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CamposSulinos

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estudos mostram uma tendência geral para o aumento da vegetação florestal no Morro 
Santana, em Porto Alegre, com início entre aproximadamente 620 e 540 anos cal AP (1330 e 1410 
AD), e mudanças rápidas com fases de transição entre 380 e 300 anos cal AP (1570 até 1650 AD) e 
entre 60 e 20 anos cal AP (1890 até 1930 AD). Que fatores poderiam ter causado essas mudanças? 
No caso do Morro Santana (Behling et al. 2007), tendo em vista o período descrito, os distúrbios 
causados pelo clima e pelo homem não podem ser diferenciados. A expansão da vegetação florestal 
favorecida pelo processo climático foi também provavelmente afetada por alterações nos regimes de 
distúrbio antrópico. Esses distúrbios poderiam talvez estar ligados, primeiramente, ao deslocamento 
de populações de ameríndios causados pela chegada dos portugueses e pela introdução do gado pelo 
oeste durante o século XVII. O impacto dos guaranis sobre os campos ainda é incerto, mas não deveria 
ter sido forte, pois como eles usavam áreas de floresta e não de campo para a agricultura. A principal 
atividade dos colonos europeus na região, ou seja, a pecuária extensiva, afeta diretamente a vegetação 
através da remoção da biomassa e pisoteio. Ações como essas controlam o avanço de certas espécies 
florestais, cujos indivíduos jovens são incapazes de rebrotar, e afetam a intensidade e freqüência de 
fogo pela alteração na acumulação de biomassa inflamável (Pillar & Quadros 1997). A falta de um claro 
sinal no registro palinológico e de carvão para os primeiros colonos fazendeiros, que se estabeleceram 
em torno de 1740 AD, indica que devem ter tido um efeito mínimo sobre a vegetação e a freqüência de 
fogo. O gado selvagem deve ter afetado a vegetação muito antes, sendo o principal motivo da fase de 
transição na composição polínica que terminou em 300 anos cal AP (1650 AD).
O testemunho do Morro Santana (Porto Alegre) contém informações sobre a vegetação, clima 
e dinâmica do fogo, assim como atividades humanas durante os últimos 1230 anos cal AP (Behling 
et al. 2007). A formação de um banhado raso e a acumulação sedimentológica estão relacionadas a 
mudanças nas condições de umidade, como tem sido documentado para a região do Planalto no mesmo 
período. Os resultados palinológicos comprovam a existência de uma vegetação de campo na área de 
estudo desde o Holoceno Inferior, sugerindo que as pequenas áreas de campo atuais, circundadas 
por floresta, podem ser vistas como naturais e não surgidas como conseqüência de desmatamento e 
introdução do gado. Sob condições climáticas mais úmidas no Holoceno Superior, a floresta expandiu 
sucessivamente desde 580 anos cal AP. 
Conservação dos Campos Sulinos e suas implicações
Dados paleoecológicos e paleoambientais da região do Planalto Sul-Brasileiro relacionados a dinâmica 
da vegetação, do fogo e do impacto humano incluindo o uso da terra fornecem importantes informações 
para sua conservação e manejo. Vários registros palinológicos mostram que as áreas de campo altamente 
diversas são naturais, ou seja, remanescentes de uma extensa área de um período glacial e do Holoceno 
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Inferior e Médio e não de áreas florestais do passado. A partir desse conhecimento, sugere-se que os campos 
devam ser protegidos e não sujeitos a florestamentos como está sendo feito no presente momento, onde 
vastas áreas de campo estão sendo substituídas por florestas de Pinus, Eucalyptus e Acacia. 
Resultados palinológicos mostram que as áreas de campo foram extremamente reduzidas através 
da expansão da Floresta com Araucária, especialmente durante os últimos 1100 anos, causada pelas 
alterações no clima para condições mais úmidas. A expansão natural da Floresta com Araucária, que 
em geral não é possível devido à interferência humana, estaria atualmente contraindo as áreas de 
campo. Estudos recentes revelam que através da exclusão de pastoreio e do fogo a Floresta com 
Araucária tende a expandir sobre o campo (Oliveira & Pillar 2004, Duarte et al. 2006).
