Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

NÍVEL DE DOUTORADO / PPGECEM 
ÁREA DE CONCETRAÇÃO: EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E 
EDUCAÇÃO MATEMÁTICA 
LINHA DE PESQUISA: EDUCAÇÃO MATEMÁTICA 
 
 
 
 
 
 
 
 
DO PENSAMENTO FUNCIONAL AO CAMPO CONCEITUAL DE FUNÇÃO: 
O DESENVOLVIMENTO DE UM CONCEITO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
RENATO FRANCISCO MERLI 
 
 
 
 
 
 
 
 
CASCAVEL –PR 
2022 
 
 
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ 
CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLÓGICAS / CCET 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E 
EDUCAÇÃO MATEMÁTICA 
 
NÍVEL DE DOUTORADO / PPGECEM 
ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E EDUCAÇÃO 
MATEMÁTICA 
LINHA DE PESQUISA: EDUCAÇÃO MATEMÁTICA 
 
 
 
 
 
 
 
DO PENSAMENTO FUNCIONAL AO CAMPO CONCEITUAL DE FUNÇÃO: 
O DESENVOLVIMENTO DE UM CONCEITO 
 
 
 
 
RENATO FRANCISCO MERLI 
 
 
 
Tese apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Educação em Ciências e 
Educação Matemática – PPGECEM da 
Universidade Estadual do Oeste do 
Paraná/UNIOESTE – Campus de Cascavel, 
como requisito parcial para a obtenção do 
título de Doutor em Educação em Ciências e 
Educação Matemática. 
 
Orientadora: Dra. Clélia Maria Ignatius Nogueira 
Coorientador: Dr. Arthur Belford Powell 
 
 
 
 
CASCAVEL – PR 
2022 
 
Cascavel, 06 de dezembro de 2022. 
DEDICATÓRIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dedico este trabalho à minha avó que partiu 
durante minha caminhada e não pôde ver o 
primeiro doutor na família, também dedico 
aos meus pais e especialmente à minha 
esposa. 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 
Agradeço inicialmente à minha esposa, que sempre me incentivou. Esteve 
comigo em todos os momentos desse longo percurso realizado. Não há palavras para 
descrever tudo o que fez e tem feito por mim. I love you to the Moon and back. 
Agradeço minha família, meu pai Lauro Merli, minha mãe Rosilene Maria Merli, 
minhas irmãs Rafaela Cristine Merli e Milena Venâncio Merli, por tornar isso possível. 
Apesar dos percalços da vida, a formação que tive me fez estar onde estou. Obrigado 
por isso. 
Também queria agradecer aos meus cunhados (Márcio e Samir), minha 
cunhada (Danúbia) e irmã (Rafaela), por terem me dado dois presentes, o nascimento 
das minhas sobrinhas Alice e Manuela, pois elas foram, sem saber, motivos de 
alegrias em alguns momentos de dor e tristeza. Agradeço à minha sogra que sempre 
orou por mim e pela Ana. Obrigado. 
Agradeço minha orientadora, mãe, avó, amiga, professora Clélia, sem ela, eu 
jamais teria chegado até aqui. Não foram uma nem duas vezes que pensei em desistir. 
Apesar de todos os problemas pessoais pelos quais ela também passava, sempre 
teve tempo para me incentivar a continuar. Nos momentos mais difíceis do meu 
percurso ela soube me aconselhar, me ajudar e, acima de tudo, ser compreensiva 
pelo que estava passando. Jamais esquecerei de sua ajuda. Obrigado. 
Agradeço meu também orientador e amigo professor Arthur, a quem lhe devo 
eterna gratidão. Recebeu a mim e a minha esposa em sua casa de maneira muito 
acolhedora. Me permitiu estudar e encarar uma nova etapa da minha vida. As idas às 
escolas, as aulas de Pesquisa Qualitativa I e II, a participação nos projetos e as 
frequentes “falas” com seus alunos e participantes das pesquisas, me fizeram crescer 
demais. Agradeço também a acolhida de sua família nos momentos de celebrações, 
eles foram muito reconfortantes. 
Agradeço aos membros da banca, professores Carlos Vianna, Ricardo 
Tassinari, Tiago Klüber e Veridiana Rezende, pela leitura atenta e rigorosa que fizeram 
na qualificação e, agora na defesa. Sem seus comentários e sugestões, com certeza 
eu não teria conseguido direcionar o foco da minha pesquisa. Obrigado a todos. 
Faço um agradecimento especial ao meu amigo, professor Fábio Borges, a 
quem agradeço o contato feito com o professor Arthur, o que possibilitou minha ida 
para os Estados Unidos. Obrigado Fábio. 
Agradeço também ao meu amigo e professor Tiago Klüber, que não mediu 
esforços para que eu pudesse ir para os Estados Unidos, incluindo a possibilidade de 
permanecer no Estados Unidos por um ano. Obrigado Tiago. 
Agradeço à professora Veridiana Rezende, que além de professora da banca 
sempre esteve me auxiliando ao longo dessa jornada, dando sugestões e apontando 
os problemas da tese. Obrigado Veridiana, espero ter contribuído um pouco com o 
seu projeto e o Grupo de Estudos e Pesquisa em Didática da Matemática (GePeDiMa). 
Agradeço aos meus professores da Educação Básica ao Ensino Superior, por 
todos os ensinamentos que recebi ao longo dessa trajetória. Em especial, agradeço a 
alguns professores: Marli (do pré), Wilse (do primeiro ano), Alcides (do quarto ano), 
Santa Mantini (professora de Matemática do Ensino Fundamental – Anos Finais), 
Carlos (amigo e professor de Matemática e Física do Ensino Médio), Morgado e 
Ricardo (professores de Matemática e Física do Ensino Médio), Josiane (professora 
e coordenadora do Ensino Médio), Augusto (professor e coordenador do curso de 
Engenharia de Controle e Automação da Universidade Federal de Santa Catarina - 
UFSC), Melgarejo (professor e orientador de iniciação científica de Programação da 
UFSC), Joni (orientador de iniciação científica da UFSC), Kassick (professor e 
orientador do Programa Especial de Tutoria (PET) da UFSC), Magna (amiga, 
professora e coordenadora do curso de Matemática da Faculdade de Apucarana - 
FAP), Loreni e Marilda (amigas, professoras de estágio e didática do curso de 
Matemática da FAP), Karina (amiga, professora e orientadora de iniciação científica 
do curso de Matemática da FAP), Sérgio Dantas (amigo, coordenador e professor do 
curso de Matemática da FAP), Deverson (professor e orientador de TCC do curso de 
Matemática da FAP), Armando (professor e orientador de monitoria do curso de 
tecnologias na Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR - Cornélio 
Procópio), Lourdes (professora e orientadora do Mestrado da Universidade Estadual 
de Londrina – UEL), César (amigo, professor e orientador do Mestrado da 
Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE - Toledo), Ester (professora 
do Mestrado da UNIOESTE - Toledo), Márcia e Andréia (professoras do Doutorado 
da UNIOESTE - Cascavel). Aos demais aqui não nominados, recebam também minha 
gratidão por terem passado e marcado minha vida. Essa tese também é para vocês. 
Agradeço aos meus amigos do Programa de Mestrado e Doutorado em 
Educação em Ciências e Educação Matemática (PPGECEM) pelos momentos de 
conversa, café, desabafos e, acima de tudo, incentivos ao longo desse processo. 
Agradeço especialmente a minha irmã de orientação Franciele, que compartilhou 
comigo a experiência de ser orientando da professora Clélia. Agradeço também aos 
demais amigos da turma de doutorado 2018/1: Elenice, Eliane, Daniel, Elhane e 
Paulo. 
Agradeço aos membros do Grupo de Estudos e Pesquisa em Didática da 
Matemática (GePeDiMa), com os quais tive o prazer de conviver, estudar, pesquisar, 
tomar café, conversar e aprender muito. Sem o grupo, com certeza essa tese não teria 
acontecido. 
Agradeço aos meus amigos e pesquisadores Everaldo e Maria Alice, com quem 
tive a honra de estar nos Estados Unidos, enquanto faziam seu pós-doutorado com o 
professor Arthur. Obrigado pelas conversas em inglês e “só às vezes em português”, 
mas acima de tudo pelo aprendizado com dois pesquisadores que admiro muito. 
Agradeço pelos momentos de aprendizado e conversas com meus colegas de 
doutorado das disciplinas de Pesquisa Qualitativa I e II nos Estados Unidos, Kaveh 
Samiei, Tugba Altin e Kristina Micu. Também agradeço ao Anthony e ao Gary, 
estudantes de Matemática e orientandos do professor Arthur. Eles me ajudaram e me 
acompanharam nos projetos desenvolvidos. 
Agradeço aos alunos do Brasil e ao aluno do Estados Unidos que me ajudaram 
a realizar a coleta de dados para um pré-teste do meu instrumento de pesquisa à 
época. 
Agradeço aos- em um plano cartesiano clássico. No entanto, foram identificados 
casos patológicos, como: 
 
𝑓(𝑥) = {
1 𝑠𝑒 𝑥 é 𝑖𝑟𝑟𝑎𝑐𝑖𝑜𝑛𝑎𝑙
0 𝑠𝑒 𝑥 é 𝑟𝑎𝑐𝑖𝑜𝑛𝑎𝑙 
 Equação 1 
𝑓(𝑥) = {𝑠𝑒𝑛 (
1
𝑥
) 𝑠𝑒 𝑥 ≠ 0
0 𝑠𝑒 𝑥 = 0 
 
Equação 2 
𝑓(𝑥) = {𝑥 ∙ 𝑠𝑒𝑛 (
1
𝑥
) 𝑠𝑒 𝑥 ≠ 0
0 𝑠𝑒 𝑥 = 0 
 Equação 3 
 
Esses casos não se encaixavam nas propriedades das curvas prototípicas 
definidas até então, a saber, a curva deveria: ser gerada pelo movimento de um ponto, 
ser contínua, ter uma tangente, ter um comprimento, quando a curva é fechada forma 
o limite completo de uma região, esta região deve ter uma área, a curva não deveria 
ser uma superfície e ser formada pela intersecção de duas superfícies (CHA, 1999). 
Os matemáticos do século XVIII acreditavam que uma função tem a mesma 
expressão analítica por toda parte. Leonhard Euler e Joseph-Louis Lagrange 
permitiam funções que possuíssem expressões diferentes em domínios diferentes. 
Eles usaram o termo contínuo onde a mesma expressão se mantinha e descontínuo 
37 
 
em pontos onde a expressão mudava de forma (embora no sentido moderno a função 
inteira pudesse ser contínua) (KLINE, 1972a). 
A investigação das relações entre quantidades variáveis de fenômenos naturais 
e a busca de ferramentas para descrever e modelar os fenômenos observados foi 
fundamental para chegar ao conceito de função (KLINE, 1972a). Aliado a isso, o 
desenvolvimento da álgebra simbólica e da geometria analítica por Pierre de Fermat 
e Descartes, associadas à criação do cálculo por Gottfried Wilhelm Leibniz e Isaac 
Newton, acelerou o processo de conceitualização da função. 
Isaac Newton, desde o início de seu trabalho sobre o cálculo, utilizou o termo 
fluente para representar qualquer relação entre variáveis (KLINE, 1972a). Isaac 
Newton também escreveu sobre quantitas correlata e quantitas relata referindo-se a 
variáveis independentes e dependentes, respectivamente. Outra contribuição 
importante de Isaac Newton foram as primeiras associações das séries de potência 
com o conceito de função. 
Kleiner (1989) afirma que os elementos-chave para a conceitualização de 
função foram a introdução das variáveis e a expressão que relacionava essas 
variáveis, ou seja, a equação. Esse movimento gerou, mais tarde, um número grande 
de exemplos de curvas (que até então eram potenciais funções) associadas a essas 
equações. Em 1673, Gottfried Wilhelm Leibniz usou o termo função para significar 
qualquer quantidade variando de ponto a ponto da curva, como subtangentes e 
subnormais de uma curva (YOUSCHKEVITCH, 1976). 
Em 1667, James Gregory definiu uma função como uma quantidade obtida de 
outras quantidades por uma sucessão de operações algébricas ou por qualquer outra 
operação imaginável, esse conceito de função se mostrou muito limitado (KLINE, 
1972a). 
Em 1692, Gottfried Wilhelm Leibniz introduziu a palavra função para designar 
um objeto geométrico associado com uma curva, por exemplo, ele associou a 
tangente como uma função de uma curva (KLEINER, 1989). O termo variável ainda era 
associado com uma curva que fosse geométrica. Além disso, as palavras 
coordenadas, abscissa e ordenada, no sentido técnico que têm hoje, foram 
contribuições de Leibniz em 1692 (EVES, 2011). 
Johann I Bernoulli em 1697 tratou de função como quantidades formadas 
usando expressões algébricas e transcendentais de variáveis e constantes (KLINE, 
38 
 
1972a). 
Em 1714, Gottfried Wilhelm Leibniz usou o termo função para significar 
quantidades que dependem de uma variável. Em 1718, Johann I Bernoulli definiu 
função de uma certa variável como uma quantidade que é composta de alguma forma 
daquela variável e constantes. Essa foi a primeira definição formal de função. 
Leonhard Euler, aluno de Johann I Bernoulli, mais tarde substituiu o termo quantidade 
por expressão analítica (YOUSCHKEVITCH, 1976). 
Em 1747, em meio a uma controvérsia gerada pelo problema das cordas 
vibrantes sobre o significado de uma função e os tipos que poderiam ser aceitas, Jean 
Le Rond D’Alembert resolveu o problema mostrando que o movimento das cordas 
vibrantes era governado por uma equação diferencial parcial, que mais tarde passou 
a ser chamada de equação da onda. Ele ainda considerava que a dependência 
funcional era uma noção geométrica e que uma função não se reduzia apenas a uma 
fórmula, mas estava relacionada a curvas e superfícies (MEDVEDEV, 1991). 
Em 1748, Leonhard Euler, em seu livro Introductio in Alalysin Infinitorum (1748), 
realizou uma abordagem inteiramente algébrica, sem qualquer tipo de figura ou curva 
(KLEINER, 1989). O matemático afirmou que a Análise era a ciência das variáveis e de 
suas funções. Ele definiu função como fórmula ou expressão analítica composta de 
qualquer maneira daquela quantidade variável e números ou quantidades constantes 
representando a relação entre variáveis. A expressão analítica envolveu as quatro 
operações algébricas, raízes, exponenciais, logaritmos, trigonometria, polinômios, 
séries de potências, derivadas e integrais (KLINE, 1972a). Deve-se a Euler a 
representação 𝑓(𝑥) (EVES, 2011). 
Euler desenvolveu a resolução das quárticas e, na teoria dos números, 
contribuiu com o teorema de Euler e a função de Euler. Além disso, atribuem-se a ele, 
as funções beta e gama do cálculo avançado, embora elas tenham sido prenunciadas 
por Wallis. Também coube a ele a resolução de equações diferenciais lineares com 
coeficientes constantes e a diferenciação entre equações diferenciais homogêneas ou 
não (EVES, 2011). 
Em 1753, Daniel Johann I Bernoulli desenvolveu uma nova solução para o 
problema das cordas vibrantes por meio de uma função obtida pela soma de senos. 
Ao encontrar uma solução diferente para o problema, muitas discussões se seguiram 
para determinar que tipos de expressões analíticas poderiam ser aceitas como 
39 
 
funções. Como resultado desse debate, as expressões definidas por diferentes 
intervalos foram incluídas como funções por partes. 
Em 1755, Leonhard Euler estabeleceu uma definição de função, na qual os 
termos fórmula e expressão analítica não aparecem. O matemático ainda classificou 
as funções em algébricas e transcendentais, de modo que qualquer uma delas pode 
ser expandida para uma série de potências. Ele também mostrou que funções 
trigonométricas podem ser vistas como uma razão numérica e estabeleceu a relação 
dos logaritmos como expoentes (KLEINER, 1989). Destaca-se que foi com Leonhard 
Euler que o conceito de função se tornou principal elemento da Análise. 
Em 1797, Joseph-Louis Lagrange definiu uma função de uma ou várias 
variáveis como qualquer expressão útil para cálculo na qual essas variáveis entram 
de qualquer maneira. Em 1806, ele definiu uma função como uma combinação de 
operações que devem ser executadas em quantidades conhecidas para obter os 
valores de quantidades desconhecidas, alegando que estas são devidamente apenas 
o último resultado do cálculo (KLINE, 1972a). 
Lagrange escreveu o livro Théorie des Fonctions Analytiques Contenant les 
Principes du Calcul Différentiel (1797). O objetivo do livro era representar uma função 
𝑓(𝑥) por uma série de Taylor, no qual ele definiu as derivadas 𝑓′(𝑥), 𝑓’’(𝑥) como os 
coeficientes de ℎ, ℎ2/2! na expansão de Taylor do tipo 𝑓(𝑥 + ℎ) em termos de ℎ. 
Também se atribui a Lagrange a notação 𝑓’(𝑥), 𝑓’’(𝑥). Ele produziu a primeira teoria 
das funções de variável real e realizou grandes avanços na solução de equações 
diferenciais por meio do método de variação de parâmetros (EVES, 2011). 
Augustin-Louis Cauchy apresentou alguns resultados imprecisos sobre a 
conceitualização de função. Ele pensou em funções como sendo definidas por 
equações envolvendo números reais ou complexos, e assumiu, sem explicações, que 
as funções eram contínuas. O matemático assume uma função como sendo definida 
por uma expressão analítica(se for explícita) ou por uma equação ou sistema de 
equações (se for implícita). Ele se difere de seus predecessores ao considerar a 
possibilidade de que uma função possa ser definida apenas para uma faixa restrita da 
variável independente (SMITHIES, 1997). 
Entre as mais numerosas contribuições de Cauchy à Matemática avançada 
encontram-se pesquisas em convergência e divergência de séries infinitas, teoria das 
funções reais e complexas, equações diferenciais, determinantes, probabilidade e 
40 
 
física-Matemática (EVES, 2011). 
Jean-Baptiste Joseph Fourier em 1822, deu outro passo para a evolução do 
conceito de função. Ele mostrou que qualquer função definida entre um intervalo 
qualquer pode ser representada por uma série de senos e cossenos. Conforme Eves 
(2011), ele afirmou que uma função qualquer, não importa quão caprichosamente seja 
definida no intervalo (−𝜋, 𝜋 ), pode ser representada nesse intervalo por 
 
𝑎0
2
+ ∑ (𝑎𝑛𝑐𝑜𝑠𝑛𝑥 + 𝑏𝑛𝑠𝑒𝑛𝑛𝑥)∞
𝑛=1 , onde os 
coeficientes 𝑎 𝑒 𝑏 são número reais. 
Equação 4 
 
Para ele, “[...] uma função representa uma sucessão de valores ou ordenadas, 
cada uma delas arbitrária. Uma infinidade de valores sendo dados à abcissa 𝑥, há um 
número igual de ordenadas” (KLEINER, 1989, p. 8). Todos esses valores são numéricos 
reais, positivos ou negativos ou nulos. Ele ainda supôs que esse conjunto de valores 
não precisavam estar sujeitos a uma regra comum, para ele, bastava que eles se 
sucedessem de qualquer maneira e que cada um deles fosse dado como uma única 
quantidade (EVES, 2011). 
Os matemáticos à época de Jean-Baptiste Joseph Fourier eram muito céticos 
e relutaram em aceitar a solução por meio da série de senos e cossenos, o que o 
obrigou a mostrar que os coeficientes da série podiam ser calculados por qualquer 
função 𝑓(𝑥) e que qualquer função 𝑓(𝑥) pode ser representada pela, agora chamada, 
série de Fourier. O matemático mostrou que os coeficientes de sua série podem ser 
interpretados como áreas. Esse resultado “[...] elevou a expressão analítica (algébrica) 
de uma função a pelo menos um pé de igualdade com sua representação geométrica 
(como uma curva)” (KLEINER, 1989, p. 8). 
No Quadro 1, é mostrado um resumo de como os matemáticos dos séculos 
XVII e XVIII definiram função como uma quantidade, operação, fórmula, expressão ou 
relação. 
 
Quadro 1 – Noção de Função dos séculos X a meados do XIX 
Ano Matemático Noção ou Definição 
1000 Abû’l-Wefâ Uma razão trigonométrica de senos, cossenos e tangentes 
~1300 Oresme 
Taxas e razões entre grandezas que poderiam ser representadas 
geometricamente 
1579 Viète Identidades trigonométricas 
1665 Isaac Newton Qualquer relação entre variáveis 
1667 Gregory 
Uma quantidade obtida de outras quantidades por uma sucessão de operações 
algébricas ou por outra operação imaginável 
1673 
Gottfried 
Wilhelm Leibniz 
Qualquer quantidade variando de ponto a ponto de uma curva 
41 
 
Ano Matemático Noção ou Definição 
1697 
Johann I 
Bernoulli 
Quantidades formadas usando expressões algébricas e transcendentais de 
variáveis e constantes 
1714 
Gottfried 
Wilhelm Leibniz 
Quantidades que dependem de uma variável 
1718 
Johann I 
Bernoulli 
Função de uma certa variável como uma quantidade que é composta por alguns 
modos vindos de variáveis e constantes 
1747 
Jean Le Rond 
D’Alembert 
A dependência funcional é uma noção geométrica. Uma função não é somente 
uma fórmula, mas está relacionada a curvas e superfícies 
1748 Leonhard Euler 
Fórmula ou expressão analítica composta de qualquer modo por meio de uma 
quantidade variável e números ou quantidades constantes que representam a 
relação entre as variáveis. 
1755 Leonhard Euler 
Se 𝑥 denota uma quantidade variável, então todas as quantidades que 
dependem de 𝑥 de qualquer modo ou são determinadas por ela são chamadas 
de suas funções. Se algumas quantidades dependem de outras de tal forma 
que, se estas últimas forem alteradas, as primeiras também sofrerão alterações, 
então as primeiras quantidades são chamadas de funções das últimas. 
1797 
Joseph-Louis 
Lagrange 
Qualquer expressão útil para cálculo em que essas variáveis entrem de qualquer 
maneira. 
1806 
Joseph-Louis 
Lagrange 
Uma combinação de operações que devem ser realizadas em quantidades 
conhecidas para obter os valores de quantidades desconhecidas, e que estas 
últimas são propriamente apenas o último resultado do cálculo. 
1821 
Augustin-Louis 
Cauchy 
Uma função é definida por uma expressão analítica (se for explícita) ou por uma 
equação ou sistema de equações (se for implícita); ela pode ser definida apenas 
para uma faixa restrita da variável independente. 
1822 
Jean-Baptiste 
Joseph Fourier 
A função 𝑓(𝑥) representa uma sucessão de valores ou ordenadas 
Fonte: da pesquisa 
 
Os matemáticos à época de Jean-Baptiste Joseph Fourier também fizeram três 
questionamentos que os fizeram se debruçar sobre o conceito de função. 
(a) como uma função dada por duas ou mais expressões distintas (fórmulas) 
pode ser igual a uma função dada por uma única expressão (ou seja, a série 
de Jean-Baptiste Joseph Fourier da função). 
(b) como uma soma, ainda que infinita, de funções periódicas pode ser igual 
a uma função que não precisa ser periódica (a igualdade, reconhecidamente, 
está apenas em um intervalo). 
(c) como uma soma de funções “suaves” como o seno e o cosseno pode ser 
igual a uma função com (digamos) pontas (uma função não diferenciável), ou 
pior, uma função com quebras (uma função descontínua) (KLEINER, 1993, p. 
197). 
A partir dessas perguntas, o significado aceito de função modificou-se durante 
o século XIX para incluir funções que não eram necessariamente contínuas, 
diferenciáveis ou definidas por expressões analíticas. O trabalho de Jean-Baptiste 
Joseph Fourier sobre condução de calor e o debate que se seguiu sobre seus escritos 
estimularam essa evolução. Em 1829, Johann Peter Gustav Lejeune Dirichlet estudou 
a série de Jean-Baptiste Joseph Fourier, e a redefiniu como uma função; “[...] 𝑦 é uma 
função de uma variável 𝑥, definida no intervalo 𝑎que serviu para facilitar o 
tratamento das equações diferenciais lineares. Há muitas situações em que Boole, em 
seu Tratado assinalou analogias entre as propriedades do operador diferencial (e seu 
inverso) e as regras da álgebra (BOYER, 1974). Boole defendia que o caráter essencial 
da Matemática reside em sua forma e não em seu conteúdo (EVES, 2011). 
Gottlob Frege, em 1879, definiu um número cardinal de uma dada classe, finita 
ou infinita, e a classe de todas as classes que são semelhantes à classe dada (onde 
por “semelhante” considera-se que os elementos das duas classes em questão podem 
ser postos em correspondência biunívoca) (BOYER, 1974). 
Dedekind, por volta de 1888, definiu efetivamente conjunto infinito como todo 
conjunto que é equipotente a uma sua parte própria (EVES, 2011). O corte de Dedekind 
no sistema de números racionais ou na construção equivalente dos números reais, 
substituiu a geometria como a espinha dorsal da Análise (BOYER, 1974). Dedekind 
43 
 
também generalizou a teoria dos inteiros algébricos, ou seja, números que satisfazem 
a equações polinomiais com coeficientes inteiros e primeiro coeficiente igual a um. 
Tais sistemas de “inteiros”, não formam um corpo, pois faltam os inversos para a 
multiplicação (BOYER, 1974). 
Peano, por volta de 1889, mostrou que curvas e funções não precisavam ser 
do tipo bem-comportado que até então dominava o campo da Matemática à época. 
Peano, em 1890, construiu curvas contínuas que enchem o espaço, ou seja, as curvas 
dadas por equações paramétricas do tipo 𝑥 = 𝑓(𝑡), 𝑦 = 𝑔(𝑡), em que 𝑓 𝑒 𝑔 são 
funções reais contínuas no intervalo 0 ≤ 𝑡 ≤ 1, cujos pontos preenchem 
completamente o quadrado unitário 0 ≤ 𝑥 ≤ 1,0 ≤ 𝑦 ≤ 1 (BOYER, 1974). 
Lebesgue (1905, p. 143) introduz dois elementos essenciais na definição de 
função, o intervalo e o domínio. Para o autor, “[…] intervalo é o conjunto de pontos 
que satisfazem as condições 𝑎1 ≤ 𝑥1 ≤ 𝑏1, 𝑎2 ≤ 𝑥2 ≤ 𝑏2, … , 𝑎𝑛 ≤ 𝑥𝑛 ≤ 𝑏𝑛”. E se é 
realizada uma transformação na forma: 
𝑋1 = 𝑋1(𝑥1, 𝑥2, … , 𝑥𝑛), 𝑋2 = 𝑋2(𝑥1, 𝑥2, … , 𝑥𝑛) e 𝑋𝑛 = 𝑋𝑛(𝑥1, 𝑥2, … , 𝑥𝑛), onde os 
𝑋𝑖 são funções contínuas, mapeia qualquer ponto m no espaço (𝑥1, 𝑥2, … , 𝑥𝑛), 
para um ponto M no espaço (𝑋1, 𝑋2, … , 𝑋𝑛), se a qualquer ponto M 
corresponder no máximo um ponto m, por definição, essa transformação fará 
com que um domínio corresponda a um intervalo (LEBESGUE, 1905, p. 143-
144). 
Godfrey Harold Hardy definiu uma função como uma relação entre duas 
variáveis 𝑥 e 𝑦 tal que alguns valores de 𝑥 de qualquer forma correspondem a valores 
de y. Nessa definição, ele não exigia que a função fosse definida para todos os valores 
de 𝑥 nem associasse cada valor de 𝑥 a um único valor de 𝑦. Essa ampla definição de 
função abrange mais relações do que as funções normalmente consideradas na 
Matemática contemporânea (HARDY, 1908). 
Felix Hausdorff estabeleceu a definição de relação como par ordenado (𝑎, 𝑏) 
que era visto como {{𝑎, 1}, {𝑏, 2}}. Alguns anos depois, Kazimierz Kuratowski 
desenvolveu uma definição, baseada em Hausdorff, ao entender o par ordenado como 
{{𝑎, 𝑏}, {𝑎}}. “Esta definição, a qual foi importante historicamente por reduzir a teoria 
das relações à teoria dos conjuntos” (SUPPES, 1972, p. 32). 
Em 1917, Constantin Carathéodory definiu uma função como uma regra de 
correspondência de um conjunto 𝐴 aos números reais. Para Medvedev (1991), a 
definição de Carathéodory é que, a cada conjunto de pontos 𝐴 de algum conjunto ℌ 
de conjuntos de pontos corresponde não um número, mas novamente algum conjunto 
44 
 
B do mesmo espaço ou de um diferente. A coleção ℌ de conjuntos de pontos em 
consideração corresponde uma coleção ℑ de conjuntos 𝐵, e dizemos que ℌ é 
mapeado de forma univalente em ℑ. 
Kazimierz Kuratowski, em 1921, definiu uma “[…] função singular de um valor 
(uma operação em definição atual) que, quando aplicada a algo como argumento, 
produz certa coisa como o valor da função para esse argumento” (MEDVEDEV, 1991, 
p. 28). Para Kazimierz Kuratowski, não é necessário que uma função seja aplicável a 
todas as coisas possíveis como argumento, mas sim à natureza de qualquer função 
pode ser aplicável a certas coisas, e quando aplicado a uma dessas coisas como 
como argumento, produz um determinado valor. Assim, as coisas às quais a função é 
aplicável constituem o intervalo da função (ou o intervalo de argumentos da função) e 
os valores constituem o intervalo de valores da função (MEDVEDEV, 1991). 
Portanto, para Kuratowski, a função em si consiste na obtenção ou 
determinação de um valor de cada argumento no intervalo da função. Nesse caso, o 
matemático compreende os termos “operação”, “ceder”, “determinação” como 
sinônimos de “função” e, portanto, tomada como uma definição, estaria aberta à 
suspeita de circularidade (MEDVEDEV, 1991). 
No início do século XX, Breslich (1928) considerava a dependência a 
componente mais importante do conceito de função. Além disso, o autor considerou o 
reconhecimento da dependência de uma quantidade variável em outra variável 
relacionada como um dos aspectos importantes do pensamento funcional. Além do 
reconhecimento do caráter das relações entre as variáveis, a determinação da 
natureza das relações e a possibilidade de expressar relações em símbolos 
algébricos. 
Em 1939, Nicolas Bourbaki definiu a função como uma regra de 
correspondência entre dois conjuntos (MALIK, 1980). Ele também propôs a seguinte 
definição de função em 1939: 
Sejam E e F dois conjuntos, que podem ou não ser distintos. Uma relação 
entre um elemento variável x de E e um elemento variável y de F é chamada 
de relação funcional em y se, para todo x em E, existe um único y em F que 
está na relação dada com x (KLEINER, 1989, p. 299). 
Bourbaki (1957) nomeou por função uma operação, que associa a qualquer 
elemento 𝑥 ∈ 𝐸 o elemento 𝑦 ∈ 𝐹 que se encontra na relação dada com 𝑥. Ele afirma 
que 𝑦 é o valor da função para o elemento 𝑥, e que a função é determinada pela 
45 
 
relação funcional considerada. Bourbaki (1957) estabelece que duas relações 
funcionais equivalentes determinam a mesma função. 
Dizemos que tal função “toma seus valores em F” e que é “definida em (ou 
em) E”, ou que é uma “função de um argumento (ou de uma variável) 
percorrendo E”; mais brevemente, também dizemos que é uma aplicação de 
E a F. Em vez de dizer: “Seja f uma aplicação de E a F”, diremos também: 
“Seja 𝑓: 𝐸 → 𝐹 uma aplicação” (ou mesmo que “Seja 𝑓: 𝐸 → 𝐹”, se isso não 
causar confusão) (BOURBAKI, 1957, p. E.R.6,§2). 
Kleene (1952) reconhece uma mistura de terminologias baseadas em duas 
ideias: a ideia de uma função como uma correspondência de muitos-para-um e a ideia 
de uma função como uma variável 𝑦 que varia em relação a outra variável 𝑥, de modo 
que o valor de 𝑦 é sempre fixado pelo valor de 𝑥. Para o autor “[...] uma função (de 
valor único) 𝑓 ou 𝑓(𝑥) ou 𝑦 = 𝑓(𝑥) de uma variável 𝑥 é uma correspondência por 𝑦 
que, a cada elemento 𝑥 de um conjunto 𝑋 corresponde um único elemento 𝑦 de um 
conjunto 𝑌” (KLEENE, 1952, p. 32). Para ele, o conjunto 𝑋 é o intervalo da variável 
independente, ou o domínio da função. A função pode ser chamada de função de 𝑋 
para 𝑌 (ou uma função de um membro de 𝑋 tomando um membro de 𝑌 como valor, 
ou uma operação em um membro de 𝑋 produzindo um membro de 𝑌). O intervalo da 
variável dependente 𝑦 ou 𝑓(𝑥) é o subconjunto Y1 de 𝑌 compreendendo os elementos 
de 𝑌 usados na correspondência, ou seja, aqueles que correspondem pela função 𝑓 
a algum elemento de 𝑋. Então 𝑋 e Y1 são uma correspondência de muitos-para-um, 
desde que para cada elemento 𝑥 de 𝑋 é um argumento da função ou um valor da 
variável independente. O elemento correspondente de Y é o valor correspondente da 
função ou da variável dependente, ou o valor da função para aquele argumento 
(KLEENE, 1952).Em meados do século XX, a definição de função de Dirichlet-Bourbaki tornou-
se comum na prática Matemática, ao afirmar que uma função era qualquer 
correspondência entre dois conjuntos que atribui a cada elemento no domínio 
exatamente um elemento na imagem (EVEN, 1988). 
A natureza arbitrária dos dois conjuntos significa que as funções não precisam 
ser definidas em nenhum conjunto específico de objetos; em particular, os conjuntos 
não precisam ser conjuntos de números. Os elementos dos conjuntos podem ser 
números, pontos, curvas, coordenadas, funções ou permutações (FREUDENTHAL, 
2002). 
 
46 
 
O termo arbitrário refere-se tanto ao caráter das relações entre os dois 
conjuntos nos quais a função é definida quanto aos próprios conjuntos (EVEN, 1988). 
As funções não precisam ser representadas por uma única ou qualquer expressão 
específica. As funções também não precisam seguir nenhuma regularidade, nem 
precisam ser descritas por um gráfico com qualquer forma particular. 
A outra característica da definição moderna é a univalência (FREUDENTHAL, 
1982). As definições anteriores apresentam características de univalência. De acordo 
com Kline (1972a), a natureza univalente da função é comumente usada para ajudar 
os alunos a identificar uma função, construir uma função, acompanhar os significados 
dos símbolos no mesmo contexto e manter o processo inteligível. 
Os matemáticos do século XIX e início do século XX definiram a função como 
regras de correspondência, conforme pode ser visto no Quadro 2. 
 
Quadro 2 – Conceito de Função a partir da segunda metade do século XIX 
Ano Matemático Definição 
1829 
Johann Peter 
Gustav Lejeune 
Dirichlet 
𝑦 é uma função de uma variável 𝑥, definida no intervalo 𝑎designar um objeto 
48 
 
geométrico associado a curvas por meio do movimento foi sugerida tempo depois por 
Evangelista Torricelli, René Descartes, Galileu Galilei, Gottfried Wilhelm Leibniz, Isaac 
Newton, etc., durante o século XVII (KLINE, 1972a). 
Medvedev (1991), em seu livro, trata da teoria das funções, uma teoria nascida 
no século XIX, mas gestacionada ao longo do tempo. Ela é a terceira etapa de Anders, 
o mais alto grau de abstração e completude para o conceito de função propriamente 
dito. Medvedev (1991) buscou nos livros à época uma breve definição para a teoria 
das funções, o que ele achou foram definições vagas ou tautológicas, como a de que 
a teoria das funções estuda as propriedades gerais das funções. 
Nesse mesmo contexto, para tentar compreender o que se estuda na teoria das 
funções, Medvedev (1991) procurou nos livros dedicados à teoria, quais eram os 
conteúdos estudados. Um dos primeiros livros sobre o assunto, tinha como sumário 
os seguintes conteúdos: 
“Números irracionais”; “Grupos de números e pontos, seus e limites 
inferiores”2; “O conceito de limite. Quantidades infinitamente pequenas e 
infinitamente grandes”; “O conceito de uma função. Continuidade e 
descontinuidade”; “Funções contínuas em um determinado intervalo”; 
“Funções com um número infinito de descontinuidades”; “Derivados”; 
“Teoremas sobre séries”; “O princípio da condensação das singularidades”; 
“Funções tendo uma derivada finita definida em nenhum lugar”; “Outras 
considerações relativas especialmente à existência da derivada de funções 
finitas e contínuas”; “Integrais definidas (MEDVEDEV, 1991, p. 11). 
Em outro livro escrito posteriormente, Medvedev (1991) afirma que cinco dos 
dezoito capítulos são dedicados à teoria dos conjuntos, oito a vários tipos e classes 
de funções, três à teoria da integração, um às integrais singulares, séries 
trigonométricas e funções convexas e um à análise funcional elementar. 
Dessa forma, Medvedev (1991) categoricamente afirma que, a necessidade de 
os livros de teoria das funções trazerem a teoria de conjuntos “[…] não é coincidência, 
mas é inerente à própria natureza das coisas: a teoria das funções de uma variável 
real foi construída em conjunto com a teoria dos conjuntos”. Para o autor, essas duas 
teorias estão relacionadas entre si, pois “[…] se considerarmos apenas a teoria de 
conjuntos de pontos em espaços euclidianos e o estudo de funções em tais conjuntos, 
eles são muitas vezes simplesmente identificados” (MEDVEDEV, 1991, p. 13). 
Além disso, o estudo de tipos e classes de funções se torna uma componente 
importante da teoria das funções. Por exemplo, funções diferenciáveis e não 
diferenciáveis, contínuas, monotônicas, integráveis, mensuráveis e funções de 
conjunto. A teoria das funções pode ser dividida entre outras teorias, como por 
49 
 
exemplo, a teoria das séries, que fornece ferramentas básicas para compreensão dos 
estudos de funções como: duas operações sobre funções, diferenciação e integração 
(MEDVEDEV, 1991). 
 
