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As mudanças climáticas e a questão energética

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as centrais de potência modernas já apresentam altos níveis 
de eficiência de geração de eletricidade. 
No total, como mostrado na Figura 3, 39,9% das reduções de emissões de GEE, 
quando da comparação dos dois cenários para 2050, viriam de ações relacionadas ao aumento 
da eficiência de conversão e uso da energia. Tal contribuição é explicada pelo fato de que há 
significativas perdas na cadeia energética e, conseqüentemente, grande margem para 
melhorias. Com efeito, estima-se que a eficiência de conversão de energia primária em 
energia útil é de apenas 37%, ou seja, aproximadamente dois terços dos recursos energéticos 
utilizados são simplesmente perdidos (5). 
 
Figura 3. Contribuições das diferentes tecnologias para a redução das emissões de CO2 em 
2050 – percentuais avaliados em relação à redução total de 37,42 GtCO2. 
 
No sumário do relatório sobre opções de mitigação das emissões de GEE, divulgado 
pelo IPCC em Maio de 2007 (1), são destacadas ações de eficiência energética no suprimento 
de energia (por exemplo, aumento da eficiência no sistema de transmissão e de distribuição), 
nos transportes (por exemplo, aumento da eficiência dos veículos rodoviários e de aviões), em 
edificações (por exemplo, sistemas de iluminação mais eficientes, maior eficiência de 
eletrodomésticos, melhoria do isolamento térmico), nas indústrias (por exemplo, maior 
eficiência dos motores elétricos, recuperação de calor, geração combinada de calor e potência, 
reciclagem de materiais) e na agricultura. Em que pese tratar-se de um documento síntese, no 
qual detalhes não são apresentadas, essencialmente todas as ações citadas não representam 
 
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Revista Multiciência | Campinas | Edição no. 8 | Mudanças Climáticas | Maio 2007  ­ 40 ­ 
 
novidades tecnológicas. Portanto, é de se supor que não existam barreiras técnicas para que se 
busque maior eficiência no uso de energia desde já. 
Já o relatório da AIE (4) destaca que as indústrias de transformação (por exemplo, 
siderúrgicas e fábricas de cimento) nos países emergentes e em desenvolvimento têm, em 
geral, baixa eficiência, o que em parte se deve aos ainda baixos preços dos insumos 
energéticos. Também são destacadas as ações que resultam menor consumo de energia por 
substituição ou reaproveitamento de materiais (por exemplo, reciclagem), bem como o 
aumento da vida útil dos produtos. 
Ainda no relatório da AIE (4), no caso do setor de transportes, pouco mais de 60% da 
redução de emissões de GEE no cenário “TechPlus” viria do aumento da eficiência dos 
veículos e dos sistemas de transporte. No conjunto de tecnologias mencionadas são destacadas 
melhorias nos motores, nos sistemas de transmissão e de tração, redução do peso dos 
veículos, melhorias aerodinâmicas e redução do atrito de rolamento. Chama a atenção que a 
AIE parte do princípio de que o transporte individual, baseado em veículos automotivos, 
continuará a ser dominante por dezenas de anos, embora destaque no texto a necessidade de 
melhoria dos sistemas de transporte coletivos não baseados em veículos rodoviários. 
A segunda maior contribuição para a redução das emissões de GEE – 20,2% das 
reduções totais (ver Figura 4) – viria da captura e do armazenamento de dióxido de carbono. 
De acordo com o estudo da AIE (4) a maior parcela das reduções viria da adoção dessa 
tecnologia na geração de eletricidade, atividade na qual se supõe que o uso de carvão mineral 
continuará a ser importante por décadas12. 
Essa opção tecnológica é genericamente descrita como captura e armazenamento de 
carbono13, embora o que se proponha seja a captura e o armazenamento de dióxido de 
carbono. As alternativas seriam a separação do dióxido de carbono antes da combustão (por 
exemplo, separando-se o dióxido de carbono produzido na gaseificação de carvão mineral ou 
de biomassa), ou a separação após a combustão, com remoção do dióxido de carbono da 
mistura de gases de combustão. Economicamente, a alternativa só pode ser viabilizada em 
unidades estacionárias, em instalações de capacidade significativa. Por tal razão, o potencial 
apresentado na Tabela 4 diz respeito à adoção da tecnologia em termoelétricas, indústrias e 
 