Os registros de partículas de carvão indicam que fogo natural provocado por raios era raro nos 
campos do sul do Brasil. O aumento na freqüência de fogo deve-se provavelmente à ocupação do Planalto 
pelos primeiros ameríndios no começo do Holoceno ou após 7400 anos cal AP, como observado na área 
de Cambará do Sul. Para os planos de manejo e conservação dos campos, deve-se considerar o fato de 
que fogo de origem antrópica teve um papel importante durante o Holoceno e que certamente mudou 
a composição florística. Algumas plantas e comunidades vegetais atuais poderiam ter se adaptado ao 
fogo (Overbeck et al. 2005). Fora isso, o aumento de partículas de carvão coincidiu com a redução da 
diversidade vegetal nos campos (Behling & Pillar 2007), mas se isso pode ser relacionado ainda não está 
claro; alterações climáticas e a extinção de grandes mamíferos pastadores são fatores importantes que 
poderiam ter afetado a diversidade. Os dados palinológicos mostram que a expansão tardia da Floresta 
com Araucária foi possível – ou poderia ter sido facilitada apesar da alta freqüência de fogo, e que o fogo 
tornou-se praticamente ausente nas áreas circunvizinhas ao local de estudo em Cambará do Sul, devido 
à expansão da floresta. Registros de outras localidades, onde uma vegetação em forma de mosaico de 
campos e floresta é encontrada, ainda apontam a ocorrência de queimadas freqüentes.
Conseqüências na supressão de pastoreio e de fogo em áreas de conservação atuais no Planalto 
Sul-Brasileiro, onde ainda domina uma paisagem em forma de mosaico campo-floresta, deveriam ser 
cuidadosamente consideradas. Os resultados mostram que com a supressão do gado e do fogo um 
ativo processo de expansão florestal, o qual tem sido historicamente reprimido através de distúrbios 
humanos, será assim re-estabelecido. Se esse tipo de manejo for mantido, então em poucas décadas 
os campos nessas áreas de conservação irão encolher e, finalmente, desaparecer através da expansão 
da floresta. Do nosso ponto de vista, os campos merecem ser conservados e não ser condenados à 
extinção, simplesmente porque são ecossistemas que não correspondem ao clima atual e, por isso, 
dependem de intervenção humana para serem mantidos. Além disso, a supressão de gado e do fogo 
produz uma grande acumulação de biomassa inflamável aumentando, assim, o risco de queimadas 
catastróficas e incontroláveis, com conseqüências imprevisíveis para a biodiversidade. Pela legislação, 
as queimadas sobre o campo em fazendas, com propósitos de manejo, estão proibidas. Porém, uma 
maneira de se manter os campos poderia ser através de atividades de pastoreio com o gado. O número 
limitado de cabeças de gado poderia ser uma boa alternativa para o manejo dos campos, o que seria 
mais apropriado do que freqüentes queimadas com efeitos negativos, tais como a degradação do solo, 
poluição do ar e o risco de fogo incontrolável. Os grandes mamíferos que viviam nos campos no sul 
do Brasil até o início do Holoceno poderiam ter tido um papel importante na manutenção da alta 
diversidade da vegetação de campo, similar ao gado em tempos modernos. 
Referências
Behling H. 1995. Investigations into the Late Pleistocene and Holocene history of 
vegetation and climate in Santa Catarina (S Brazil). Vegetation History and 
Archaeobotany 4: 127-152.
Behling H. 1997. Late Quaternary vegetation, climate and fire history in the 
Araucaria forest and campos region from Serra Campos Gerais (Paraná), 
S Brazil. Review of Palaeobotany and Palynology 97: 109-121.
Behling H. 2002. South and southeast Brazilian grasslands during Late 
Quaternary times: a synthesis. Palaeogeography, Palaeoclimatology, 
Palaeoecology 177: 19-27.
Behling H., Bauermann S.G. & Neves P.C.P. 2001. Holocene environmental 
changes in the São Francisco de Paula region, southern Brazil. Journal 
of South