2.1.1 Uma síntese 
 
Nessa seção, compreendemos que, da noção de função (ou pensamento 
funcional) até o conceito de função, o caminho foi longo e cheio de mudanças 
epistemológicas. O gérmen da noção de função advém das primeiras relações 
estabelecidas pela humanidade entre dois números, como por exemplo, o osso de 
Ishango, que traz algumas marcações que sugerem um tipo de sistema numérico ou 
régua de cálculo. 
Um segundo estágio epistemológico da noção de função está nas tabelas 
numéricas babilônicas e egípcias, como exemplo, a tábua de Plimpton 322, a qual 
apresenta sequências numéricas que representavam os catetos e as hipotenusas de 
triângulos retângulos. Essas relações avançaram, por meio de simples proporções ou 
interpolações, as quais ajudaram tanto os mesopotâmicos quanto os gregos a 
encontrarem valores aos quais eles não tiveram acesso experimentalmente. 
Nesse terceiro estágio, no qual as relações entre duas grandezas eram 
desenvolvidas por meio de proporções, os gregos as utilizaram para criar tabelas que 
estabeleciam relações numéricas entre ângulos e as razões trigonométricas (seno, 
cosseno e tangente). Nessa etapa, a relação entre números e formas era estritamente 
ligada, pois as relações proporcionais remetiam de algum modo, à segmentos de reta, 
círculos e polígonos. A noção de proporcionalidades diretas e inversas de tamanhos, 
áreas e volumes eram bem conhecidas pelos gregos, conforme demonstrado em Os 
Elementos de Euclides. 
O quarto estágio corresponde ao período em que as relações começaram a 
também serem estabelecidas de forma algébrica pelos árabes e hindus, 
principalmente com os avanços da trigonometria. No quinto estágio, a partir do 
advento da geometria analítica, a noção de função ganhou nova representação, a 
forma gráfica, a qual permitiu estabelecer correspondências entre as representações 
algébricas e gráficas. 
O sexto estágio estabeleceu um novo marco ao transformar a noção de função 
numa relação explícita, algebricamente, entre duas variáveis. A teoria das 
50 
 
proporcionalidades assegurou essa mudança ao reconhecer nas equações uma forma 
de representação das funções. No sétimo estágio, com o advento da teoria de grupos 
e as ideias estruturalistas, a função passou a ser tratada como uma relação entre dois 
conjuntos quaisquer, extirpando, quase por completo, a noção de função como 
relação entre duas grandezas. O oitavo estágio que emana do logicismo matemático, 
é o estabelecimento da função como uma função proposicional. Um nono e atual 
estágio é a junção do logicismo com o estruturalismo, na qual o conceito de função é 
estabelecido considerando a Teoria dos Conjuntos e justificado por meio de 
operações lógicas Figura 7. 
 
 
Figura 7 – Nove Estágios da evolução de função 
Fonte: da pesquisa 
 
Esses estágios epistmeológicos não podem e não devem ser atribuídos a 
períodos históricos específicos, pois como averiguado, alguns desses estágios se 
sobrepõem e “lutam” por espaço. Isso se deve ao fato de que os matemáticos de cada 
época nem sempre tinham convergências sobre o conceito de função e as situações 
que levaram a essas mutações são alteradas. 
Nesse contexto, estabelecer o Campo Conceitual de Função se torna algo mais 
complexo e desafiador, uma vez que envolvem outras situações, outros esquemas, 
outras representações. 
51 
 
Essa linha de compreensão do processo histórico de evolução do conceito de 
função não é suficiente para dar conta de conceber o Campo Conceitual de Função, 
uma vez que, para isso, é necessário considerar quais as situações históricas que 
levaram ao desenvolvimento do conceito e, nesse caso, as situações são resolvidas 
por sujeitos, que interferem no estabelecimento do conceito e ao mesmo tempo são 
levados pelos conceitos já existentes. Assim, é importante compreender como se deu 
a evolução do processo cognitivo dos sujeitos que estudaram e trabalharam com o 
conceito de função. 
 
2. 2 PERSPECTIVA COGNITIVA 
 
Na perspectiva cognitiva, os textos aqui referenciados são sobre experimentos 
científicos realizados com estudantes ou que trouxeram análises dos experimentos de 
outros pesquisadores ou ainda de análises de textos didáticos, que buscaram 
compreender o conceito de função a partir dos resultados produzidos por esses 
experimentos. Essa perspectiva trata-se de pesquisas que buscam desenvolver 
teorias de aprendizagem capazes de melhorar o desempenho dos estudantes e dar 
condições teóricas para que os professores possam elaborar procedimentos didáticos 
mais adequados. Nesse contexto, o referencial teórico utilizado pelos pesquisadores 
pode não ser a Teoria dos Campos Conceituais. 
Os primeiros, talvez, a se debruçar de fato sobre o ponto de vista cognitivo das 
funções, tenham sido Jean Piaget e seus colaboradores. O estudo das funções, além 
de preencher uma lacuna significativa na teoria dePiaget, marcou uma mudança de 
ênfase do trabalho piagetiano, aliando o estruturalismo ao funcionalismo, uma vez que 
o caráter estruturalista na introdução da teoria das categorias em sua arquitetura 
lógica permanece em seus estudos sobre funções (BEILIN, 1992). 
Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968) realizaram um trabalho completo sobre 
a compreensão do conceito de funções com o livro Epistemologia e a Psicologia das 
Funções (1968). Este livro, dividido em três partes faz um estudo inicial sobre a 
constituição de funções, na sequência discute a quantificação das funções, e por fim 
apresenta uma análise do estudo epistemológico de funções. 
Beilin (1992) afirma que Piaget viu dois tipos de funções que também definiram 
o pensamento pré-operacional, as funções preparatórias ou constitutivas e as funções 
52 
 
constituídas e posteriormente quantificadas do pensamento operacional. A 
importância do pensamento funcional para Piaget, é que as relações funcionais, nas 
quais consistem as ações, são a fonte tanto das operações lógico-Matemáticas quanto 
da causalidade e se desenvolvem paralelamente a alguns contextos e em interação 
em outros. 
Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968) realizaram um estudo sobre o assunto 
a partir de algumas hipóteses relacionadas a como as crianças aprendem a ordenar 
uma série de objetos. Como resultado, os autores identificaram que os mais jovens, 
quando solicitados a ordenar, o faziam em pares, mantendo a ordem a um pequeno 
grupo de objetos, sem conseguir ordená-los em uma única série. Além desse estudo 
de Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968), Wallon (1947), a partir de estudos 
experimentais com crianças, percebeu que a ideia de pares é a forma mais elementar 
de estruturação cognitiva. 
Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968) afirmam que se definirmos funções 
matematicamente como relações unívocas para a direita (uma ordem da esquerda 
para a direita), isto é, como pares ordenados, então os pares, por mais elementares 
que sejam, já constituem funções. Mas se, além disso, as funções forem 
consideradas, do ponto de vista psicológico, como as expressões dos esquemas de 
assimilação de ações, então as funções já estão presentes na conceituação de 
qualquer ação que modifique um objeto 𝑥 em 𝑥′ ou 𝑦, constituindo assim também um 
par ordenado (𝑥, 𝑥′) ou (𝑥, 𝑦). Assim, a hipótese dos autores é que as funções são a 
fonte das operações e dos sistemas causais, até mesmo nos mais simples casos. Por 
exemplo, modificar certo 𝑥 em 𝑦 para que este fique maior, fazer uma mudança de 
cor, saindo de um estado inicial 𝑥 e indo para um estado final 𝑥’ ou 𝑦, ou ainda o 
simples movimento de um objeto de lugar, saindo de uma posição 𝑥 para uma posição 
𝑥’ ou 𝑦 (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968). 
Outro experimento considerado pelos autores foi o de realizar uma substituição 
de flores, uma por uma, a partir de diferentes tamanhos. Às crianças foram dados 
quatro gráficos (Figura 8), cada um contendo oito posições. Em cada posição havia 
flores vermelhas ou azuis, sendo elas pequenas ou grandes. Em todas as posições 
superiores havia, nessa ordem, da esquerda para a direita, uma flor vermelha grande, 
uma vermelha pequena, uma flor azul grande e uma azul pequena. No primeiro quadro 
I, as flores são duplicadas nas posições inferiores. No quadro S, as flores das posições 
53 
 
inferiores possuem a mesma cor que as superiores, mas com tamanhos diferentes. 
No quando C, as flores das posições inferiores têm o mesmo tamanho que as 
superiores, mas com cores diferentes. Por fim, no quadro D, as flores inferiores e 
superiores, uma a uma não possuem cor nem tamanho iguais. 
 
 
Figura 8 – Experimento das Flores 
Fonte: Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968, p. 5) 
 
As regras, de acordo Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968), eram as 
seguintes: sempre que a criança colocasse uma flor qualquer sobre outra flor do 
mesmo tamanho e cor na posição superior do quadro I para o D, teria o direito de 
receber em troca a flor correspondente encontrada na posição logo abaixo. As 
crianças tiveram a chance de realizar algumas jogadas para treinar até que tivessem 
compreendido suficientemente as regras do jogo. Feito isso, elas começam o 
experimento real que consistia em obter, para uma determinada flor (por exemplo, 
uma grande vermelha), outra flor (por exemplo, uma grande azul). No entanto, quando 
o “estoque” para a troca direta está fechada (neste caso, o gráfico C), as substituições 
devem ser feitas em pelo menos duas trocas (aqui, do S para o D). O teste começa 
com o fechamento do gráfico D e termina com o fechamento do quadro I. Em alguns 
casos, o experimento começou com a própria criança construindo os quadros e em 
outros casos, após a construção, o quadro é coberto por uma tela com apenas uma 
etiqueta informando a natureza da possível troca: cor, tamanho, ambos ou a 
identidade. 
 Desse experimento, eles identificaram que as crianças, apesar de algumas 
54 
 
vezes conseguirem realizar essas composições, na maioria das vezes as faziam por 
sucessivas tentativas e erros. Duas explicações possíveis é que crianças até os sete 
anos de idade não conseguem compreender a transitividade instrumental e a 
transitividade operatória, ou seja, para essa última, a criança não pode concluir que 
𝐴(1968, p. 9) 
 
Assim, foram realizadas quatro perguntas: 1) quais os caminhos para ir de 1 a 
4, sendo que as rotas de trilhos azuis estão fechadas, 2) quais os caminhos para ir de 
1 a 3, se as rotas de trilhos vermelhos estão fechadas, 3) quais os caminhos para ir 
de 1 a 2 com as rotas verdes fechadas e, 4) indicar um caminho em que o ponto de 
saída e chegasse fosse de 1. 
Os resultados do experimento mostraram cinco tipos diferentes de erros (Figura 
10): o primeiro, entre crianças de quatro a cinco anos de idade, consistia em fornecer 
apenas um par determinado pela saída do ponto 1; o segundo, encontrado nas 
crianças de quatro a oito anos, consistia em dar uma rota centrada no ponto de 
chegada sem dar o ponto de partida; o terceiro, encontrado em crianças acima dos 
seis anos de idade, tratava-se de fornecer dois pares ou dois caminhos os quais 
tinham uma origem em comum, mas com pontos de chegada diferentes; o quarto, 
observado entre as crianças de quatro a seis anos, era a falta de coordenação feita 
56 
 
por dois pontos de origem os quais nenhum deles convergia a um ponto de chegada 
específico e, o quinto, mais frequente entre as crianças de quatro a oito anos de idade, 
consistia de dois caminhos não unidos dos quais correspondia ao ponto de partida 1 
com os outros correspondentes como pontos de chegada específicos. 
 
 
Figura 10 – Tipos de erro no Experimento do Deslocamento 
Fonte: Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968, p. 11) 
 
Como no problema da substituição de flores, a criança às vezes se detém em 
pares isolados antes de poder fazer composições cuja dificuldade deriva do fato de 
envolverem uma espécie de transitividade intermediária entre a transitividade 
instrumental e a transitividade lógica (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968). 
De acordo com os autores, a hipótese de que as funções expressam os 
caminhos para os esquemas de ações mostra ser possível encontrar estruturas 
funcionais que precedem as estruturas operatórias desde que as ações possam ser 
fisicamente coordenadas antes de operações extraídas das mais gerais coordenações 
que são constituídas. Essa hipótese pôde ser confirmada nos dois experimentos. O 
primeiro, das flores, mostra simples mudanças de posições, que é um comportamento 
comum no dia a dia. O segundo, dos caminhos, envolveu mudanças de deslocamento, 
que aparecem em crianças no estágio sensório-motor de forma empírica e que vão 
sendo estruturadas por operações dedutivas até as crianças de oito anos de idade. 
A partir desses e outros experimentos, Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968) 
chegaram à conclusão de que, existe um modo de classificação baseado na relação 
entre ações que são funcionais de duas maneiras, ou seja, como as aplicações de 
esquemas de ações e como expressões de dependências, mesmo antes das 
57 
 
classificações operatórias baseadas em inclusões de classes aditivas em extensões 
e em equivalências objetivas de diferentes ordens em intenção. 
Nesse contexto, os autores propuseram inicialmente o estudo das funções 
constitutivas que, para eles são “[...] as dependências inerentes aos esquemas de 
ação em nível pré-operatório”, “[...] elas representam o ponto de origem, seja de 
operações que, neste caso particular, levariam a construção de inclusão de classe de 
equivalência, seja de sistema causal em nível onde a causalidade consiste em 
operação atribuída ao objeto” (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968, p. 16). Assim, 
para compreender tais funções, é necessário especificar a direção das aplicações, 
sobretudo, investigar como o sujeito passa de vínculos funcionais baseados em 
adequações ou dependências concretas (espaciais, causais, finalistas etc.) a classes 
de equivalência baseadas em similaridades objetivas (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, 
BANG, 1968). 
Deste modo, por meio de uma situação em que os elementos a serem 
classificados pudessem ser considerados, cada um por sua vez, como instrumentos 
de uma ação, classificáveis de acordo com os esquemas dessas ações, e como 
objetos com propriedades diferentes, foi possível compreender a passagem das 
funções constitutivas iniciais por dependências concretas, para funções constituídas 
por classes de equivalência objetivas (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968). 
Os autores entendem que a formalização do conceito de categoria pode 
incorporar não apenas a composição de dois pares, mas também o próprio par (𝑎, 𝑏) 
na medida em que inclui as funções (𝑎, 𝑎), (𝑎, 𝑏), (𝑏, 𝑎) e (𝑏, 𝑏). Piaget, Grize, 
Szeminska e Bang (1968, p. 7) afirmam ser possível conceber a ampliação paulatina 
das categorias, conduzindo das funções elementares às categorias mais complexas, 
aqui consideradas como um sistema completo e reversível. 
Outro aspecto que os autores estavam interessados era entender como o 
sujeito passa de uma função constituída de aplicações para a equivalência de classes, 
considerando a equivalência de classes a partir de inclusões hierárquicas. No estágio 
I, os sujeitos compreendem a função não por equivalência, mas “por uso”, ou seja, 
eles relacionam casos particulares; o que seria para os autores uma assimilação do 
esquema da ação (ação esta fonte da função) (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 
1968). 
No estágio II, a equivalência é compreendida pelos sujeitos não mais pela 
58 
 
“ação”, mas pelas propriedades dos objetos, as similaridades entre eles. Essa 
passagem pode ser compreendida como a assimilação dos 𝑥’𝑠 para o esquema da 
função. Para os autores, essas assimilações são repetições, generalizações e 
reconhecimentos. Tais reconhecimentos não são estáveis, assim, eles se tornam ao 
mesmo tempo generalizadores e antecipadores dos conceitos. Nesse estágio o sujeito 
consegue isolar uma característica comum entre os elementos ao invés de 
compreender o todo; deste modo, as divisões que podem ser engendradas pelos 
sujeitos não se dão por inclusões hierárquicas, mas por equivalências de pequenas 
classes por meio da união individual dos elementos (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 
1968). 
O estágio III é momento em que os sujeitos conseguem distinguir as posições 
dos elementos; eles conseguem compreender a correspondência de diversos 𝑥’𝑠 para 
um único 𝑦, permitindo a eles criar partições de 𝑦 que serão aplicações diferentes. A 
passagem das aplicações para a classificação ou o agrupamento de classes acontece 
por meio de diferentes inclusões. Por inclusões os autores consideram a compreensão 
dos sujeitos em operar com mais de uma propriedade, por exemplo, não basta o 
sujeito saber aplicar todos os 𝑥′𝑠 em 𝑦′𝑠 numa correspondência de “muitos para um”, 
é preciso também compreender o processo reverso de correspondência de “um para 
muitos” (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968). 
Assim, a passagem da função constituída para uma operação é um processo o 
qual completa uma aplicação de “uma via” quando lhe é introduzido um sistema 
reverso, o qual constitui-se a fonte para a noção de inclusões. Uma vez que o sujeito 
tenha assimilado as aplicações as passagens seguintes são de aplicações para 
conjuntos-quocientes e de conjuntos-quocientes para o conjunto de subconjuntos. 
Essas passagens implicam na compreensão do todo para as subclasses, ou na 
correspondência de “um para muitos” (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968). 
Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968) observaram a passagem da função 
constitutiva de uma simples aplicação para uma função constituída de 
proporcionalidade. Essa passagem, para os autores é uma assimilação inicial pelo 
sujeito de uma função “um por um”, um tipo de pré-proporcionalidade. 
Outro ponto analisado pelos autores foi a passagem das regularidades para as 
proporcionalidades. Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968) partem do pressuposto 
que, se as funções expressam os caminhos inerentes nos esquemas de ações e que 
59 
 
constitui a origem comum das operações e a da causalidade, então deveriaser 
possível, iniciar de funções de aplicação elementares até ser conceber dois modos 
distintos de composição de funções distintos. 
De um lado compor uma dependência funcional entre objetos e dessa forma 
orientar para um sistema compreensivo de determinações físicas as quais asseguram 
explicações causais. Por outro lado, por meio de coordenação das ações, o sujeito 
pode chegar em composições de operações cuja natureza inerente é precisamente 
expressar as principais coordenações de ações (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 
1968). 
Para Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968), o sujeito alcança as principais 
estruturas operatórias, que são fechadas e reversíveis, por meio de coordenações 
menos gerais cujas composições mantêm-se variáveis e abertas. Essas 
coordenações podem ser expressas em termos de combinadores próprios da lógica 
combinatória, ou seja, combinadores de identidade, repetição, substituição, 
associação, entre outros. 
A partir dessas noções, os autores afirmam que as regularidades advêm das 
coordenações entre esquemas funcionais que podem ser na forma: se 𝑦 = 𝑓(𝑥) e 𝑦′ =
𝑔(𝑥′), onde 𝑔 𝑒 𝑓 são relações com certa regularidade, então existirá relações não 
somente entre 𝑥 𝑒 𝑦 ou 𝑥′𝑒 𝑦′, mas também relações de relações ou composição de 
funções tais como 𝑦′𝑒𝑠𝑡á 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑥′como 𝑦 𝑒𝑠𝑡á 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑥. Essas relações de relações se 
correlacionam, mas ainda não são proporções, desde que não haja uma equivalência 
entre o produto cruzado. Esse processo não proporcional é chamado de pré-
proporcionalidade por Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968). 
Assim, a hipótese dos autores é de que essa noção de pré-proporcionalidade 
resulta das composições asseguradas pelos combinadores lógicas, ou as 
coordenações dos esquemas no sujeito. À medida que essa noção progride para 
estruturas com um tratamento operatório, ou seja, numa forma mais regular, ela atinge 
o estado de proporcionalidade. Para comprovar essa hipótese, os autores realizaram 
três experimentos: 1) o primeiro para analisar as regularidades espontâneas; 2) o 
segundo para analisar como correspondências de uma sequência são inicialmente 
ordinais (𝑛′ = 𝑛 + 1) e passam a ser hiperordinais (𝑛′ = 𝑘𝑛, 𝑜𝑛𝑑𝑒 1em I ou 𝑥, 
mas ele faz a aplicação na direção de uma única ordem e foca no limite final, assim, 
ele usa 𝑦 = 𝑥 + 1, onde deveria utilizar 𝑦 = 𝑥 + 𝑘. Como resultado, ele volta para 
contar os intervalos e não somente a ordem das sucessivas aplicações. O equilíbrio é 
alcançado com a emergência da reversibilidade operatória quando a reconstituição 
das séries retorna ao ponto de partida de modo a contar todos os intervalos tais que 
o caminho que eles podem tomar na contagem é uma aplicação proativa. Portanto, é 
a subordinação da função constitutiva da reversibilidade operatória que a transforma 
em uma função constituída de proporcionalidade. 
No terceiro experimento, cujo objetivo era entender a passagem de 
correspondências seriais para proporcionalidades, foi dado aos sujeitos três peixes de 
tamanhos diferentes, 5, 10 e 15 cm e dito a eles que o peixe de 10 cm comerá duas 
vezes mais que o peixe de 5 cm e que o peixe de 15 cm comerá três vezes mais que 
o peixe de 5 cm. No primeiro teste, as bolinhas (de comida) são representadas por 50 
bolinhas iguais que são disponibilizadas para a criança. A tarefa é escolher o número 
apropriado para cada peixe. No segundo teste, a comida consiste em biscoitos 
representados por tiras de comprimentos variados, o problema é fazer com que as 
quantidades de biscoito correspondam ao tamanho do peixe, ou seja, ao apetite do 
peixe, sendo os objetos desta vez contínuos (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968). 
Às crianças foram realizadas seis perguntas, três referentes às bolinhas e três 
referentes aos biscoitos, sendo o mesmo tipo de questionamento: 1) se há uma 
bolinha em frente ao peixe A (de 5 cm), quantas bolinhas serão necessárias para os 
peixes B (de 10 cm) e C (de 15 cm), 2) se o peixe B recebeu quatro bolinhas, quantas 
bolinhas serão necessárias para os peixes A e C, 3) se o peixe C recebeu nove 
bolinhas, quantas bolinhas serão necessárias para os peixes A e B. 
Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968) identificaram quatro estágios: 1) no 
estágio I, as crianças pensavam apenas em termos de “mais” ou “menos” e aceitavam 
todas as soluções, apenas se era fornecido que o peixe B tinha mais que A e C mais 
que B; 2) no estágio II, os sujeitos montaram uma sequência numérica de números 
inteiros, tal que a diferença 𝛼 = +1; 3) no estágio III, eles admitiram que a diferença 
63 
 
era igual a 𝑘 ± 𝑚 onde 𝑘 > 1; 4) no quarto estágio, dividido em dois subestágios, IV 
A, em que uma das duas relações estava correta (AB ou BC) e IV B, na qual as duas 
relações estavam corretas. Desse último experimento foi possível inferir, segundo os 
autores, que a passagem de uma correspondência simples funcional para 
proporcionalidade é realizada por meio de morfismos10. 
Thomas (1969), em sua tese, realizou uma investigação sobre a aprendizagem 
do conceito de função à sua época. O autor fez um estudo com aproximadamente 200 
estudantes americanos com idades entre 11 e 13 anos. O objetivo da pesquisa era 
identificar os estágios que os estudantes se encontravam em relação ao conceito de 
função. Os estágios foram definidos por meio de entrevistas com professores 
especialistas na área de função. Desse estudo, o autor hipotetizou cinco estágios, 
conforme pode ser visto no Quadro 3. 
 
Quadro 3 – Estágios no desenvolvimento do conceito de função 
Estágio Alcance Descrição Exemplos 
I Atribuições únicas 
A capacidade de determinar 
quando uma atribuição de 
elementos de um conjunto B a 
elementos de um conjunto A 
determina um mapeamento de A 
em B. 
1. Atribuição de objetos físicos a objetos 
físicos—atribuição de uma carteira para 
cada aluno em uma classe. 
2. Atribuição de números a objetos 
físicos ou de objetos físicos a números – 
atribuição de uma classificação na fila do 
refeitório para cada aluno de uma classe. 
3. Atribuição de números a números — 
atribua a cada número inteiro seu duplo 
ou quadrado; atribuir a cada par de 
números inteiros a soma ou o produto 
dos números. 
II 
Vocabulário e 
símbolos 
A capacidade de operar 
eficientemente com o vocabulário 
básico e o simbolismo das 
funções. 
1. O uso de setas para indicar 
atribuições, com o elemento atribuído, ou 
imagem, na ponta da seta. 
2. Computação de imagens de 
elementos no domínio de um 
determinado mapeamento com regras 
dadas simbolicamente com setas ou com 
letras. 
3. Compreensão do símbolo 𝑓: 𝐴 → 𝐵 
como um nome para um mapeamento, 
quando associado a uma determinada 
regra de atribuição. 
a. Identificação de A como domínio do 
mapeamento. 
b. Identificação do intervalo como um 
subconjunto de B. 
c. conhecimento de que 𝑓: 𝑥 → 𝑦 indica 
que 𝑦 é a imagem de 𝑥; conhecimento de 
que 𝑦 também pode ser denotado por 
𝑓(𝑥). 
III 
Diagramas, 
gráficos e 
A capacidade de identificar uma 
função em várias representações 
1. Dada uma tabela de valores, um 
diagrama de seta ou um gráfico linha a 
 
10 Morfismos se referem ao mapeamento de uma estrutura Matemática a outra de forma que a estrutura 
seja preservada, por exemplo, na álgebra, as transformações lineares são morfismos; na teoria dos 
conjuntos são as funções e na topologia são as funções contínuas. 
64 
 
Estágio Alcance Descrição Exemplos 
conjuntos de 
pares ordenados 
e a capacidade de traduzir de 
uma representação de uma 
função para outra. O 
reconhecimento de que uma 
função é completamente dada por 
seu conjunto de pares ordenados. 
linha, para determinar quando tal 
exibição representa uma função. 
2. Dado o gráfico de um conjunto de 
pares ordenados de números reais no 
plano cartesiano para determinar quando 
tal gráfico representa uma função. 
3. Dada uma função em uma das 
representações de (1 ) − (2), para 
encontrar imagens, pré-imagens (são os 
valores de x associados a y, o domínio e 
a imagem da função dada. 
4. Dada a regra para uma função 
determinar os pares ordenados da 
função. 
IV 
Propriedades de 
operações de 
funções 
A capacidade de realizar 
operações em funções como 
adição, multiplicação e 
composição, e a capacidade de 
reconhecer as propriedades que 
essas operações podem possuir. 
- 
V 
Propriedades 
Internas de uma 
função 
A capacidade de determinar as 
propriedades que uma função 
pode possuir em relação aos 
elementos em seu domínio e 
imagem, e em relação à forma de 
uma regra para a função. O 
reconhecimento de classes de 
funções que tais propriedades 
definem – funções lineares e 
quadráticas, funções 
monotônicas, limitadas e 
contínuas, projeções, dilatações, 
translações e reflexões, injeções, 
sobrejeções e bijeções, 
isomorfismos, homomorfismos, 
isometrias e similitudes. 
- 
Fonte: Adaptado de Thomas (1969, p. 44-46) 
 
Dos resultados da pesquisa, Thomas (1969; 1971) concluiu que no estágio I, 
os estudantes estão no estágio concreto-intuitivo, no qual eles são capazes de 
executar processos associados ao conceito e função apenas por meio aritmético ou 
quando as atividades são especificadas detalhadamente. No estágio II, os estudantes 
estão na fase pré-conceitual, na qual eles dominam critérios básicos de função. Eles 
conseguem compreender os aspectos relacionais do conceito de função, identificar 
imagens, pré-imagens, conjuntos de imagens e o domínio como um conjunto de 
elementos que são associados às imagens. 
No estágio III, os estudantes são capazes de identificar diversos tipos de 
representação do conceito de função e diferenciar o que é e não é uma função. Em 
alguns casos até generalizar o conceito de função para algumas representações e 
nomenclaturas. No Estágio IV, os estudantes conseguem dominar todos os conceitos 
anteriores e conseguem estender o conceito de função para todas as representações 
65 
 
e, no Estágio V, realizar todas as operações envolvendo o conceito de função, 
incluindo aqui o conceito de função inversa. 
Um dos primeiros trabalhos encontrados sobre aplicações de experimentos 
com estudantes para compreenderfunção ou conceitos relacionados foi o trabalho de 
Wagner (1981), que utilizou a metodologia de conservação de Piaget para depreender 
qual a compreensão dos estudantes sobre relações, incluindo aqui equações e 
funções. O autor entrevistou 30 estudantes americanos na cidade de Nova York, no 
Bronx, sendo metade do Middle School (nosso Ensino Fundamental – Anos Finais) e 
a outra metade da High School (nosso Ensino Médio). 
Foram aplicadas quatro tarefas, sendo uma de conservação de equação e três 
de conservação de função. Na primeira tarefa, sobre conservação de equação foram 
utilizados dois cartões. No primeiro, o pesquisador perguntou se as duas afirmações 
são as mesmas (Figura 11a). Na sequência, trocando o valor de W por N (Figura 11b), 
o pesquisador realizou a mesma pergunta e, na sequência, perguntou o porquê da 
resposta. 
 
 
Figura 11 – Conservação de Equação – Tipologia 1 
Fonte: Wagner (1981, p. 109) 
 
Na segunda tarefa, o entrevistador mostrou duas tabelas e perguntou o valor 
de C, correspondente ao valor 10 em B (Figura 12a). Na sequência, trocou o valor de 
C por A e realizou a mesma pergunta (Figura 12b). 
 
 
 
 
 
66 
 
 
 
 
 
 
Figura 12 – Conservação de Função - Tipologia 2 
Fonte: Wagner (1981, p. 110) 
 
Na terceira tarefa as perguntas da segunda tarefa foram as mesmas, com o 
acréscimo de um valor na primeira tabela e a ocultação na segunda (Figura 13). 
 
67 
 
 
Figura 13 – Conservação de Função - Tipologia 3 
Fonte: Wagner (1981, p. 111) 
 
E a última tarefa, como nas anteriores, as perguntas foram as mesmas, com a 
diferença na segunda tabela de um deslocamento na variável, conforme Figura 14. 
 
 
Figura 14 – Conservação de Função - Tipologia 4 
Fonte: Wagner (1981, p. 111) 
 
Um dos resultados desse estudo indica que, compreender a noção de 
68 
 
conservação nas equações e nas funções depende da idade, do sexo e dos 
conhecimentos anteriores. Outro resultado mostra a dificuldade dos estudantes em 
conceberem que a mudança do símbolo de uma incógnita ou variável (trocar a letra 𝑥 
por 𝑎 ou 𝑏, por exemplo) não muda o referente, ou melhor, não interfere na 
conservação de uma equação ou de uma função respectivamente, e, que, a ordem 
linear do alfabeto corresponde a ordem linear de um sistema numérico. 
Dreyfus e Eisenberg (1982) realizaram uma pesquisa com estudantes de Israel, 
buscando identificar o papel da intuição na apreensão do conceito de função. Essa 
pesquisa se deu aos constatarem de investigações anteriores que as principais 
dificuldades encontradas por estudantes no final do Middle School (nosso Ensino 
Fundamental – anos Finais) estão relacionadas a três razões principais: 1) o conceito 
de função é complexo, o que significa que ele depende de outros subconceitos 
(conceitos funcionais de acordo com o autor) associados, tais como: domínio, pré-
imagem, variável, extremo e crescimento; 2) o conceito de função está entrelaçado 
com outras áreas da Matemática, como a geometria e a álgebra, o que torna os níveis 
do processo de abstração mais complexos, sendo necessárias estruturas mais 
articuladas que envolvem outros conceitos, como: número de variáveis, tipos de 
domínios e imagens (finito, discreto, contínuo) e tipos de definição (explícita, implícita 
ou recursiva) e; 3) a mesma função pode ser representada por diferentes 
representações: tabelas, diagrama de flechas, gráficos, fórmulas ou descrições 
verbais e escritas. 
Nesse contexto, eles buscaram a compreensão sobre o papel do pensamento 
intuitivo na apropriação dos conceitos funcionais necessários para a conceitualização 
do conceito de função. A pesquisa foi realizada em Israel, com 24 classes de 
estudantes do Junior High School (nosso Ensino Médio), e foram aplicados três 
questionários envolvendo questões sobre imagem, pré-imagem, crescimento, 
extremos e coeficiente angular. As quatro hipóteses adotadas pelos autores foram: 1) 
as intuições sobre conceitos funcionais crescem com o progresso dos alunos ao longo 
das séries; 2) as intuições são independentes do sexo; 3) as intuições dos alunos de 
alto nível são mais frequentemente corretas do que as dos alunos de baixo nível e; 4) 
as intuições são mais frequentemente corretas em situações concretas do que em 
abstratas. Os resultados apontaram que as três primeiras hipóteses estavam certas, 
mas a última, mostrou-se equivocada, o que indica a possibilidade de trabalhar com o 
69 
 
pensamento intuitivo como forma de apreensão do conceito de função em situações 
que também sejam abstratas. 
Bergeron e Herscovics (1982), a partir de resultados de pesquisas anteriores 
de Herscovics (1982) - que envolvia 10.000 crianças com idades entre 11 a 16 anos 
da cidade de Chelsea, na Inglaterra, e Orton (1970) - com 72 estudantes entre 12 e 
17 anos de idade da cidade de Leeds, também na Inglaterra, apresentaram um modelo 
construtivista para entender a edificação da noção de função como um esquema 
conceitual. Esse modelo desenvolvido pelos autores apresenta diferentes níveis de 
compreensão do conceito a partir de um viés epistemológico e estruturalista. 
Epistemológico porque eles entendem que o conceito é apreendido de forma gradual 
ao longo do tempo e, estruturalista porque compreendem o conhecimento como algo 
estruturado. 
A partir dessa caracterização, Bergeron e Herscovics (1982) sugerem um 
modelo para a compreensão do conceito de função. Para os autores há quatro níveis 
essenciais: 1) entendimento intuitivo, 2) matematização inicial, 3) abstração e, 4) 
formalização. O primeiro nível é evidenciado pelo conhecimento informal, uma espécie 
de pré-conceito baseado numa percepção visual e em aproximações do conceito. 
Para os autores, os estudantes do final do Ensino Fundamental devem ter adquirido 
noções de variação, relação e dependência. 
O segundo nível, a matematização inicial, é a posição na qual o estudante 
adquire certos procedimentos a partir do conhecimento intuitivo do nível anterior. A 
matematização inicial necessita de situações nas quais sejam necessárias quantificar 
variações, estabelecer relações por meio de medições ou tabulações de valores 
envolvendo as variáveis. Ainda nesse nível, é essencial a apresentação das diferentes 
representações, como a gráfica, a algébrica. Na abstração, nível três, o estudante 
mostra evidências de generalização ou a conservação de objetos matemáticos por 
meio da reversibilidade de transformações. Nesse momento, é necessário distinguir a 
noção de relação de função, compreender as noções de dependência e 
independência, domínio e imagem. 
Por último, a formalização, quarto momento, acontece quando há uso de 
simbolismos matemáticos ou justificativas lógicas para as operações ou pela 
descoberta de axiomas e teoremas que conceitualizem os conceitos. Nesse nível, há 
a necessidade de compreensão de que o conceito de uma função engloba regras para 
70 
 
determinação de uma equação (fórmula), domínio e imagem de números reais, 
correspondência entre variáveis por meio de tabelas, pares ordenados e diagramas 
de flecha. Esse modelo, além de cognitivo, também pode ser encarado como didático, 
uma vez que descreve o caminho pelo qual o professor pode introduzir as primeiras 
noções de funções até chegar ao conceito propriamente dito de função. 
Dreyfus e Vinner (1982) realizaram um experimento com 271 estudantes de 
Israel, do primeiro e segundo anos do College (nossa Faculdade) que estudavam 
Matemática, Física, Química, Biologia, Economia, Agricultura, Educação Tecnológica 
e Design Industrial e, 36 professores de um Junior High School (nosso Ensino Médio). 
Das respostas à pergunta o que é uma função? emergiu a seguinte classificação: I. A 
função é qualquer correspondência entre dois conjuntos que atribui a cada elemento 
do primeiro conjunto exatamente um elemento do segundo conjunto (a definição de 
Dirichlet- Bourbaki). II. A função é uma relaçãomeus alunos, ex-alunos, orientados e orientados que tiveram 
paciência e souberam lidar com minha ausência e às vezes falta de paciência por 
conta dos afazeres do doutorado. 
Agradeço aos meus colegas de trabalho da Coordenação da Matemática 
(COMAT) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e também aos 
servidores envolvidos, que fizeram o possível para que eu pudesse sair para fazer o 
Doutorado Sanduíche, em especial ao professor Ivan, coordenador à época e a 
professora Barbara, diretora de pesquisa e pós-graduação, a quem devo muito, pois 
sempre foram muito ágeis e prestativos com a parte burocrática. 
Agradeço também aos servidores e professores da Universidade Estadual do 
Oeste do Paraná que me ajudaram durante todo o percurso. Em especial aos 
servidores Ailton, inicialmente, e Aroni, mais ao final, por estarem sempre atentos aos 
meus pedidos e lidarem com a parte burocrática. Obrigado. 
Agradeço à UTFPR por ter possibilitado que eu me afastasse por um ano para 
realizar meu estágio doutoral sanduíche nos Estados Unidos. 
Agradeço à RUTGERS University – Newark, New Jersey, pela oportunidade de 
ter estudado e vivenciado meu doutorado sanduíche. Agradeço especialmente a 
Kandi Berryman, ex-secretária do Departamento de Educação Urbana e a Maya 
Sarno, orientadora de serviços internacionais, por me recepcionarem tão bem e me 
ajudarem com a parte burocrática da universidade. 
Por fim, agradeço à CAPES pela bolsa concedida para que eu pudesse ir ao 
Estados Unidos realizar meu doutorado sanduíche. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Função é a alma da Matemática” 
Félix Klein 
 
MERLI, R. F. Do Pensamento Funcional ao Campo Conceitual de Função: o 
desenvolvimento de um conceito. 2022. 216f. Tese (Doutorado em Educação em 
Ciências e Educação Matemática) - Programa de Pós-Graduação em Educação em 
Ciências e Educação Matemática, Universidade Estadual do Oeste do Paraná – 
UNIOESTE, Cascavel, 2022. 
 
