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Módulo: Aplicação da Lei Penal e Teoria do Crime - I 3Tema 04 – Teoria da CondutaAplicação da Lei Penal e Teoria do Crime - I Tema 04: Teoria da Conduta Aula 01 – Causalismo Dentro da teoria do causalismo uma conduta penalmente relevante, se refere a ações ou omissões voluntárias e conscientes que resultam em movimentos corpóreos, regida pela vontade e a consciência, o sujeito sabe o que está fazendo. Na ótica causalista a finalidade da conduta não é relevante neste estágio. Vejamos o posicionamento de um causalista Magalhães Noronha: A ação positiva é sempre constituída pelo movimento do corpo, quer por meio dos membros locomotores, quer por meio de músculos, como se dá com a palavra ou o olhar. Quanto à ação negativa ou omissão, ingressa no conceito de ação (genus), de que é espécie. É também um comportamento ou conduta e, consequentemente, manifestação externa, que, embora não se concretize na materialidade de um movimento corpóreo – antes é abs- tenção desse movimento –, por nós é percebida como realidade, como su- cedido ou realizado (Direito penal, v. 1, p. 98) . A corroborar o exposto acima, insta transcrever o entendimento do renomado pro- fessor Guilherme Nucci, que preleciona: A corrente denominada causalista ou causal-naturalista advém de estudos feitos por VON LISZT em fins do século XIX, lastreada no jusnaturalismo e no desenvolvimento científico da época. Desse modo, analisando o delito, considerado uma conduta punível, apon- tava-se ser o fato ao qual a ordem jurídica associa a pena como legítima consequência. O conteúdo desse fato era preenchido pela vontade humana, afastando-se, portanto, casos fortuitos, independentes dessa vontade; o delito era sempre uma conduta contrária ao direito (ilicitude), lesionando ou colocando em risco um bem jurídico; além disso, é uma conduta culpável, ou seja, um ato doloso ou culposo, praticado por um indivíduo responsável (leia-se, imputável).28 Estava delineada a teoria causal, demonstrando que a infração penal era uma conduta culpável, contrária ao direito e sancionada com uma pena. Cuida-se do princípio do conceito analítico do crime. Associando-se a lição de BELING – e a teoria do tipo29 –, além dos ensi- namentos de RADBRUCH, chega-se ao conceito analítico de crime para os clássicos: fato típico, antijurídico e culpável. Alicerçada em conceitos naturais, o fato, para se tornar típico, seria for- mado por uma ação ou omissão voluntária e consciente, que produzisse 4 Tema 04 – Teoria da CondutaAplicação da Lei Penal e Teoria do Crime - I movimentos corpóreos. Dessa movimentação natural do corpo humano chegava-se a um resultado. Caso a junção da conduta com o resultado fosse lesiva a um bem jurídico penal, encaixar-se-ia no tipo penal (modelo de conduta proibida). Eis o fato típico. A partir disso, conferia-se se o fato típico era ilícito; em caso positivo, verifi- cava-se se o agente atuou com dolo ou culpa (o conteúdo da culpabilidade, denominada psicológica). Preenchidos os três elementos, emerge o crime e a sua consequência seria a aplicação da pena. (2023, p. 257). A estrutura do crime no viés causalista é composta por três elementos: fato típico, antijurídico e culpável. A conduta é considerada sem valoração (sem considerar a finalida- de), seguida pela ilicitude objetiva e, por fim, a culpabilidade, que abrange o dolo (intenção) ou a culpa (imprudência, negligência ou imperícia). É importante reiterar que o elemento subjetivo do crime é atribuído à culpabilida- de, por isso, a culpabilidade precisa ser incluída como um componente analítico do delito, juntamente com os demais elementos mencionados anteriormente. Na visão doutrinária, o crime é compreendido em dois aspectos: o objetivo e o subjetivo. Ao analisar objetivamente o delito, ele