WWF 2001), que abrange toda a porção 
brasileira do bioma Pampa, além do Uruguai e de parte da província argentina de Entre Ríos. Muito 
característicos dessa região são os sapinhos do gênero Melanophryniscus, associados a ambientes de 
campo com alagados temporários. Esse gênero, com cerca de 24 espécies conhecidas (Frost 2009), 
apresenta alta taxa de endemismo e tem seu centro de diversidade situado nas formações abertas da 
zona subtropical/temperada da América do Sul, onde ocorrem 16 espécies. O gênero está representado 
também nos campos planálticos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, e na região dos Campos 
Gerais do Paraná, limite norte dos Campos Sulinos. Várias espécies novas de Melanophryniscus 
têm sido descritas e outras revalidadas nos últimos anos, inclusive dos Campos Gerais do Paraná 
(Steinbach-Padilha 2008) e de áreas de campos naturais do Uruguai próximas à fronteira com o Rio 
Grande do Sul (Maneyro et al. 2008), sugerindo que a riqueza do grupo nos campos sul-brasileiros 
esteja subestimada. 
Em relação aos répteis, Bérnils et al. (2007) salientaram a grande riqueza específica da província 
biogeográfica do Pampa (sensu Morrone 2001) em comparação com as demais províncias da América 
do Sul meridional. Segundo esses autores, a região abriga 97 espécies de répteis, número inferior 
apenas ao encontrado no Chaco e nas florestas subtropicais da bacia do Paraná, ao sul do Trópico de 
Capricórnio, mas superior, nessa mesma faixa de latitude, ao das florestas atlântica e com araucária, das 
yungas e das formações de monte. Essas espécies seriam predominantemente heliófilas e campestres. 
Vários elementos da herpetofauna pampiana são compartilhados com os campos planálticos do sul do 
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Brasil, a exemplo dos lagartos Ophiodes aff. striatus e Stenocercus azureus, assim como das serpentes 
Lystrophis histricus, Liophis flavifrenatus, Liophis jaegeri, Helicops infrataeniatus, Pseudablabes 
agassizi e Bothrops pubescens (M. Borges-Martins in Bencke et al. no prelo). O compartilhamento de 
espécies exclusivamente entre o Pampa e os encraves de campo no domínio da Mata Atlântica é um padrão 
biogeográfico reconhecido também para anfíbios e aves (Garcia et al. 2007, Bencke et al. no prelo, 
Fontana et al. no prelo), fornecendo forte evidência de que essas regiões campestres estiveram unidas 
em uma época não muito remota, provavelmente isolando-se a partir da recente expansão das florestas 
ombrófilas (Straube & Di Giácomo 2007) (veja Capítulos 1, 2 e 4). 
Embora não diretamente associados aos campos, os peixes anuais do gênero Austrolebias 
(Rivulidae) constituem um componente peculiar da fauna do Pampa. Esses peixes habitam unicamente 
charcos temporários rasos de várzeas e planícies inundáveis inseridas em zonas campestres ou costeiras 
do sul do Brasil (Costa 2002). O gênero não é encontrado em outras regiões brasileiras, mas somente 
em áreas adjacentes do Uruguai e da Argentina, além do Chaco (Costa 2002). Os peixes anuais levam 
esse nome por somente serem encontrados em estágio adulto durante um período relativamente curto 
do ano, sobrevivendo à época de vazante sob a forma de ovos, que permanecem enterrados no lodo 
(Reis et al. 2003). Na metade sul do Rio Grande do Sul são conhecidas, até o momento, 18 espécies 
de Austrolebias, das quais cerca de sete vivem em paisagens continentais com predomínio de campos 
(Costa 2002, Reis et al. 2003, Buckup et al. 2007, Ferrer et al. 2008).
O nível geral de conhecimento sobre os invertebrados terrestres dos Campos Sulinos é precário, 
estando abaixo do “ruim”, segundo julgamento de especialistas consultados para avaliar o estado do 
conhecimento da biodiversidade brasileira (Lewinsohn 2006). Em conseqüência, muito pouco pode ser 
dito acerca da riqueza, composição e peculiaridade dos diversos grupos de invertebrados campestres do 
sul do Brasil, ainda que tais grupos representem a maior parte da biodiversidade dos Campos Sulinos, 
assim como de qualquer outro ecossistema terrestre do planeta. Um dos poucos grupos de invertebrados 
terrestres considerados mais