RESUMO 
 
 
O conceito de função é essencial na Matemática, pois ela é parte constituinte de um 
grande número de operações matemáticas. Por esta razão constitui parte integrante 
dos currículos de Matemática de praticamente todos os países do mundo. Entretanto, 
pesquisas têm mostrado que os estudantes não têm se apropriado adequadamente 
deste conceito. Vários são os motivos apontados, tais como: abordagem de ensino 
pautada em representações abstratas e uma falta de clareza sobre quais são os 
conceitos anteriores que os estudantes precisam saber para conceitualizar o conceito 
de função. O aspecto prático deixado de lado aliado à falta de uma estruturação das 
situações necessárias para o ensino de função, têm levado o Grupo de Estudos e 
Pesquisa em Didática da Matemática (GePeDiMa) a estabelecer o possível Campo 
Conceitual de Funções e Função Afim. Nesse cenário, esta tese objetivou verificar a 
existência do Campo Conceitual de Função Afim e, consequentemente de Funções; 
para além dos Campos das Estruturas Aditivas e Multiplicativas, já estabelecidos por 
Vergnaud. Para comprovar esta existência, foram mapeados os conceitos 
organizadores, as ideias-base, as representações e situações que compõem este 
Campo Conceitual. Para tal, foi realizada uma investigação bibliográfica, orientada 
pela Teoria dos Campos Conceituais a respeito de funções, considerando-se três 
perspectivas: histórica, cognitiva e didática. A investigação foi qualitativa, com 
encaminhamentos metodológicos assegurados nos pressupostos de uma pesquisa do 
tipo Estado da Arte e análises baseadas na Teoria dos Campos Conceituais. Da 
perspectiva histórica, foram identificados nove estágios na evolução de pensamento 
funcional até o conceito de função. A perspectiva cognitiva forneceu suporte para 
identificar que as estruturas cognitivas necessárias para que o sujeito possa conceber 
o conceito de função iniciam com noções de relações entre grandezas e se firmam 
nas regularidades formalizadas. Da perspectiva didática, detectou-se o enfoque 
algebrista no ensino de função e as dificuldades encontradas pelos alunos no que se 
refere às diferentes representações. A partir desses resultados e associados ao 
quarteto (situação, conceito organizador, ideia-base, representação) foi confirmada a 
existência do Campo Conceitual de Funções, bem como identificou-se suas ideias-
base, a saber: dependência, generalização, regularidade e variável. 
 
Palavras-chave: História da Matemática; Ideias-base; Conceitos organizadores; 
Teoria dos Campos Conceituais. 
MERLI, R. F. From Functional Thinking to the Conceptual Field of Function: the 
development of a concept. 2022. 216f. Thesis (Doctorate in Science Education and 
Mathematics Education) – Program of Graduation in Science Education and 
Mathematics Education, Western State University of Paraná – UNIOESTE, Cascavel, 
2022. 
 
ABSTRACT 
 
 
The concept of function is essential in Mathematics, as it is a constituent part of a large 
number of mathematical operations. For this reason, it forms an integral part of the 
Mathematics curricula of virtually all countries in the world. However, research has 
shown that students have not correctly appropriated this concept. Several reasons are 
given, such as: teaching approach based on abstract representations and a lack of 
clarity about what are the previous concepts that students need to know to 
conceptualize the concept of function. The practical aspect left aside, together with the 
lack of structuring of the situations necessary for the teaching of function, have led the 
Group of Studies and Research in Didactics of Mathematics (GePeDiMa) to establish 
the possible Conceptual Field of Functions and Affine Function. In this scenario, this 
thesis aimed to verify the existence of the Conceptual Field of Affine Function and, 
consequently, of Functions; beyond the Fields of Additive and Multiplicative Structures, 
already established by Vergnaud. To prove this existence, the organizing concepts, 
the basic ideas, the representations, and situations that make up this Conceptual Field 
were mapped. To this end, a bibliographic investigation was carried out, guided by the 
Theory of Conceptual Fields regarding functions, considering three perspectives: 
historical, cognitive, and didactic. The investigation was qualitative, with 
methodological referrals assured in the assumptions of a State-of-the-Art research and 
analyzes based on the Theory of Conceptual Fields. From a historical perspective, 
nine stages in the evolution from the functional thinking to the concept of function have 
been identified. The cognitive perspective provided support to identify that the cognitive 
structures necessary for the subject to be able to conceive the concept of function start 
with notions of relations between magnitudes and are established in formalized 
regularities. Finally, from the didactic perspective, the algebraic focus on function 
teaching and the difficulties encountered by students with regard to different 
representations were detected. From these results and associated with the quartet 
(situation, organizing concept, basic idea, representation) the existence of the 
Conceptual Field of Functions was confirmed, as well as its basic ideas were identified, 
namely: dependence, generalization, regularity, and variable. 
 
Keywords: History of mathematics; Ideas-base; Organized Concepts; Theory of 
Conceptual Fields. 
LISTA DE QUADROS 
 
 
Quadro 1 – Noção de Função dos séculos X a meados do XIX .......................................... 40 
Quadro 2 – Conceito de Função a partir da segunda metade do século XIX ...................... 46 
Quadro 3 – Estágios no desenvolvimento do conceito de função ....................................... 63 
Quadro 4 – Componentes e estágios do conceito de função .............................................. 72 
Quadro 5 – Seis categorias da definição de uma função ....................................................de dependência entre duas variáveis 
(𝑦 depende de 𝑥). III. A função é uma regra de correspondência (esta concepção 
elimina a possibilidade de correspondências arbitrárias). IV. A função é uma 
manipulação ou uma operação (atua-se sobre um determinado número, geralmente 
por meio de operações algébricas, para obter sua imagem). V. A função é uma 
fórmula, um termo algébrico ou uma equação. VI. A função é identificada, 
provavelmente sem sentido, com suas representações visuais ou simbólicas (o 
gráfico, os símbolos “𝑦 = 𝑓(𝑥)”, etc.) (DREYFUS, VINNER, 1982, p. 14). Os autores 
chamam a atenção que o conceito imagem (explicado com mais detalhes no parágrafo 
seguinte) foi fator essencial para as respostas dos estudantes, pois era a partir do 
conceito imagem que eles aceitavam ou rejeitavam os conceitos. 
Tall e Vinner (1981) desenvolveram uma teoria sobre conceito definição e 
conceito imagem. Em linhas gerais, um conceito definição é uma definição 
verbal/escrita e acurada para explicar um conceito; o conceito imagem é a imagem 
mental que o sujeito possui de um determinado conceito. Por exemplo, as palavras 
“casa” e “laranja” são palavras que não possuem definição (portanto não possuem um 
conceito definição), mas possuem um conceito imagem. Para Vinner (1983), o sujeito 
adquire esse conceito imagem por meio de definições ostensivas. Assim, o termo 
“floresta”, seria aprendido dizendo que “muitas e muitas árvores formam uma floresta” 
e, ao visualizar muitas árvores juntas, o sujeito formaria o conceito imagem do 
conceito de “floresta”. 
71 
 
Vinner (1983) realizou um experimento sobre funções com 65 estudantes do 
10o grade (nosso primeiro ano do Ensino Médio) e 81 estudantes do 11o grade (nosso 
segundo ano do Ensino Médio) de Jerusalém, em Israel. Aos estudantes foi realizada 
a pergunta o que é função? E para a análise das respostas, o autor realizou duas 
perguntas de suporte: 1) até que ponto as definições conceituais dos alunos se 
adequam à definição do livro didático? 2) até que ponto o conceito definição e conceito 
imagem dos alunos se encaixam com o conceito definição e a definição do livro 
didático? 
Assim, a partir do conceito definição e conceito imagem e, da análise das 
respostas à pergunta o que é função?, o autor definiu quatro categorias: Categoria I: 
A definição do livro didático às vezes está misturada com elementos da célula do 
conceito imagem (para Vinner e Hershkowitz (1980), os sujeitos possuem duas células 
não biológicas na estrutura cognitiva, uma para o conceito definição e outra para o 
conceito imagem); Categoria II: A função é uma regra de correspondência; Categoria 
III: A função é um termo algébrico, uma fórmula, uma equação, uma manipulação 
aritmética etc.; Categoria IV: Alguns elementos da imagem mental são tomados como 
uma definição de conceitos. 
Uma das conclusões do autor, após a análise das respostas é que uma 
definição e alguns exemplos não são suficientes para formar o conceito imagem; os 
conceito imagem dos estudantes vinham da definição de Dirichlet-Bourbaki, sugerindo 
que as grandes dificuldades dos estudantes são dadas por esse tipo de abordagem; 
nesse caso, é necessário estar sempre apresentando diferentes conceito imagem. 
Ricco (1982) realizou um estudo com 40 estudantes distribuídos em quatro 
diferentes turmas, sendo 10 do Cours Élémentaire - CE 1 (nosso segundo ano do 
Ensino Fundamental), 10 do Cours Élémentaire - CE 2 (nosso terceiro ano do Ensino 
Fundamental), 10 do Cours Préparatoire - CM 1 (nosso quarto ano do Ensino 
Fundamental) e 10 do Cours Préparatoire - CM2 (nosso quinto ano do Ensino 
Fundamental) de diversas escolas de Paris, na França, para investigar a hierarquia 
das estratégias utilizadas pelas crianças na resolução de problemas de multiplicação 
e divisão, à medida que adquirem o conceito de função linear. A investigação baseou-
se na análise das diferentes classes de problemas, das tarefas específicas dadas à 
criança e das estratégias que de fato elas utilizaram nas suas soluções. Os resultados 
obtidos desta análise mostraram que os diferentes procedimentos utilizados pelos 
72 
 
alunos podem ser hierarquizados por níveis definidos de acordo com as propriedades, 
as relações e os operadores que a noção de função linear implementa. 
Essa hierarquia, que atesta as dificuldades que a criança encontra na 
estruturação da noção de função, pode ser caracterizada em um sentido muito geral. 
Por exemplo, uma criança, no interior dos procedimentos do xadrez utiliza certas 
propriedades e relações; faz isso de forma limitada, daí o fracasso. A criança então 
evolui (por e após esta falha) para a construção de um procedimento algorítmico 
completo para o problema a ser tratado. Em outras palavras, o esquema de sucesso 
da criança para resolução de um problema é formado, também, de procedimentos 
anteriores que falharam (RICCO, 1982). 
Outro aspecto identificado é que as modificações que os professores 
introduzem na apresentação dos dados podem adiantar ou atrasar o sucesso. Alguns 
procedimentos de sucesso na resolução da situação-problema, que são praticáveis 
ao lidar com números pequenos, têm validade apenas local, porque tais 
procedimentos permanecem impraticáveis ao lidar com números grandes (RICCO, 
1982). 
Markovits, Eylon e Bruckheimer (1986) realizaram um estudo com 400 
estudantes do equivalente ao nosso nono ano, com idade entre 14 e 15 anos. Eles 
admitiram que, para um estudante compreender o conceito de função, ele necessita 
dominar dois estágios: o passivo – que envolve classificar, identificar etc., e o ativo - 
que envolve “fazer alguma coisa”, dar exemplos etc. Assim, segundo eles, os 
professores deveriam ser capazes de reconhecer nos estudantes as seguintes 
componentes para cada estágio a. passivo e b. ativo (Quadro 4). 
 
Quadro 4 – Componentes e estágios do conceito de função 
Componentes 
Estágios 
Passivo Ativo 
I 
A capacidade de classificar as relações em 
funções e não funções. 
A capacidade de dar exemplos de relações 
que são funções e de relações que não são. 
II 
Para uma determinada função, a 
capacidade de identificar pré-imagens, 
imagens e pares (pré-imagem, imagem). 
A capacidade de encontrar a imagem de uma 
determinada pré-imagem e vice-versa. 
III 
A capacidade de identificar funções 
idênticas. 
A capacidade de transferir de uma 
representação para outra. 
IV 
A capacidade de identificar funções que 
satisfaçam algumas restrições dadas. 
A capacidade de dar exemplos de funções 
que satisfaçam algumas restrições dadas 
Fonte: Adaptado de Markovits, Eylon e Bruckheimer (1986) 
 
73 
 
A partir desse estudo, os autores chegaram a algumas conclusões: 1) 
independente da natureza da questão, os estudantes tiveram dificuldades com a 
função constante, a função definida por partes e a função discreta; 2) os estudantes 
não se preocuparam com o domínio e a imagem se a questão não dá atenção a isso; 
3) o conceito de imagem e pré-imagem não foram compreendidos nas formas 
algébrica e gráfica; 4) o repertório de exemplos de funções dos estudantes é limitada; 
5) a passagem da representação gráfica para a algébrica foi mais difícil que o 
contrário; 6) a complexidade do uso de manipulações técnicas (algébricas, por 
exemplo), atrapalharam na compreensão dos problemas; 7) utilização excessiva de 
funções lineares quando era pedido algum exemplo de função; 8) as maiores 
dificuldades foram encontradas nas funções definidas por partes (MARKOVITS, EYLON, 
BRUCKHEIMER, 1986). 
De um modo geral, os autores consideram que essas dificuldades são 
principalmente decorrência dos atuais currículos de ensino de Matemática, ou seja, 
aqueles em que o foco no ensino de função é dado por meio da teoria de conjuntos 
ou dos pares ordenados. Diante disso, os autores sugerem trabalhar os conceitos de 
função a partir de uma perspectiva histórica, a qual inicie com a noção defunção como 
correspondência entre magnitudes variáveis (MARKOVITS, EYLON, BRUCKHEIMER, 
1986). 
Schoenfeld e Arcavi (1988), em um estudo realizado com diversos grupos, 
entre eles, matemáticos, educadores matemáticos, cientistas da computação, 
linguistas e logicistas, verificaram que “[...] o significado de variável é variável; usar o 
termo de forma diferente em contextos diferentes pode dificultar a compreensão dos 
estudantes. Como professores, devemos ser sensíveis a esse uso múltiplo” 
(SCHOENFELD, ARCAVI, 1988, p. 425). 
Sierpinska (1988), a partir de uma pesquisa11 cognitivista e piagetiana com 
estudantes entre 15 e 17 anos de idade sobre o conceito de função, dividiu a 
concepção dos estudantes em duas categorias: concreta e abstrata (Figura 15). 
 
 
11 Essa pesquisa é descrita de forma mais completa em Sierpinska (1989). 
74 
 
 
Figura 15 – Concepções de estudantes do conceito de função 
Fonte: da pesquisa 
 
Na categoria concreta, a autora distinguiu três concepções: a) mecânica: uma 
função é um deslocamento de pontos (nas versões não verbalizadas esta concepção 
corresponde ao estágio histórico I (Figura 4); b) geométricas sintéticas: uma função é 
uma curva “concreta”, ou seja, um objeto geométrico, idealização de uma linha no 
papel ou uma trajetória de um ponto em movimento; c) algébrica: uma função é uma 
fórmula com “x” e “y” e um sinal de igualdade; é uma sequência de símbolos, letras e 
números (SIERPINSKA, 1988). 
Na categoria abstrata, a autora diferenciou quatro concepções: 1) numérica: 
uma função é uma transformação de algumas coisas em outras coisas; essas coisas 
novas ou sua posição podem ser descritas por números (os valores da função); uma 
função é dada por uma sequência de seus valores. Essa concepção se assemelha à 
concepção histórica II (Figura 4), mas pode ser vaga ou implícita na mente do 
estudante; em particular, a necessidade de nomear a sequência paralela de 
argumentos pode não ser captada; 2) algébrica: uma função é uma equação ou uma 
expressão algébrica contendo variáveis; colocando números no lugar de variáveis, 
obtém-se outros números; a ideia de que a equação descreve uma relação entre 
variáveis está ausente aqui. A concepção é uma forma degenerada da concepção 
histórica IV (estágio IV sem estágio I); 3) geométrica analítica: uma função é uma 
curva “abstrata” em um sistema de coordenadas, ou seja, a curva é uma 
representação de alguma relação; esta relação pode ser dada por uma equação e as 
curvas são classificadas de acordo com o tipo desta relação (primeiro grau, algébrica, 
transcendental, ...), não é a relação que se chama função: é a própria curva. Esta 
concepção é uma forma degenerada da concepção histórica V; 4) física: uma função 
Concreta
mecânica
geométrica 
sintética
algébrica
Abstrata
numérica
algébrica
geométrica 
analítica
física
75 
 
é um tipo de relação entre grandezas variáveis; algumas variáveis são distinguidas 
como independentes, outras são consideradas dependentes destas; tais 
relacionamentos podem às vezes ser representados por gráficos. Isso é perto da 
concepção histórica VI (SIERPINSKA, 1988). 
Dos resultados dessa pesquisa, Sierpinska (1988, p. 572), chegou à conclusão 
que “[…] a concepção mais fundamental de função é a de uma relação entre 
grandezas variáveis”. Segundo ela, se essa concepção fundamental não for 
desenvolvida, outras representações como as de equações e gráficos perdem seu 
significado e ficam isoladas umas das outras, ou seja, acontece um desvio da linha 
epistemogenética do conceito de função. 
Outro aspecto encontrado na pesquisa foi que, a introdução de funções num 
contexto com pontos atrativos fixos12 e, o “[…] uso intenso de representações gráficas 
não ajuda a desenvolver [...] a concepção fundamental de função” (SIERPINSKA, 1988, 
p. 573). Para a autora, esse tipo de introdução é demasiadamente geométrico-
algébrica; portanto, a introdução em um contexto de grandezas físicas seria 
epistemologicamente e cognitivamente mais adequado. 
Em outro trabalho, Vinner e Dreyfus (1989) realizaram uma pesquisa com 271 
estudantes do Ensino Superior e 36 professores do Ensino Médio. A partir das 
respostas dos sujeitos, os autores tipificaram a definição de função em seis categorias, 
conforme Quadro 5. 
 
Quadro 5 – Seis categorias da definição de uma função 
Categoria Definição 
Correspondência 
Uma função é qualquer correspondência entre dois conjuntos que atribui a cada 
elemento do primeiro conjunto exatamente um elemento do segundo conjunto (a 
definição de Dirichlet-Bourbaki) 
Relação de 
Dependência 
Uma função é uma relação de dependência entre duas variáveis (y depende de x). 
Regra 
Uma função é uma regra. Espera-se que uma regra tenha alguma regularidade, 
enquanto uma correspondência pode ser “arbitrária”. O domínio e o contradomínio 
geralmente não são mencionados aqui. 
Operação 
Uma função é uma operação ou manipulação (uma ação sobre um número, 
geralmente por meio de operações algébricas, para se obter uma imagem) 
Fórmula Uma função é uma fórmula, uma expressão algébrica ou uma equação. 
Representação 
A função é identificada, de um modo sem significado, com uma representação gráfica 
ou simbólica. 
Fonte: Adaptado de Vinner e Dreyfus (1989) 
 
12 Pontos atrativos fixos de uma função são pontos fixos (x0, por exemplo) de modo que qualquer 
valor de 𝑥 no domínio da função é perto o suficiente do ponto fixo em questão (x0). 
76 
 
 
Schwarz, Dreyfus e Bruckheimer (1990) investigaram a resolução de diversos 
problemas envolvendo o conceito de função em um grupo de 35 estudantes do nono 
ano do Ensino Fundamental. A análise se deu com base no Modelo triplo de 
Representação (TRM), no qual é necessário realizar a mudança de uma 
representação funcional para outra (gráfica, tabular e algébrica – daí o triplo), a 
transferência entre representações é automática, o trabalho com qualquer 
representação é operacional e o ambiente computacional é focado na resolução de 
problemas de funções. 
O Modelo Triplo de Representação (TRM) é um micromundo, derivado das 
ideias de Papert (1980), que criou o LOGO, um ambiente educacional que utiliza o 
computador para explorar a Matemática. O LOGO pode ser considerado um 
micromundo matemático, ou seja, um sistema composto de objetos, relacionamentos 
entre objetos e operações que transformam objetos e relacionamentos. Nesse 
ambiente, os alunos exploram sua compreensão do assunto à medida que os 
cientistas testam suas conjecturas sobre a maneira como o mundo funciona. 
As principais características o micromundo TRM são: facilidade de 
transferência de uma representação funcional para outra (as três representações 
implementadas no TRM são a algébrica, a gráfica e a tabular), transferência entre 
representações é totalmente automática. No entanto, o aluno tem que organizar e 
relacionar os resultados obtidos em uma representação para usá-los em outra, o 
trabalho dentro de qualquer representação é operacional; ou seja, está organizado em 
operações que o aluno deve realizar e o ambiente do computador é o núcleo de todo 
um currículo de funções, baseado na resolução de problemas (SCHWARZ, DREYFUS, 
BRUCKHEIMER, 1990). 
Das respostas, os autores concluíram que utilizar o TRM permite que os 
estudantes alcancem níveis cognitivos mais altos no pensamento funcional, uma vez 
que esse modelo permite que os estudantes sejam expostos a situações-problema e 
à necessidade de realizar articulações entre diferentes representações (SCHWARZ, 
DREYFUS, BRUCKHEIMER, 1990). 
Sfard (1991), a partir de um referencial epistemológico e ontológico, e de 
trabalhos experimentais (SFARD, 1987; 1989), escreveu um texto teórico sobre a 
concepção do conceito de função. Para a autora, o conceito de função pode ser 
77 
 
concebido de duas formas: estruturalmente - como um objeto e, operacionalmente - 
como um processo. Para a autora,o processo de aprendizagem e resolução de 
problemas consiste numa intrincada relação entre as concepções operacionais e 
estruturais do mesmo conceito. Nessa perspectiva, segundo Sfard (1991), a maioria 
das pessoas adquirem novos conceitos a partir da concepção operacional. A 
passagem da concepção operacional para a concepção estrutural (abstrata) passa 
por três etapas: interiorização, condensação e reificação. 
No estágio de interiorização, o sujeito se familiariza com os processos que 
darão origem a um novo conceito (por exemplo, manipulações algébricas que se 
transformam em funções). Um processo foi interiorizado se pode ser realizado por 
meio de representações mentais (esquemas). A fase de condensação é o período de 
sistematizar as operações complicadas em algoritmos simples. Nesse estágio, a 
pessoa é cada vez mais capaz de pensar em um determinado processo como um 
todo, ela é de combinar o processo com outros processos, fazer comparações e 
generalizar. O progresso da condensação pode ser visto na facilidade de alternar 
entre diferentes representações de um conceito (SFARD, 1991). 
Uma vez que o sujeito é capaz de conceber o conceito em seu pleno direito, a 
reificação foi realizada. Nesta fase, o conceito não permanece mais conectado a um 
determinado processo. Sfard (1991) considera que, na reificação, há uma mudança 
ontológica - uma habilidade repentina de ver algo familiar sob uma luz totalmente nova 
(o famoso ah, entendi!). A autora afirma que “[...] enquanto a interiorização e a 
condensação são mudanças graduais, quantitativas e não qualitativas, a reificação é 
um salto quântico instantâneo: um processo (que) se solidifica em objeto, em uma 
estrutura estática” (SFARD, 1991, p. 19). 
Artigue (1992), em uma pesquisa envolvendo 100 estudantes de cada ano, dos 
cursos de Matemática e física, buscava estudar a natureza das dificuldades dos 
estudantes em relacionar as representações algébrica e gráfica de uma função. Da 
pesquisa, ela identificou que, uma abordagem qualitativa para soluções de equações 
diferenciais mostra-se mais profícua na aprendizagem dos estudantes e que 
coexistem dificuldades cognitivas e didáticas. Além disso, os registros dos estudantes 
na resolução dos problemas estavam necessariamente ligados às intervenções do 
professor, ou seja, se o professor sugeria um gráfico ou algo similar, o estudante 
focava em representar a solução do problema por aquela representação. 
78 
 
Noguès (1992/1993) em uma pesquisa envolvendo 46 estudantes do Ensino 
Médio e do Ensino Superior sobre a resposta à pergunta “o que a palavra função 
evoca em você?”. Dos resultados da pesquisa, a autora identificou que, em geral, os 
estudantes compreendem uma função como uma correspondência arbitrária entre 
elementos de conjuntos de qualquer tipo. No caso de estudantes universitários, a 
pesquisadora identificou que as situações propostas na universidade não permitiam 
que os alunos formulassem o conceito de função de forma adequada. Ela verificou 
que eles estudavam apenas exemplos particulares de funções afins e lineares, que 
mascaravam a generalidade do conceito. Já no Ensino Médio, a manipulação das 
ferramentas de funções afins e lineares por meio de um conjunto de situações, mesmo 
envolvendo vários modos de representação, não foi suficiente para trazer à tona a 
amplitude do conceito de função. 
Oliveira (1997) elaborou e aplicou uma sequência didática (ARTIGUE, 1988) para 
alunos do primeiro ano do curso de Engenharia sobre o conceito de função. Para isso, 
tomou como necessário colocar o aluno numa situação a-didática (BROUSSEAU, 2002), 
na qual ele compreendesse as noções de correspondência, dependência e variação, 
utilizasse o “jogo de quadros” (DOUADY, 1984) e as mudanças de registro de 
representação, para a compreensão do que é uma função. 
Das análises da pesquisa a autora identificou que os alunos, em geral, 
confundem atributos do conceito com os exemplos de função, incluem a noção de 
continuidade a este conceito, definem função como uma equação, não compreendem 
funções dadas por mais de uma expressão algébrica, fazem confusão entre função 
constante e contínua, entendem que a existência de uma expressão algébrica ou 
gráfico é suficiente para afirmar que estes representam uma função (OLIVEIRA, 1997). 
Hitt-Espinosa, Fernando (1998) em seu trabalho buscou compreender as 
dificuldades do estudantes na solução de problemas que envolviam o conceito de 
função e suas diferentes representações. O autor elaborou 14 questionários que foram 
respondidos por 30 professores de Matemática de uma escola secundária (nosso 
Ensino Médio) no México. Para análise, o autor utilizou a teoria dos registros de 
representação semiótica (DUVAL, 2009; 2011; DUVAL, CAMPOS, BARROS, DIAS, 2014) 
para compreender as mudanças nas representações ao longo das resoluções dos 
estudantes. Os resultados mostram que de acordo com a tarefa, os professores têm 
dificuldades de natureza diferente dos seus alunos. Por exemplo, os professores 
79 
 
podiam identificar sem problemas as representações gráficas de algumas funções 
como o valor absoluto, as polinomiais, as funções trigonométricas, mas uma parte 
deles tinha dificuldades para encontrar as curvas que representavam as funções de 
cônicas. 
Rêgo (2000) tinha como objetivo levar os alunos à construção do conceito de 
função como covariação, através de uma proposta construtivista. A autora elaborou, 
aplicou e avaliou dois conjuntos de atividades relacionados a funções polinomiais do 
1° grau e funções polinomiais do 2° grau para duas turmas (uma de parâmetro com 
34 estudantes e a outra de intervenção com 38 estudantes) do primeiro ano do Ensino 
Médio na cidade de João Pessoa, na Paraíba. Os dados foram analisados segundo 
critérios estabelecidos pela teoria de Decomposição Genética de Dubinsky 
(1991)(Figura 16). Os resultados apontaram para uma diferença qualitativa 
significativa em prol dos alunos que vivenciaram a intervenção. 
A teoria de Dubinsky (1991) é baseada no conceito de abstração reflexiva de 
Beth e Piaget (1966), conceito que descreve a construção das estruturas lógico-
Matemáticas a partir de um desenvolvimento cognitivo gradual. Dubinsky (1991) 
afirma que os estudos de Piaget e colaboradores se concentraram em crianças e, 
raramente em adolescentes, sem se estender para adultos e tópicos mais avançados. 
Nesse contexto, Dubinsky (1991, p. 96) assume que os estudos de Piaget com 
crianças a respeito de aritmética, proporção e medição, podem ser estendidos para 
conceitos como “[...] indução Matemática, cálculo proposicional e predicativo, funções 
como processos e objetos, independência linear, espaços topológicos, dualidade de 
espaços vetoriais e dualidade de espaços vetoriais topológicos”. Para o autor, sua 
teoria busca ser uma teoria geral do conhecimento matemático e de sua aquisição, 
mas para isso é necessário conhecer Matemática e realizar esforços de observação 
dos estudantes buscando compreender como os conceitos matemáticos são 
elaborados por eles. 
Beth e Piaget (1966) definem três tipos de abstração: 1) abstração empírica, 2) 
abstração pseudo-empírica e 3) abstração reflexionante. A primeira consiste em 
derivar as características comuns de uma classe de objetos, por abstração e simples 
generalização, enquanto a terceira, consiste em derivar de um sistema de ações ou 
operações de baixo nível, determinadas características, cuja reflexão sobre as ações 
ou operações de um nível mais alto são garantidas. 
80 
 
Dubinsky (1991) resgata os processos necessários na abstração reflexiva, 
identificados por Piaget, para a compreensão do pensamento lógico-Matemática em 
crianças: comutatividade da adição, número, trajetória, ver-visto, multiplicação, níveis 
de fluídos. Desses processos, Dubinsky (1991) afirma que são necessários quatro 
deles para a compressão do pensamento matemático avançado:1) comutatividade 
da adição (interiorização), 2) trajetória e ver-visto (composição ou coordenação), 3) 
multiplicação, proporção e variação (encapsulamento), 4) generalização e, 5) 
reversibilidade (Figura 16). 
 
 
Figura 16 – Decomposição Genética de Dubinsky 
Fonte: Dubinsky (1991, p. 107) 
 
Para Dubinsky (1991, p. 102), “[...] abstração reflexionante será a construção 
de objetos mentais e de ações mentais sobre esses objetos”. De modo a exemplificar 
sua teoria, o autor utiliza o conceito de função. 
A função pode ser entendida, em partes, por um processo. O sujeito responde 
a situações as quais a função aparece (fórmula, algoritmo, tabelas etc.); essa ação é 
um processo, o qual, para cada situação o sujeito constrói um esquema mental. Esse 
processo é um exemplo de interiorização de objetos para processos (DUBINSKY, 1991). 
A coordenação ocorre, por exemplo, na combinação de duas funções. Uma 
composição é uma operação binária na qual dois objetos são transformados em um, 
assim, ao operar sobre cada função, o sujeito reflete sobre os processos e os 
interioriza. Os dois processos são coordenados para formar um novo processo, 
resultado da composição (DUBINSKY, 1991). 
No caso do encapsulamento, um exemplo seria a interiorização e posterior 
encapsulamento do conceito de integral indefinido, ou seja, o processo de estimar a 
área sob uma curva por meio de somas passa para o conceito de limite, que deságua 
81 
 
na integral. A generalização é o exemplo mais simples da abstração relflexionante, 
uma vez que entendemos a generalização como um esquema essencialmente 
estável, que cria objetos. Por último, a reversibilidade pode ser dada em diversos 
processos: função inversa, multiplicação e divisão, adição e subtração, entre outros 
(DUBINSKY, 1991). 
Pérez e Deulofeu (2000, p. 81), em um estudo sobre a ideia de dependência 
funcional entre variáveis com 60 alunos da Universidade de Barcelona, na Espanha, 
constataram que para construir o conceito de relação de dependência funcional, é 
necessário ter assimilado os modelos de função mais simples: dependência linear 
(proporcionalidade direta e Função Afim), proporcionalidade inversa e função 
quadrática. Os resultados encontrados pelos autores sugeriram uma sequência 
cognitiva gradual na dificuldade com que as funções foram apresentadas pelos 
estudantes. Portanto, para eles, essa dificuldade gradual permite pensar em uma 
sequência didática que elimine ou diminua tais obstáculos. Por exemplo, introduzir 
função linear e afim, na sequência, função de proporcionalidade inversa e, 
posteriormente função quadrática. 
Amra (2004) realizou um estudo aprofundado sobre a transposição didática do 
conceito de função. Ela utilizou um quadro conceitual abrangente para realizar a 
análise dos sistemas de ensino francês e israelita, no caso de estudantes que estavam 
nas séries correspondentes ao nosso Ensino Médio. Das teorias utilizadas, foram 
citadas: transposição didática (CHEVALLARD, 1985; CONNE, 1996), abordagem 
antropológica (CHEVALLARD, 1998), problemática ecológica (ASSUDE, 1999), a 
semiótica (DUVAL, 2009; 2011; DUVAL, CAMPOS, BARROS, DIAS, 2014) e a noção de 
quadros (DOUADY, 1984; 1986). 
A pesquisadora conclui que, no ensino relativo ao conceito de função, a posição 
central deve ser a noção de variação, pois permite uma organização do ensino mais 
rica em atividades e mais significativa. No entanto, o ensino não deve deixar de insistir 
nas atividades numéricas, colocando a função mais como um processo, mesmo que 
isso seja feito em detrimento de algumas atividades voltadas para a noção de 
variação. As atividades numéricas se revelaram significativas em relação a certas 
noções. Por fim, a sensibilização para uma apreensão mais geral da função que 
envolve a condição de unicidade da imagem não deve ser descartada mesmo que 
isso não passe necessariamente pela definição geral do conjunto (AMRA, 2004). 
82 
 
Gaudin (2005), em sua tese, tratou de duas questões: o controle da atividade 
do sujeito e o conhecimento da noção de função. Para a autora, se o funcionamento 
do conhecimento na atividade permanece implícito para o sujeito, é o conhecimento, 
ao menos em parte, que regula as interações do sistema. Assim, era esperado que a 
pesquisa explicasse o funcionamento do conhecimento (a noção de função) como 
regulador da atividade. Para isso, Gaudin (2005) utilizou a teoria da decomposição 
genética de Dubinsky (1991), Dubinsky e Harel (1992) e a teoria histórico individual 
de Sierpinska (1988; 1992) sobre as concepções de função e, a teoria de Balacheff 
(1995) ¢Kc (conceito, conhecimento, concepção) para modelar a concepção de um 
sujeito. 
Para Balacheff (1995) e Balacheff e Gaudin (2009), uma concepção C pode ser 
modelada por um quarteto (P, R, L, ∑) no qual: P é um conjunto de problemas; R é 
um conjunto de operadores; L é um sistema de representação e ∑ é uma estrutura de 
controle. P corresponde à classe dos desequilíbrios da concepção considerada que é 
capaz de se recuperar; em termos matemáticos: os problemas que permitem serem 
resolvidos - em termos pragmáticos, a esfera da prática da concepção relacionada; R 
corresponde ao conjunto de operadores necessários para executar ações “concretas” 
no milieu ou transformar e manipular representações linguísticas, simbólicas ou 
gráficas; L descreve os meios linguísticos, gráficos ou simbólicos que sustentam a 
interação entre o sujeito e o milieu, de outro modo, ações ou feedbacks, bem como 
seus resultados; e, ∑ é necessário para descrever os componentes que suportam o 
monitoramento do equilíbrio do sistema [S↔M]. 
Balacheff e Gaudin (2009) afirmam que os três primeiros componentes desse 
quarteto foram emprestados da caracterização que Vergnaud (1989; 1990; 1993; 
1996b; 1996c) propôs para conceito. O quarto componente foi desenvolvido pelo autor 
para descrever explicitamente a dimensão da validação que é crítica para a 
Matemática e ao aprendizado de Matemática. 
Reed (2007), em sua tese de doutorado, analisou os efeitos dos estudos de 
história do conceito de função na aprendizagem de 17 estudantes universitários 
americanos, que seriam futuros professores, de uma Universidade do Meio Oeste. 
Uma das perguntas de pesquisa era entender, por meio da teoria APOS (ação, 
processo, objeto e esquema) (Quadro 6), qual era a concepção de função desses 
estudantes. 
83 
 
 
Quadro 6 – Fases da Teoria APOS 
Fases Descrição 
Ação 
Uma ação é uma transformação de objetos que é percebida pelo sujeito como sendo de 
algum tipo externa. Ou seja, um sujeito cuja compreensão de uma transformação é limitada a 
uma concepção de ação pode realizar a transformação apenas reagindo a pistas externas 
que fornecem detalhes precisos sobre quais passos tomar. 
Processo 
Quando uma ação é repetida e o sujeito reage sobre ela, ela pode ser interiorizada em um 
processo. Ou seja, é feita uma construção interna que realiza a mesma ação, mas agora, 
não necessariamente direcionada por estímulos externos. Um sujeito que tem uma 
concepção de processo de uma transformação pode refletir, descrever ou mesmo reverter as 
etapas da transformação sem realmente realizar essas etapas. Em contraste com uma ação, 
um processo é percebido pelo sujeito como sendo interno e sob seu controle, e não como 
algo que se faz em resposta a estímulos externos. 
Objeto 
Quando um sujeito reflete sobre as operações aplicadas a um determinado processo, toma 
consciência do processo como uma totalidade, percebe que as transformações (sejam elas 
ações ou processos) podem atuar sobre ele, e é capaz de realmente construir tais 
transformações, então ele ou ela está pensando neste processo como um objeto. Neste 
caso, dizemos que o processo foi encapsulado em um objeto. No decorrer da execução de 
uma ação ou processo em um objeto, muitas vezes é necessário desencapsular o objeto de 
volta ao processo de onde veio, afim de usar suas propriedades para manipulá-lo. 
Esquema 
Uma vez construídos, objetos e processos podem ser interconectados de várias maneiras: 
por exemplo, dois ou mais processos podem ser coordenados os ligando (através da 
composição ou de outras formas); processos e objetos estão relacionados pelo fato de que 
os primeiros atuam sobre os segundos. Uma coleção de processos e objetos pode ser 
organizada de maneira estruturada para formar um esquema. Os próprios esquemas podem 
ser tratados como objetos e incluídos na organização de esquemas de “nível superior”. 
Quando isso acontece, dizemos que o esquema foi tematizado para um objeto. O esquema 
pode então ser incluído em esquemas de estruturas Matemáticas de nível superior. 
Fonte: desenvolvido a partir de Asiala, Brown, DeVries, Dubinsky, Mathews e Thomas (1997, p. 7-8) 
 
Segundo Reed (2007), os desenvolvedores da teoria APOS queriam usar a 
ideia de estruturas cognitivas de Jean Piaget e relacioná-las com comportamentos 
observáveis em estudantes de nível universitário (uma vez que as experiências de 
Piaget envolviam apenas crianças e adolescentes). Reed (2007) também utilizou um 
modelo desenvolvido por Asiala, Brown, DeVries, Dubinsky et al. (1997), o qual 
permite conduzir uma pesquisa de educação Matemática que tenta modelar a 
epistemologia de um conceito por meio das construções mentais feitas pelos 
estudantes. Como resultado da investigação, Reed (2007) identificou que, por meio 
da história da Matemática, os estudantes foram capazes de realizar reflexões de ideias 
mais profundas, que os estudantes subiram para um nível superior da teoria APOS e 
que eles demonstraram domínio da representação gráfica de função. 
Monoyiou e Gagatsis (2010) analisaram a compreensão das abordagens 
algébrica e de par ordenado que os professores em formação do Chipre e da Itália 
desenvolvem na resolução de tarefas funcionais. Foram 260 cipriotas e 206 
professores italianos em formação. Foi realizado um teste composto por sete tarefas 
– quatro tarefas funcionais simples e três problemas complexos. Da pesquisa, os 
autores identificaram que a maioria dos professores cipriotas usou uma abordagem 
84 
 
algébrica para resolver as tarefas de funções simples. Já os professores italianos 
usaram uma abordagem por pares ordenados. De acordo com os autores, os 
professores que conseguiram usar a abordagem por par ordenado tiveram melhores 
resultados na resolução dos problemas. 
Ross (2011) realizou um estudo extensivo sobre como o conceito de função era 
apresentado nos livros didáticos americanos do Middle School (nosso Ensino 
Fundamental – anos finais) e da High School (nosso Ensino Médio). De sua pesquisa, 
o autor sistematizou cinco categorias: 1) a linguagem utilizada em relação à função, 
2) a presença de funções nos livros, 3) características principais das funções, 4) 
características auxiliares e 5) arquétipos de funções. A principal linguagem utilizada 
nos livros era a definição de função como relações de correspondência, além de 
alguns livros explicitarem funções a partir da teoria dos conjuntos. 
Segundo o autor, aproximadamente 30.000 exemplos de funções foram 
encontrados. Desses exemplos, o autor os categorizou em seis perspectivas, 
conforme Quadro 7. 
 
