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CamposSulinos

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com chuvas distribuídas ao longo do ano (Nimer 1989). A Floresta com Araucária é encontrada nas 
regiões mais elevadas, entre as latitudes 24° e 30°S, principalmente entre 1000 e 1400 m de altitude 
(Hueck 1966). A temperatura média anual varia principalmente entre 12° e 18°C. Noites frias de inverno 
podem atingir temperaturas de -4° até -8°C na região mais alta da Serra Geral (Nimer 1989).
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Os ecossistemas atuais de campo natural na região sul do Brasil incluem os campos subtropicais 
e os campos de altitude, os quais abrangem uma área menor que a florestal. Os campos subtropicais 
podem ser encontrados na Depressão Central, Serra do Sudeste e região da Campanha, na metade sul do 
Rio Grande do Sul. Esse tipo de campo é semelhante aos pampas do Uruguai e Argentina. Os campos de 
altitude são encontrados na região do Planalto 
Sul-Brasileiro, especialmente nos estados do 
Rio Grande do Sul e Santa Catarina (veja 
Capítulos 2 e 4), onde também são conhecidos 
como Campos de Cima da Serra. Esses 
campos formam, com freqüência, mosaicos 
com a Floresta com Araucária (Fig. 1.1). 
Freqüentemente os campos são diferenciados 
em campo limpo, onde prevalecem gramíneas 
(Poaceae) e ciperáceas, assim como muitas 
espécies herbáceas pertencentes a várias 
famílias botânicas (veja Capítulo 2); e campo 
sujo, onde além das gramíneas e herbáceas 
baixas ocorrem arbustos, principalmente da 
família Asteraceae (Baccharis gaudichaudiana, B. uncinella), e gravatás (Eryngium spp.; Apiaceae) 
(Klein 1978). Ambos os tipos de campo comportam um elevado número de espécies herbáceas (Rambo 
1956b, Klein 1979). Os campos de altitude também ocorrem nos picos nas Serras do sul (acima de 1600 m) 
e sudeste (acima de 1800 m) do Brasil. Nestes locais, os campos apresentam também espécies de pequenos 
arbustos de Melastomataceae, Ericaceae, Eriocaulaceae, Asteraceae e Verbenaceae (Safford 1999a, Safford 
1999b) e são ricos em espécies endêmicas (Ferrão & Soares 1989).
Os atuais ecossistemas, tanto florestais como campestres, são fortemente influenciados pelas 
atividades humanas. A remoção da floresta e a alteração da paisagem, por meio da agricultura, pastoreio 
e plantios de Pinus e Eucalyptus, têm mudado claramente a vegetação original. 
Reconstrução da vegetação e do ambiente em tempos passados
A análise palinológica de turfeiras, lagos ou outros depósitos de sedimento orgânico, é uma impor-
tante ferramenta para reconstruir a história da vegetação e do ambiente numa dada região (Fig. 1.2). De-
vido ao fato dos grãos de pólen se conserva-
rem nas condições anóxidas desses depósitos 
orgânicos, tais testemunhos sedimentológicos 
são arquivos, que representam a vegetação do 
passado. Ou seja, a partir da análise e interpre-
tação da composição polínica, pode-se recons-
truir a paleovegetação e o paleoambiente do 
local estudado (Fig. 1.3). 
Várias turfeiras podem ser encon-
tradas, por exemplo, na região geomor-
fológica do Planalto. Pólens de Poaceae 
e Cyperaceae, juntamente com pólens de 
outras espécies características de campo, 
permitem a identificação das comunidades 
campestres às quais pertenciam. O local específico e a proporção de grãos de pólen da vegetação 
local, incluindo a vegetação da própria turfeira ou margem do lago, conforme o caso em análise, devem 
 Figura 1.1 Região de mosaico campo-floresta com Araucária no Planalto 
Sul-Brasileiro.
 Figura 1.2 Foto mostrando uma turfeira intacta na região do Planalto com 
depósito de sedimento orgânico propício para estudos palinológicos.
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ser levadas em consideração na reconstru-
ção da paleovegetação da área em estudo. 