envolve o fato típico, ou seja, a conduta prevista na lei como crime, e a antijuridicidade, que representa a contrariedade ao ordena- mento jurídico. Subjetivamente, o crime abarca a culpabilidade, que engloba o dolo (intenção) e a culpa (imprudência, negligência ou imperícia) do agente. A evolução do causalismo passou por duas fases. A teoria psicológica conside- ra que o conteúdo da culpabilidade é constituído apenas pelo dolo e pela culpa, mas foi evoluído para uma teoria psicológico-normativa que vai além do dolo e da culpa, incluin- do também o juízo de reprovação social sobre o agente imputável, levando em conta sua consciência da ilicitude e a exigibilidade de conduta de acordo com o Direito. Sobre tal aspecto, merece ser trazido à baila o excelente magistério de Guilherme Nucci, que assevera: No Brasil, parcela da doutrina era adepta da corrente causalista pura – o que hoje não nos parece ainda exista quem a defenda na integralidade. BA- SILEU GARCIA dizia que a culpabilidade era exatamente o nexo subjetivo que ligava o crime ao seu autor, revestindo-se apenas de dolo e culpa.30 Desse modo, ao se deparar com as excludentes de culpabilidade, como a coação moral irresistível e a obediência hierárquica, não reconhecia ne- nhum aspecto valorativo inserido na culpabilidade. Afirmava que, embora fossem dirimentes para a lei penal, deveriam ter sido consideradas justifi- cativas, ou seja, excludentes de ilicitude. (2023, p. 257). Portanto, na visão causalista o magistrado, promotor ou o delegado, vai procurar tipificar a conduta se o movimento desencadeado pelo ser humano era regido pela vonta- de e a consciência. 5Tema 04 – Teoria da CondutaAplicação da Lei Penal e Teoria do Crime - I O conceito social de ação nasceu com os esforços de Eberhard Schimit, por volta de 1930, com o objetivo de afastar do conceito causalista uma excessiva influência naturalista. Dessa forma, a teoria social da ação sur- giu como via intermediária para conciliar a pura consideração ontológica e a normativa sem os excluir os conceitos causal e final de ação. Todavia, essa teoria possui várias vertentes, sendo necessário haver muitos níveis antes de atingir o seu desenvolvimento, o que levou Maurach a admitir que até se pode falar em várias teorias da ação, cuja amplitude de sua base de conhecimento constitui simultaneamente sua força e debilidade (BITEN- COURT, 2019 :305). De acordo com o conceito social da ação A ação seria um fenômeno social na medida de direção de seus efeitos sobre a realida- de social. Através disso, pretendia superar o conceito causal-naturalista, embora se mostrasse atrelado à sua essência, ao conceber a ação como comportamento voluntário relacionado à produção de efeitos no mundo ex- terior. (TAVARES, 2009: 106) Apenas com Maihofer surgiu um afastamento do naturalismo, para quem a ação será todo comportamento objetivamente dirigido no sentindo de um resultado objetivamente previsível (TAVARES, 2009: 106; BITENCOURT, 2019: 305). E a teoria social da ação chega ao seu conceito final com as contribuições de Maurach, Wessels e Jescheck. RECURSO DE APELAÇÃO CRIMINAL – SENTENÇA CONDENATÓRIA –ART. 33, CAPUT DA LEI Nº 11.343/2006 – PRELIMINAR DE NULIDADE – INÉPCIA DA INICIAL ACU- SATÓRIA – NÃO OCORRÊNCIA – PEÇA PROCESSUAL QUE PREENCHE TODOS OS REQUI- SITOS LEGAIS – ART. 41 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL – NULIDADE DO PROCES- SO – DENÚNCIA ANÔNIMA – INÍCIO DAS INVESTIGAÇÕES – POSSIBILIDADE – DIVERSAS DENÚNCIAS – INDICAÇÃO DA CONDUTA E DO NOME DO APELANTE – APURAÇÃO DOS FATOS – REALIZAÇÃO DE DILIGÊNCIAS – APREENSÃO DE DROGA E PETRECHOS INDICA- DORES DE MERCANCIA – PRELIMINAR REJEITADA – MÉRITO – ABSOLVIÇÃO DA PRÁTICA DO DELITO PREVISTO NO ART. 33 DA LEI Nº 11.343/2006 – IMPROCEDÊNCIA – MATERIA- LIDADE E AUTORIA INCONTESTÁVEIS – DEPOIMENTOS POLICIAIS EM HARMONIA COM O CONJUNTO PROBATÓRIO – ENUNCIADO 08 DO TJMT – PRETENDIDA REDUÇÃO DA PENA – INVIABILIDADE – EXISTÊNCIA DE CIRCUNSTÂNCIA JUDICIAL DESFAVORÁVEL – ART. 42 DA LEI ANTIDROGAS – APREENSÃO DE GRANDE QUANTIDADE DE ENTORPECENTE – ACRÉSCIMO NA PENA INICIAL QUE NÃO SE MOSTRA DESPROPORCIONAL OU DESARRA- ZOADO – DISCRICIONARIEDADE DO JUÍZO SENTENCIANTE – DECISÃOFUNDAMENTADA Leitura Complementar PARA LEITURA DO TEXTO NA ÍNTEGRA, CLIQUE AQUI: Jurisprudência https://jus.com.br/artigos/95179/as-teorias-da-acao-no-direito-penal-a-teoria-causalista-a-teoria-finalista-a-teoria-social-e-a-teoria-funcional 6 Tema 04 – Teoria da CondutaAplicação da Lei Penal e Teoria do Crime - I – ART. 93, INCISO IX DA CF/88 – EXISTÊNCIA DE AGRAVANTE – MAJORAÇÃO DA PENA INTERMEDIÁRIA FAVORÁVEL AO APELANTE – CERTA BENEVOLÊNCIA JUDICIAL – CAUSA ESPECIAL DE DIMINUIÇÃO DE PENA – ART. 33, § 4º DA LEI ANTIDROGAS – IMPOSSIBILI- DADE DE RECONHECIMENTO – REINCIDÊNCIA VERIFICADA – MANUTENÇÃO INTEGRAL DA SENTENÇA – RECURSO DESPROVIDO. Não se pode ter por inepta a denúncia que descreve fatos penalmente típicos e aponta, mesmo que de forma genérica, as condutas do acusado, o resultado, a subsunção, o nexo causal (teorias causalista e finalista) e o nexo de imputação (teorias funcionalista e constitucionalista), oferecendo condições para o pleno exercício do direito de defesa. A denúncia anônima é apta à instauração de inquérito policial, mormente quando descreve a conduta praticada pelo investigado, além do local dos fatos e com indicação do nome deste. Não há falar-se em insuficiência ou ausência probatória quando presentes nos autos elementos aptos a demonstrar, de forma inequívoca, a materialidade e a autoria do delito de tráfico ilícito de drogas. As circunstâncias judiciais devem ser devidamente fundamentadas para exaspe- ração da pena-base acima do mínimo legal, sob pena de afronta aos princípios constitu- cionais da motivação das decisões judiciais e do Estado Democrático de Direito. A grande quantidade de substância entorpecente apreendida (11,200 kg) presta a justificar a majoração em 02 (dois) anos e 06 (seis) meses da pena-base, nos termos do artigo 42 da Lei nº 11.343/2006. Reconhecida a reincidência, a pena em formação deve ser majorada. No caso, a utilização de fração diversa a 1/6 (um sexto), comumente adotada pela doutrina, mostra a benevolência do juízo sentenciante, eis que favorável ao apelante. Inviável a aplicação da minorante prevista no parágrafo 4º do artigo 33 da Lei nº 11.343/2006, uma vez que restou comprovada a reincidência do recorrente. Rel. Ministro OLINDO MENEZES (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TRF 1ª REGIÃO), SEXTA TURMA, julgado em 08/03/2022, DJe 11/03/2022) BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF. Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. 2023. BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Brasília, DF. Disponível em: . Acesso em: 23 de 7Tema 04 – Teoria da CondutaAplicação da Lei Penal e Teoria do Crime - I jun. 2023. BRASIL. Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Rio de Janeiro, RJ. Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. 2023. BRASIL. Lei nº. 3.689, de 3 de outubro de 1941. Rio de Janeiro, RJ. Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. 2023. NUCCI, Guilherme de S. Curso de Direito Processual Penal. Disponível em: Minha Biblioteca, (20th edição). Grupo GEN, 2023. NUCCI, Guilherme de S. Manual de Processo Penal. Disponível em: Minha Biblio- teca, (3rd edição). Grupo GEN, 2022. NUCCI, Guilherme de S. Curso de Direito Penal: Parte Geral: arts. 1º a 120. v.1. Dis- ponível em: Minha Biblioteca, (7th edição). Grupo GEN, 2023. NUCCI, Guilherme. Dignidade Penal. Guilherme Nucci, 2019. Disponível em: . Acesso em: 23 de jun. 2023.