Quadro 7 – Categorização das funções 
Tipo Especificação 
Perspectiva de 
ação 
A função é descrita como algo que se faz, ou seja, uma transformação que se aplica a 
elementos matemáticos de acordo com um algoritmo explícito. A ênfase está na 
execução do algoritmo. 
Perspectiva de 
processo 
A função é descrita como um procedimento que se tem a capacidade de seguir, um 
procedimento que transforma um elemento matemático em outro. A ênfase está na 
capacidade de realizar o procedimento, se necessário ou desejado, e não na execução 
imediata do procedimento. 
Perspectiva de 
objeto 
A função é descrita como algo sobre o qual se pode agir matematicamente. A ênfase 
está nas funções como elementos matemáticos que podem ser transformados. 
Perspectiva de 
Esquema 
A função é descrita como parte de uma perspectiva Matemática maior. A ênfase está 
no papel das funções em geral ou dentro de conceitos matemáticos mais amplos. 
Perspectiva de 
exemplo específico 
Um exemplo para o qual um aluno recebe ou pode obter pelo menos um elemento de 
domínio e seu elemento de intervalo correspondente. Um exemplo específico de uma 
função seria 𝑓(𝑥) = 2𝑥 com um domínio de todos os números reais. 
Perspectiva de 
exemplo geral 
Um exemplo para o qual um aluno não recebe e não pode obter pelo menos um 
elemento de domínio e seu elemento de intervalo correspondente. Um exemplo disso 
seria se a eles fossem solicitados a considerar uma função linear 𝑓 e determinar se ela 
deve ter uma interceptação em 𝑦. 
Fonte: desenvolvido a partir de Ross (2011) 
 
Em relação as principais características de uma função, uma delas é a 
representação. Para Ross (2011), há 18 tipos de representações: 1) representação 
simbólica, 2) 𝑦 = 𝑒𝑥𝑝𝑟𝑒𝑠𝑠ã𝑜, 3) 𝑥 e 𝑦 implícitas, 4) 𝑓(𝑥) = 𝑒𝑥𝑝𝑟𝑒𝑠𝑠ã𝑜, 5) 
representação de função recursiva, 6) equação com outras variáveis, 7) 
representação gráfica, 8) gráfico contínuo, 9) gráfico suave, 10) gráfico de dispersão, 
85 
 
11) representação numérica, 12) representação tabular, 13) representação em par 
ordenado, 14) notação 𝑓(𝑥), 15) representação de uma máquina de função, 16) 
representação de um diagrama de mapeamento (Diagrama de John Venn), 17) 
descrição verbal e 18) representação física. 
A representação simbólica de uma função é aquela que usa números, letras 
como variáveis, símbolos de operação e a notação 𝑓(𝑥) para fornecer uma fórmula. A 
representação 𝑦 = 𝑒𝑥𝑝𝑟𝑒𝑠𝑠ã𝑜 é uma expressão algébrica consistindo em números, 
letras e símbolos de operação, utilizando apenas 𝑦 como variável que depende da 
variável 𝑥. A representação implícita é dada por duas expressões que consistem em 
números, símbolos de operações e as letras 𝑦 e 𝑥 não podem ser separadas (ROSS, 
2011). 
A representação 𝑓(𝑥) = 𝑒𝑥𝑝𝑟𝑒𝑠𝑠ã𝑜 é uma expressão algébrica consistindo em 
números, letras e símbolos de operação, em que a variável 𝑦 é representada por 𝑓(𝑥), 
que nesse caso atua como um representante dos elementos do intervalo da função. 
A representação recursiva trata-se daquela a qual uma função corresponde a conjunto 
de outras funções determinadas a partir de valores anteriores. A equação com outras 
variáveis são aquelas nas quais as variáveis 𝑥 e 𝑦 aparecem por meio de outras letras, 
como 𝑡 (tempo) e 𝑣 (velocidade) (ROSS, 2011). 
A representação gráfica de uma função usa pontos e/ou curvas em um plano 
de coordenadas cartesianas. A representação gráfica de uma função contínua é uma 
única curva ininterrupta sem buracos ou saltos. Um gráfico suave é de uma função 
que não tem pontas. Um gráfico de dispersão é aquele que representa os pares 
ordenados num plano cartesiano. A representação numérica de uma função é aquela 
que lista alguns ou todos os elementos do domínio da função com seus elementos 
associados no intervalo. A representação tabular é uma representação numérica 
disposta na forma de uma tabela. A representação de uma função na forma de pares 
ordenados é realizada por pares ordenados entre parênteses (ROSS, 2011). 
A notação 𝑓(𝑥) é uma representação numérica na qual os elementos são 
exibidos como 𝑓(𝑥) = 𝑦 para 𝑥 e 𝑦 específicos. A representação de uma função na 
forma de uma máquina que transforma uma entrada (𝑥) em uma saída (𝑦) (Figura 17). 
 
86 
 
 
Figura 17 – Função como uma máquina de transformação 
Fonte: do autor 
 
A representação de uma função por meio de um diagrama de mapeamento 
mostra alguns ou todos os elementos do domínio em uma parte do diagrama e os 
elementos correspondentes em outra parte do diagrama. Esses elementos 
correspondentes são ligados por meio de setas (ROSS, 2011). 
A representaçãoverbal de uma função é aquela utilizando palavras para 
descrever qualquer característica da relação entre as variáveis independentes e 
dependentes. As representações físicas são aquelas passíveis de manipulação pelos 
estudantes e que representam uma função. Por exemplo, um experimento com uma 
jarro graduado com água e a inserção de bolas de bilhar para representar a relação 
entre a altura da água no jarro e o número de bolas de bilhar. 
Outra característica são as famílias de funções, divididas em: função 
polinomial, função constante, função linear, função quadrática, função cúbica, função 
periódica, função trigonométrica, função exponencial, função logarítmica, função 
racional, função valor absoluto (modular) e função por partes (ROSS, 2011). As 
características auxiliares de uma função podem ser divididas em uma configuração 
realista e uma configuração abstrata. Uma função é considerada em uma 
configuração realista quando a função é uma descrição (não exata) de uma situação 
da realidade; do contrário, a função é uma configuração abstrata (ROSS, 2011). 
Kjeldsen e Petersen (2013) realizaram um curso cujo objetivo era unir a história 
da Matemática com o ensino e a aprendizagem da Matemática na construção do 
conceito de função. O curso foi realizado com estudantes do equivalente ao nosso 
Ensino Médio, em uma escola dinamarquesa e contou com uma abordagem de 
87 
 
perspectiva múltipla para a história (SFARD, 1987; 1989; 1991) e as noções de conceito 
imagem e conceito definição (TALL, 1988; TALL, VINNER, 1981; VINNER, 1983; VINNER, 
DREYFUS, 1989). 
O experimento revelou que muitos dos alunos tinham o conceito imagem 
próximo do conceito imagem de Euler e não com o conceito definição moderno, o qual 
eles tinham sido orientados na resolução de situações envolvendo funções. Além 
disso, a leitura de parte de um texto de Dirichlet, de 1837, criou obstáculos para os 
alunos. Kjeldsen e Petersen (2013, p. 29) sugerem que a “[...] consciência histórica 
dos alunos foi desenvolvida ao longo do curso no que diz respeito à influência dos 
atores na formação de conceitos matemáticos e as noções de forças motrizes internas 
e externas no desenvolvimento histórico da Matemática”. 
Salminen (2014) realizou uma pesquisa com 49 estudantes do nono ano (o 
mesmo do nosso Ensino Fundamental – Anos Finais) de uma escola finlandesa que 
adota o Middle Years Programme (MYP), um programa que aceita estudantes 
internacionais e, como parâmetro, aplicou o mesmo instrumento a estudantes do 
Ensino Médio em uma escola finlandesa regular. O currículo da escola como MYP é 
o mesmo do sistema finlandês, mas o idioma e o material didáticos eram em inglês. 
Para a análise, a autora utilizou os pressupostos teóricos de Vinner e Dreyfus (1989). 
Um dos resultados identificados pela autora foi que esses alunos não conseguiram 
resolver as tarefas que envolviam gráficos, pois eles não conseguiram compreender 
os eixos. Outro foi que não houve uma diferença estatística grande entre os erros e 
acertos dos estudantes do nono ano e do Ensino Médio, o que faz a autora concluir, 
assim como Vinner e Dreyfus (1989) fizeram, uma vez que o conceito está enraizado 
não importa a idade e a série do estudante. 
Pires e Silva (2015) realizaram uma investigação para identificar as concepções 
de função manifestadas por 128 estudantes do Ensino Médio e 55 do Superior, tendo 
como fundamentação teórica as ideias de Sfard (1991; 1992) e Sierpinska (1988). Os 
dados coletados se deram por meio de duas listas de atividades realizadas por todos 
os participantes. Os resultados mostraram que no Ensino Médio as concepções 
transitavam entre a operacional e a estrutural (Quadro 8), sendo muito presente a 
concepção pseudoestrutural, e no Ensino Superior as concepções eram bem 
próximas da estrutural, porém, não foi possível identificar a reificação do conceito. 
 
88 
 
 
Quadro 8 – Concepções Operacional e Estrutural de Anna Sfard 
 Concepção Operacional Concepção Estrutural 
Característica geral 
uma entidade matemática é concebida 
como um produto concebido de um 
determinado processo ou é identificada 
com o próprio processo 
uma entidade matemática é concebida 
como estrutura estática - como se fosse 
um objeto real 
Representações 
Internas 
É suportada por representações verbais É suportada por uma imagem visual 
Local do 
desenvolvimento 
conceitual 
Desenvolve os primeiros estágios do 
conceito de formação 
Evolui da concepção operacional 
Papel no processo 
cognitivo 
É necessário, mas não suficiente, a 
aprendizagem e solução de problemas 
efetivos 
Facilita todos processos congnitivos 
(aprendizagem e solução de problemas) 
Fonte: Traduzido de Sfard (1991, p. 33) 
 
Peña (2016), em sua dissertação de mestrado, realizou uma intervenção em 
uma sala de aula com 40 alunos, na cidade de Bogotá, na Colômbia. Os alunos 
estavam no equivalente ao nosso Nono Ano, do Ensino Fundamental – Anos Finais. 
O objetivo da pesquisa era possibilitar a construção dos conceitos de variável e 
dependência, essenciais na compreensão do conceito de função linear e Função Afim. 
A partir da análise realizada sobre a produção escrita dos alunos, durante a 
implementação do conjunto de tarefas, a autora conseguiu reconhecer uma evolução 
progressiva nos modelos de solução propostos por eles, que dão conta da constituição 
de objetos mentais variáveis e dependência. 
Além disso, as soluções propostas pelos estudantes para as duas primeiras 
tarefas evidenciaram um reconhecimento inicialmente implícito das variáveis 
envolvidas, o que foi possível relacionar por meio de processos recursivos, que 
favorecem a organização das situações (PEÑA, 2016). 
Nunes e Santana (2017) analisaram as concepções errôneas sobre o conceito 
de função apresentadas por 40 alunos da Licenciatura em Matemática. Foram 
analisadas as resoluções desses alunos a partir de um instrumento composto de nove 
tarefas. Para a análise das resoluções, as autoras utilizaram como referência as 
categorias de concepções errôneas elencadas na perspectiva epistemológica. Pela 
análise, as autoras inferiram que as concepções errôneas resultam de múltiplos 
fatores, sobretudo com os que estão relacionadas a conceitos, procedimentos ou 
princípios matemáticos. 
Rodrigues, Menezes e Santos (2017) realizaram uma discussão para a 
construção de um modelo epistemológico de referência para o ensino e a 
aprendizagem de função. Para isso, utilizaram as teorias de Percurso de Estudo e 
89 
 
Pesquisa (PEP) (CHEVALLARD, 2009), a Teoria Antropológica do Didático 
(CHEVALLARD, 1996) e a noção de Contrato Didático (BROUSSEAU, 1996). Segundo os 
autores, utilizando o PEP, será possível, a partir do contrato didático, observar e 
analisar qual o comportamento dos alunos frente ao conceito de função, observando 
suas rupturas, as mudanças de praxeologias e os tipos de organizações matemáticas 
que emergem nos momentos didáticos. 
Rodrigues (2020), em sua tese, aplicou o PEP sugerido em Rodrigues, 
Menezes e Santos (2017). O PEP vinculou-se a um Modelo Epistemológico de 
Referência (MER), o qual é desenvolvido a partir de um estudo crítico dos documentos 
oficiais, de concepções de professores e alunos, de livros didáticos, planos de aula, 
entre outros. Na Figura 18 está o MER utilizado por (RODRIGUES, 2020). 
 
 
Figura 18 – Diagrama de Atividades do MER 
Fonte: Rodrigues (2020, p. 156) 
 
As caixas representam as possíveis tarefas que os alunos deverão utilizar no 
processo, as mesmas cores indicam o mesmo tipo de ação, os losangos indicam 
decisões a serem tomadas, os círculos são as questões desenvolvidas. A autora, a 
90 
 
partir dos dados da pesquisa, identificou mudanças significativas na didática do 
professor ao ter como base um MER. 
 
2.2.1 Uma síntese 
 
Em seção anterior, foi possível compreender o conceito de função a partir dos 
resultados de pesquisas envolvendoestudantes e professores. Em decorrência da 
análise dos textos apresentados, identificamos que as teorias cognitivas encontradas 
derivam da Epistemologia Genética de Jean Piaget e seus colaboradores. 
Dos trabalhos pesquisados, emergiram algumas teorias de aprendizagem 
utilizadas para sustentar o ensino e a aprendizagem de função, conforme Quadro 9. 
 
 
Quadro 9 – Perspectivas Cognitivistas para o conceito de função 
Autor(es) Ano Nome da Perspectiva 
Piaget e colaboradores ~1968 Epistemologia Genética (EG) 
Duval ~1971 Teoria dos Registros de Representação Semiótica 
Vergnaud e colaboradores ~1976 Teoria dos Campos Conceituais (TCC) 
Vinner, Dreyfus e colaboradores ~1982 Conceito Definição e Conceito Imagem 
Douady ~1984 Jogos de Quadros 
Anna Sfard ~1991 A dualidade dos conceitos matemáticos 
Sierpisnka ~1992 Desenvolvimento histórico e individual 
Dubinsky e Harel ~1992 Decomposição genética 
Asiala e colaboradores ~1997 APOS 
Carlson e colaboradores ~1998 Covariação 
Hershkowitz e colaboradores ~1999 Teoria dos Protótipos 
Balacheff e colaboradores ~1995 Teoria ¢Kc 
Chevallard ~2009 Percurso de Estudo e Pesquisa (PEP) 
Fonte: da pesquisa 
 
Algumas das perspectivas foram discutidas ao longo da seção com mais 
detalhes, entretanto é importante destacar algumas delas. A Epistemologia Genética, 
como mencionado, originou grande parte das demais teorias. Dos trabalhos de Piaget 
e seus colaboradores, reconhecemos que o epistemólogo e seus colaboradores 
conseguiram identificar estruturas cognitivas que mostram a evolução dos esquemas 
dos sujeitos sobre a noção de função como relações de dependência entre grandezas 
e como uma estrutura completa e reversível com diferentes categorias. 
As relações moldam-se a um tipo de pré-proporcionalidade a partir da 
coordenação dos diferentes esquemas funcionais. Essa pré-proporcionalidade ruma 
a uma proporcionalidade a partir do momento que as estruturas passam a ter um 
caráter operatório. Isso se dá pelas coordenações expressas em termos de 
combinadores lógicos. 
91 
 
A passagem da proporcionalidade para o conceito de função acontece quando 
as coordenações operam sob regularidades formalizadas. Essas regularidades 
progridem de espontâneas a proporcionalidades funcionais, passando pelos estágios 
de correspondências ordinais e hiperordinais, nessa ordem. Atinge-se o estágio de 
função quando o sujeito é capaz de realizar o processo de reversibilidade. 
De Vinner e Dreyfus (1989) foi possível distinguir seis categorias de definição 
para função: correspondência, relação de dependência, regra, operação, fórmula e 
representação. De Dubinsky (1991) identificamos cinco processos que permitem 
conceber o pensamento matemático complexo: interiorização, composição ou 
coordenação, encapsulamento, generalização e reversibilidade. 
Ross (2011), a partir da análise de livros didáticos, categorizou as funções em 
seis perspectivas: perspectiva de ação, perspectiva de processo, perspectiva de 
objeto, perspectiva de esquema, perspectiva de exemplo específico e perspectiva de 
exemplo geral. 
Com as perspectivas histórica e cognitiva explicitadas, partimos para uma 
discussão da perspectiva didática. 
 
2. 3 PERSPECTIVA DIDÁTICA 
 
Na perspectiva didática, cujo foco está em análises de documentos didáticos 
como propostas de ensino, legislação e novamente livros didáticos, mas agora com o 
viés no ensino e não no conteúdo; muitos estudos como de (BRESLICH, 1928; DREYFUS, 
EISENBERG, 1983; DREYFUS, VINNER, 1982; EVEN, 1988; 1990; 1998; EVEN, 
BRUCKHEIMER, 1998; EVEN, TIROSH, 1995; HAMLEY, 1934; HEDRICK, 1921; 1938; HILLEN, 
MALIK, 2013; MALIK, 1980; TALL, VINNER, 1981; VINNER, 1983; 1997; VINNER, DREYFUS, 
1989; VINNER, HERSHKOWITZ, 1980; YOUNG, 1914) ilustram a importância do conceito 
de função, bem como as razões pelas quais determinadas definições de função são 
apropriadas em determinadas fases da Matemática escolar. 
Young (1914, p. 41), em seu livro sobre o ensino de Matemática nas escolas 
elementares e secundárias americanas, traz uma perspectiva de que “[...] um dos 
aspectos importantes da álgebra é seu tratamento generalizado dos processos da 
aritmética”. Para o autor, a função é vista como um processo de generalização de 
equações. Nessa perspectiva, o autor afirma ser animador encontrar livros didáticos 
92 
 
elementares fazendo uso de gráficos, estabelecendo a construção geométrica de 
relações algébricas, a computação gráfica e a exibição de tabelas como possibilidades 
de ensino. Young (1914) sugere unir as três ideias características da Matemática: 
número, forma e fórmula, sob o conceito fundamental de funcionalidade. Segundo o 
autor, os livros didáticos são uma fonte de trabalhar o pensamento funcional como a 
espinha dorsal na articulação entre geometria e números. 
Breslich (1928) realizou um estudo de quatro textos didáticos americanos da 
escola secundária (o equivalente ao nosso Ensino Médio) à época sobre o 
pensamento funcional, cujo principal aspecto é reconhecimento da dependência de 
uma quantidade variável em outra variável relacionada como um dos aspectos 
importantes do pensamento funcional. A partir desse estudo, ele elaborou tópicos com 
intuito de ajudar futuros professores a ensinar função como um conceito unificador de 
toda a Matemática, uma vez que, para ele, a função está ligada aos demais conceitos 
da Matemática. Os tópicos apresentados pelo autor foram: problemas verbais 
envolvendo álgebra, transformação de dados numéricos em representações 
tabulares, utilização de fórmulas para representação de fatos numéricos, 
desenvolvimento do pensamento funcional por meio de equações, o estudo de 
polinômios algébricos, o pensamento funcional nos conceitos de razão, proporção e 
variação, a utilização do gráfico como um meio para desenvolver o pensamento 
funcional, a utilização do pensamento funcional na geometria demonstrativa, o uso de 
mudanças nas figuras como meio de mostrar o relacionamento entre variáveis e a 
relação do pensamento funcional com as áreas. 
De acordo com um relatório encomendado pelo Conselho Nacional dos 
Professores dos Estados Unidos, as principais ideias sobre função que devem ser 
levadas para o Ensino Secundário (equivalente ao nosso Ensino Médio) são de 
relação funcional, variáveis e dependência de variáveis (HEDRICK, 1921). E, no fim, 
isso significa estabelecer conexões entre tabulação de dados, estudo da fórmula, o 
gráfico que representa e os usos dessa função. O relatório ainda chama a atenção 
para o fato de que eles (o Comitê Nacional), não tem a menor intenção de defender o 
ensino de funções nos primeiros anos do Ensino Secundário nem mesmo dos 
elementos da Teoria das Funções. Hedrick (1921) afirma, nesse contexto, que a 
palavra “função” em si deve ser usada com moderação, se for o caso, nenhuma 
definição formal de uma função deve ser insistida. Ele sugere que o desejo dos 
93 
 
professores é o desenvolvimento da ideia de relação entre quantidades, da 
dependência de uma quantidade sobre outra e da correspondência que existe entre 
quantidades relacionadas, seja de caráter aritmético ou geométrico. 
Hedrick (1921) aponta como o ensino de função deve ser trabalhado. Para isso, 
ele estabelece a relação da função com outras áreas, a relação com a álgebra, as 
relações com a geometria e as relações com a trigonometria. Nas relações com a 
álgebra, ele pontua a necessidade de trabalhar, o uso de letras no lugar de números, 
equações, fórmulas da ciência pura e de assuntos práticos, fórmulas de álgebra pura, 
tabelas e gráficos. A relação com a geometria, para ele, deve englobar o ensino de 
congruências, desigualdades, variações nas figuras, movimento e teoremas de 
proporcionalidade. Por fim, a relação da função com a trigonometria, precisa frisar o 
uso do termo função trigonométrica, para enfatizar as relações existentes (HEDRICK, 
1921). 
Lennes (1932)escreveu um capítulo sobre o conceito de função na álgebra 
elementar. Neste capítulo, que é parte do livro do Conselho Nacional de Professores 
de Matemática (NCTM) dos Estados Unidos, o autor faz algumas análises de livros 
didáticos e traz algumas opiniões sobre o que os professores da época pensavam 
sobre o ensino de função. A partir desse estudo, ele apresenta modos de ensinar o 
conceito de função associado à álgebra, mostrando pontos que devem ser 
trabalhados. 
Um aspecto importante do estudo de Lennes (1932) é que ao investigar o termo 
função nos livros didáticos, dos oito livros pesquisados, quatro deles não 
apresentavam o termo função. O autor acrescenta que o termo mais utilizado nos 
livros era dependência funcional. Alguns ainda traziam o termo variação para se referir 
a função. Lennes (1932) categoricamente afirma que nenhum desses livros trabalhava 
o conceito de função de modo orgânico com outros conteúdos. 
Dreyfus e Eisenberg (1983) afirmam que até o final do século XIX, o conceito 
de função era considerado pouco importante para estudantes da Educação Básica. À 
época, os currículos estavam preocupados que os estudantes dominassem 
habilidades algébricas como as técnicas de fatoração. Entretanto, Félix Klein, na 
conferência dos professores de Matemática enfatizou a importância do ensino de 
função na Educação Básica como uma forma de unir as diferentes áreas da 
Matemática e, pela importância que o conceito de função vinha ganhando na solução 
94 
 
de problemas relacionados às ciências da natureza, como Física, Química e Biologia. 
Assim, a última parte do século XIX e ao longo do século XX, os movimentos 
de reforma da educação Matemática têm focado a atenção no papel e na importância 
do conceito de função no currículo de Matemática, na disciplina de Matemática, em 
seus usos em outros campos que não a Matemática, e no seu uso na vida diária dos 
alunos. Por exemplo, Félix Klein abordou a importância da atenção dos professores 
de Matemática do Ensino Médio para a possibilidade e a necessidade de desenvolver 
o pensamento funcional em seus cursos antes do Congresso Internacional de 
Matemáticos em sua reunião em 1893 (BRESLICH, 1928). 
A partir da importância dada por Félix Klein ao ensino de função na Educação 
Básica, houve um aumento no desenvolvimento de estratégias para o ensino do 
conceito de função. Dreyfus e Eisenberg (1983) mostraram que diversas estratégias 
de ensino eram utilizadas, as mais comuns introduziam o conceito de função por meio 
de diagrama de flechas, gráficos, tabelas, problemas de palavras, par ordenado e uma 
combinação entre elas. 
De acordo com as crenças dos educadores matemáticos sobre o valor do 
conceito de função na Matemática escolar, determinadas definições do conceito 
tendem a ser enfatizadas. Lietzmann (1932) afirmou que a natureza arbitrária da 
função de Johann Peter Gustav Lejeune Dirichlet é mais apropriada para conectar o 
conceito de função com economia, estatística e representação gráfica tão útil na vida 
dos alunos. Ele também expressou preferência pela natureza arbitrária da função de 
Johann Peter Gustav Lejeune Dirichlet sobre a definição de expressão analítica de 
Leonhard Euler e afirmou que o conceito de função não deve ser limitado a funções 
especiais que se prestam a expressões analíticas (CHA, 1999). 
Lennes (1932) enfatizou a importância da natureza dependente da função na 
compreensão do caráter de mudança importante no mundo em que vivemos. Even 
(1988) expressou que a definição de função de Dirichlet-Bourbaki ajuda na 
compreensão da Matemática atual baseada em uma concepção mais moderna de 
função. Em contraste, Malik (1980) viu a definição moderna estática e imaginava que 
poderia ser adiada até o início dos cursos mais avançados, como topologia e análise 
no nível elementar. 
Bernet e Delessert (1972), entre outros educadores matemáticos da Suíça 
realizaram um estudo para alterar o currículo de Matemática suíço à época. Dentre 
95 
 
muitas propostas sugeridas por eles, uma delas dizia respeito ao ensino de função. 
Para esse conteúdo, eles criaram um diagrama mostrando as articulações que 
deveriam existir, bem como os conceitos que estariam envolvidos na formação do 
conceito de função (Figura 19). 
 
 
Figura 19 – Diagrama dos conceitos articulados com função 
Fonte: Traduzido de Bernet e Delessert (1972, p. 458) 
 
De acordo com Cha (1999), as ideias de conjunto e univalência são mais 
apropriadas do que a ideia de dependência porque são mais compreensíveis, 
permitindo que todos interpretem adequadamente a maioria das discussões 
encontradas na escrita Matemática e científica. 
Cha (1999) ainda discute, a partir de alguns autores, quais deveriam ser as 
formas de abordar o conceito de função. Para alguns, a definição de função como par 
ordenado é correta e conveniente de usar; no entanto, apresenta graves deficiências 
do ponto de vista pedagógico. A ideia de pares ordenados dá uma impressão estática 
ao aluno, e assim considera que uma impressão dinâmica é muito mais apropriada. 
Mesmo que não seja tão elegante ou formalmente simples, uma impressão dinâmica 
de uma função será muito mais atraente para as crianças e as colocará em uma 
posição muito melhor para usar seu conhecimento sobre funções. 
96 
 
Outros afirmam que a experiência parece mostrar que a abordagem por meio 
de uma classe de pares ordenados é aquela que impõe severas limitações ao aluno 
e fornece uma preparação pobre para qualquer trabalho posterior com funções. A 
definição de função em pares ordenados caracteriza-se como um dos erros da 
Matemática escolar ao sugerir que é preciso ensinar a definição mais intuitiva e prática 
sem confundir os alunos com abstrações desnecessárias (CHA, 1999). 
Pesquisadores como Breslich (1928) e Malik (1980) argumentam que enfatizar 
a natureza dependente da função ajudará os alunos a compreender e interpretar as 
mudanças inerentes do fenômeno ao longo do tempo, bem como o significado 
subjacente e a conexão entre os fatos ou princípios matemáticos. 
Cha (1999) também realizou uma análise de como os livros didáticos, de 1905 
a 1997, nos Estados Unidos, definiam o conceito de função. Dessa análise ele chegou 
a quatro tipos de definição: lógica, genética, de ação analógica e de expressão 
analógica (Quadro 10). 
 
Quadro 10 – Tipos de definição de função nos livros americanos de 1905 a 1997 
Definição Lógica Definição Genética 
Definição por Ação 
Analógica 
Definição por Expressão 
Analógica 
Uma função é uma 
correspondência entre 
dois conjuntos P e Q em 
que cada elemento de P 
corresponde a 
exatamente um elemento 
de Q. 
Uma função é uma 
relação entre duas 
variáveis, de modo que 
mudanças em uma 
variável resultam em 
mudanças na outra. 
Uma função é uma 
máquina com um 
pequeno duende dentro 
dela, que muda o que 
você insere na máquina 
antes de jogá-lo de volta 
para fora da máquina. 
Uma função é uma 
equação que atribui um 
valor a uma variável 
usando várias 
propriedades 
Matemáticas. 
Uma função é um 
conjunto de pares 
ordenados (x, y) para os 
quais nunca há mais de 
um valor de y para 
qualquer valor de x. 
Uma função é uma 
relação entre duas 
variáveis em que o valor 
da variável independente 
determina 
exclusivamente o valor 
da variável dependente. 
- - 
Exemplos de Palavras 
Mapeamento, 
Correspondência, Um 
conjunto de pares 
ordenados, Regra, Um 
conjunto de pares de 
números, Uma relação 
de cada par ordenado 
Uma função é uma 
relação entre variáveis 
quando o valor de uma 
variável depende do 
valor das outras. 
Máquina, Caixa preta, 
Operador, Operação, 
Manipulação, Ação, 
Calculadora (Gráfica) 
Fórmula, equação, 
gráfico, teste de linha 
vertical, declaração 
Matemática, expressão 
Fonte: Cha (1999, p. 50) 
 
De acordo com Cha (1999), as definições analógicas de função são de dois 
tipos básicos (expressão e ação). As analogiasde expressão caracterizam a função 
como fórmulas ou equações e as analogias de ação como operações ou máquinas. 
Em contraste, um professor pode usar aspectos lógicos para definir a função. 
97 
 
Uma definição lógica, afirmaria que uma função é uma correspondência entre 
dois conjuntos P e Q, em que cada elemento de P corresponde exatamente a um 
elemento de Q. Outra definição afirmaria que uma função é um conjunto de pares 
ordenados (x, y) para os quais nunca há mais de um valor de y para qualquer valor de 
x (CHA, 1999). 
Para Cha (1999), os professores podem enfatizar os aspectos genéticos da 
função. Para o autor, uma definição genética afirmaria que uma função é uma relação 
entre duas variáveis, de modo que mudanças em uma variável resultem em mudanças 
na outra, ou que uma função é uma relação entre duas variáveis tal que o valor da 
variável independente determina exclusivamente o valor da(s) variável(is) 
dependente(s), ou ainda, que uma função é uma relação entre variáveis se o valor de 
uma variável depende do valor da outra. Essas definições são chamadas de genéticas 
porque estão relacionadas à origem do conceito de função. 
As análises dos livros didáticos indicaram que as definições lógicas de função 
foram mais populares na Matemática escolar do passado. Esse fato mostra, segundo 
o autor, que, embora muitos pesquisadores tenham enfatizado a importância do 
pensamento funcional e das definições de dependência na Matemática escolar, a 
ênfase não atingiu a sala de aula do Ensino Médio (CHA, 1999). 
Os professores devem estar familiarizados e confortáveis com todos os tipos 
de definição para adaptar suas apresentações às experiências e entendimentos de 
seus futuros alunos em vários contextos. Devem conhecer as vantagens e 
desvantagens de cada tipo de definição. As definições genéticas são geralmente mais 
aplicáveis do que as definições lógicas ou analógicas a disciplinas como negócios, 
economia, física e estatística. Elas permitem que os alunos vejam a conexão entre a 
definição e as relações de dependência (CHA, 1999). 
As definições analógicas são muitas vezes mais fáceis de entender do que as 
lógicas. As definições lógicas são mais apropriadas do que as definições genéticas e 
analógicas na compreensão de ideias Matemáticas baseadas em concepções 
modernas de função. Além disso, um número maior de relações são funções sob 
definições lógicas. Por exemplo, as definições lógicas são mais apropriadas para 
entender a funcionalidade da relação entre o conjunto de números de contagem e a 
sequência de Fibonacci. Este é um bom exemplo de como algumas funções não são 
relações de dependência (CHA, 1999). 
98 
 
Uma vez que apenas uma pequena porcentagem de estudantes do Ensino 
Médio13 acaba estudando análise e topologia, a definição da teoria dos conjuntos 
poderia ser adiada no início desses cursos e, uma definição simples e de fácil 
compreensão, deveria ser ensinada no nível elementar. Deve-se notar também que 
ainda não há evidências convincentes de que se for apresentado a um estudante uma 
ideia com um nível maior de rigor e generalidade, desenvolverá um gosto mais forte 
pelo assunto ou será mais bem treinado para assimilar as técnicas e conceitos em 
que apenas uma forma particular de ideias está em uso (MALIK, 1980, p. 492). 
Markovits, Eylon e Bruckheimer (1986) apresentam as representações e 
componentes de uma função, conforme Quadro 11. 
 
Quadro 11 - Representação de uma função e suas componentes 
Representações / 
Subconceitos 
Verbal 
Diagrama de 
Flechas 
Algébrica Gráfica 
Domínio 
Notação verbal ou 
Matemática 
Uma curva 
envolvendo os 
membros do 
domínio 
Notação verbal ou 
Matemática 
O eixo horizontal 
(x) ou partes dele 
Intervalo 
(Imagem) 
Notação verbal ou 
Matemática 
Uma curva 
envolvendo os 
membros do 
intervalo (Imagem) 
Notação verbal ou 
Matemática 
O eixo vertical (y) 
ou partes dele 
Regras de 
correspondência 
verbal Flechas Fórmula 
Um conjunto de 
pontos em um 
sistema de 
coordenadas 
Fonte: Markovits, Eylon e Bruckheimer (1986, p. 19) 
 
Os autores afirmam que os estudantes, aprendem (na maioria dos casos no 
Ensino Médio) que a mesma função pode ser representada por cada uma das 
representações acima, então eles têm que aprender a traduzir uma determinada 
função de uma representação para outra, lidando com os três subconceitos e com 
duas representações simultaneamente. Isso basicamente completa o estudo inicial 
das funções em geral; os estudantes passam então a estudar funções lineares e, no 
final do Ensino Fundamental – Anos Finais, funções quadráticas (MARKOVITS, EYLON, 
BRUCKHEIMER, 1986, p. 19). 
Entretanto, eles chamam a atenção para um tipo de função que, em geral, é 
definida por meio de restrições e que não é amplamente discutida nas salas de aula. 
Nesse caso, não é fornecido, de forma clara, o domínio, a imagem e as regras de 
 
13 O contexto do Ensino Médio aqui apresentado é das escolas americanas, em que os estudantes da 
High School têm a possibilidade de estudar Análise e Topologia na Reta. 
99 
 
correspondência. Por exemplo, “uma função é ‘definida’ pelas restrições 𝑓(−1) = 5, 
𝑓(2) = 9 e 𝑓(6)=11 tem que ‘passar’ pelos pontos (−1,5), (2,9), (6,11), e o número de 
funções que satisfazem essas restrições é infinito” (MARKOVITS, EYLON, BRUCKHEIMER, 
1986, p. 19). 
Noguès (1992/1993) em seu trabalho sobre a concepção de função, apresenta 
um diagrama, a partir do currículo francês à época, dos conceitos envolvidos na 
constituição do conceito de função, conforme Figura 20. 
 