12 Em 2004 quase 40% da geração de energia elétrica ocorreu em termelétricas a carvão mineral – ou seja, a 
maior contribuição entre todas as fontes de energia (2). As reservas mundiais de carvão mineral são maiores do 
que as de petróleo e de gás natural e melhor distribuídas geograficamente. 
13 Da expressão Carbon (ou Carbon Dioxide) Capture and Storage – CCS –, em inglês. Para informações 
adicionais consultar, por exemplo, IPCC Special Report on Carbon Dioxide Capture and Storage (7). 
 
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unidades de transformação, ou seja, nesse caso, em unidade de produção de combustíveis 
líquidos a partir de insumos energéticos fósseis. 
Tanto na geração de energia elétrica quanto na produção de combustíveis líquidos por 
via sintética, a tecnologia de referência é a gaseificação de combustíveis fósseis ou líquidos de 
alta viscosidade. Para a geração de energia elétrica, a tecnologia IGCC (Integrated 
Gasification to Combined Cycles) já é comercial, embora não economicamente viável14. O 
gás proveniente da gaseificação de carvão mineral, por exemplo, é utilizado como 
combustível em turbinas a gás. A partir daí, tem-se um ciclo combinado convencional em que 
parte da geração de potência ocorre na turbina a gás e parte no ciclo a vapor, que opera a 
partir da recuperação da energia dos gases de exaustão da turbina a gás. Mesmo os sistemas 
IGCC atuais podem ter eficiência de geração elétrica tão alta quanto as centrais convencionais 
mais eficientes (rendimentos da ordem de 40-45%), com a vantagem de que as emissões de 
GEE poderiam ser minimizadas. O objetivo é separar o CO2 produzido na gaseificação, que 
não tem finalidade útil na geração de potência, e destiná-lo ao armazenamento. Assim, as 
emissões de GEE do ciclo de combustível estariam próximas de zero (8) e eventualmente 
poderiam ser até negativas, no caso de gaseificação de biomassa. 
Outra vertente é a produção de combustíveis líquidos a partir do gás de síntese, gerado 
na gaseificação de carvão mineral (ou biomassa). Para tanto, o gás de síntese precisa ter uma 
relação adequada entre as concentrações de monóxido de carbono e de hidrogênio, e o dióxido 
de carbono não tem utilidade. Pode, portanto, ser separado e estocado. Obtido o gás de 
síntese, a produção de combustíveis líquidos pode ocorrer em um processo conhecido como 
Fischer-Tropsch (FT), que é uma reação química catalisada através da qual monóxido de 
carbono e hidrogênio são convertidos em hidrocarbonetos líquidos. Pelo processo FT é 
possível produzir lubrificantes e combustíveis sintéticos. O óleo diesel produzido, por 
exemplo, é de alta qualidade. O processo FT é comercial, sendo utilizado na produção de 
hidrocarbonetos de alto valor a partir de gás natural. A produção de combustíveis líquidos a 
partir de carvão mineral foi desenvolvida pela Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, 
e aperfeiçoada pela África do Sul nos anos de embargo econômico. 
Embora comercial, a economicidade da produção de líquidos FT só será alcançada a 
médio-longo prazo, desde que vários desenvolvimentos ocorram simultaneamente. A 
economicidade da produção de combustíveis líquidos a partir da biomassa, a partir de sua 
 
14 No mundo existem cerca de 20 unidades de potência baseadas na gaseificação de carvão mineral ou de 
resíduos

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