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CamposSulinos

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bem amostrados nos Campos Sulinos do que nos demais biomas brasileiros é 
o dos lepidópteros diurnos (Santos et al. 2008). Inventários recentes, com esforço padronizado, realizados 
no Pampa e nos Campos de Cima da Serra, têm evidenciado a estrita associação de borboletas da subfamília 
Satyrinae – sobretudo as do gênero Pampasatyrus – com ambientes campestres preservados, sugerindo 
que esses lepidópteros possam servir como indicadores da qualidade ambiental dos campos (Morais et 
al. 2007, Grazia 2008). Outro grupo a destacar é o das abelhas nativas das famílias Andrenidae (gênero 
Arhysosage) e Colletidae (gênero Bicolletes, ou Perditomorpha). Essas pequenas abelhas solitárias 
mantêm uma estreita relação de dependência mútua com algumas espécies de plantas encontradas no 
Pampa, em alguns casos protagonizando notáveis exemplos de coevolução (Blochtein & Harter-Marques 
2003). O gênero Arhysosage, por exemplo, é especializado em flores de cactáceas e restringe-se à faixa 
subtropical/temperada da América do Sul meridional (Engel 2000). No Rio Grande do Sul, A. cactorum 
é responsável pela polinização de várias espécies de cactos dos gêneros Parodia e Gymnocalycium na 
região da Serra do Sudeste (Blochtein & Harter-Marques 2003).
Espécies endêmicas
Pelo menos 21 espécies de vertebrados podem ser consideradas endêmicas das formações 
campestres do sul do Brasil, nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná (Tab. 7.1). Não 
se incluem nesse cômputo espécies florestais endêmicas dessa mesma região e nem espécies endêmicas 
associadas a ambientes costeiros (e.g., os lagartos Liolaemus occipitalis e L. arambarensis, restritos 
a dunas costeiras e lagunares, respectivamente), ou ainda aquelas restritas ao bioma Pampa que 
também ocorrem em território uruguaio e/ou argentino. No que concerne aos invertebrados terrestres, 
a quase inexistência de informações biogeográficas sistematizadas torna a compilação de uma lista 
preliminar de espécies endêmicas dos campos sul-brasileiros em um exercício extremamente trabalhoso 
e demasiadamente especulativo nas atuais circunstâncias.
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A lista de endemismos dos Campos Sulinos tende a aumentar com o tempo, ainda que algumas das 
espécies endêmicas recém-descritas possam revelar-se mais amplamente distribuídas à medida que o 
conhecimento sobre suas distribuições geográficas se tornar mais completo. A expectativa de aumento 
é dada pelo fato de alguns grupos com altas taxas de endemismo nos campos sul-brasileiros terem sua 
diversidade apenas parcialmente catalogada, como é o caso dos peixes anuais do gênero Austrolebias, 
referidos anteriormente. Ao longo da última década, novas espécies desse grupo têm sido descritas para 
o território sul-rio-grandense ao ritmo surpreendente de uma espécie por ano, em média (Costa 2002, 
Buckup et al. 2007, Ferrer et al. 2008).
A grande maioria das espécies endêmicas é exclusiva dos campos planálticos associados ao bioma 
Mata Atlântica. Em parte, esse padrão é um artefato que resulta tanto do uso de limites políticos para 
a análise da endemicidade dos Campos Sulinos como da continuidade do Pampa através da fronteira 
entre o Brasil e os países vizinhos que compartilham o bioma. Em conseqüência desse último fator, um 
certo número de espécies pampianas com distribuição essencialmente circunscrita ao território sul-rio-
grandense acaba ocorrendo também no Uruguai e na Argentina, ainda que marginalmente, devido à 
inexistência de barreiras biogeográficas ou transições ecológicas abruptas que limitem a sua dispersão. 
É o caso, por exemplo, da serpente Calamodontophis paucidens, recentemente citada para o Uruguai. 
Esses táxons seriam mais adequadamente tratados como subendêmicos dos campos sul-brasileiros. 
Também se enquadraria nessa categoria o macuquinho-da-várzea (Scytalopus iraiensis), pássaro 
considerado endêmico dos Campos Sulinos nas análises sobre a biodiversidade brasileira promovidas 
pelo Ministério do Meio Ambiente (Pacheco & Bauer 2000, MMA 2002), mas recentemente descoberto 
em diversas localidades de Minas Gerais (Vasconcelos et al. 2008).