 
Figura 20 – Conceitos articulados ao conceito de Função no currículo Francês 
Fonte: Traduzido de Noguès (1992/1993, p. 23) 
 
A partir da Figura 20 identificamos que o conceito de função está dividido em 
seis grandes tópicos: função numérica, aplicação linear, bijeção, função em 
geometria, função contínua e função integrável. 
100 
 
O tópico função numérica é subdividido em três, ele se divide em três 
categorias: sequência numérica, função “usual” e função, além de articular com os 
outros dois grandes tópicos: função contínua e bijeção. Nos chama a atenção que o 
conceito de Função Afim necessite apenas da categoria função “usual”, que são os 
diferentes tipos de funções, que ao nosso ver, não seriam conceitos anteriores 
necessários para a compreensão de Função Afim e posteriormente de função linear. 
Outro aspecto a salientar é que a função linear depende da Função Afim ou da 
aplicação linear, que aparece acoplada ao conceito de espaço vetorial. Entretanto, 
olhando para as setas, percebemos que a função linear pode partir da função 
integrável ou da função contínua, indo para função contínua (no primeiro caso), depois 
função numérica, bijeção, aplicação linear e função linear. 
As transformações geométricas podem ser desenvolvidas a partir de X 
caminhos: 1) função integrável, função contínua, função numérica, bijeção, 
transformação geométrica; 2) função integrável, função contínua, função numérica, 
bijeção, função em geometria, transformação geométrica; 3) função contínua, função 
numérica, bijeção, transformação geométrica; 4) função contínua, função numérica, 
bijeção, função em geometria, transformação geométrica; 5) função, função em 
geometria, transformação geométrica; 6) função, bijeção, função em geometria, 
transformação geométrica; 7) função, bijeção, transformação geométrica; 8) função, 
aplicação linear, bijeção, função em geometria, transformação geométrica; 9) função, 
aplicação linear, bijeção, transformação geométrica; 10) função, função numérica, 
bijeção, função em geometria, transformação geométrica; 11) função, função 
numérica, bijeção, transformação geométrica. 
As sequências numéricas estão desconectadas de Função Afim, o que é um 
problema, uma vez que podemos, por exemplo, utilizar uma sequência numérica do 
tipo progressão aritmética para conceituar uma Função Afim, oumesmo, linear. 
Outras análises poderiam ser feitas desse diagrama do currículo francês na 
década de 1990, contudo, ele se destaca por mostrar o quão complexo é estabelecer 
todas as possibilidades de articulações com outros conceitos matemáticos. 
Kleiner (1993), em seu texto, faz perguntas como: deve-se ensinar cálculo sem 
funções? Quando introduzir a noção de função? Qual definição de função deveria ser 
dada primeiro aos estudantes? Em relação à primeira pergunta, o autor vai dizer que 
é possível ensinar as noções elementares do cálculo sem o uso de funções. Para ele, 
101 
 
a ênfase pode ser dada às curvas, encontrar tangentes e áreas de curvas. A curva é 
um objeto matemático mais natural do que o conceito de função. 
Sobre quando inserir a noção de função, Kleiner (1993) afirma que deve ser 
inserida apenas quando houver a necessidade. Em relação à terceira pergunta, o 
autor vai na mesma linha de pensamento da segunda, deve-se ensinar a definição 
que for necessária ao problema ou situação em questão. 
Kleiner (1993) discute a importância do ensino de função por meio de séries de 
potência, por meio de integrais e como soluções de equações diferenciais. Segundo 
ele, o professor de cálculo, ao não oportunizar essas diferentes definições de função, 
cria compartimentos dentro da própria Matemática. Kleiner (1993) cita, por exemplo, 
que as séries de potência podem encorajar os alunos a realizarem analogias com 
funções polinomiais, trabalhar com cálculos numéricos e aproximados e, exibir 
propriedades inesperadas entre funções (por exemplo a equação de Euler-Cotes que 
relaciona funções exponenciais e trigonométricas - (𝑒𝑖𝑥 = 𝑐𝑜𝑠𝑥 + 𝑖𝑠𝑒𝑛𝑥). 
No ensino de funções por meio de integrais, Kleiner (1993) chama a atenção 
para o fato de que nem todas as integrais podem ser expressas por finitos termos e, 
portanto, foi necessário o desenvolvimento de um novo método para resolver tais 
integrais, as funções elípticas. 
No mesmo contexto, a resolução de equações diferenciais também não 
depende exclusivamente de funções elementares, nesse caso, o desenvolvimento de 
métodos de resolução também foram desenvolvidos a partir das séries de potência, 
em consequência, por meio de funções. 
Kleiner (1993) afirma que as equações mais importantes à época dos séculos 
XVIII e XIX: a equação de Bessel, a equação de Legendre, a equação de Hermite e a 
equação hipergeométrica, foram solucionadas por meio de séries de potência que 
levam às funções com os respectivos nomes das equações, a saber: função de 
Bessel, de Legendre, de Hermite e a função hipergeométrica. Nesse perspectiva, para 
o autor, é importante mostrar diferentes tipos de funções e quais são seus papéis na 
evolução da Matemática. 
Do ponto de vista didático, Kleiner (1993) destaca a importância de trabalhar 
com os problemas históricos que levaram às mudanças de concepção do conceito de 
função. Em especial, ele cita o problema da corda-vibrante, os trabalhos de Jean-
Baptiste Joseph Fourier sobre a natureza das funções, a continuidade, a convergência 
102 
 
e a integração e, a importância de discutir os exemplos de Jean-Baptiste Joseph 
Fourier e Augustin-Louis Cauchy, pois eles são cruciais na distinção entre funções e 
suas descrições. 
Schwarz e Dreyfus (1995) trazem uma discussão no campo didático sobre a 
utilização de softwares no ensino do conceito de função. Inicialmente os autores 
fazem algumas críticas relacionadas ao ensino equivocado de funções por meio de 
ambiguidades gráficas, tabulares e algébricas. Eles realizaram uma pesquisa 
envolvendo alunos americanos de três turmas do equivalente ao nosso nono ano do 
Ensino Fundamental, totalizando 78 alunos. Foi utilizado o Modelo de Representação 
Tripla (TRM) como ambiente de ensino e, para a análise, os pesquisadores utilizaram 
um conjunto de três habilidades necessárias para a compreensão do conceito de 
função: 1) o estudante deve lidar com o fato de que a informação representacional é 
parcial; 2) ser capaz de fazer a ligação entre representações pertencentes a diferentes 
configurações (gráfica, tabular e algébrica) e; 3) ser capaz de realizar transformações 
entre as representações dentro do mesmo ambiente. Isso inclui principalmente 
transformações dinâmicas em gráficos. Essas três habilidades podem ser 
subdivididas, conforme Quadro 12. 
 
Quadro 12 – Habilidades para compreensão do conceito de função 
Habilidade 1 Habilidade 2 Habilidade 3 
Dados Parciais 
Link entre uma informação 
gráfica e numérica 
Reordenamento 
Tabular 
Interpolação 
Link entre uma informação 
numérica e algébrica 
Escala 
Gráficos Parciais 
Link entre uma informação 
algébrica e gráfica 
Link entre partes de 
um gráfico 
Link entre diferentes 
partes de um gráfico 
- 
Funções de 
Transformação 
Arbitrariedade - - 
Fonte: Adaptado de Schwarz e Dreyfus (1995) 
 
Os resultados mais importantes da pesquisa indicaram que trabalhar com o 
ambiente TRM levou a maioria dos estudantes a lidar com dados parciais sobre 
funções (por exemplo, problemas de interpolação e arbitrariedade), a reconhecer 
invariantes (propriedades de funções) ao coordenar ações entre representações 
pertencentes a diferentes ambientes e reconhecer invariantes ao criar e comparar 
representações pertencentes ao mesmo ambiente (SCHWARZ, DREYFUS, 1995). 
Sheehy (1996) realizou uma investigação com livros didáticos americanos de 
1898 a 1996, buscando encontrar as definições de função trazidas por esses livros, 
103 
 
bem como identificar os capítulos que vinham antes e depois do capítulo envolvendo 
funções (Quadro 13). 
 
Quadro 13 – Posição do Capítulo sobre Função nos livros didáticos Americanos 
Ano Título do Capítulo Capítulo(s) Anterior(es) Capítulo(s) Posterior(es) 
1898 Gráficos 
- Propriedades de séries 
- Teorema Binomial 
- Logaritmos 
- 
1917 
Funções: equações com uma 
incógnita 
- Funções Trigonométricas 
- Equações Lineares 
- Equações quadráticas com 
uma incógnita 
-14 
1939 Funções e seus gráficos 
- Operações Fundamentais 
- Fatoração e Frações 
- Expoentes e Radicais 
- Equações e suas soluções 
- Sistemas de Equações 
Lineares 
- Equações Quadráticas 
1967 Relações, gráficos e funções - Sistema dos Números Reais 
- Funções Circulares 
- Funções Trigonométricas, - 
Relações e ângulos 
- Equações lineares, 
inequações e funções 
1972 Relações e Funções 
- Expressões Racionais 
- Exponenciais e raízes 
- Equações Quadráticas 
- Sistemas de Equações 
- Funções logarítmicas e 
Exponenciais 
- Sequências e Séries 
1989 A ideia de função 
- Álgebra Básica 
- Equações e Inequações 
 
- Funções Elementares 
- Funções exponencias e 
logarítmicas 
1993 Funções -15 
- Plotagem de gráficos de 
funções 
- Funções trigonométricas 
- Gráficos e Inversas de 
Funções Trigonométricas 
1996 Relações Funcionais 
- Dados e relações 
- Padrões, mudanças e 
expressões 
 
- Solução de Equações 
Lineares 
- Análise de funções lineares e 
seus gráficos 
- Conectando coeficiente 
angular e funções lineares 
Fonte: adaptado de Sheehy (1996, p. 12) 
 
Pelo quadro, podemos constatar que, no final do século XIX e início do século 
XX, o conteúdo de funções estava no capítulo final do livro, sugerindo que era um 
conteúdo que dependia dos demais ou que ainda não era essencial para a Matemática 
da Educação Básica. Posteriormente, este conceito passou a ter mais importância ou 
mais utilidade e se tornou parte essencial dos livros de Matemática da Educação 
Básica. 
Em relação aos capítulos anteriores, com exceção dos dois primeiros livros e 
do livro de 1993, cujo capítulo de funções é o primeiro, os demais trazem conteúdos 
de Matemática elementar, como operações fundamentais, fatoração, fração, 
 
14 O capítulo do livro de 1898 e 1917 sobre funções era o último do livro. 
15 O capítulo do livro sobre funções era o primeiro. 
104 
 
expoentes e radicais, equações e inequações.75 
Quadro 6 – Fases da Teoria APOS ..................................................................................... 83 
Quadro 7 – Categorização das funções .............................................................................. 84 
Quadro 8 – Concepções Operacional e Estrutural de Anna Sfard ....................................... 88 
Quadro 9 – Perspectivas Cognitivistas para o conceito de função ...................................... 90 
Quadro 10 – Tipos de definição de função nos livros americanos de 1905 a 1997 ............. 96 
Quadro 11 - Representação de uma função e suas componentes ...................................... 98 
Quadro 12 – Habilidades para compreensão do conceito de função ................................. 102 
Quadro 13 – Posição do Capítulo sobre Função nos livros didáticos Americanos ............ 103 
Quadro 14 – Modelo teórico para ensino do conceito de função ....................................... 106 
Quadro 15 – Relações entre Piaget e Vygotsky ................................................................ 112 
Quadro 16 – Tipos de Invariantes Operatórios .................................................................. 119 
Quadro 17 – Comparativo entre os conceitos organizadores das Estruturas Aditivas ....... 126 
Quadro 18 – Categorias dos Problemas Mistos (PM) ........................................................ 131 
Quadro 19 – Categorização dos Problemas Mistos .......................................................... 134 
Quadro 20 – Conceitos entendidos como ideias-base da Função Afim ............................. 145 
Quadro 21 – Conceitos organizadores de Função identificadas ao longo do tempo ......... 150 
Quadro 22 – Situações-problema de função resolvidos e a serem resolvidos do ponto de 
vista psicológico ................................................................................................................. 160 
Quadro 23 – Conceitos organizadores identificados nas Estruturas Aditivas e Multiplicativas 
e, nos Problemas Mistos .................................................................................................... 161 
Quadro 24 – Conceitos organizadores nos Problemas Mistos e nas Funções .................. 162 
Quadro 25 – Candidatos a Ideias-base presentes nas perspectivas histórica e cognitiva 
simultaneamente ............................................................................................................... 163 
Quadro 26 – Tipificação identificadas das Representações de Funções a partir das 
Perspectivas Cognitiva e Didática ...................................................................................... 166 
Quadro 27 – Tipificação identificadas das Representações de Funções a partir da 
Perspectiva Histórica ......................................................................................................... 167 
Quadro 28 – Níveis de função e o Quarteto – Ensino Fundamental (Anos Iniciais) ........... 172 
Quadro 29 – Níveis de função e o Quarteto – Ensino Fundamental (Anos Finais) ............ 173 
Quadro 30 – Níveis de função e o Quarteto – Ensino Médio ............................................. 174 
Quadro 31 – Níveis de função e o Quarteto – Ensino Superior ......................................... 175 
LISTA DE FIGURAS 
 
Figura 1 – Proposta de estratégia para desenhar um Estado da Arte ................................. 25 
Figura 2 – Categorização dos textos encontrados .............................................................. 27 
Figura 3 – Mapa da Tese .................................................................................................... 28 
Figura 4 - Estágios no desenvolvimento da noção de função .............................................. 32 
Figura 5 – Representações gráficas de Oresme ................................................................. 34 
Figura 6 - Tentativa de Nicolau de Oresme em representar duas quantidades que variam . 35 
Figura 7 – Nove Estágios da evolução de função ............................................................... 50 
Figura 8 – Experimento das Flores ..................................................................................... 53 
Figura 9 – Experimento de Piaget sobre Deslocamento ...................................................... 55 
Figura 10 – Tipos de erro no Experimento do Deslocamento .............................................. 56 
Figura 11 – Conservação de Equação – Tipologia 1 ........................................................... 65 
Figura 12 – Conservação de Função - Tipologia 2 .............................................................. 66 
Figura 13 – Conservação de Função - Tipologia 3 .............................................................. 67 
Figura 14 – Conservação de Função - Tipologia 4 .............................................................. 67 
Figura 15 – Concepções de estudantes do conceito de função .......................................... 74 
Figura 16 – Decomposição Genética de Dubinsky .............................................................. 80 
Figura 17 – Função como uma máquina de transformação................................................. 86 
Figura 18 – Diagrama de Atividades do MER...................................................................... 89 
Figura 19 – Diagrama dos conceitos articulados com função .............................................. 95 
Figura 20 – Conceitos articulados ao conceito de Função no currículo Francês ................. 99 
Figura 21 - Ordem hierárquica dos conceitos .................................................................... 121 
Figura 22 – Aspectos da Noção de Hierarquia .................................................................. 122 
Figura 23 – Representação esquemática das Relações Base das Estruturas Aditivas ..... 127 
Figura 24 – Classificação das situações aditivas .............................................................. 128 
Figura 25 – Eixos e Classes das Estruturas Multiplicativas ............................................... 130 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
 
INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 15 
CAPÍTULO 1 – O MOVIMENTO METODOLÓGICO ADOTADO ....................................... 20 
1. 1 A ESCOLHA METODOLÓGICA ............................................................................ 21 
1. 2 O MAPA DA TESE ................................................................................................ 27 
CAPÍTULO 2 – REVISITANDO O CONCEITO DE FUNÇÃO ............................................ 29 
2. 1 PERSPECTIVA HISTÓRICA ................................................................................. 29 
2.1.1 Uma síntese ................................................................................................... 49 
2. 2 PERSPECTIVA COGNITIVA ................................................................................. 51 
2.2.1 Uma síntese ................................................................................................... 90 
2. 3 PERSPECTIVA DIDÁTICA .................................................................................... 91 
2.3.1 Uma síntese ................................................................................................. 107 
2. 4 UM DESPERTAR CONCEITUAL PARA FUNÇÃO .............................................. 108 
CAPÍTULO 3 – TEORIA DO CAMPOS CONCEITUAIS .................................................. 111 
3. 1 DO CONCEITO AO CAMPO CONCEITUAL ........................................................ 111 
3. 2 CAMPO CONCEITUAL ....................................................................................... 114 
3. 3 HIERARQUIA PSICOGENÉTICA ........................................................................ 121 
3. 4 CAMPO DAS ESTRUTURAS ADITIVAS ............................................................. 125 
3. 5 CAMPO DAS ESTRUTURAS MULTIPLICATIVASA representação de gráficos aparece, 
como capítulo, apenas a partir do livro de 1993. Isso pode indicar o resultado de 
pesquisas que estavam sendo feitas sobre o conceito de função nas décadas de 1980 
e 1990 indicando a importância da representação gráfica no ensino de funções. 
Bagni (2004) realizou a análise de uma proposta de ensino aplicada a alunos 
com idade em torno de 16 anos do Ensino Médio italiano sobre noções de função real, 
função contínua, domínio de uma função e integral. Dos resultados, o autor afirma que 
o papel da representação é essencial na aprendizagem de matemática. Para ele, a 
influência da visualização estudada, nessa proposta, a representação gráfica ou 
cartesiana é considerada a principal ação do estudo de uma função matemática. 
Entretanto apenas esse tipo de representação pode ser ineficiente para a 
caracterização de um conceito e para o completo desenvolvimento da habilidade em 
usar e coordenar registros de representação diferentes. No caso de função, os 
estudantes podem ser levados a entender que toda função tem uma representação 
gráfica, o que está equivocado, como o exemplo da Equação 1, já apresentada. 
Rezba, Koziol, Drier e Hall (2004) desenvolveram um livro para professores 
americanos do Elementary School (nosso Ensino Fundamental) para treinamento e 
desenvolvimento de atividades no ensino de padrões, funções e álgebra a alunos do 
K-5 (nosso Ensino Fundamental – Anos Iniciais). A proposta das autoras para que os 
alunos possam desenvolver o pensamento algébrico perpassa alguns conceitos, 
nessa ordem de ensino: padrões, variáveis, equivalências, expressões, relações e 
funções. 
Hansson (2006) analisou as perspectivas sobre o conceito de função de mais 
de 39 professores a partir de um programa de formação de professores que durou 30 
semanas e realizado pela Kristianstad University, Suécia. Kwari (2007) investigou até 
que ponto sete alunos do oitavo ano (nosso equivalente também é o oitavo ano) de 
Zimbábue com pouca experiência em álgebra desenvolveriam o conceito de função. 
A experiência de ensino cobriu um total de 26 aulas, um período de cerca de oito 
semanas distribuídas por dois períodos. Os dados foram coletados a partir do trabalho 
escrito dos alunos, discussões gravadas em áudio e entrevistas com alunos 
selecionados. Os resultados mostraram que as funções podem ser introduzidas no 1º 
ano (nosso primeiro ano do Ensino Médio) e os alunos progrediram na compreensão 
da maioria dos aspectos de uma função. 
105 
 
Kabael e Tanisli (2010) realizaram um estudo entre os conceitos de padrão e 
função, as estratégias de ensino deles no processo de pensamento algébrico e uma 
comparação no currículo turco. Os resultados obtidos nesta investigação são dados 
em apoio às recomendações dos pesquisadores. Kabael e Tanisli (2010) identificaram 
que há um salto entre a noção de pensamento funcional para o conceito de função na 
passagem do Ensino Fundamental para o Ensino Médio. Assim, os autores concluem 
que, como a relação funcional é uma noção pré-requisito para o conceito de função e 
a relação funcional deve ser adquirida desde o início, o ensino do conceito de função 
deve ser considerado não na matemática do High School (nosso Ensino Médio), mas 
na matemática das séries iniciais. 
Sears, Tran, Woo Lee e Thomas (2016) realizaram um estudo com 61 livros 
didáticos americanos da Educação Básica, de 1908 a 1950. Nessa investigação eles 
realizaram algumas análises. Uma delas diz respeito a estar explícito ou não o 
conceito de função. Trinta e seis livros continham explicitamente a definição de função, 
os demais não. Os autores identificaram diferenças dos verbos usados nas definições 
pelos livros didáticos para descrever as relações funcionais entre a variável 
dependente e a independente. Segundo eles, os verbos mais utilizados eram 
depender, relacionar, corresponder, variar, conectar etc. Além disso, do ponto de vista 
quantitativo, 44% das definições descreviam funções em termos de variáveis, 31% em 
termos de uma expressão e os 25% restantes como uma quantidade/número (SEARS, 
TRAN, WOO LEE, THOMAS, 2016). 
Em relação às representações, os resultados dos autores destacam que as 
tabelas foram a representação mais comum (72%). As representações que foram 
identificadas eram: gráfico, expressão, 𝑦 =, 𝑚 =, tabela, coordenadas em pontos, 
𝑓(𝑥) e equação. Eles não encontraram algum livro com a representação do Diagrama 
de Venn (ou mapeamento). Outro aspecto analisado foi a presença de situações “do 
mundo real”, nas quais os autores identificaram que 61% das situações desse tipo 
eram dadas apenas nos exercícios e não os exemplos que os professores davam 
(SEARS, TRAN, WOO LEE, THOMAS, 2016). 
 No trabalho de Santos e Barbosa (2017), cujo objetivo era criar um modelo 
teórico para o ensino do conceito de função, a análise para desenvolvimento desse 
modelo foi realizada em duas coleções de livros didáticos brasileiros do Ensino 
Fundamental nos Anos Finais e do Ensino Médio, nos anos de 2014 e 2015. No 
106 
 
Quadro 14, há o resumo dos “panoramas” desenvolvidos a partir dos livros didáticos. 
 
 
Quadro 14 – Modelo teórico para ensino do conceito de função 
Panorama 
“que” (regras de 
reconhecimento) 
“como” (regras de realização) Vinculações 
Tabular 
Relação entre dados 
por intermédio de 
uma tabela, desde 
que a cada dado de 
entrada esteja 
relacionado a um 
único dado de saída. 
Dispor os dados de entrada e 
os correspondentes de saída, 
de uma relação funcional, em 
linhas ou colunas. 
- Identificar variáveis dependentes 
e independentes. 
- Reconhecer a noção de 
variação. 
- Identificar relações funcionais 
lineares (proporcionalidade direta) 
e recíprocas (proporcionalidade 
inversa). 
- Caracterizar incorretamente o 
tipo de relação funcional. 
Diagrama 
Correspondência 
entre conjuntos 
(apresentados em 
diagramas), que a 
cada elemento de 
conjunto de entrada 
corresponda um 
único elemento do 
conjunto de saída. 
Dispor os conjuntos de 
entrada e saída de uma 
relação funcional em 
diagramas, de forma que cada 
elemento do conjunto de 
entrada corresponda (seta) a 
único elemento do conjunto de 
saída. 
- Identificar os conjuntos domínio, 
contradomínio e imagem de uma 
relação funcional. 
- Reconhecer relações funcionais 
invertíveis. 
Algébrico 
Lei, regra, fórmula, a 
qual seja possível 
explicitar, de forma 
única (excetuando-se 
expressões 
algébricas 
equivalentes), a 
variável dependente 
em termos da 
variável 
independente. 
Realizar um texto da forma 
𝑦 = 𝑓(𝑥) , para uma relação 
funcional 𝑓 cuja variável 
independente é denotada por 
x e a dependente por y. 
- Reconhecer a relação de 
dependência entre variáveis. 
- Reconhecer e definir tipos de 
relações funcionais. 
- Operar com relações funcionais. 
- Dificultar o reconhecimento de 
relações funcionais que não são 
realizáveis algebricamente. 
Gráfico 
Conjunto de pontos 
(𝑥, 𝑦) no plano 
cartesiano (𝑅𝑥𝑅), em 
que (𝑥, 𝑦1) = (𝑥, 𝑦2), 
se e somente se 𝑦1 =
𝑦2. 
 
Plotar pontos (x,y) no plano 
cartesiano, em que y e x estão 
em relação funcional, com x 
variável independente e y 
dependente. 
Esses dados podem ser 
extraídos de uma realização 
tabular, por diagrama, ou 
algébrica. 
- Reconhecer a noção de variação 
e dependência entre variáveis. 
- Caracterizar e reconhecer 
algumas características das 
relações funcionais, tais como: 
zeros, sinal, injetividade e 
monotonicidade. 
- Dificultar o reconhecimento de 
relações funcionais que não são 
realizáveis graficamente. 
Generalização 
de padrões 
Texto declarativo ou 
simbólico que a partir 
de algumas 
informações de uma 
sequência aritmética 
ou geométrica, 
explicita de forma 
geral, seu padrão. 
Expressar um padrão ou 
regularidade para um 
elemento em uma posição 
genérica de uma sequência 
aritmética ou geométrica, em 
termos da sua posição. 
- Reconhecere desenvolver o 
entendimento da relação de 
dependência entre variáveis e de 
variação. 
- Gerar equívocos na 
caracterização da relação 
funcional, com a prevalência do 
modelo linear ou afim para 
produzir generalização de 
padrões. 
Formal 
Associação ou 
correspondência 
univalente e arbitrária 
entre variáveis 
quaisquer. 
Produzir um texto que defina 
função, na qual devem estar 
explicitadas as características 
de univalência e 
arbitrariedade, por intermédio 
de quantificadores. 
- Evidenciar as características de 
univalência e arbitrariedade do 
conceito de função. 
- Propiciar o reconhecimento de 
relações que são funcionais em 
diferentes realizações. 
- Exigir uma familiaridade com a 
terminologia de quantificadores. 
Fonte: Santos e Barbosa (2017, p. 333) 
107 
 
Dreyfus e Eisenberg (1983, p. 131) foram categóricos em sua pesquisa ao 
descrever os desafios no ensino de funções, “[…] devemos ensinar para que nossos 
alunos sejam capazes de compreender noções globais e encontrar inter-relações”. 
 
2.3.1 Uma síntese 
 
Uma boa parte dos autores que analisou os livros didáticos, do início até 
meados do século XX, identificou uma prevalência de representações algébricas 
como principal forma de iniciar o conteúdo de funções. Outros livros, da mesma época, 
abordavam o conceito de função privilegiando os pares ordenados em detrimento das 
outras representações. Com o decorrer do tempo e dos resultados de outras 
investigações apontando a importância de tratar do conceito de função a partir de sua 
natureza relacional, os livros didáticos do começo do século XXI começaram a trazer 
mudanças nas formas de apresentar o conceito de função, deixaram de priorizar a 
função como pares ordenados e passaram a evidenciar outras representações como 
tabular e gráfica, que correspondem às primeiras noções de função. 
Além disso, identificou-se como os livros didáticos alteraram o posicionamento 
do conceito de funções ao longo dos capítulos. No final do século XIX e começo do 
século XX, o tópico de funções aparecia ao final dos livros. A partir da década de 1940, 
tal tópico mudou de posição e começou a ser ensinado mais cedo, mas depois de 
tópicos como equações, sistema de números e operações fundamentais. Essa 
mudança corresponde ao processo epistêmico pelo qual o conceito de função passa 
ao longo do tempo. 
Dos textos analisados, muitos evidenciaram a importância de trabalhar o 
conceito de funções por meio de múltiplas representações e com diferentes situações. 
A utilização dos pares ordenados como início da discussão do conceito de função, 
para muitos autores, gera uma visão estática, já a natureza de dependência, ao 
contrário, permite aos estudantes perceber a dinamicidade que o conceito de função 
proporciona, principalmente em situações cotidianas. 
Um resultado vindo do texto de Cha (1999) é a classificação das definições de 
função em: lógica, genética, analógica e por expressão. Essa classificação 
corresponde ao percurso epistêmico do conceito de função. 
Outro aspecto, a considerar, são os diferentes tipos de representação que uma 
função pode assumir, esse aspecto já havia aparecido nas perspectivas histórica e 
108 
 
cognitiva. Entretanto, poucos textos aprofundam sobre os tipos de representação, em 
sua maioria, ficam atidos nas formas gráfica, tabular e algébrica. E ainda, não 
discutem a possibilidade de alguns tipos de função não terem todos os tipos de 
representação (Equações 1, 2, 3 e 5). 
Diferentes autores não têm um consenso sobre quais deveriam ser as 
abordagens didáticas para o ensino de função, isto demonstra a complexidade deste 
conceito. Também foi possível identificar a dificuldade em mapear todos os conceitos 
relativos ao conceito de função. 
Essa etapa, de compreensão do processo didático, aliadas às outras duas 
etapas: histórica e cognitiva, nos permitiram “despertar” para uma nova forma de 
compreender o conceito de função: como um Campo Conceitual, no qual estão 
imbricadas situações históricas que levaram os matemáticos a desenvolverem novas 
formas de conceber o conceito de função, seja como definições, novas funções e, 
principalmente, novas representações. 
 
2. 4 UM DESPERTAR CONCEITUAL PARA FUNÇÃO 
 
Ao longo desse capítulo, foram descritos vários métodos e definições para 
gerar e representar funções. Uma pergunta, que pode ser feita é: qual era a natureza 
do conceito de função durante cada período histórico? Três características ou 
representações podem ser discernidas em sua evolução: a algébrica (a fórmula, a 
expressão analítica), a geométrica (a curva) e a abstrata/lógica (a regra, a 
correspondência). Pode-se dizer que em vários momentos, uma ou outra dessas 
representações foi mais presente. 
No início do século XVII, devido a criação da geometria analítica e da ascensão 
da Matematização da ciência, um grande número e variedade de curvas foram 
desenvolvidas. Ainda no mesmo século, é visto que as curvas e suas equações foram 
os principais objetos de estudo do cálculo, que, com o decorrer do tempo, foram sendo 
alterados para aspectos algébricos sem, ainda, fazer referência às curvas. 
No início do século XVIII, um novo conceito de função foi desenvolvido, este 
era algébrico e havia sido pensado como uma fórmula única, uma única expressão 
analítica que pudesse representar cada função. Com a discussão da resolução das 
cordas vibrantes e do desenvolvimento das séries de potência, o conceito de função 
109 
 
foi estendido para incluir funções dadas por duas ou mais expressões analíticas. 
No começo do século XIX, o surgimento do conceito de função como uma regra 
ou correspondência arbitrária foi desencadeada pelos desenvolvimentos no cálculo, 
especialmente aqueles advindo de Jean-Baptiste Joseph Fourier e Augustin-Louis 
Cauchy. Nesse período, com o advento do cálculo diferencial e integral, o estudo do 
comportamento de uma função sobre a reta real foi substituído por um estudo da 
função em pontos de um intervalo na reta real. 
O conceito de função mudou para atender a uma nova perspectiva, de uma 
fórmula universalmente válida para uma regra focada na correspondência entre os 
números, a chamada definição de função de Johann Peter Gustav Lejeune Dirichlet 
da década de 1820 é indicativa dessa nova visão: “[...] 𝑦 é uma função de uma variável 
𝑥, definida no intervalo 𝑎de insatisfação, pois alguns 
110 
 
alegaram que a definição de Johann Peter Gustav Lejeune Dirichlet dava uma 
“licença” ampla para criar funções. Essas dúvidas faziam parte do movimento 
intuicionista da época, o qual passou a questionar vários conceitos e práticas da 
Matemática do século XIX. 
Esse movimento liderou um avanço do ponto de vista pedagógico, pois levou 
os professores e, consequentemente os estudantes a se perguntarem as razões para 
o estudo de tais conceitos. Além disso, os fez perceber que a Matemática não é 
apenas fórmulas e imagens. No nosso caso, que as funções não são apenas 
expressões analíticas ou curvas, embora as duas sejam conceitos presentes nas 
correntes dominantes do pensamento matemático - a algébrica (ou analítica) e a 
geométrica (ou sintética) (KLEINER, 1993). 
Uma vez que os intuicionistas se “rebelaram” e a psicologia do desenvolvimento 
humano se desenvolveu, muitos trabalhos de caráter cognitivista foram realizados 
para compreender o processo de aprendizagem, estando eles vinculados à história 
da Matemática ou à própria evolução biológica do sujeito. Essas pesquisas permitiram 
que novas formas de ensinar funções fossem desenvolvidas a partir de resultados 
experimentais, que geraram teorias de aprendizagem diversas (KLEINER, 1993). 
As teorias de aprendizagem apresentadas nas seções anteriores mostram a 
busca por diferentes formas de compreensão do processo cognitivo do sujeito. Além 
do que, dadas suas peculiaridades, todas elas são derivadas da Epistemologia 
Genética de Jean Piaget. 
De alguma forma, elas procuram desvendar o processo pelo qual um sujeito 
aprende e conceitualiza um conceito ou um conjunto de conceitos. Nesse contexto, e 
assumindo a Teoria dos Campos Conceituais de Gérard Vergnaud, como caminho 
para desvendar essa conceitualização, no próximo capítulo os conceitos e 
características dessa teoria são aprofundados, com o intuito, ao final, de buscar 
responder à nossa pergunta de pesquisa. 
 
111 
 
CAPÍTULO 3 – TEORIA DO CAMPOS CONCEITUAIS 
 
 
“Só conhecendo a forma como os alunos 
aprendem é possível ensinar”. 
Gérard Vergnaud 
Uma vez apresentada a história; do conceito de função por meio das três 
perspectivas: histórica, cognitiva e didática, tratamos agora de apresentar os aspectos 
da Teoria dos Campos Conceituais. 
Na seara dos conceitos, nos interessa formalizar o que são conceitos 
matemáticos. Muitos matemáticos, psicólogos e filósofos se dedicaram (e têm se 
dedicado) a compreender como um conceito matemático é formado. Teorias advindas 
da filosofia (principalmente da filosofia da linguagem), da psicologia, da epistemologia, 
da sociologia, da antropologia, dentre outras áreas, têm contribuído para esclarecer 
esse ponto. 
 
 
3. 1 DO CONCEITO AO CAMPO CONCEITUAL 
 
Do ponto de vista epistemológico e psicológico, Piaget, Grize, Szeminska e 
Bang (1968) e, Beth e Piaget (1966), trouxeram inúmeras contribuições ao campo do 
conhecimento em geral e da Matemática, em particular. Vergnaud (1996a), ao 
apresentar algumas ideias essenciais de Piaget e sua equipe que interessam à 
didática da Matemática, afirma que Piaget: 
[...] estudou o desenvolvimento de muitos conceitos: o de número, espaço, 
tempo, velocidade, acaso, proporcionalidade etc., a psicologia das estruturas 
gerais do pensamento. Ele se sentiu capaz de identificar uma série de 
estágios gerais, dos quais os dois últimos, em sua opinião, foram 
caracterizados por estruturas diretamente inspiradas pela lógica: 
 - a fase das operações 'concretas', pelo conceito de agrupamento; 
 - a fase de operações 'formais', pelo grupo INRC16 (VERGNAUD, 1996a, p. 
185). 
Contudo, Vergnaud (1996a), ao fazer uma análise dos últimos estágios aos 
 
16 Por Grupo INRC, “Piaget costumava considerar o estágio formal do desenvolvimento cognitivo que 
poderia ser descrito como uma coordenação do relacionamento entre quatro transformações de 
sentenças: N= negação, R = reciprocidade, C= correlação; I = identidade. Elas formam um Grupo de 
Klein” (VERGNAUD, 1996a, p. 194, tradução nossa). Para maiores esclarecimento sobre o grupo INRC 
sugiro a leitura do excelente texto El grupo de transformaciones de Piaget, de Gutiérrez (1989). 
112 
 
quais Piaget e sua equipe buscaram como se dá o desenvolvimento dos conceitos 
matemáticos, em específico o de função linear, foi taxativo: 
[...] o grupo INRC não contribui com quase nada para a análise. Minha 
conclusão sobre este ponto é, portanto, clara. O que cria a unidade de um 
processo de conceituação são mais os vínculos longitudinais do que a 
associação transversal. A área conceitual das Estruturas Multiplicativas e da 
proporcionalidade, que é dominada por estudantes e adultos em um processo 
lento e gradual, fornece um arcabouço teórico mais operacional para 
pesquisa e ensino do que a estrutura lógica que deveria caracterizar o estágio 
operatório ‘formal’ (VERGNAUD, 1996a, p. 187). 
Vergnaud (1981, p. 7) em seu texto sobre quais os ensinamentos de Piaget 
para a didática, aponta algumas ideias teóricas do epistemólogo: “- conceito de 
invariante operatório; - a função simbólica; - o interacionismo; - a noção de equilíbrio”. 
Outro avanço trazido por Piaget e seus companheiros é o conceito de esquema. 
Vergnaud (1996a) afirma que três ideias trazidas pelo grupo de Piaget ajudam a 
compreender um esquema: 1) a de que um esquema é um todo funcional dinâmico, 
2) que exemplos de esquemas podem ser encontrados na área da atividade sensório-
motora e, 3) que os esquemas não são importantes apenas para a área da atividade 
sensório-motora, mas também para as atividades intelectuais. Essas três ideias 
ajudaram Gérard Vergnaud ao adaptar o conceito de esquema para sua teoria dos 
Campos Conceituais. 
Do ponto de vista da linguagem, Vygotsky (2001), Vygotsky, Luria e Leontiev 
(2010) e Leontiev (1981), avançaram na teoria da linguagem e da atividade, 
desencadeando discussões a respeito da função simbólica e da linguagem, a 
metacognição e a tomada de consciência. Vergnaud (2003, p. 37) apresenta em um 
quadro os principais constructos das teorias de Piaget e Vygotsky, tornando possível 
compará-las e estabelecer semelhanças e diferenças (Quadro 15). 
 
Quadro 15 – Relações entre Piaget e Vygotsky 
Piaget Vygotsky 
Esquema Teoria da Atividade 
Invariante Operatório Conceito Cotidiano x Conceito Científico 
Função simbólica Linguagem e significação das palavras 
Tomada de Consciência Consciência e Metacognição 
Interação sujeito-objeto Interação adulto-criança 
Estádio e Equilibração Zona de Desenvolvimento Proximal 
Imitação – Interiorização Internalização 
Estrutura de conjunto Sistema de conceitos científicos 
Fonte: Vergnaud (2003, p. 37) 
 
Para Vergnaud (2003, p. 24), tanto Vygotsky quanto Piaget, mesmo possuindo 
metodologias de pesquisa diferentes, desenvolveram a ideia de que 
113 
 
[...] a conceitualização implica em um retorno reflexivo sobre a própria 
atividade, [que] enfatiza a relação entre as propriedades do objeto e as 
propriedades da ação. Uma atividade que, há trinta anos, denomina-se de 
metacognição. E a ideia de que devemos ser cognitivos, para dar conta de 
uma tarefa, e metacognitivos, para compreender o que fizemos (VERGNAUD, 
2003, p. 24, acréscimo nosso). 
Nesse ponto, do processo de conceitualização, Vergnaud (1982) se afasta das 
teorias mais clássicas que singulariza um conceito e, passa a conceber como 
interativa a sua formação, longe de uma única significação, sem que uma definição 
dê conta de toda a complexidade de um conceito. Além disso, Vergnaud adaptou os 
termos de Jean Piaget, ao “[...] substituir a interação sujeito-objeto pela interação 
esquema-situação17” (OTERO, 2014, p. 15, tradução nossa), no cenário de uma sala 
de aula. 
Como afirma Grenier (2007, p. 3), “[...] os conceitos científicos nunca estão 
sozinhos e não podem ser completamente isolados, é necessário levar em conta asrelações entre os diferentes conceitos envolvidos em qualquer situação”. Nesse 
aspecto, Grenier (2007) defende que o conhecimento emerge de problemas a serem 
resolvidos e situações que precisam ser dominadas. Assim, para ela, um conceito 
matemático é funcional e significativo se as pessoas (ou os estudantes no contexto 
da sala de aula) conseguem utilizar tal conceito numa ampla variedade de situações-
problema. 
Para Vergnaud (1993, p. 1) “[...] um conceito não pode ser reduzido à sua 
definição” e é “[...] através das situações e dos problemas a resolver que um conceito 
adquire sentido”. Ele salienta que a natureza dos problemas pode ser teórica ou 
prática e que o papel da linguagem e da representação do conceito são fundamentais. 
Na esteira do que ele considera (ou não) conceito, Vergnaud, Halbwachs e 
Rouchier (1978) afirmam que, para compreender como os conceitos são constituídos 
nos diferentes níveis, é preciso distinguir três elementos interdependentes, a saber: 
invariante operatório, regras de ação e cálculo relacional. 
Nessa perspectiva de uma concepção interativa para um conceito em 
formação, ele concebe um conceito como um triplete (S, I, )18. 
S: conjunto de situações que fazem o conceito significativo 
I: conjunto de invariantes que constituem o conceito 
 
17 O uso do termo esquema-situação é uma simplificação da interação do “esquema do sujeito” com a 
situação, ou seja, o esquema do sujeito se adapta às situações que lhe são impostas. 
18 Vergnaud apresenta essa caracterização de um Campo Conceitual em diversos outros textos 
(VERGNAUD, 1989; 1990; 1993; 1996b; 1996d; 2003; 2009c; 2013; 2017b; VERGNAUD, MOREIRA, 2017). 
Trouxemos aqui uma das primeiras caracterizações, se não a primeira. 
114 
 
: conjunto de representações simbólicas utilizadas para representar o 
conceito, suas propriedades e as situações referentes a ele (VERGNAUD, 
1982, p. 36, tradução nossa). 
Otero (2014, p. 27) chama atenção para o fato que, essa 
[...] definição mostra que os conceitos são compostos por um elemento do 
sujeito, como os invariantes operatórios presentes nos esquemas, de um 
elemento objetivo de natureza epistêmica, como os tipos de situações, que 
por sua vez interagem dialeticamente com os esquemas, e de um elemento 
semiótico, que se refere ao sistema de signos ou de representação, usados 
para expor os conceitos, as relações entre eles e para se referir aos objetos. 
 