Novas técnicas desenvolvidas para o estudo 
da morfologia polínica de poáceas trazem 
informações sobre o desenvolvimento, di-
nâmica e diversidade das gramíneas (Schü-
ler & Behling em preparação). Além da 
composição polínica, a abundância de par-
tículas carbonizadas encontradas no perfil 
sedimentar estudado fornece dados sobre a 
freqüência e intensidade de queimadas em 
tempos passados. Além disso, datações ra-
diocarbônicas dos sedimentos orgânicos fornecem um controle cronológico para as mudanças ambien-
tais no passado. Os dados polínicos e de carvão podem, então, ser ilustrados em forma de diagramas, 
os quais formam a base para a reconstrução da vegetação (Fig. 1.4a e 1.4b). Várias localidades do sul 
 Figura 1.3 Técnica de coleta de testemunho para estudo palinológico: 
ao fundo, uma turfeira; à esquerda, coletor Russel; à direita, um segmento 
do testemunho amostrado. 
 Figura 1.4 Diagrama polínico de percentagem do testemunho de Cambará do Sul mostrando os diferentes táxons e a ecologia dos grupos (a) assim 
como a soma de percentagem polínica e taxa de concentração e acumulação de partículas carbonizadas (b), incluindo a escala de tempo (anos 
calibrados antes do presente) e as zonas polínicas. Para maiores informações veja também Behling et al. (2004). 
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do Brasil têm sido estudadas através de tais análises. Esses estudos geraram resultados importantes 
sobre a vegetação e as mudanças ambientais ocorridas durante os últimos 40 mil anos, no período do 
Quaternário Tardio (Pleistoceno Tardio e Holoceno).
A história dos Campos no sul do Brasil durante o Quaternário Tardio 
Mudanças paleoambientais e paleovegetacionais 
Alguns estudos palinológicos têm sido realizados durante as últimas décadas na região campestre 
sul-brasileira (Behling 2002). Dados do estado do Paraná (Serra dos Campos Gerais: Behling 1997), 
de Santa Catarina (Serra do Rio do Rastro, Morro da Igreja, Serra da Boa Vista: Behling 1995) e do 
Rio Grande do Sul (Aparados da Serra: Roth & Lorscheitter (1993); São Francisco de Paula: Behling 
et al. (2001); Cambará do Sul: Behling et al. (2004)) têm comprovado que existiam extensas áreas 
de vegetação campestre sobre o Planalto durante as épocas glaciais e do Holoceno Inferior e Médio. A 
dominância de uma vegetação de campos é atribuída às condições glaciais frias e secas e às condições 
climáticas quentes e secas do Holoceno superior. Uma estação anual seca, em média de três meses, era 
característica para o período do Holoceno Inferior e Médio (Behling 1997, 2002). 
A expansão da Floresta com Araucária sobre áreas de vegetação campestre teve início no 
Planalto em torno de 3210 anos cal AP4 (idade em anos radiocarbono calibrados5 antes do presente), 
começando a partir da migração de matas de galeria ao longo de rios, o que indica o advento de 
condições climáticas mais úmidas sem uma estação marcadamente seca. Esse processo parece ter se 
acelerado mais tarde, por volta de 1400 anos cal AP no Paraná (Serra dos Campos Gerais) e de 930 
anos cal AP em Santa Catarina.
A partir de um perfil sedimentar turfoso, localizado a cerca de 7 km de distância da cidade de 
Cambará do Sul (RS), foi possível preparar um detalhado diagrama polínico (Fig. 1.4a e 1.4b). Esse 
testemunho alcançou os últimos 42.840 anos 14C AP (idade em anos radiocarbono não calibrados antes 
do presente). Uma descrição paleoambiental e paleovegetacional completa, incluindo registros de pólens 
e esporos selecionados, foi publicada em Beling et al. (2004). O registro palinológico de Cambará do 
Sul documenta a dinâmica da vegetação campestre e posteriormente a expansão da Floresta com 
Araucária. Em toda a região do Planalto nordeste do RS, a vegetação arbórea esteve provavelmente 
ausente entre 42.840 anos 14C AP e 11.500 anos cal AP (Pleistoceno Tardio). A evidência de alguns 
grãos de pólen representando a vegetação de Floresta com Araucária e a Mata Atlântica, encontrados 
no sedimento correspondente ao período do Pleistoceno Tardio, deve estar associada à possibilidade de 
transporte