Em contraste, vários peixes anuais do gênero Austrolebias e alguns anfíbios do gênero 
Melanophryniscus possuem áreas de ocupação extremamente reduzidas, da ordem de poucas dezenas 
de quilômetros quadrados ou menos. Tais espécies endêmicas, altamente estenocóricas e oligo- até 
monotópicas, estão entre os elementos mais vulneráveis e propensos à extinção de toda a fauna dos 
Campos Sulinos. 
 Tabela 7.1 | Vertebrados endêmicos de regiões de campos naturais do sul do Brasil (Rio Grande do Sul (RS), Santa Catarina (SC) e Paraná (PR)).
Grupo/Nome científico Nome vulgar Região de ocorrência Estados Bioma*
Peixes anuais1
Austrolebias periodicus peixe-anual Campanha RS PAM
Austrolebias ibicuiensis peixe-anual Depressão do rio Ibicuí RS PAM
Austrolebias cyaneus peixe-anual Depressão Central RS PAM
Austrolebias paucisquama peixe-anual Depressão Central RS PAM
Austrolebias litzi peixe-anual Depressão Central RS PAM
Anfíbios anuros1
Elachistocleis erythrogaster rã-grilo-de-barriga-vermelha Campos de Cima da Serra RS ATL
Hypsiboas joaquini – Campos de Cima da Serra RS, SC ATL
Hypsiboas leptolineatus perereca-listrada Campos planálticos RS, SC, PR ATL
Melanophryniscus cambaraensis sapinho-verde-de-barriga-vermelha Campos de Cima da Serra RS, SC ATL
Melanophryniscus simplex – Campos de Cima da Serra RS, SC ATL
Melanophryniscus alipioi – Campos Gerais PR ATL
Melanophryniscus vilavelhensis – Campos Gerais PR ATL
Pseudis cardosoi rã-boiadora Campos de Cima da Serra RS, SC ATL
Répteis
Cnemidophorus vacariensis lagartinho-pintado Campos planálticos RS, SC, PR ATL
Ptychophis flavovirgatus serpente Campos planálticos RS, SC, PR ATL
Ditaxodon taeniatus serpente Campos Gerais PR, RS? ATL
Micrurus silviae cobra-coral Planalto das Missões RS PAM
Aves
Cinclodes pabsti 2 pedreiro ou teresinha Campos de Cima da Serra RS, SC ATL
Scytalopus iraiensis 3 macuquinho-da-várzea Campos planálticos RS, SC, PR ATL, PAM
Sporophila melanogaster 4 caboclinho-de-barriga-preta Campos de Cima da Serra RS, SC ATL
Mamíferos
Ctenomys lami 5 tuco-tuco Coxilha das Lombas RS PAM
* De acordo com IBGE (2004). 1 Em corpos d’água sazonais ou permanentes de ambientes campestres.2 Recentemente registrado em uma área restrita de campos 
rupestres de Minas Gerais (Freitas et al. 2008). 3 Capinzais úmidos de várzeas; recentemente registrado em Minas Gerais (Vasconcelos et al. 2008).
4 Restrito aos Campos Sulinos somente no período reprodutivo. 5 Em campos arenosos sobre paleodunas, na Planície Costeira interna do Rio Grande do Sul.
(Fontes: Costa 2002, Reis et al. 2003, Bérnils et al. 2007, Buckup et al. 2007, Garcia et al. 2007, Ferrer et al. 2008, IUCN 2008, Frost 2009, Bencke et al. no prelo).
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Espécies migratórias
Di Giácomo & Krapovickas (2005) compilaram uma lista de nove espécies de aves migratórias 
neárticas que utilizam os campos temperados da América do Sul como área de invernagem durante 
o período não-reprodutivo. Sete delas ocorrem nos Campos Sulinos e três invernam em números 
substanciais, basicamente no Rio Grande do Sul (Tab. 7.2). O batuiruçu (Pluvialis dominica), o 
maçarico-acanelado (Tryngites subruficollis) e a andorinha-de-bando (Hirundo rustica) ocupam 
de forma mais extensiva os campos arenosos da planície costeira sul-rio-grandense (Belton 1994, 
Lanctot et al. 2002).
 
 Tabela 7.2 | Aves migratórias neárticas que invernam nos Campos Sulinos.
Espécie Família Região de ocorrência principal Status*
Gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) Accipitridae Pampa, RS Escasso a razoavelmente comum
Batuiruçu (Pluvialis dominica) Charadriidae Campanha, RS Escasso e local
Maçarico-do-campo (Bartramia longicauda) Scolopacidae Fronteira