3. 2 CAMPO CONCEITUAL 
 
Para Vergnaud (2008, p. 9), um Campo Conceitual é composto de “[…] um 
conjunto de situações cujo domínio progressivo exige uma variedade de conceitos, 
esquemas e representações simbólicas intimamente conectados e todos os conceitos 
que contribuem para o controle dessas situações”. 
Otero (2014) ainda define um Campo Conceitual como “[...] um conjunto de 
situações, cujo domínio requer uma variedade de conceitos, procedimentos e 
representações simbólicas estreitamente conectadas umas às outras” (VERGNAUD, 
1982, p. 36). Para Grenier (2007, p. 3, tradução nossa), essa “[...] noção de Campo 
Conceitual permite: substituir um conceito por um conjunto de conceitos que lhe são 
próximos e especificar as classes de problemas para as quais esses conceitos são 
ferramentas de resolução (portanto esclarecer seus significados)”. 
Vergnaud (1993, p. 9) explica que “[...] o conceito de situação não tem aqui o 
sentido de situação didática, mas o de tarefa. A ideia é que toda situação complexa 
pode ser analisada como uma combinação de tarefas, cuja natureza e dificuldades 
específicas devem ser bem conhecidas”. Para explicar o que são as situações, 
Vergnaud (1985) afirma que, 
[...] os conceitos de adição ou subtração, por exemplo (mas isso vale para o 
conceito de força, o conceito de corrente elétrica, o conceito de interseção...), 
fazem sentido em uma variedade de situações e classes de problemas cujas 
características devem ser analisadas, e que devem ser classificadas de forma 
precisa e exaustiva (VERGNAUD, 1985, p. 248, tradução nossa). 
Essa relevância de classificar de forma precisa e exaustiva possui três razões 
importantes: 1) razão de ordem funcionalista, 2) razão de natureza estruturalista e, 3) 
razão desenvolvimentista e epistemológica. A primeira, diz respeito “[...] ao sentido da 
aprendizagem e do discurso. Em que situações precisamos adicionar ou subtrair? 
115 
 
Para responder a que perguntas?” (VERGNAUD, 1985, p. 248). 
A segunda, de natureza estruturalista, trata da diversidade das 
[...] tarefas cognitivas envolvidas em diferentes situações: não é a mesma 
coisa fazer uma subtração para encontrar uma diferença (Pierre tem 5 doces, 
Julie tem 8 doces, quem tem mais e como muitos mais?), para encontrar o 
estado inicial de uma coleção que cresceu (Robert acabou de ganhar 4 
bolinhas, agora tem 9, quantas tinha antes de jogar?), ou simplesmente para 
saber o que resta após o consumo (Stéphane tinha 8 doces, ele comeu 3, 
quantos ele tem?) (VERGNAUD, 1985, p. 248). 
A terceira e última razão, de ordem desenvolvimentista e epistemológica 
procura compreender como um sujeito consegue dominar diferentes estruturas 
gradualmente; se existem contradições entre a situação apresentada e a concepção 
do sujeito e de que maneiras é possível ampliar as concepções do sujeito (VERGNAUD, 
1985). 
Para além das razões apresentadas por Gérard Vergnaud sobre as diferentes 
situações, ele ainda distingue as situações em duas classes: 
1) classes de situações em que o sujeito dispõe, no seu repertório, em dado 
momento de seu desenvolvimento e sob certas circunstâncias, das 
competências necessárias ao tratamento relativamente imediato da situação; 
2) classes de situações em que o sujeito não dispõe de todas as 
competências necessárias, o que o obriga a um tempo de reflexão e 
exploração, a hesitações, a tentativas frustradas, levando-o eventualmente 
ao sucesso ou ao fracasso (VERGNAUD, 1993, p. 2). 
Nas duas classes de situações, temos o conceito de esquema, “[...] a 
organização invariante do comportamento para uma classe de situações dada” 
(VERGNAUD, 1993, p. 2), porém, o esquema opera de maneiras diferentes. No primeiro 
caso, como o sujeito já possui as competências necessárias, o esquema, nesse caso, 
um algoritmo automatizado, será o mesmo para uma mesma classe de situações. No 
segundo caso, não há um esquema previamente definido e, portanto, o sujeito utiliza 
dos esquemas já existentes para adaptá-los à nova situação. “Os esquemas estão no 
centro do processo de adaptação das estruturas cognitivas: assimilação e 
acomodação” (VERGNAUD, 1993, p. 3). “Nunca se deve esquecer que o eskema19 é 
uma forma de organização da atividade para uma certa classe de situações” 
(VERGNAUD, 2017a, p. 38). 
 
19 A palavra eskema aqui aparece de forma diferente, pois a tradução foi realizada pelo Grupo de 
Estudos sobre Educação, Metodologia da Pesquisa e Ação (GEEMPA), liderado pela professora 
Esther Grossi, o qual defende o uso do K para a definição de Vergnaud de eskema como os recursos 
que uma pessoa utiliza para enfrentar uma classe de situações. Essa diferença é pautada na 
diferença existente entre schème e schèma, do francês. Schèma é interpretado como o desenho, a 
figura esquemática, enquanto schème significa a regra que utilizamos para traçar uma figura, a ação. 
116 
 
Otero (2014, p. 17, tradução nossa) esclarece que “[...] há uma relação dialética 
entre situações e esquemas, a existência de uns pressupõe a dos outros”. Dessa 
forma, o esquema é o local em que se encontram os conhecimentos que geram as 
ações do sujeito, são os elementos cognitivos que fazem a forma operatória atuar. 
Vergnaud (1996d), a partir de Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968), caracteriza o 
conhecimento em duas formas: operatória e predicativa. A forma operatória diz 
respeito ao saber-fazer e, a forma predicativa, ao saber explicitar os objetos e suas 
propriedades. Aqui, cabem alguns questionamentos: um conceitoé apreendido 
quando sabemos utilizá-lo ou quando sabemos explicitá-lo? No caso do conceito de 
função, se eu conheço a definição de uma função e consigo explicitá-la nas diferentes 
representações, significa que eu apreendi o conceito? O que seria o saber-fazer no 
caso de uma função? 
Observamos que a noção tradicional de conceito não dá conta de responder a 
essas perguntas, pois o conceito não é descrever, não é definir, não é saber utilizar, 
mas é o conjunto de tudo isso, ou seja, significa entender e compreender o triplete (S, 
I, ) em sua forma plena. Voltando ainda ao esquema, para Vergnaud (2019), ele é 
uma parte importante para a constituição de um conceito. O esquema, segundo 
Vergnaud (2019), 
[...] é uma forma de organização da atividade, destinada a uma classe de 
situações. Ele inclui: 
1 um objetivo ou vários 
2 regras de ação; de tomada de informação e de controle 
3 invariantes operatórios: conceitos-em-ação e teoremas-em-ação20 
4 possibilidades de inferência (VERGNAUD, 2019, p. 7). 
Esses quatro elementos possuem características diferentes, o primeiro diz 
respeito à intenção do sujeito, o segundo está vinculado ao “desenvolvimento 
temporal da atividade (ações e coleta de informação)”, o terceiro refere-se “às 
conceituações (frequentemente implícitas, eventualmente explícitas) que organizam 
esse desenvolvimento”, e o quarto elemento, é sobre os “[…] cálculos que tomam 
lugar durante o percurso (subobjetivos e expectativas, lições obtidas)” (VERGNAUD, 
2019, p. 7). 
E ainda, são “[...] as situações que dão sentido aos conceitos matemáticos, mas 
 
20 Vergnaud (1996d) difere teorema-em-ação (ou teorema em ato para alguns autores) de conceito-
em-ação (ou conceito em ato para alguns autores). Se temos o isomorfismo de uma função linear, 
podemos afirmar que 𝑓(𝛽𝑥) = 𝛽𝑓(𝑥) é um teorema-em-ação, enquanto 1 é um conceito-em-ação. “A 
diferença é que um teorema pode ser verdadeiro ou falso, enquanto que um conceito não é 
verdadeiro nem falso, mas apenas pertinente ou não pertinente” (VERGNAUD, 1996d, p. 16). 
117 
 
o sentido não se contém nas situações em si mesmas” (VERGNAUD, 1993, p. 18). E o 
sentido para Vergnaud (1993) é uma “[...] relação do sujeito com as situações e os 
significantes”, ou melhor, 
[...] os esquemas evocados no sujeito individual por uma situação ou por um 
significante constituem o sentido desta situação ou deste significante para 
aquele sujeito. Esquemas, ou seja, comportamentos e sua organização. O 
sentido da adição para um sujeito individual é o conjunto dos esquemas que 
ele pode acionar para tratar de situações com que venha a confrontar-se, 
concernentes à idéia de adição. É também o conjunto dos esquemas que ele 
pode acionar para operar com os símbolos numéricos, algébricos, gráficos e 
linguísticos que representem a adição (VERGNAUD, 1993, p. 18). 
Desta forma, a linguagem e os significantes são essenciais na teoria dos 
Campos Conceituais, pois eles possuem três funções: “[...] ajuda à designação e, 
portanto, à identificação das invariantes: objetos, propriedades, relações e teoremas; 
ajuda ao raciocínio e à inferência; ajuda à antecipação dos efeitos e metas, à 
planificação e ao controle da ação” (VERGNAUD, 1993, p. 18); todos os elementos 
presentes num esquema. 
Em relação às regras ou controle de ação, Vergnaud, Halbwachs e Rouchier 
(1978, p. 10) as definem como uma regra que permite criar ações conforme “[…] os 
valores tomados por determinadas variáveis da situação. Essas variáveis podem 
mudar ao longo do tempo, ou de uma situação para outra; uma regra (ou um conjunto 
de regras) é, no entanto, usada para toda uma classe de situações”. 
No caso da possibilidade de inferências, Vergnaud, Halbwachs e Rouchier 
(1978) admitem que essas inferências são uma dedução feita pelo sujeito em uma 
situação, utilizando os invariantes operatórios de que dispõe no campo das situações 
consideradas. A inferência pode ser descrita, em geral, por uma composição ou uma 
transformação de relações e propriedades. 
Nos esquemas, estão presentes os invariantes operatórios. Para Vergnaud 
(1976-1977), o conceito de invariante é o mais decisivo na teoria de Piaget. Os fatos, 
as mudanças e adaptações psicológicas acontecem ao redor dos invariantes 
operatórios, que, segundo Vergnaud, não podem ser isolados dos outros conceitos, 
constituindo assim, a pedra angular do Campo Conceitual (VERGNAUD, 1976-1977). 
Vergnaud (2017a, p. 41) esclarece ainda que “[...] o eskema é um conceito que 
olha para a organização da atividade enquanto o tempo transcorre. Os Invariantes 
Operatórios têm a ver com as formas explícitas dos objetos e dos seus predicados”. 
Os invariantes remetem à noção de conceitualização, a identificação dos objetos e 
118 
 
suas propriedades. 
Para Vergnaud (1976-1977), ao exemplificar como uma criança aceita ou não 
um invariante operatório numa relação binária no domínio dos reais com a utilização 
de um operador multiplicativo, afirma que “[...] o operador é verdadeiramente um 
operador invariante apenas se for idêntico a si mesmo por meio desses cálculos 
relacionais, e isso com suficiente grau de evidência para a criança” (VERGNAUD, 1976-
1977, p. 389, tradução nossa). Se a criança não tiver evidências de que o operador 
funciona, ela deixa de aplicá-lo na solução da situação. 
Vergnaud (1976-1977), chama a atenção para dois aspectos importantes sobre 
os invariantes operatórios: 
1) se, na apropriação dos invariantes operatórios, o critério da ação do sujeito 
é o mais decisivo, é fundamentalmente porque este se situa ao nível do 
significado e, portanto, do conceito, e não do significante. Ater-se às 
explicações verbais do sujeito, ao uso que ele faz das palavras e dos 
símbolos, é correr o risco de tomar pelo conceito, a palavra ou o signo que 
designa o conceito. Na velha questão da relação entre linguagem e 
pensamento, o critério da ação não suprime o da linguagem, mas subordina-
o a outro critério que é, em última instância, o do universo de invariantes 
operatórios que alimenta e que rege a ação e que é apenas parcialmente 
representado na língua. 
2) Tudo o que foi dito anteriormente pressupõe que os objetos bem 
identificados 𝑥, 𝑦, 𝑧 já existem sem ambiguidade para o sujeito, o que remete 
ao problema do objeto permanente idêntico a si mesmo e único. No entanto, 
se esse problema for resolvido muito cedo para determinados objetos, não é 
para todos. Constituir ou apropriar-se de um novo invariante operatório é de 
fato construir um novo objeto permanente, pois a equivalência das variáveis 
x ou y entre elas se transforma na identidade do valor tomado pelo descritor 
P ou pela relação R21. 
Isso permite que o sujeito tome esse valor por sua vez para um objeto, capaz 
de ser ele próprio descrito e relacionado, e cuja existência adquire assim um 
grau de evidência suficiente. E assim por diante. O conceito de invariante 
operatório permite, assim, não só apreender certas mudanças qualitativas no 
comportamento da criança, mas também apreender o princípio de construção 
de todo o edifício cognitivo. 
Os invariantes operatórios se dividem em três tipos lógicos: 1) invariantes do 
tipo “proposição”, que podem ser verdadeiras ou falsas, os “teoremas-em-ação” são 
invariantes desse tipo; 2) invariantes do tipo “função proposicional”, que não são 
suscetíveis de serem verdadeiras ou falsas, mas são elementos importantes na 
construção das proposições, os “conceitos-em-ação” são exemplos dessa categoria. 
Há ainda os 3) invariantes do tipo argumento. Nesse caso, podemos inferir que as 
 
21 Vergnaud (1976-1977, p. 388) estabelece em parágrafos anteriores que “[...] Além das funções 
proposicionais unárias 𝑃(𝑥) existem funções proposicionais com várias variáveis. As relações binárias 
𝑅 (𝑥, 𝑦). As relações ternárias 𝑅 (𝑥, 𝑦, 𝑧), das quais pertencem todas as leis de composição binária 
como 𝑥 + 𝑦 = 𝑧. Relações quaternárias etc.”. 
119funções proposicionais podem possuir argumentos (ou propriedades) (Quadro 16). 
 
 Quadro 16 – Tipos de Invariantes Operatórios 
Tipos Invariantes Operatórios Descrição 
Na forma de Proposição Teoremas-em-ação 
Na forma de Função proposicional Conceitos-em-ação 
Na forma de Argumento Propriedades da função proposicional 
Fonte: da pesquisa 
O tipo lógico dos conceitos-em-ação difere do tipo lógico dos teoremas-em-
ação, os primeiros são funções proposicionais. Funções proposicionais e proposições 
estabelecem uma relação dialética, ou seja, não há proposição sem funções 
proposicionais, nem função proposicional sem proposições. De modo prático, 
conceitos-em-ação e teoremas-em-ação são desenvolvidos em estreita mutualidade 
(VERGNAUD, 1993). 
Podemos ter funções proposicionais com dois argumentos (relações binárias), 
três argumentos (relações ternárias como as leis de composição binária), quatro 
argumentos (relações de proporcionalidade) e “n” argumentos. 
Quem fala em função proposicional e proposição fala em argumento. Os 
lógicos clássicos costumavam tomar seus exemplos entre os objetos 
materiais comuns e suas propriedades. Eram então argumentos a, b e c 
(valores particulares das variáveis x, y e z) objetos materiais como o livro, a 
mesa ou o personagem Paulo; e funções proposicionais propriedades e as 
relações P, R2, R3 [...]. Por exemplo: “Paulo põe o livro em cima da mesa” 
pode ser escrito R3 (Paulo, livro, mesa), proposição esta resultante da 
atribuição de valores particulares aos argumentos da função proposicional R3 
(x, y, z) “x põe y em cima de z”, na qual x é uma pessoa, y um pequeno objeto 
material manipulável, e z um suporte possível (VERGNAUD, 1993, p. 7). 
Vergnaud (1993, p. 7) exemplifica que os argumentos, em Matemática, “[...] 
podem ser objetos materiais (o navio está à direita do farol), personagens (Paulo é 
maior que Celina), números (4 + 3 = 7), relações (‘maior que’ é uma relação 
antissimétrica), ou mesmo proposições (‘8 é divisor de 24’ é a recíproca de ‘24 é 
múltiplo de 8’)”. 
Os “teoremas-em-ação” e os “conceitos-em-ação” não são teoremas e não são 
conceitos, respectivamente. Esses últimos podem ser explicitados e passíveis de 
identificar sua pertinência. Nesse sentido, “[...] conceitos e teoremas explícitos são 
apenas a ponta visível do iceberg da conceitualização: sem a parte oculta, formada 
pelas invariantes operatórias, essa parte visível nada seria” (VERGNAUD, 1993, p. 8). 
Otero, Fanaro, Sureda, Llanos e Arlego (2014, p. 11) apontam que na teoria de 
Vergnaud, a “[...] conceitualização é a pedra angular do desenvolvimento cognitivo”. 
Para Vergnaud (2017a), a conceitualização é a constatação da existência dos 
120 
 
objetos do mundo, suas propriedades, suas transformações e suas relações. A 
constatação passa pela identificação desses objetos, seja por um contato direto pela 
percepção, ou por meio de uma construção cultural coletiva e pessoal. Nesse 
contexto, assume-se que o conceito de função se dá por meio de uma criação 
comunitária e pessoal, uma vez que o desenvolvimento do conceito perpassa o 
sujeito, que o constrói, e pelo coletivo, que o verifica e “dá” sua permissão para aceitá-
lo ou não. 
No caso de uma mesa, que é um objeto, acessamos esse objeto de maneira 
direta, pela percepção temos acesso às suas propriedades e à sua identidade. 
Entretanto, no caso de uma função, que também é um objeto (matemático), não temos 
um acesso direto, pois se trata de “[...] um objeto que resulta de um longo trabalho, de 
uma construção cultural e coletiva através da ciência, notadamente pelos matemáticos 
e físicos, em longo prazo. Foi um trabalho amplo, com muitas hipóteses antes de ser 
elaborado no século XVIII” (VERGNAUD, 2017a, p. 29). 
Assim, podemos dizer que uma situação envolve diversos conceitos e que um 
conceito se forma a partir de diversas situações, ou ainda, [...] um conceito remete 
necessariamente a várias situações, a vários invariantes, a várias simbolizações 
possíveis” (VERGNAUD, 1985, p. 248, tradução nossa). “Um conceito não é totalmente 
um conceito enquanto não for explicitado em um esquema” (VERGNAUD, 2002, p. 5). 
Grenier (2007) considera que nessa “modelagem” da aquisição do 
conhecimento, o sujeito constrói um conceito por meio das muitas situações que ele 
questiona ou utiliza. O sentido que se engendra está ligado aos tipos de situações as 
quais o sujeito teve contato. No entanto, o significado não está completamente 
abarcado nem nas próprias situações, nem apenas nas palavras e símbolos 
associados. A linguagem e outros significantes (representações gráficas ou 
geométricas, tabelas, equações características etc.) cooperam entre si na edificação 
do sentido do conceito, tendo dupla função, de comunicação e de representação. 
Admitindo essa forma de produção do conhecimento, é inegável então que, 
enquanto professores, não teremos certeza se o estudante dominará o significado de 
um conceito apenas sendo apresentado a ele um conjunto de definições, propriedades 
e teoremas, é essencial que ele seja submetido a ter contato com diferentes situações 
que o levarão a mobilizar diferentes esquemas e invariantes operatórios com suas 
diferentes representações. 
121 
 
 
3. 3 HIERARQUIA PSICOGENÉTICA 
 
Na esteira de que uma situação envolve diversos conceitos, e de que eles se 
conectam numa rede, a importância de noção de hierarquia psicogenética dos 
conceitos é “[...] obviamente frutífera para o estudo do desenvolvimento do 
conhecimento em crianças e adolescentes, mas tem um significado mais limitado para 
aquisições em adultos” (VERGNAUD, RICCO, 1977, p. 877). 
O didático explica que essa hierarquia é psicogenética no sentido de que se 
baseia na ordem em que a criança adquire conhecimentos teóricos e práticos. Mas 
depende em grande parte da análise do próprio material. Ela não se reduz a isso e, 
em particular, não se pode confundir a ordem lógica de exposição dos axiomas e 
teoremas de uma teoria constituída, com a ordem de aquisição. 
Essa ordem hierárquica não pressupõe uma ordem total, pode ser parcial 
(Figura 21). Para conceitos mais simples, conseguimos encontrar uma ordem total, tal 
como o exemplo de Vergnaud e Ricco (1977), de que os conceitos de conjunto e 
classe precedem os conceitos de intersecção e união. No entanto, conceitos mais 
complexos, como o de função, por exemplo, possuem características que nem sempre 
supõem uma ordem linear, ou que se tenha garantido que um sujeito adquiriu por 
completo um conceito organizador anterior por completo. 
 
 
Figura 21 - Ordem hierárquica dos conceitos 
Fonte: Vergnaud e Ricco (1977, p. 877) 
122 
 
Na tentativa de compreender melhor a noção de hierarquia, Vergnaud e Ricco 
(1977) apresentam cinco aspectos sobre ela: 1) existe uma hierarquia entre os 
conceitos, 2) as propriedades das diferentes noções e relações não são assimiladas 
de maneira igual entre os sujeitos, 3) o sujeito pode encontrar uma hierarquia entre 
classes e subclasses de problemas e situações, 4) existe uma hierarquia entre os 
procedimentos e, 5) existe hierarquia entre as representações (Figura 22). 
 
 
Figura 22 – Aspectos da Noção de Hierarquia 
Fonte: da pesquisa 
 
O primeiro aspecto mostra que a hierarquia entre conceitos pode ser total ou 
parcial, dependendo de vários fatores. No segundo aspecto, Vergnaud e Ricco (1977) 
apresentam um exemplo de como ele pode funcionar. 
Para o matemático, por exemplo, a anti-simetria e a transitividade da relação 
de ordem são axiomas independentes, situados no mesmo plano e 
igualmente óbvios. Este não é o caso da criança, pois a aquisição da 
transitividade é muito posterior à aquisição da anti-simetria. Da mesma forma, 
a comutatividade da composição de transformações aditivas é mais 
facilmente compreendida do que a propriedade de inversão, pelo menos se 
julgarmos pelas capacidades operativas dos alunos na solução do problema.[...] podemos ainda citar o caso da estrutura de isomorfismo de medidas, 
nesta estrutura, que corresponde a situações em que dois tipos de medidas 
são proporcionais entre si, as diferentes propriedades das funções e 
escalares envolvidos não são adquiridas simultaneamente (VERGNAUD, 
RICCO, 1977, p. 878). 
No terceiro aspecto, da hierarquia entre classes e subclasses, os autores 
consideram essencial distinguir classes de problemas de mesmas noções ou 
A
s
p
e
c
to
s
 d
a
 N
o
ç
ã
o
 d
e
 
H
ie
ra
rq
u
ia
1) Existe hierarquia entre conceitos
2) Propriedades diferentes são assimiladas 
de formas diferentes
3) Pode existir hierarquias diferentes nas 
mesmas situações
4) Existe hierarquia entre os procedimentos
5) Existe hierarquia entre as 
representações
123 
 
propriedades. Para eles, realizar uma diferenciação entre essas classes de problemas 
é tão importante quanto saber quais as capacidades operacionais associadas a uma 
noção ou propriedade. Cientes dessa importância associada a esse tipo de hierarquia, 
os autores apresentam algumas maneiras como são formadas classes e subclasses 
de situações e de que modo elas causam problemas de aprendizagem e de estrutura, 
a mesma classe de problemas pode apresentar dificuldades desiguais de acordo com 
os valores tomados pelas variáveis. A magnitude das quantidades presentes, seu 
caráter decimal ou não, fracionário ou não, discreto ou contínuo, obviamente muda a 
natureza da tarefa. 
Assim, as crianças que passam por problemas com procedimentos não 
canônicos quando os valores são pequenos e discretos, falham quando os valores 
são muito grandes porque não possuem nenhum dos procedimentos canônicos. As 
dificuldades desiguais devido aos diferentes valores possíveis das variáveis não 
dizem respeito apenas às variáveis numéricas, mas também às outras categorias de 
variáveis. 
Podemos encontrar tais desigualdades quando colocamos os estudantes em 
contato com situações de diferentes valores para uma variável qualitativa (cor, forma 
etc.), para valores diferentes de uma variável lógica, para valores positivos ou 
negativos de variáveis quantitativas, entre outros. Também há desigualdade quando 
conteúdos diferentes, representáveis pela mesma estrutura Matemática, são tratados 
de forma diferente (VERGNAUD, RICCO, 1977). 
Os procedimentos utilizados num mesmo problema possuem hierarquia 
(aspecto 4) e, os procedimentos utilizados pelos estudantes são numerosos, 
identificáveis e analisáveis. De posse desses procedimentos, o professor pode 
conduzir seus alunos a procedimentos mais abrangentes. Para os autores seria 
imprudente “[...] privar-se de uma importante ferramenta psicopedagógica, ater-se a 
procedimentos canônicos e, rejeitar como simples erros de procedimentos que, 
quando analisados, refletem uma certa compreensão dos problemas” (VERGNAUD, 
RICCO, 1977). 
Esse aspecto está intimamente ligado aos instrumentos de avaliação do 
professor, pois são eles que podem ajudar a compreender os diferentes 
procedimentos dos alunos, utilizando os erros como fonte de aprendizagem. 
No aspecto 5 - existe hierarquia entre as representações, os autores afirmam 
124 
 
que as representações que a criança faz de um problema são desigualmente efetivas, 
desigualmente abstratas, desigualmente poderosas. Muitas vezes elas só podem ser 
estudadas através dos comportamentos e procedimentos observados. Há 
representações objetáveis, os rastros que a criança deixa no papel ou as explicações 
que dá, por exemplo; e também as representações utilizadas no ensino (VERGNAUD, 
RICCO, 1977, p. 881). 
Portanto, no caso do conceito de função, ou ainda, o Campo Conceitual de 
Função, só pode ser compreendido a partir de uma diversidade de problemas práticos 
e teóricos dentro de uma construção histórico-cultural, levando em consideração 
esses cinco aspectos. Grenier (2007, p. 5) considera que, uma vez “[...] identificado 
os significados de um conceito científico a partir das situações que o caracterizam, 
dos invariantes operatório e dos significantes associados”, é necessário “[...] construir 
um modelo que dê conta do conhecimento que uma pessoa tem de um conceito e do 
seu funcionamento desse conhecimento em um determinado momento”. É dentro 
desse contexto colocado por Grenier (2007) que estamos procurando identificar o 
quarteto de função; elaborar ao longo do tempo um modelo científico que dê conta de 
mostrar a construção do conceito de função que necessita ser alcançado pelos 
estudantes. 
Uma pergunta que poderíamos fazer é: para que um professor precisa disso? 
Das conceitualizações? Do Campo Conceitual? Vergnaud (2017a, p. 32), ao mostrar 
a necessidade de saber que a conceitualização é progressiva e complexa, aponta “[...] 
se não estivermos conscientes da Conceitualização e da sua complexidade 
progressiva podemos falhar como professores”. E ainda, Vergnaud (2017a, p. 48) 
considera que, “[...] um caminho da Conceitualização é partindo dos Invariantes 
Operatórios conscientes explicitáveis, torná-los explícitos e por último formalizá-los. 
Porém, há um caminho inverso. Indo e vindo. Formalizando o conceito e voltando para 
o Invariante Operatório”, ou seja, o papel do professor é de um mediador e como tal 
deve intervir para criar situações de forma oportuna. Ele vai também acompanhar a 
atividade do aluno em situação com as metas, com os Invariantes Operatórios, com 
as regras de ação, com as inferências e com os controles. A mediação, portanto, se 
situa entre esses diferentes elementos (VERGNAUD, 2017a, p. 48). 
Além disso, o modelo de concepção (ou formalização) de um conceito é 
essencial por duas razões: - destacar a pluralidade de pontos de vista possíveis sobre 
125 
 
um mesmo conceito, os modos de processamento associados, a sua adaptação à 
resolução de tal classe de problemas; - diferenciar o conhecimento que o professor 
quer transmitir do conhecimento efetivamente construído pelo aluno (GRENIER, 2007, 
p. 5). É possível desenvolver um modelo de concepção considerando duas 
abordagens diferentes, mas complementares: - da análise das observações diretas 
do comportamento dos alunos na resolução de problemas: ou seja, da análise das 
suas estratégias, discursos, produções; - do estudo epistemológico do conceito, em 
conexão com suas diferentes definições e propriedades no conhecimento acadêmico 
e sua evolução na história. Pode-se, por exemplo, utilizar as concepções identificadas 
pela análise histórico-epistemológica para analisar as observações dos alunos 
(GRENIER, 2007, p. 6). 
Assim, concordando com Grenier (2007), de que um modelo de concepção 
pode ser feito por meio de um estudo histórico do conceito, procuramos identificar e 
caracterizar as situações, os conceitos organizadores, as ideias-base e as 
representações do conceito de função. Entretanto, partindo da hipótese de que os 
conceitos organizadores possam estar presentes nos campos conceituais das 
Estruturas Aditivas e Multiplicativas, apresentamos alguns aspectos desses dois 
campos, além de discussões sobre os Problemas Mistos. 
Ao identificarmos as situações, os conceitos organizadores, as ideias-base e 
as representações de uma Função Afim, teremos condições de assegurar a existência 
de um Campo Conceitual específico para as Funções, desde que identifiquemos as 
diferenças entre seus elementos constituíntes e os dos Campos Conceituais das 
Estruturas Aditivas e Multiplicativas e, dos Problemas Mistos. Além disso, será 
possível dizer se o Campo Conceitual da Função Afim tem relações com os Problemas 
Mistos (adotando aqui os Problemas Mistos como a imbricação entre os campos das 
Estruturas Aditiva e Multiplicativa), ou se os Problemas Mistos fazem parte do Campo 
Conceitual da Função Afim. 
 
3. 4 CAMPO DAS ESTRUTURAS ADITIVAS 
 
Considerando um Campo Conceitual como um conjunto de situações, o campo 
das Estruturas Aditivas é o conjunto de situaçõesque envolvem as operações de 
adição, subtração ou a combinação delas. 
126 
 
Para Vergnaud (1996b, p. 168), o Campo Conceitual das Estruturas Aditivas é, 
“[...] ao mesmo tempo, o conjunto das situações cujo tratamento implica uma ou várias 
adições ou subtrações, e o conjunto dos conceitos e teoremas que permitem analisar 
essas situações como tarefas Matemáticas”. 
Os conceitos constitutivos das Estruturas Aditivas, segundo Vergnaud (1996b), 
são: cardinalidade, medida, transformação temporal, relação de comparação 
quantificada, composição binária de medidas, composição de transformações e 
relações, operação unária, inversão, número natural, número relativo, abscissa, 
deslocamento orientado e quantificado (VERGNAUD, 1996b). 
No texto de 2019, o autor traz uma nova lista de conceitos, agora também 
chamados de conceitos organizadores: quantidades discretas e contínuas, medida, 
Estado/transformação, Comparação significado/significante, Composição binária 
(medidas, transformações, relações), Operação unitária, Inversão, Número 
natural/número relativo, Posição/abscissa/valor algébrico (VERGNAUD, 2019). É trazido 
um comparativo entre os conceitos utilizados no texto de 1996 e no mais recente de 
2019 (Quadro 17). 
 
Quadro 17 – Comparativo entre os conceitos organizadores das Estruturas Aditivas 
Texto de 1996 Texto de 2019 
Cardinalidade Quantidades discretas e contínuas 
Medida Medida 
Transformação temporal Estado/transformação 
Relação de comparação quantificada Comparação significante/significado 
Composição binária de medidas e de 
transformações e relações 
Composição binária (medidas, transformações, relações) 
Operação unária Operação unitária 
Inversão Inversão 
Número natural Número natural/número relativo 
Número relativo - 
Abscissa, Deslocamento orientado e 
quantificado 
Posição/abscissa/valor algébrico 
Fonte: da pesquisa 
 
Do Quadro 17 é possível identificar diferenças nos agrupamentos realizados 
por (VERGNAUD, 2019). Alguns conceitos ele agrupou, outros ele manteve os mesmos 
e, no caso da cardinalidade, ele substituiu por quantidade discreta e contínua. 
Os teoremas que estão atrelados aos conceitos organizadores das Estruturas 
Aditivas e que ajudam na resolução das situações, segundo (VERGNAUD, 1996b, p. 
168), são: 
 
 
127 
 
𝐶𝑎𝑟𝑑(𝐴 ∪ 𝐵) = 𝐶𝑎𝑟𝑑(𝐴) + 𝐶𝑎𝑟𝑑(𝐵), 𝑑𝑒𝑠𝑑𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝐴 ∩ 𝐵 = 𝜙 
(Teorema Fundamental da Medida) 
 
Equação 6 
 
𝐹 = 𝑇(𝐼) ⟹ 𝑇−1, 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑆 = 𝑒𝑠𝑡𝑎𝑑𝑜 𝑖𝑛𝑖𝑐𝑖𝑎𝑙, 𝑇 = 𝑡𝑟𝑎𝑛𝑠𝑓𝑜𝑟𝑚𝑎çã𝑜 𝑒 𝐹 = 𝑒𝑠𝑡𝑎𝑑𝑜 𝑓𝑖𝑛𝑎𝑙 
 
Equação 7 
 
𝐴𝐶⃗⃗⃗⃗ = 𝐴𝐵⃗⃗ ⃗⃗ + 𝐵𝐶⃗⃗⃗⃗ (𝑟𝑒𝑙𝑎çã𝑜 𝑑𝑒 𝐶ℎ𝑎𝑠𝑙𝑒𝑠) ⟹ 𝐴𝐵⃗⃗ ⃗⃗ = 𝐴𝐶⃗⃗⃗⃗ − 𝐵𝐶⃗⃗⃗⃗ , 
𝑞𝑢𝑎𝑙𝑞𝑢𝑒𝑟 𝑞𝑢𝑒 𝑠𝑒𝑗𝑎 𝑎 𝑝𝑜𝑠𝑖çã𝑜 𝑟𝑒𝑠𝑝𝑒𝑐𝑡𝑖𝑣𝑎 𝑑𝑒 𝐴, 𝐵𝑒 𝐶. 
 
Equação 8 
 
 
Vergnaud (1996b) identifica seis relações de base, nas quais é possível 
classificar todas as situações que envolvem operações de adição, subtração ou 
combinação delas. 
As relações aditivas de base são: 
I. A composição de duas medidas numa terceira. 
II. A transformação (quantificada) de uma medida inicial numa medida final. 
III. A relação (quantificada) de comparação entre duas medidas. 
IV A composição de duas transformações. 
V. A transformação de uma relação. 
VI. A composição de duas relações (VERGNAUD, 1996b, p. 172). 
Tais relações podem ser representadas pelo diagrama esquemático a seguir, 
conforme Figura 23. 
 
 
Figura 23 – Representação esquemática das Relações Base das Estruturas Aditivas 
Fonte: Vergnaud (1996b, p. 173) 
128 
 
 
Magina, Campos, Nunes e Gitirana (2008) acrescentam aos três tipos de 
situações-problema propostas por Vergnaud (1996b), extensões, que dizem respeito 
ao nível de dificuldades dos alunos em resolverem os problemas de cada classe; as 
extensões são problemas: prototípicos, de 1a extensão, 2ª extensão, 3ª extensão e 4ª 
extensão (Figura 24). 
 
 
Figura 24 – Classificação das situações aditivas 
Fonte: Magina, Campos, Nunes e Gitirana (2008, p. 51) 
 
 
129 
 
As Estruturas Aditivas são importantes para a pesquisa, pois ao pensarmos 
numa Função Afim do tipo 𝑓(𝑥) = 𝑎𝑥 + 𝑏, a componente +𝑏 está atrelada às 
Estruturas Aditivas. No interessa caracterizar, a componente 𝑎𝑥, que faz parte das 
Estruturas Multiplicativas. 
 
3. 5 CAMPO DAS ESTRUTURAS MULTIPLICATIVAS 
 
Considerando um Campo Conceitual como um conjunto de situações, o campo 
das Estruturas Multiplicativas é o conjunto de situações que envolvem as operações 
de multiplicação, divisão ou a combinação delas. 
Segundo Vergnaud (1996b, p. 168), o Campo Conceitual das Estruturas 
Multiplicativas 
[...] é o conjunto das situações cujo tratamento implica uma ou várias 
multiplicações ou divisões e o conjunto dos conceitos e teoremas que 
permitem analisar estas situações: proporção simples e proporção múltipla, 
função linear e n-linear, relação escalar direta e inversa, quociente e 
produção de dimensões, combinação linear e aplicação linear, fração, 
relação, número racional, múltiplo e divisor etc. 
 
Gitirana, Campos, Magina e Spinillo (2014, p. 24), para além dos conceitos 
apresentados por Vergnaud (1996b), sugerem ainda: razão, taxa, espaço vetorial, 
produto cartesiano, área, volume e o isomorfismo. 
Os teoremas utilizados na resolução das situações em que os conceitos 
organizadores das Estruturas Multiplicativas são necessários, são muitos. Vergnaud 
(1996b) apresenta algumas propriedades, que são caracterizadas como teoremas: 
 
𝑓(𝑛𝑥) = 𝑛𝑓(𝑥) 
Equação 9 
 
𝑓(𝑛1𝑥1 ± 𝑛2𝑥2) = 𝑛1𝑓(𝑥1) ± 𝑛2𝑓(𝑥2) 
Equação 10 
 
𝑓(𝑥) = 𝑎 ∙ 𝑥 ⇔ 𝑥 =
1
𝑎
𝑓(𝑥) 
 
Equação 11 
 
𝑓(𝑛1𝑥1 ∙ 𝑛2𝑥2) = 𝑛1 ∙ 𝑛2 ∙ 𝑓(𝑥1, 𝑥2) 
Equação 12 
 
 
As equações 6 e 7 são propriedades de isomorfismo da função linear, a 
equação 6 é a generalização das relações não inteiras com coeficientes constantes e 
a equação 7 é propriedade da bilinearidade. 
 
130 
 
As relações de base mais simples na estrutura multiplicativa são ternárias e 
quaternárias, porque os problemas utilizam comparação multiplicativa e produto de 
medidas para as relações ternárias e proporção simples, dupla e múltipla para as 
relações quaternárias (VERGNAUD, 1996b). 
Gitirana, Campos, Magina e Spinillo (2014) descrevem os problemas 
multiplicativos divididos em cinco grandes eixos: comparação multiplicativa, proporção 
simples, produto cartesiano, função bilinear e proporcionalidade múltipla. O eixo 
comparação multiplicativa pode ser dividida em três classes: referente desconhecido, 
referido desconhecido e relação desconhecida; o eixo da proporção simples pode ser 
dividido em quatro classes: multiplicação um para muitos, partição ou distribuição, 
cota e quarta proporcional; e, o eixo produto cartesiano apresenta duas classes: a 
combinação e a área (Figura 25). 
 
 
Figura 25 – Eixos e Classes das Estruturas Multiplicativas 
Fonte: adaptado de Gitirana, Campos, Magina e Spinillo (2014, p. 45) 
 
Uma vez apresentada a Estrutura Multiplicativa e, voltando à Função Afim 
𝑓(𝑥) = 𝑎𝑥 + 𝑏, buscamos nos Problemas Mistos, identificar de que modos essas duas 
componentes juntas se comportam, o que pode apontar para indícios da existência do 
Campo Conceitual de Função Afim. 
 
 
Comparação 
multiplicativa
referente 
desconhecido
referido 
desconhecido
relação 
desconhecida
Proporção simples
multiplicação 
um para 
muitos
partição ou 
distribuição
quota
quarta 
proporcional
Produto 
Cartesiano
combinação
área
Função Bilinear
Proporcionalidade 
Múltipla
131 
 
3. 6 OS PROBLEMAS MISTOS 
 
Vergnaud (2009a), afirma que há situações que envolvem problemas de 
aritmética elementar e problemas aritméticos complexos. Esses últimos, possuem 
uma infinidade de possibilidades de classificação. Uma delas diz respeito aos 
Problemas Mistos, que envolvem simultaneamente relações de tipo multiplicativo 
(multiplicação e divisão) e relações de tipo aditivo(adição e subtração). 
Em seus trabalhos, Gérard Vergnaud não exauriu a questão dos Problemas 
Mistos. Na literatura, em geral, encontramos trabalhos que analisam situações que 
envolvem problemas de Estruturas Aditivas e Multiplicativas, contudo, poucos são os 
trabalhos que tratam tais problemas como mistos. Nesse contexto, encontramos nas 
pesquisas do GePeDiMa, textos que contemplam tais problemas e utilizam o termo 
Problemas Mistos (FUZZO, REZENDE, 2021; MIRANDA, 2019; MIRANDA, REZENDE, 
NOGUEIRA, 2021; PERON DA SILVA, 2021; PERON DA SILVA, NOGUEIRA, REZENDE, 2019; 
RODRIGUES, REZENDE, 2019; 2021; RODRIGUES, 2021). 
Um dos primeiros trabalhos, cuja pesquisa tem sido base para as demais do 
GePeDiMa, inclusive desta tese, é a dissertação de Miranda (2019). Neste trabalho a 
autora estabelece as possíveis categorias para os Problemas Mistos a partir de uma 
pesquisa em livros didáticos, na qual ela buscou relações entre as categorias dos 
campos aditivo e multiplicativo. 
A combinação dos cinco tipos de situações do campo multiplicativo com cada 
um dos seis tipos relacionados ao campo aditivo resulta em um total de 30 
(trinta) categorias de situações-problema mistos, que entendemos que 
possam, ou não, se apresentar em situações-problema relacionadas ao 
conceito de função afim presentes em livros didáticos de Matemática 
(MIRANDA, 2019, p. 95). 
O Quadro 18, a seguir, apresenta todas as 30 categorias hipotetizadas por 
Miranda (2019). 
 
Quadro 18 – Categorias dos Problemas Mistos (PM)22 
Situações Campo Aditivo 
(A) 
Situações Campo Multiplicativo 
(M) 
Problemas Mistos 
(PM) 
A1. Composição de medidas 
 
 
 
A2. Transformação de medidas 
 
M1. Comparação multiplicativa 
PM01 - A1.M1 
PM02 - A2.M1 
PM03 - A3.M1 
PM04 - A4.M1 
PM05 - A5.M1 
PM05 - A6.M1 
 
22 Nesta tese, não temos a intenção de apresentar exemplos de problemas de cada uma das 
categorias, uma vez que Miranda (2019) já o fez e, nosso propósito aqui não é discutir as categorias. 
132 
 
Situações Campo Aditivo 
(A) 
Situações Campo Multiplicativo 
(M) 
Problemas Mistos 
(PM) 
 
 
A3. Comparação de medidas 
 
 
 
A4. Composição de transformações 
 
 
 
A5. Transformação de relações 
 
 
 
A6. Composição de relações 
M2. Isomorfismo de medidas ou proporção 
simples 
PM07 - A1.M2 
PM08 - A2.M2 
PM09 - A3.M2 
PM10 - A4.M2 
PM11 - A5.M2 
PM12 – A6.M2 
M3. Produto de medidas ou produto cartesiano 
PM13 - A1.M3 
PM14 - A2.M3 
PM15 - A3.M3 
PM16 - A4.M3 
PM17 - A5.M3 
PM18 – A6.M3 
M4. Função bilinear 
PM19 - A1.M4 
PM20 - A2.M4 
PM21 - A3.M4 
PM22 - A4.M4 
PM23 - A5.M4 
PM24 – A6.M4 
M5. Proporção multiplicativa 
PM25 - A1.M5 
PM26 - A2.M5 
PM27 - A3.M5 
PM28 - A4.M5 
PM29 - A5.M5 
PM30 – A6.M5 
Fonte: Adaptado de Miranda (2019) 
 
Essa classificação dos Problemas Mistos hipotetizados por Miranda (2019), 
subsidia tanto a caracterização do quarteto (situações, conceitos organizadores, 
ideias-base e representações) como a análise de problemas deste tipo, a partir das 
perspectivas histórica e cognitiva. 
Utilizando a classificação de Magina, Campos, Nunes e Gitirana (2008), 
Gitirana, Campos, Magina e Spinillo (2014) e Miranda (2019), podemos hipotetizar um 
novo Quadro, agora mais detalhado. 
Magina, Campos, Nunes e Gitirana (2008) acrescentam à classificação inicial 
de Vergnaud (1996b) das Estrutura Aditivas, extensões dos problemas, a partir das 
dificuldades dos alunos em: protótipo, 1ª. Extensão, 2ª. Extensão, 3ª. Extensão e 4ª. 
Extensão (como pode ser visto na Figura 24). Em texto posterior, Gitirana, Campos, 
Magina e Spinillo (2014), acrescentam às Estruturas Multiplicativas classes aos 
chamados eixos (de acordo com a Figura 25). 
Assim, levando em consideração o acréscimo das cinco extensões de Magina, 
Campos, Nunes e Gitirana (2008) às seis relações de base estabelecidas por 
Vergnaud (1996b), temos então 11 tipos de situações aditivas (terceira coluna do 
Quadro 19 – Classes e Extensões). Da mesma forma, Gitirana, Campos, Magina e 
Spinillo (2014) descrevem novas classes multiplicativas, totalizando então 11 tipos de 
133 
 
situações multiplicativas (sexta coluna do Quadro 19 – Eixos e Classes). 
Admitindo23 que seja possível estabelecer todas as combinações possíveis 
entre as 11 situações aditivas (coluna três) e as 11 situações multiplicativas (colunas 
seis) e, que elas são todas diferentes umas das outras, teremos 121 possíveis 
Problemas Mistos (coluna sete do Quadro 19), ou seja, problemas que envolvem 
simultaneamente os campos aditivo e multiplicativo. 
Seria ainda possível expandir a quantidade de Problemas Mistos 
acrescentando ainda a classificação de Magina, Merlini e Santos (2012) para os tipos 
de classes: contínuas ou discretas. Nesse caso, teremos o dobro de Problemas 
Mistos, ou seja, 242 situações que envolvem os campos conceituais aditivo e 
multiplicativo ao mesmo tempo. 
Uma vez identificada a quantidade de possíveis Problemas Mistos, na próxima 
seção, discutimos o estabelecimento do possível Campo Conceitual das Funções, por 
meio de pesquisas do GePeDiMa que estão procurando articular as situações mistas 
com situações que exigirão conceitos organizadores para a conceitualização do 
conceito de função. 
 
 
23 Essa hipótese é teórica, sendo necessário realizar experimentos com estudantes para comprová-la 
ou refutá-la. 
134 
 
Quadro 19 – Categorização dos Problemas Mistos 
Classes Aditivas 
(A) 
Extensões 
Aditivas 
Classes e 
Extensões 
Eixos 
Multiplicativos 
 (M) 
Classes 
Multiplicativas 
Eixos e 
Classe
s 
Problemas Mistos 
(PM) 
A1. 
Composição de 
medidas 
AD1. 
Prototípico A1.AD1 
A1.AD2 
M1. Comparação 
multiplicativa 
C1. Referente 
Desconhecido 
M1.C1 
M1.C2 
M1.C3 
PM01 - A1.AD1.M1.C1 
PM02 - A1.AD1.M1.C2 
PM03 - A1.AD1.M1.C3 
PM04 - A1.AD2.M1.C1 
PM05 - A1.AD2.M1.C2 
PM06 - A1.AD2.M1.C3 
PM07 – A2.AD3.M1.C1 
PM08 – A2.AD3.M1.C2 
PM09 – A2.AD3.M1.C3 
PM10 – A2.AD4.M1.C1 
PM11 – A2.AD4.M1.C2 
PM12 – A2.AD4.M1.C3 
PM13 – A2.AD5.M1.C1 
PM14 – A2.AD5.M1.C2 
PM15 – A2.AD5.M1.C3 
PM16 – A3.AD6.M1.C1 
PM17 – A3.AD6.M1.C2 
PM18 – A3.AD6.M1.C3 
PM19 – A3.AD7.M1.C1 
PM20 – A3.AD7.M1.C2 
PM21 – A3.AD7.M1.C3 
PM22 – A3.AD8.M1.C1 
PM23 – A3.AD8.M1.C2 
PM24 – A3.AD8.M1.C3 
PM25 – A4.M1.C1 
PM26 – A4.M1.C2 
PM27 – A4.M1.C3 
PM28 – A5.M1.C1 
PM29 – A5.M1.C2 
PM30 – A5.M1.C3 
PM31 – A6.M1.C1 
PM32 – A6.M1.C2 
PM33 – A6.M1.C3 
AD2. 1ª. 
Extensão 
C2. Referido 
Desconhecido 
 
A2. 
 Transformação 
de medidas 
AD3. 
Prototípico 
A2.AD3 
A2.AD4 
A2.AD5 
 
C3. Relação 
Desconhecida 
AD4. 1ª. 
Extensão 
AD5. 4ª. 
Extensão 
M2. Isomorfismo de 
medidas ou 
proporção simples 
C4. 
Multiplicação 
um para 
muitos 
M2.C4 
M2.C5 
M2.C6 
M2.C7 
PM34 - A1.AD1.M2.C4 
PM35 - A1.AD1.M2.C5 
PM36 - A1.AD1.M2.C6 
PM37 - A1.AD1.M2.C7 
PM38 - A1.AD2.M2.C4 
PM39 - A1.AD2.M2.C5 
PM40 - A1.AD2.M2.C6 
PM41 - A1.AD2.M2.C7 
PM42 – A2.AD3.M2.C4 
PM43 – A2.AD3.M2.C5 
PM44 – A2.AD3.M2.C6 
PM45 – A2.AD3.M2.C7 
PM46 – A2.AD4.M2.C4 
PM47 – A2.AD4.M2.C5 
PM48 – A2.AD4.M2.C6 
PM49 – A2.AD4.M2.C7 
PM50 – A2.AD5.M2.C4 
PM51 – A2.AD5.M2.C5 
PM52 – A2.AD5.M2.C6 
PM53 – A2.AD5.M2.C7 
PM54 – A3.AD6.M2.C4 
PM55 – A3.AD6.M2.C5 
PM56 – A3.AD6.M2.C6 
PM57 – A3.AD6.M2.C7 
PM58 – A3.AD7.M2.C4 
PM59 – A3.AD7.M2.C5 
PM60 – A3.AD7.M2.C6 
PM61 – A3.AD7.M2.C7 
PM62 – A3.AD8.M2.C4 
 
PM63 – A3.AD8.M2.C5 
PM64 – A3.AD8.M2.C6 
PM65 – A3.AD8.M2.C7 
PM66 – A4.M2.C4 
PM67 – A4.M2.C5 
PM68 – A4.M2.C6 
PM69 – A4.M2.C7 
PM70 – A5.M2.C4 
PM71 – A5.M2.C5 
PM72 – A5.M2.C6 
PM73 – A5.M2.C7 
PM74 – A6.M2.C4 
PM75 – A6.M2.C5 
PM76 – A6.M2.C6 
PM77 – A6.M2.C7 
A3. 
Comparação de 
medidas 
AD6. 2ª. 
Extensão 
A3.AD6 
A3.AD7 
A3.AD8 
C5. Partição 
ou 
Distribuição 
AD7. 3ª. 
Extensão 
C6. Cota 
C7. Quarta 
Proporcional 
AD8. 4ª. 
Extensão 
A4. 
Composição de 
transformações 
 
- 
A4 
A5 
A6 
M3. Produto de 
medidas ou produto 
cartesiano 
C8. 
Combinação 
M3.C8 
M3.C9 
PM78 - A1.AD1.M3.C8 
PM79 - A1.AD1.M3.C9PM80 - A1.AD2.M3.C8 
PM81 - A1.AD2.M3.C9 
PM82 – A2.AD3.M3.C8 
PM83 – A2.AD3.M3.C9 
PM84 – A2.AD4.M3.C8 
PM85 – A2.AD4.M3.C9 
PM86 – A2.AD5.M3.C8 
PM87 – A2.AD5.M3.C9 
PM88 – A3.AD6.M3.C8 
PM89 – A3.AD6.M3.C9 
PM90 – A3.AD7.M3.C8 
PM91 – A3.AD7.M3.C9 
 
PM92 – A3.AD8.M3.C8 
PM93 – A3.AD8.M3.C9 
PM94 – A4.M3.C8 
PM95 – A4.M3.C9 
PM96 – A5.M3.C8 
PM97 – A5.M3.C9 
PM98 – A6.M3.C8 
PM99 – A6.M3.C9 
A5. 
Transformação de 
relações 
 
C9. Área 
A6. 
135 
 
Classes Aditivas 
(A) 
Extensões 
Aditivas 
Classes e 
Extensões 
Eixos 
Multiplicativos 
 (M) 
Classes 
Multiplicativas 
Eixos e 
Classe
s 
Problemas Mistos 
(PM) 
Composição de 
relações 
M4. Função bilinear - M4 
PM100 - A1.AD1.M4 
PM101 - A1.AD2.M4 
PM102 – A2.AD3.M4 
PM103 – A2.AD4.M4 
PM104 – A2.AD5.M4 
PM105 – A3.AD6.M4 
PM106 – A3.AD7.M4 
PM107 – A3.AD8.M4 
PM108 – A4.M4 
PM109 – A5.M4 
PM110 – A6.M4 
M5. Proporção 
multiplicativa - M5 
PM111 - A1.AD1.M5 
PM112 - A1.AD2.M5 
PM113 – A2.AD3.M5 
PM114 – A2.AD4.M5 
PM115 – A2.AD5.M5 
PM116 – A3.AD6.M5 
PM117 – A3.AD7.M5 
PM118 – A3.AD8.M5 
PM119 – A4.M5 
PM120 – A5.M5 
PM121 – A6.M5 
Fonte: da pesquisa 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
136 
 
3. 7 O CAMPO CONCEITUAL DE FUNÇÃO EM ASCENSÃO 
 
Essa seção foi desenvolvida para trazer os primeiros resultados que o 
GePeDiMa vem identificando em relação ao possível Campo Conceitual da Função 
Afim. 
Várias pesquisas (AMPLATZ, 2020; CALADO, 2020; CAMILI, 2021; DA SILVA, 2021; 
DEZILIO, REZENDE, 2022; LORENCINI, 2019; MIRANDA, 2019; PAVAN, 2010; PERON DA 
SILVA, 2021; RODRIGUES, 2021; SCHMITT ZANELLA, REZENDE, 2022; ZANATTA, REZENDE, 
2022) têm mostrado que o conceito de Função Afim tem sido solicitado na resolução 
de situações que envolvam o Campo Conceitual Multiplicativo e de Problemas Mistos. 
Nesse contexto, Pavan, Nogueira e Kato (2009) e Pavan (2010) foram as 
primeiras a estabelecer relações entre as situações multiplicativas e as ideias-base 
de função com crianças do 5º. Ano do Ensino Fundamental – Anos Iniciais. As autoras 
adotaram como ideias-base os conceitos de variável, dependência, correspondência, 
regularidade e generalização. Os resultados da pesquisa apontaram que os sujeitos 
da pesquisa estabelecem relações intuitivas entre as situações de estrutura 
multiplicativa e as ideia-base envolvidas no conceito de função. 
Lorencini (2019) investigou as possibilidades inclusivas de uma sequência 
didática sobre Função Afim em “[…] que procedimentos e representações gráficas são 
descritos em língua natural (oral ou escrita) por duplas de alunos, de uma turma do 2º 
ano do Ensino Médio, de um colégio da rede pública de ensino, no qual estuda uma 
aluna com baixa visão grave” (LORENCINI, 2019, p. 6). De acordo com a autora, a 
maioria dos alunos não tinham o conceito de Função Afim solidificado, pois os 
indicativos sobre as formas operatórias e predicativas apareceram de forma isolada. 
Além disso, foi possível identificar a mobilização das ideias-base de dependência, 
regularidade, variável e correspondência pelos alunos (LORENCINI, 2019). 
Amplatz (2020, p. 9), em sua dissertação de mestrado, analisou a 
aprendizagem de estudantes sobre Função Afim por meio de uma sequência didática 
ligada à interpretação global de propriedades figurais, segundo a teoria dos registros 
de representação semiótica de Raymond Duval. De acordo com a autora, os 
participantes “[…] passaram a reconhecer a Função Afim em diferentes registros de 
representação e a transitar entre eles”. Além disso, eles manifestaram “[…] o 
desenvolvimento de uma visão integrada entre as variáveis visuais de representação 
137 
 
no registro gráfico e as suas respectivas unidades simbólicas significativas no registro 
simbólico algébrico” (AMPLATZ, 2020, p. 9). 
Calado (2020), em sua dissertação de mestrado, investigou os conhecimentos 
relacionados à generalização mobilizados por estudantes da Educação Básica. A 
pesquisa foi aplicada em uma turma de 32 alunos do 9º ano do Ensino Fundamental 
de uma escola pública no interior do Paraná. De acordo com a autora, os resultados 
da investigação apontaram que a sequência didática permitiu desvendar as 
estratégias de resolução dos alunos, sendo identificados doze teoremas em ação 
implícitos, sete relativos a conhecimentos verdadeiros e cinco de conhecimentos 
equivocados. Calado (2020, p. 7), identificou que, entre os “[…] conhecimentos 
errôneos, três estão relacionados especificamente à generalização, os demais 
teoremas em ação falsos dizem respeito a casos particulares das situações, etapa 
necessária para se chegar ao processo de generalização”. 
Peron da Silva (2021), em sua tese de doutorado, investigou as contribuições 
de uma sequência de problemas de Estruturas Multiplicativas, baseadas na TSD, 
proporcionam na compreensão das ideias-base de função por alunos de quinto ano. 
A autora identificou “[...] que os grupos manifestaram a forma operatória do 
conhecimento com mais facilidade que a forma predicativa e que quanto mais 
consciente o aluno estiver de sua forma operatória, mais condição terá para manifestar 
a forma predicativa” (PERON DA SILVA, 2021, p. 13) 
Rodrigues (2021), em sua dissertação de mestrado, analisou os invariantes 
operatórios associados ao conceito de função mobilizados por alunos do 5º ano do 
Ensino Fundamental, por meio da resolução de Problemas Mistos do tipo proporção 
simples e transformação de medidas. Foram propostos quatro Problemas Mistos para 
serem resolvidos individualmente por 12 alunos do 5º ano do Ensino Fundamental. 
Segundo a autora, os Problemas Mistos elaborados pertenciam às subclasses 
diferentes da classe proporção simples e transformação de medidas. Rodrigues 
(2021, p. 7) identificou “[...] a mobilização de quinze (15) teoremas em ação 
verdadeiros e dois (2) teoremas em ação falsos; associados a eles, foram identificados 
dezesseis (16) conceitos em ação”. Além disso, a maioria dos teoremas em ação 
mobilizados era composta por propriedades isomórficas da função linear. Por fim, 
Rodrigues (2021, p. 7) identificou a mobilização das seguintes ideias-base de função: 
“[…] correspondência, dependência, variável, regularidade e da ideia de 
138 
 
proporcionalidade”. 
Krug e Nogueira (2022) realizaram um levantamento da presença das ideias 
base de função na apresentação do conteúdo matemático Função Afim pela coleção 
“Contato Matemática”, aprovada pelo PNLD 2018. Os autores buscaram também 
identificar se as situações-problema envolvendo Função Afim, possibilitam a 
mobilização das ideias-base de função (correspondência, regularidade, variável, 
dependência, generalização). Krug e Nogueira (2022, p. 1) indicaram que, “[…] tanto 
na parte teórica quanto nas atividades resolvidas e propostas, nem todas as ideias 
base estão contempladas, tanto quantitativa quanto qualitativamente”. Além disso, os 
autores consideraram que o conteúdo teórico e atividades práticas do conceito de 
Função Afim precisam ser complementados pelo professor. 
Essas investigações e outras ainda desenvolvimento têm apontado para a 
possibilidade de existência de um Campo Conceitual da Função Afim. Tais pesquisas, 
advindas do GePeDima, têm representado a maior parte das investigações atuais 
sobre funções e os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem dos estudantes. 
Assim, faz-se necessário criar um constructo teórico que sustente essas 
pesquisas e oriente a realização de trabalhos futuros. Nesse contexto, um passo 
importante a ser dado, que é o objetivo desta tese, é identificar e caracterizar as 
situações, conceitos organizadores, ideias-base e representações do conceito de 
função. Portanto, no próximo capítulo, utilizando os estudos já realizados sobre 
funções, incluindo aqui os mais recentes trabalhos publicados do GePeDiMa, 
buscamos identificar, ou ao menos conjecturar, quais situações, conceitos 
organizadores, ideias-base e representações do.............................................. 129 
3. 6 OS PROBLEMAS MISTOS .................................................................................. 131 
3. 7 O CAMPO CONCEITUAL DE FUNÇÃO EM ASCENSÃO ................................... 136 
CAPÍTULO 4 – CARACTERIZANDO E ARTICULANDO O QUARTETO ........................ 139 
4. 1 SITUAÇÕES ........................................................................................................ 139 
4. 2 CONCEITOS ORGANIZADORES ....................................................................... 142 
4. 3 IDEIAS-BASE ...................................................................................................... 144 
4. 4 REPRESENTAÇÕES .......................................................................................... 146 
4. 5 ESTABELECENDO AS RELAÇÕES ENTRE O QUARTETO E AS PERSPECTIVAS
 ............................................................................................................................ 148 
4.5.1 Situações ...................................................................................................... 159 
4.5.2 Conceitos organizadores e Ideias-base ........................................................ 161 
4.5.3 Representações ........................................................................................... 166 
4. 6 IMPLICAÇÕES AO ENSINO DE MATEMÁTICA.................................................. 168 
4.6.1 Algumas considerações ................................................................................ 168 
4.6.2 Discussões a partir dos resultados obtidos ................................................... 171 
REFLEXÕES FINAIS ......................................................................................................... 176 
REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 184 
 
15 
 
INTRODUÇÃO 
 
 
Enquanto professor do Ensino Superior, lecionando no curso de Licenciatura 
em Matemática por mais de 10 anos em disciplinas do início ao final do curso, pude 
identificar dificuldades dos estudantes em compreender os conceitos e resolver 
diferentes situações acerca de funções. Em particular, estudantes ingressantes do 
curso de Licenciatura em Matemática apresentam dificuldades nos conceitos 
vinculados às funções polinomiais de primeiro e segundo grau, funções exponenciais 
e logarítmicas, bem como funções modulares e trigonométricas. 
Pesquisas que buscaram fazer o mapeamento dessas dificuldades (ARTIGUE, 
1992; BERGERON, HERSCOVICS, 1982; DE ARMAS, 2016; DREYFUS, EISENBERG, 1982; 
1987; ELIA, PANAOURA, ERACLEOUS, GAGATSIS, 2007; HEDRICK, 1938; HERSCOVICS, 
1989; HITT-ESPINOSA, Fernando, 1998; JITENDRA, HARWELL, KARL, SLATER, SIMONSON, 
NELSON, 2016; JONES, 2006; LUE, 2005; OLIVEIRA, 2006; POSTELNICU, 2011; RAMOS, 
CURI, 2014; SALDANHA, 1995; SZANYI, 2016; YERUSHALMY, 2000) têm identificado que 
a natureza desses obstáculos está na falta de diversidade de situações que permitam 
os estudantes mobilizarem diferentes conceitos prévios e a falta de uma estrutura 
hierárquica que mostre aos professores quais conceitos prévios devem ser adquiridos 
pelos estudantes antes de adentrar no conceito de função. 
Levando em consideração ainda que, de um lado, o ensino de funções está, 
predominantemente, pautado no uso de representações algébricas (APUD, 2014; 
COCHRAN, 2008; DAHER, ANABOUSY, 2015; ERDOGAN, 2014; KABAEL, TANISLI, 2010; 
KREBS, 1999; MOUSOLIDES, GAGATSIS, 2004; PIERCE, 2005; ROMBERG, FENNEMA, 
CARPENTER, 1993; SCHWARTZ, 1987; SCHWARTZ, YERUSHALMY, 1992; USISKIN, 1988; 
YERUSHALMY, 2000), que o foco está em técnicas, algoritmos e propostas sem vínculo 
com o cotidiano (CAMPITELI, CAMPITELI, 2006; DOORMAN, DRIJVERS, GRAVEMEIJER, 
BOON, REED, 2012; GOLDENBERG, 1988), que os procedimentos de ensino são 
baseados numa concepção estrutural (CRAHAY, WANLIN, ISSAIEVA, LADURON, 2010; 
DREYFUS, EISENBERG, 1987; HAMDAN, 2006; SFARD, 1987; 1989), que o uso de 
definições tem sido considerado crucial para compreender o conceito de função 
(CHAQUIAM, 2021; DA ROSA, DA COSTA, 2013; DREYFUS, VINNER, 1982; LAUDARES, 
2013; MALIK, 1980; SANTOS DE SOUZA, SOUZA, 2018; TALL, 1988; TALL, VINNER, 1981; 
VINNER, 1983; VINNER, DREYFUS, 1989), que matemáticos posteriores aos estudos do 
16 
 
grupo de Bourbaki ou mais conhecido como Nicolas Bourbaki1 não reconheceram 
gerações anteriores que desenvolveram conceitos de função (VINNER, DREYFUS, 
1989), que uma das dificuldades na aprendizagem de funções é fazer as mudanças 
nos registros de representação, ou seja, articular entre diferentes representações, 
como da algébrica para a gráfica (BALTUS, 2010; CONFREY, SMITH, 1991; DE BOCK, 
NEYENS, VAN DOOREN, 2016; DE BOCK, VAN DOOREN, VERSCHAFFEL, 2015; ELIA, 
PANAOURA, ERACLEOUS, GAGATSIS, 2007; EVEN, 1998; GAGATSIS, SHIAKALLI, 2004; HITT-
ESPINOSA, Fernando, 1998; JANVIER, 1983; LOBATO, BOWERS, 2000; MOORE-RUSSO, 
GOLZY, 2005; MOSS, BOYCE, LAMBERG, 2020; RONDA, 2015; SCHWARZ, BRUCKHEIMER, 
1988; SCHWARZ, DREYFUS, BRUCKHEIMER, 1990; WILKIE, 2016; YERUSHALMY, 1991; 
YOU, 2006), que estudantes entendem que uma função deve sempre ser definida por 
uma expressão analítica (CARLSON, 1998; CHAZAN, YERUSHALMY, LEIKIN, 2008; 
CLEMENT, 2001; SIERPINSKA, 1992) e que professores consideram o ensino de funções 
uma “nova” Matemática (GAUDIN, 2002; MARKOVITS, EYLON, BRUCKHEIMER, 1986; 
SCHWARZ, DREYFUS, 1995), demandam um estudo detalhado do modo de ensino e de 
aprendizagem de professores e estudantes. 
E que, por outro lado, pesquisas têm mostrado que historicamente o conceito 
de função “nasceu” das relações entre magnitudes variáveis (BUENO, VIALLI, 2009; 
CHORLAY, 2009; 2011; CIANI, NOGUEIRA, BERNS, 2019; FRANCO, SILVA, 2017; GÖK, 
ERDOĞAN, ÖZDEMIR ERDOĞAN, 2019; JONES, 2006; KJELDSEN, PETERSEN, 2013; 
KLEINER, 1993; MACIEL, CARDOSO, 2014; MALIK, 1980; OLIVEIRA, VIANA, ROSA, 2012; 
ORTIZ, 2015; PIRES, 2016; ROCHA, 2008; SÁ, SOUZA, SILVA, 2003; SASTRE VÁZQUEZ, 
REY, BOUBÉE, 2008; SIERPINSKA, 1988; 1989; SILVA, MIRANDA, CABRAL, 2019; 
TRINDADE, MORETTI, 2000; ZUFFI, 2001; 2016), que existem diferentes níveis de 
entendimento do conceito de função (ANDRADE, 2019; BERGERON, HERSCOVICS, 1982; 
JURDAK, EL MOUHAYAR, 2013; MORU, 2008; ORTON, 1970; THOMAS, 1969), que o ensino 
de funções envolve a utilização de visualizações dinâmicas (FERREIRA, 1998; ROLFES, 
ROTH, SCHNOTZ, 2020), que o ensino de funções não pode ser realizado em uma única 
etapa (BOYER, 1946; SCHRAMM, 1965; VINNER, 1983; VINNER, DREYFUS, 1989); é 
imprescindível esforços para melhorar a compreensão dos conceitos prévios 
necessários para o estudante adquirir o conceito de função, bem como permitir aos 
 
1 Nicolas Bourbaki é, na verdade, um pseudônimo usado por um grupo de matemáticos. Como a 
literatura traz nesse formato, optou-se por mantê-la. 
17 
 
professores terem mais clareza sobre quais situações devem ser propiciadas a esses 
estudantes, de modo que consigam ter domínio sobre este conceito. 
Nesse esforço por melhorias no ensino e na aprendizagem de funções, 
considerando que a Teoria dos Campos Conceituais (VERGNAUD, 1989; 1990; 1992; 
1993; 1996b; 1996d; 2002; 2003; 2007; 2009c; 2017b; 2017c; 2019) tem trazido 
resultados positivos para a melhoria no aprendizado de estudantes com situações que 
envolvam os Campos Aditivo e Multiplicativo (ALTOÉ, FREITAS, 2019; BARRETO, REGES, 
BATISTA, BARRETO, 2017; CARVALHO, CASTRO FILHO, MAIA, PINHEIRO, 2016; CEBOLA, 
BROCARDO, 2019; ESPINDOLA, DE MOURA, 2018; GARCÉS, HIDALGO, 2019; GITIRANA, 
CAMPOS, MAGINA, SPINILLO, 2014; GONZÁLEZ-CALERO, ARNAU, LASERNA-BELENGUER, 
2015; GRANDO, NIEMANN, 2015; LEVAIN, 1992; MAGINA, SANTANA, CAZORLA, CAMPOS, 
2010; MAGINA, SANTOS, MERLINI, 2014; MARTÍNEZ MELLO, ROJAS GARZÓN, ROJAS 
RODRÍGUEZ, 2018; MORO, 2005; ORDÓÑEZ, MORENO, 2018; PAVAN, 2010; PAVAN, 
NOGUEIRA,conceito de função que não estão 
presentes na imbricação entre os Campos Conceitual das Estruturas Aditivas e 
Multiplicativas e dos Problemas Mistos. 
 
139 
 
 
CAPÍTULO 4 – CARACTERIZANDO E ARTICULANDO O QUARTETO 
 
“O progresso fundamental tem a ver com a 
reinterpretação de ideias básicas”. 
Alfred Whitehead 
 
Neste capítulo, a partir do tripleto situações, invariantes operatórios e 
representações, estabelecido por Vergnaud (1989; 1990; 1993; 1996c; 1996b; 1996d) 
nos propomos a caracterizar o quarteto: situações, conceitos organizadores, ideias-
base e representações (S, CO, IB, R), a partir dos pressupostos da Teoria do Campo 
Conceitual. 
Na sequência, o quarteto é articulado às perspectivas histórica, cognitiva e 
didática. Por fim, e partir das articulações estabelecidas, algumas implicações para o 
ensino são postas. 
 
 
4. 1 SITUAÇÕES 
 
Ao longo do tempo, a psicologia behaviorista adotou o par estímulo/resposta 
para compreender a forma de aprendizagem dos sujeitos. Vergnaud (2009b) critica 
essa postura e adota o par situação/esquema como abordagem para realizar o estudo 
de habilidades, práticas e experiências complexas. 
Para o autor, “[...] uma situação não é um estímulo, e um esquema não é uma 
resposta simples” (VERGNAUD, 2009b, p. 1). Para ele, uma situação não é um objeto 
do mundo, mas sim uma oportunidade de colocar um problema (para um sujeito ou 
vários), e o conceito de esquema não esgota o conceito de sujeito (VERGNAUD, 2009b). 
Uma situação é sempre composta de várias condições, muitas vezes 
numerosas e contrastantes; as situações, em geral, são compostas de várias tarefas 
e de muitos elementos (VERGNAUD, 2017c). A atividade do sujeito em determinada 
situação depende não apenas das mudanças das condições, mas também dos 
valores das condições inalteradas. As características da atividade então 
implementadas pelo sujeito dependem desses valores, modificados ou não 
https://www.pensador.com/autor/alfred_whitehead/
140 
 
(VERGNAUD, 2009b). 
A situação é o que um esquema aporta,ou seja, ele sempre inclui um ou vários 
objetivos a serem alcançados. Desta forma, uma situação é um conjunto de objetos, 
relações e condições, em que o sujeito pode se engajar em uma atividade intencional, 
e eventualmente mobilizar recursos pré-existentes ou estabelecer novos para resolvê-
la. No contexto da sala de aula, uma situação pode ser mais ou menos interessante e 
problemática. Cabe ao professor desenvolver situações mais instigantes (VERGNAUD, 
2009b). 
O conceito de situação se nutre do conceito de esquema, assim como o de 
esquema se sustenta do de situação. A experiência é uma sequência de situações 
encontradas no decorrer da vida e das formas de organização (esquemas) da 
resolução dessas situações (VERGNAUD, 2009b). 
Para o autor, o par situação/esquema dificilmente é separável porque as 
situações não são em si mesmas suficientes, nem mesmo são as que precedem tudo, 
pois a atividade do sujeito é imediatamente invocada. As situações são a entrada do 
significado, mas não são o significado em si mesmas. A realidade é composta de 
objetos e relações, e o significado desses objetos e relações é o que está em jogo, 
por meio do crivo das situações. É possível compreender que são as relações da 
representação com o real, por meio das situações e das conceituações que organizam 
a atividade na situação (VERGNAUD, 2009b). 
Vergnaud (2009b) chama a atenção para a questão da relação entre as 
situações organizadas com vista à aprendizagem e às situações de referência que 
são as situações tratadas pelos profissionais. 
Vergnaud (2017b, p. 14) afirma que “[...] duas ideias são muito importantes em 
Brousseau [...]. A primeira delas é a ideia de situação. Brousseau afirmou que se 
aprende em situação e, portanto, [...] o mais importante é a escolha das situações que 
vai propor ao aluno”. A segunda ideia se refere a contrato didático, ou seja, um sistema 
daquilo que tanto o professor como os alunos esperam uns dos outros. 
Segundo o autor, o conceito de situação não é o de situação didática de 
Brousseau (2002), mas, o de tarefa, sendo “[…] qualquer situação complexa pode ser 
analisada como uma combinação de tarefas” (VERGNAUD, 1996b, p. 167). À essa ideia 
de situação de Brousseau, o autor diz que agrega “[…] à de uma classe de situações. 
Essa ampliação é bastante importante porque associa à ideia de eskema que é uma 
141 
 
forma organizada de agir frente a uma classe de situações” (VERGNAUD, 2017b, p. 15). 
Para o autor, a complexidade está atrelada aos próprios conceitos matemáticos 
envolvidos numa situação, porém, admite que outros fatores, como a linguística e a 
forma do enunciado de uma situação, são pertinentes para a complexidade, contudo, 
considera que o papel desses fatores está subordinado ao próprio conceito 
matemático (SANTANA, ALVES, NUNES, 2015). 
De acordo com Santana, Alves e Nunes (2015, p. 1165) é necessário “[...] 
oportunizar o contato do aprendiz com diversas situações, de modo a contemplar 
maiores condições de ampliação e desenvolvimento cognitivo. Os processos 
cognitivos e as respostas dadas pelo sujeito são funções das situações com as quais 
é confrontado”. Para Vergnaud (1990) a variedade e a história são fatores importantes 
no contexto da situação. 
Para cada Campo Conceitual, há uma variedade de situações e os 
conhecimentos dos estudantes que são acomodados pelas situações que vão sendo 
progressivamente dominadas. Vergnaud (1990) afirma que são as situações que dão 
sentido aos conceitos, tornando-se o ponto de entrada para um dado Campo 
Conceitual. Entretanto, apenas um conceito precisa de uma multiplicidade de 
situações para se tornar significativo, assim como uma única situação necessita de 
múltiplos conceitos para ser analisada. 
Do ponto de vista da história, o conhecimento dos alunos é formado a partir do 
contato do estudante com a situação, o que ocorre de maneira progressiva e demanda 
tempo. Assim, as conceitualizações são moldadas pelas situações que encontramos; 
se encontramos somente situações limitadas, e não uma ampla variedade, não haverá 
nenhuma razão para desenvolver conhecimentos mais gerais. Entre as condições, o 
fato de incluir situações muito variadas e cada vez mais complexas é absolutamente 
decisivo para a conceitualização pelo aluno (VERGNAUD, 2017c). Por isso, é preciso 
que o estudante seja estimulado inicialmente por classes de situações mais simples 
e, paulatinamente sejam apresentadas situações mais complexas, até o domínio 
completo do Campo Conceitual (VERGNAUD, 1990). 
Portanto, a escolha das situações a serem oferecidas aos alunos é o primeiro 
e mais importante ato de mediação do professor. No nosso contexto, estamos 
interessados naquelas situações que deram origem a novos conceitos ou despertaram 
o interesse dos matemáticos de cada época para aprimorar os já existentes. 
142 
 
E como definido, são as situações que dão sentido aos conceitos; no nosso 
caso, estamos interessados em compreender as situações que dão sentido aos 
conceitos organizadores da função. 
 
4. 2 CONCEITOS ORGANIZADORES 
 
Pastré, Mayen e Vergnaud (2006) consideram que qualquer situação, da mais 
simples à mais complexa, possui uma estrutura conceitual formada por quatro 
elementos: 1) conceitos organizadores, 2) indicadores, 3) classes de situações e 4) 
estratégias esperadas. 
No caso específico do primeiro elemento, os conceitos organizadores, os 
autores os dividem em conceitos organizadores pragmáticos e conceitos 
organizadores. Os conceitos pragmáticos possuem três propriedades: 1) do ponto de 
vista de sua origem, ele é construído na ação, ou seja, sua origem não é teórica, mas 
prática. Esse conceito não emana de um saber, mas de uma atividade, 2) do ponto de 
vista da sua função, um conceito pragmático é um conceito organizador da ação, na 
medida em que permite identificar emqual classe de situações um ator se encontra, 
3) de uma dimensão social, um conceito pragmático é reconhecido como organizador 
da ação pela comunidade profissional (PASTRÉ, MAYEN, VERGNAUD, 2006). 
Os conceitos organizadores da ação nem sempre são de origem pragmática, 
são conceitos científicos que exercerão a função de conceitos organizadores. Há de 
se destacar que os conceitos científicos/conceitos organizadores são “pragmatizados” 
para serem os organizadores de um esquema, cujo objetivo é resolver uma situação-
problema. Pode-se dizer que eles constituem a base para que o indivíduo faça um 
diagnóstico da situação e possa tomar as decisões necessárias a fim de resolvê-la. 
Pastré, Mayen e Vergnaud (2006) afirmam que os conceitos organizadores 
pragmáticos da ação do sujeito - implícitos ou explícitos, são os invariantes operatórios 
que se tornam então os conceitos-em-ação e os teoremas-em-ação que caracterizam 
um domínio de ação. Para os autores, “[...] a função primeira desses conceitos é guiar 
a ação, permitindo um diagnóstico preciso da ação ao selecionar a informação 
pertinente que vai possibilitar este diagnóstico” (PASTRÉ, MAYEN, VERGNAUD, 2006, p. 
24). 
 
143 
 
Pastré, Mayen e Vergnaud (2006), para mostrar como os conceitos 
organizadores ora são pragmáticos ora são conceitos científicos, dá o exemplo de 
como os trabalhadores conduzem uma prensa de injeção de material plástico. Quando 
esses profissionais adquirem as competências necessárias para executar seu 
trabalho no “fazer”, esses conceitos são pragmáticos e organizam a ação de 
execução. A passagem dessa competência, na maioria das vezes se dá pela 
transmissão oral dos mais experientes, utilizando demonstrações (o como fazer pelo 
exemplo) e enunciações. Os especialistas enunciam ao mesmo tempo que mostram, 
por exemplo: Está vendo, ali, está enchendo; está com muito enchimento. Os 
trabalhadores falam sobre o conceito de “enchimento”, mas não o definem. O mais 
importante para eles é a transmissão de uma competência; a definição formal, no caso 
o conceito organizador na forma de conceito científico, cabe aos pesquisadores 
estabelecerem (PASTRÉ, MAYEN, VERGNAUD, 2006). 
Os conceitos organizadores permitem hierarquizar todas as tarefas de uma 
situação. Do ponto de vista pragmático ou do indivíduo em ação numa determinada 
tarefa para uma dada situação, o conjunto dos conceitos (organizadores pragmáticos) 
que organizam a ação e servem para guiá-la é designado por “estrutura conceitual da 
situação” (PASTRÉ, 1999). Dentro dessa estrutura há conceitos que podem ser de 
origem pragmática (conceitos organizadores pragmáticos) ou científica (conceitos 
organizadores), sendo eles essenciais no desenvolvimento da ação, permitindo 
notadamente um bom diagnóstico da situação. 
A partir dos estudos realizados por Pastré, Mayen e Vergnaud (2006) e 
Vergnaud (2019), consideramos os conceitos mobilizados pelos estudantes como 
conceitos organizadores pragmáticos. 
Vergnaud (2019) afirma que alguns dos conceitos organizadores das Estruturas 
Aditivas são: “[...] quantidades discretas e contínuas, medida, estado/transformação, 
comparação significado/significante, composição binária (medidas, transformações, 
relações), operação unitária, inversão, número natural/número relativo e 
posição/abscissa/valor algébrico” (VERGNAUD, 2019, p. 12). 
No contexto das Estruturas Multiplicativas, o autor acrescenta para além dos 
conceitos organizadores das Estruturas Aditivas: “[...] análise dimensional, espaço 
vetorial, combinação linear, dependência e independência” (VERGNAUD, 2019, p. 12) 
Assim, estamos interessados nos conceitos organizadores de origem científica 
144 
 
da função, pois neles estão inseridas as ideias-base. 
 
4. 3 IDEIAS-BASE 
 
No capítulo anterior, foi visto que alguns pesquisadores têm buscado identificar 
quais conceitos são necessários para compreender o conceito de função. Ao longo do 
tempo vários termos foram utilizados para descrever tais conceitos, como os 
subsunçores ou organizadores prévios (AUSUBEL, 2003; LIMA, PONTES, 2009; MOREIRA, 
2012). No grupo do GePeDima, já foram utilizados termos como: ideias básicas 
(CASTRO, 2012; CASTRO, RODRIGUES, 2013; PAVAN, 2010; PAVAN, NOGUEIRA, KATO, 
2009; 2010), conhecimentos prévios (RORATTO, 2009), ideias base (sem hífen) 
(AMPLATZ, 2020; CALADO, 2020; CIANI, NOGUEIRA, BERNS, 2019; DA SILVA, 2021; DA 
SILVA, NOGUEIRA, 2021; LORENCINI, 2019; LORENCINI, NOGUEIRA, REZENDE, 2020; 
MIRANDA, 2019; NOGUEIRA, REZENDE, 2018; 2019; PERON DA SILVA, 2021; REZENDE, 
2018; REZENDE, NOGUEIRA, CALADO, 2020) e ideias-base (RODRIGUES, 2021). 
Alguns desses textos já publicados caracterizaram as ideias-base como 
conceitos mobilizados pelos estudantes e necessários para o aprendizado de um 
determinado conceito (NOGUEIRA, REZENDE, 2018; 2019). Entretanto, como visto na 
seção anterior, temos os conceitos organizadores pragmáticos e os conceitos 
organizadores, os primeiros relacionados ao sujeito e os demais ao conceito científico 
(PASTRÉ, 1999; PASTRÉ, MAYEN, VERGNAUD, 2006; 2019). Nesse contexto, assumimos 
as ideias-base como as associadas ao conhecimento científico e, quando mobilizadas 
pelo sujeito, consideramos como ideias-base pragmáticas, uma vez que o sujeito em 
ação, mobiliza ideias-base, que são conceitos científicos, pragmatizando-as como 
conceitos-em-ação, para organizar e resolver a situação-problema. 
A partir dessa discussão, adotamos como ideias-base aqueles conceitos 
científicos já aceitos pela comunidade científica e que são essenciais ao 
estabelecimento dos demais conceitos. As ideias-base constituem os conceitos 
primários de outro conceito, ou seja, elas subsidiam a elaboração do conceito em 
consideração. Dito de outra forma, a elaboração de um conceito está subordinada à 
mobilização pelo sujeito, das respecttivas ideias-base, sem elas o sujeito não 
conceitualiza. 
Identificamos, em nossa revisão bibliográfica nas perspectivas histórica e 
145 
 
cognitiva do conceito de função, que as ideias-base não se alteram ao longo do tempo, 
o que mudam são os conceitos organizadores que, mesmo científicos, são adaptados 
a partir das novas situações que são impostas aos indivíduos. 
Nesse contexto, trazemos no Quadro 20 a relação de alguns trabalhos de 
autores que pesquisam ou pesquisaram sobre o tema e suas respectivas noções de 
conceitos subordinadores do conceito de Função Afim, ou para nós, as ideias-base. 
 
Quadro 20 – Conceitos entendidos como ideias-base da Função Afim 
Autor Conceitos 
(CARAÇA, 1998), 
(CIANI, NOGUEIRA, BERNS, 2019), 
(DA SILVA, NOGUEIRA, 2021), 
(KRUG, NOGUEIRA, 2022), 
(LORENCINI, NOGUEIRA, REZENDE, 2020), 
(NOGUEIRA, REZENDE, 2018) 
(NOGUEIRA, REZENDE, 2019), 
(PAVAN, 2010), 
(PAVAN, NOGUEIRA, KATO, 2009) 
(PAVAN, NOGUEIRA, KATO, 2010) 
(PERON DA SILVA, 2021), 
(PERON DA SILVA, NOGUEIRA, REZENDE, 2019), 
(REZENDE, 2018), 
(REZENDE, NOGUEIRA, CALADO, 2020), 
(MIRANDA, 2019) 
variável, dependência, regularidade, 
correspondência e generalização 
(TINOCO, 2002), 
(CASTRO, 2012), 
(MENDES, CASTRO, RODRIGUES, 2012) 
variável, dependência, regularidade e 
generalização 
(CASTRO, RODRIGUES, 2013) Incógnita, variável, generalização 
(CAMPITELI, CAMPITELI, 2006) 
proporcionalidade, dependência, continuidade, 
descontinuidade, relação, variável, regularidade, 
correspondência e generalização 
Fonte: da pesquisa 
 
A conjectura aqui é de que as ideias-base, em si mesmas, apresentadas no 
quadro anterior, não são suficientes para determinar o conceito de função, porque elas 
são invariantes ao longo do tempo e, o conceito de função, como já visto no Capítulo 
2, sofreu e vem sofrendo modificações ao longo da história, admitindo novas 
interpretações, novos conceitos organizadores e, consequentemente novas 
representações. 
Nessa conjuntura, é essencial entender o que são representações e qual é seu 
papel ao longodo desenvolvimento dos conceitos, sejam eles organizadores ou não. 
 
 
 
 
146 
 
4. 4 REPRESENTAÇÕES 
 
Os objetos matemáticos não são apreensíveis senão mediante representações 
e assim, além das representações naturais como os símbolos numéricos, as formas 
geométricas, a escrita algébrica, diferentes formas de apresentação de dados como 
tabelas, diagramas, gráficos contribuem para a compreensão conceitual e eficiência 
operacional. 
Mas, como caracterizar a representação? A Teoria dos Campos Conceituais 
fornece respostas para essa questão amplamente debatida na literatura (LEVAIN, 
DIDIERJEAN, 2017). 
Representação é atividade e não apenas um repertório de conceitos e formas 
simbólicas. A representação não é um dicionário, nem mesmo uma biblioteca; os 
esquemas são parte integrante da representação: são mais do que formas 
internalizadas de ação, pois organizam a ação e, além disso, a atividade (VERGNAUD, 
1999). 
Vergnaud (2017c, p. 66) frisa que um esquema “[…] é composto de regras 
(implícitas ou explícitas) mas estas regras são necessariamente determinadas pela 
representação (implícita ou explícita) das relações em cena na situação tratada, ou 
seja, para uma análise de ordem categorial: objetos, propriedades, relações”. 
A representação é fundamental no processo de aquisição do conhecimento, 
pois ela é uma das componentes do esquema que permite ao indivíduo analisar e 
categorizar uma situação e assim, a representação não se reduz à noção de símbolo 
ou de signo, pois ela remete também ao conceito (VERGNAUD, 2009a). 
Vergnaud (2009c) afirma que quatro componentes diferentes da representação 
podem ser distinguidas, não como independentes uma da outra, mas de naturezas 
distintas: (1) o fluxo da consciência, (2) a linguagem e outros conjuntos de símbolos, 
(3) conceitos e categorias e (4) conjuntos e subconjuntos de esquemas. 
Sobre a primeira componente, o autor diz que “[…] todo sujeito tem alguma 
experiência do fluxo da consciência. É a prova mais óbvia da existência da 
representação como fenômeno psicológico, ainda que não nos forneça uma 
concepção justa e suficiente”. Para ele, “[…] o fluxo quase permanente de imagens 
(visuais, auditivas, cinestésicas, somaestéticas) acompanha tanto as horas de vigília 
e o sonho, quanto alguma consciência dos próprios gestos e palavras, às vezes 
147 
 
apenas esboçados na mente” (VERGNAUD, 2009c, p. 92). 
Vergnaud (2009c, p. 92) afirma que a “[...] percepção ser um componente da 
representação é importante para a teoria psicológica, pois é no estudo da percepção 
que se vê o papel essencial dos conceitos e categorias na seleção da informação”. 
Na segunda componente, linguagem e outros conjuntos de símbolos, Vergnaud 
(2009c, p. 92) alega que “[...] sem palavras e símbolos, a representação e a 
experiência não podem ser comunicadas. Além disso, o pensamento é muitas vezes 
acompanhado, ou mesmo conduzido, por processos linguísticos e simbólicos”. Na 
área de matemática, “[…] as notações numéricas e algébricas efetuam um papel muito 
importante nos processos de conceituação e raciocínio, embora não sejam conceitos 
em si”. A forma predicativa (a representação) é essencial, mesmo que não seja a 
primeira forma de conhecimento (VERGNAUD, 2009c, p. 92). 
Os conceitos e categorias, geram o sistema pelo qual colhemos informações, 
com o propósito de conduzir nossa atividade da maneira mais relevante. Para o autor, 
esse significado de representação não é tão direto quanto os dois primeiros, pois se 
baseia na tese de que a percepção é um componente importante da representação, 
mesmo quando não temos palavras para associar aos objetos e relações de que 
depende a organização de nossa atividade (VERGNAUD, 2009c). 
 O autor enfatiza que é esencial distinguir conceituar de simbolizar “[…] até o 
ponto em que a compreensão de palavras e frases por diferentes pessoas, 
principalmente alunos e professores, não seja simplesmente uma relação binária 
significante/significado, mas ternária com a interpretação privilegiada por invariantes 
operacionais” (VERGNAUD, 2009c, p. 93). 
Para exemplificar essa distinção, o autor traz o exemplo da fórmula de cálculo 
do volume de um prisma 𝑉 = 𝐴 ∙ 𝐻, em que V = volume do prisma, A = área da base 
e H = altura do prisma. Os alunos, ao necessitarem utilizar essa fórmula podem ler e 
intepretar de modos diferentes. Eles podem, por exemplo, compreender que, para 
calcular o volume devem conhecer a área e a altura e, na sequência, multiplicar uma 
pela outra; ou que, para calcular a altura deve conhecer o volume e a área, e, depois, 
dividir o volume pela área; ou ainda, que o volume é proporcional à área quando a 
altura é mantida constante e à altura quando a área é mantida constante. 
Conforme aponta Vergnaud (2009c, p. 93), a última intepretação “[…] exige 
muito mais do que entender as operações de multiplicação e divisão e o significado 
148 
 
das letras. Nem sempre é mencionado nos livros escolares; no entanto, é a própria 
razão para a fórmula” e enfatiza “[…] qualquer que seja a parte dos símbolos no 
processo de conceituação, não se deve confundir conceitos e símbolos”. 
A última componente, a de conjuntos e subconjuntos de esquemas, é entendida 
a partir de uma noção de que a representação é uma atividade dinâmica. Ela não 
estática como uma estátua numa praça, ela é “[…] um recurso funcional: organiza e 
regula a ação e a percepção; ao mesmo tempo, é também o produto da ação e da 
percepção” (VERGNAUD, 2009c, p. 93). 
Nesse sentido, a forma operatória do conhecimento deve ser considerada como 
uma componente da representação. “Os esquemas são essenciais: organizam gestos 
e ações no mundo físico, assim como a interação com os outros, a conversa e o 
raciocínio”. De acordo com autor, essa organização hierárquica abre espaço para a 
causalidade e o inesperado: “[…] esquemas e subesquemas são frequentemente 
chamados por aspectos contingentes de situações; é o caráter recíproco de sua 
função adaptativa” (VERGNAUD, 2009c, p. 94). 
É essencial que se reconheca a função central da atividade no desenvolvimento 
da representação, das competências e dos conceitos. A linguagem e os símbolos 
desempenham um papel importante no processo de conceituação. Os pesquisadores 
identificam conceituação e simbolização como se a atividade de escrita e simbolização 
fossem componentes suficientes do conhecimento, em particular, do conhecimento 
matemático (VERGNAUD, 2009c). 
Assim, uma vez compreendido o nosso quarteto, temos condições de realizar 
articulações com ele. 
 
4. 5 ESTABELECENDO AS RELAÇÕES ENTRE O QUARTETO E AS 
PERSPECTIVAS 
 
No Quadro 21 estabelece-se uma relação entre as situações à época que 
levaram os matemáticos a compreenderem o conceito de função, com suas 
representações e seus conceitos organizadores (que envolvem outros conceitos 
anteriores, outras representações, teoremas etc.). 
Assumimos que, apesar de não ser possível pensar em um Campo Conceitual 
individual, podemos inferir a forma com que cada matemático ou grupo de 
149 
 
matemáticos de um determinado período, concebiam e representavam o conceito de 
função a partir das situações que lhe eram propostas. Assim, decidimos trazer no 
quadro todos os matemáticos que foram apresentados nesta tese. O objetivo de trazer 
todos os protagonistas é para mostrar como as concepções individuais alteravam (e 
ainda alteram) a forma de conceber o conceito de função cientificamente. Isto pode 
ser corroborado por diversas alusões a duelos científicos que os matemáticos 
travavam, principalmente a partir do século XVI. Desses “duelos”, o conceito de 
função, as representações e as situações foram sendo alterados ao longo do tempo 
para o que conhecemos hoje. 
Os conceitos organizadores que emergiram estão identificadas no Quadro 21. 
Eles são resultado de análise histórica da evolução do conceito de função. Entretanto, 
estamosinteressados em compreender os conceitos organizadores e as ideias-base 
associados aos conceitos organizadores pragmáticos e aos invariantes operatórios 
mobilizados pelo sujeito em ação (PASTRÉ, MAYEN, VERGNAUD, 2006). Para isso, 
precisamos recorrer à perspectiva cognitiva, que nos dará pistas de que o processo 
cognitivo tem sido acompanhado pela evolução histórica do conceito. A análise aqui 
se dá a partir, da epistemologia genética de Jean Piaget, das outras teorias derivadas 
dela (Quadro 9) e principalmente da Teoria dos Campos Conceituais de Gérard 
Vergnaud. 
150 
 
Quadro 21 – Conceitos organizadores de Função identificadas ao longo do tempo 
Ano 
Matemático ou 
Civilização 
Noção ou concepção ou 
definição 
Situações e trabalhos 
desenvolvidos 
Conceitos organizadores 
idenficados 
Representações 
identificadas 
~ 2000 𝑎. 𝐶. 
Mesopotâmios, 
Gregos, Egípcios, 
hindus e 
Chineses 
Casos particulares de 
dependências entre duas 
grandezas 
Cálculo de recíprocos, áreas, 
cubos, raízes quadradas e 
cúbicas, volumes. 
Relações entre cordas, senos, 
arcos e ângulos. 
Relações entre lados de 
triângulos, raio, círcunferências, 
pesos e alturas. 
*dependência24, *grandeza, 
correspondência, razão (linear 
e trigonométrica), proporção, 
ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
tabular 
~2000 𝑎. 𝐶 𝑎 ~1000 𝑑. 𝐶. 25 - - 
- - - 
~1000 𝑑. 𝐶. Abûl-Wefâ 
Uma razão trigonométrica de 
senos, cossenos e tangentes 
Astronomia 
razão (trigonométrica), 
*tangente, *seno, *cosseno 
(EVES, 2011), dependência, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
tabular 
~1400 𝑎 1500 𝑑. 𝐶. 
Idade Média 
(Nicolau de 
Oresme) 
Caso particulares de 
dependências entre duas 
grandezas na forma 
geométrica, taxas, razões 
Cálculo de velocidades, 
acelerações, taxas, forças, 
resistências, coeficientes de 
proporcionalidade 
*dependência, *grandeza, 
correspondência, *razão, 
proporção, *taxa, regularidade, 
ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
Figuras geométricas 
1579 François Viète Identidades trigonométricas 
Resolução de triângulos planos e 
esféricos, resolução de equações 
de grau elevado 
*identidade, razão 
(trigonométrica), proporção, 
dependência, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
Tabular 
1665 Isaac Newton 
Qualquer relação entre 
variáveis 
Queda de corpos, problemas 
envolvendo cinemática 
*Variável, fluentes (*relações), 
correspondência, 
dependência, grandeza, 
proporção, trigonometria, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
curvas geométricas, 
plano cartesiano 
1667 James Gregory 
Uma quantidade obtida de 
outras quantidades por uma 
sucessão de operações 
Transformações algébricas, 
óptica, teorema binomial, 
expansão de funções em séries, 
*quantidade (grandeza), 
*operação algébrica, 
*sucessor (ordem), 
Verbal (oral) e escrita, 
Equações 
 
24 Os conceitos com * são aqueles que já estão presentes nas próprias definições dadas pelos matemáticos à época. Os demais são inferências a partir dos 
textos apresentados. 
25 Nesse período não encontramos nas referências textos e matemáticos que tenham trazido alguma contribuição na noção de função. Isso não significa que 
esse período foi vazio de ideias ou matemáticos que tratavam da noção de função, mas apenas que é necessária uma pesquisa mais apurada desse 
período. 
151 
 
Ano 
Matemático ou 
Civilização 
Noção ou concepção ou 
definição 
Situações e trabalhos 
desenvolvidos 
Conceitos organizadores 
idenficados 
Representações 
identificadas 
algébricas ou por outra 
operação imaginável. 
astronomia 
 
 
transformação, binômio, 
correspondência, séries, 
dependência, trigonometria, 
ordem 
1673 
Gottfried Wilhelm 
Leibniz 
Qualquer quantidade variando 
de ponto a ponto de uma 
curva 
Characteristica generalis (um tipo 
de Matemática universal), cálculo 
infinitesimal, cálculo integral, 
teoria das envoltórias26 
*variável, *quantidade 
(grandeza), tangente, 
correspondência, 
dependência, integral, 
diferencial, trigomometria, 
ordem, regularidade 
Verbal (oral) e escrita, 
Figuras geométricas, 
Curvas geométricas, 
plano cartesiano, 
Pictórica 
1697 Johann I Bernoulli 
Quantidades formadas usando 
expressões algébricas e 
transcendentais de variáveis e 
constantes 
Aplicações ao cálculo, como 
fenômenos ópticos relacionados 
com reflexão e refração, 
determinação das trajetórias 
ortogonais de uma família de 
curvas, retificação de curvas e 
quadratura de áreas por meio de 
séries, trigonometria analítica, o 
cálculo exponencial (EVES, 2011, 
p. 465) 
*expressão algébrica, 
*variável, *constantes, 
*quantidade (grandeza), 
séries, trigonometria, plano 
cartesiano, geometria 
analítica, dependência, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
Expressões 
algébricas, Curvas, 
Gráfico 
1714 
Gottfried Wilhelm 
Leibniz 
Quantidades que dependem 
de uma variável 
Characteristica generalis (um tipo 
de Matemática universal), cálculo 
infinitesimal, cálculo integral, 
teoria das envoltórias 
*variável, *dependência, 
*quantidade (grandeza), 
integral, diferencial, 
trignometria, dependência, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
Integral, expressão 
analítica 
1718 Johann I Bernoulli 
Função de uma certa variável 
como uma quantidade que é 
composta por alguns modos 
vindos de variáveis e 
constantes 
Aplicações ao cálculo, como 
fenômenos ópticos relacionados 
com reflexão e refração, 
determinação das trajetórias 
ortogonais de uma família de 
curvas, retificação de curvas e 
quadratura de áreas por meio de 
séries, trigonometria analítica, o 
cálculo exponencial (EVES, 2011, 
p. 465) 
curvas, séries, *variável, 
*constantes, *quantidade 
(grandeza), séries, 
trigonometria, plano 
cartesiano, geometria 
analítica, dependência, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
Gráfico, curvas, 
expressão analítica, 
séries 
1747 
Jean Le Rond 
D’Alembert 
A dependência funcional é 
uma noção geométrica. Uma 
Problema das cordas vibrantes, 
sistemas de equilíbrio e 
*dependência, *fórmula, 
*relação, *curvas, *superfícies, 
Verbal (oral) e escrita, 
Fórmula, Equação 
 
26 Envoltórias são curvas que não pertencem à uma família de curvas planas e são tangentes a todas as curvas da família. 
152 
 
Ano 
Matemático ou 
Civilização 
Noção ou concepção ou 
definição 
Situações e trabalhos 
desenvolvidos 
Conceitos organizadores 
idenficados 
Representações 
identificadas 
função não é somente uma 
fórmula, mas está relacionada 
a curvas e superfícies 
movimento de fluídos. *geometria, equações 
diferenciais parciais, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
Diferencial Parcial, 
Curvas, Superfícies 
1748 Leonhard Euler 
Fórmula ou expressão 
analítica composta de 
qualquer modo por meio de 
uma quantidade variável e 
números ou quantidades 
constantes que representam a 
relação entre as variáveis. 
Problema das cordas vibrantes, a 
teoria lunar, a das marés, o 
problema dos três corpos da 
mecânica celeste, o problema da 
atração de elipsoides, a 
hidráulica, a construção de 
navios, questões de artilharia e 
teoria musical (EVES, 2011) 
*quantidade (grandeza), 
*fórmula, *expressão, 
*variável, *constante, *relação, 
dependência, *geometria 
analítica, raízes, exponenciais, 
logaritmos, trigonometria, 
polinômios, séries de 
potências, derivadas, 
integrais, equações 
diferenciais parciais, 
dependência, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
Fórmula, Expressão 
analítica, equação 
diferencial parcial, 
cruvas, gráficos 
1755 Leonhard Euler 
Se 𝑥 denota uma quantidade 
variável, então todas as 
quantidades que dependem 
de 𝑥 de qualquer modo ou são 
determinadas por ela são 
chamadas de suas funções. 
Se algumas quantidades 
dependem de outras de tal 
forma que, se estas últimas 
forem alteradas, as primeiras 
também sofrerão alterações,então as primeiras 
quantidades são chamadas de 
funções das últimas. 
Problema das cordas vibrantes, a 
teoria lunar, a das marés, o 
problema dos três corpos da 
mecânica celeste, o problema da 
atração de elipsoides, a 
hidráulica, a construção de 
navios, questões de artilharia e 
teoria musical (EVES, 2011) 
*quantidade (grandeza), 
*variável, *dependência, série 
de potências, razão, soma de 
senos, equação diferencial 
parcial, séries de potências, 
derivadas, integrais, equações 
diferenciais parciais, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
Expressão analítica, 
séries, equação 
diferencial parcial 
1797 
Joseph-Louis 
Lagrange 
Qualquer expressão útil para 
cálculo em que essas 
variáveis se relacionem de 
qualquer maneira. 
Representação da função por 
meio da série de Taylor, 
equações de um sistema 
dinâmico, resolução de equações 
diferenciais ordinárias e parciais 
(EVES, 2011) 
*variável, *expressão, séries, 
equações diferenciais 
ordinárias e parciais, *relação, 
dependência, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
expressão analítica, 
séries, equações 
diferenciais ordinárias 
e parciais 
1806 
Joseph-Louis 
Lagrange 
Uma combinação de 
operações que devem ser 
realizadas em quantidades 
Representação da função por 
meio da série de Taylor, 
equações de um sistema 
*quantidade (grandeza), 
*desconhecido (variável?), 
séries, equações diferenciais 
Verbal (oral) e escrita, 
Expressão analítica, 
séries, equações 
153 
 
Ano 
Matemático ou 
Civilização 
Noção ou concepção ou 
definição 
Situações e trabalhos 
desenvolvidos 
Conceitos organizadores 
idenficados 
Representações 
identificadas 
conhecidas para obter os 
valores de quantidades 
desconhecidas, e que estas 
últimas são propriamente 
apenas o último resultado do 
cálculo. 
dinâmico, resolução de equações 
diferenciais ordinárias e parciais 
(EVES, 2011) 
ordinárias e parciais, *relação, 
dependência, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
diferenciais ordinárias 
e parciais, 
1821 
Augustin-Louis 
Cauchy 
Uma função é definida por 
uma expressão analítica (se 
for explícita) ou por uma 
equação ou sistema de 
equações (se for implícita); ela 
pode ser definida apenas para 
uma faixa restrita da variável 
independente. 
Convergência e divergência de 
séries infinitas, teoria das funções 
reais e complexas, equações 
diferenciais, determinantes, 
probabilidade e física-Matemática 
(EVES, 2011) 
*expressão analítica, *sistema 
de equações, *equações 
implícitas e explícitas, 
*variável, domínio, séries, 
determinantes, equações 
diferenciais, probabilidade, 
convergência, divergência, 
dependência, 
correspondência, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
Expressão analítica, 
equações diferenciais, 
gráficos, sistema de 
equações, 
1822 
Jean-Baptiste 
Joseph Fourier 
A função 𝑓(𝑥) representa uma 
sucessão de valores ou 
ordenadas 
Teoria do calor, séries, acústica, 
óptica, eletrodinâmica, 
termodinâmica, análise 
harmônica, problemas sobre vigas 
e pontes e na solução de 
equações diferenciais (EVES, 
2011) 
*sucessão (ordem), 
*ordenadas, variável, intervalo, 
correspondência, série de 
senos e cossenos, equações 
diferenciais, dependência, 
regularidade 
Verbal (oral) e escrita, 
Gráfico,Plano 
Cartesiano, séries, 
equações diferenciais, 
expressão analitica 
1829 
Johann Peter 
Gustav Lejeune 
Dirichlet 
𝑦 é uma função de uma 
variável 𝑥, definida no 
intervalo 𝑎contínuas, funções 
contínuas (EVES, 2011) 
*objeto, *classe, *expressão, 
*igualdade, *continuidade 
Verbal (oral) e escrita, 
expressão lógica 
1903 Bertrand Russell 
A função descritiva é o objeto 
que está em relação a y: 
𝑅′𝑦 = 𝐷𝐸𝐹 (𝜄𝑥)(𝑥 𝑅 𝑦). 𝑅′𝑦 é 
uma função de y, mas não 
uma função proposicional; nós 
a chamaremos de função 
descritiva. Todas as funções 
ordinárias da Matemática são 
desse tipo. 
Igualar a Matemática à lógica, 
paradoxo de Russell (BOYER, 
1974) 
*relação, *objeto, *proposição 
Verbal (oral) e escrita, 
conjuntos, expressão 
lógica 
1908 Ernst Zermelo 
Sempre que a função 
proposicional 𝛷(𝑥) é definida 
para todos os elementos de 
um conjunto 𝑀, 𝑀 possui um 
subconjunto 𝑀𝛷 contendo 
Axioma da escolha 
*proposição, *conjunto, 
*subconjunto, *elementos, 
vazio, *igualdade, *axiomas 
Verbal (oral) e escrita, 
conjuntos, expressão 
lógica 
156 
 
Ano 
Matemático ou 
Civilização 
Noção ou concepção ou 
definição 
Situações e trabalhos 
desenvolvidos 
Conceitos organizadores 
idenficados 
Representações 
identificadas 
como elementos precisamente 
aqueles elementos 𝑥 de 𝑀 
para os quais 𝛷(𝑥) é 
verdadeiro. 
1908 
Godfrey Harold 
Hardy 
Função é uma relação entre 
duas variáveis 𝑥 e 𝑦 tal que 
alguns valores de 𝑥 de 
qualquer forma correspondem 
a valores de 𝑦. 
Complexidade computacional, 
hierarquias (BOYER, 1974) 
*variáveis, *relação, 
*correspondência, 
dependência, regularidade, 
ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
conjuntos, expressão 
lógica 
1914 Felix Hausdorff 
Função é um par ordenado 
(𝑎, 𝑏) como {{𝑎, 1}, {𝑏, 2}} 
Topologia dos conjuntos de 
pontos, espaços topológicos de 
Hausdorff27, unificação da 
Matemática (BOYER, 1974) 
relação, *par ordenado, 
correspondência, conjuntos, 
subconjunto compacto, 
espaço métrico, espaço 
topológico, topologia de 
pontos , dependência, 
regularidade, ordem 
Verbal (oral) e escrita, 
conjuntos, pares 
ordenados 
1917 
Constantin 
Carathéodory 
Uma regra de 
correspondência de um 
conjunto A para números 
reais. 
Teoria das equações diferenciais 
parciais, análise complexa 
(métrica de Carathéodory), teoria 
da medida e da integração, 
cálculo variacional, ótica 
geométrica, termodinâmica 
(GEORGIADOU, 2004) 
*regra de correspondência, 
*conjuntos, *números reais, 
equações diferenciais parciais, 
análise complexa, cálculo 
varacional, números 
complexos 
Verbal (oral) e escrita, 
conjuntos, equações 
diferenciais, plano 
cartesiano 
1921 
Kazimierz 
Kuratowski 
Função é uma relação, ou 
seja, é um par ordenado (𝑎, 𝑏) 
como ({{𝑎, 𝑏}, {𝑎}} 
Fundamentação axiomática da 
topologia, problema do contínuo 
irredutível, topologia 
*relação, *par ordenado, 
*topologia, continuidade, 
irredutibilidade 
Verbal (oral) e escrita, 
conjuntos, pares 
ordenados 
1922 
Thoralf Albert 
Skolem 
Uma expressão finita 
construída a partir de 
proposições elementares da 
forma 𝑎 e 𝑏 ou 𝑎 = 𝑏 por 
meio das cinco operações 
(conjunção lógica, disjunção, 
negação, quantificação 
universal e quantificação 
existencial). 
Equações diofantinas, teoria dos 
grupos, teoria dos reticulados, 
lógica, teoria dos conjuntos, 
automorfismos de álgebras 
simples (BRADY, 2000) 
*expressão, *proposição, 
*conjunção, *disjunção, 
*negação, *quantificador 
universal, *quantificador 
existencial, *equação, teoria 
de conjuntos, teoria de 
reticulados, automorfismo 
Verbal (oral) e escrita, 
expressão, expressão 
lógica 
1924 
Moses 
Schönfinkel 
Combinadores são funções de 
ordens mais altas que aplicam 
em outras funções. 
Lógica combinatória (MEDVEDEV, 
1991) 
*combinador, proposição, 
lógica 
Verbal (oral) e escrita, 
expressão lógica 
 
27 Um espaço de Hausdorff (ou espaço separado) é um espaço topológico no qual quaisquer dois pontos distintos têm vizinhanças disjuntas. 
157 
 
Ano 
Matemático ou 
Civilização 
Noção ou concepção ou 
definição 
Situações e trabalhos 
desenvolvidos 
Conceitos organizadores 
idenficados 
Representações 
identificadas 
1925 
John Von 
Neumann 
Uma função pode ser 
considerada como um 
conjunto de pares, e um 
conjunto como uma função 
que pode assumir dois valores 
(VAN HEIJENOORT, 1967) 
Teoria dos operadores, teoria 
quântica, teoria dos jogos, 
econometria (BOYER, 1974) 
correspondência, *conjunto, 
par ordenado 
Verbal (oral) e escrita, 
conjuntos, expressão 
boolena, expressão 
lógica 
1927 David Hilbert 
Função é uma função lógica, 
ou seja, 𝐴(𝑎) → 𝐴(𝜀(𝐴)), em 
que 𝜀(𝐴) representa um objeto 
da qual a proposição 𝐴(𝑎) 
certamente vale, se vale para 
qualquer objeto (VAN 
HEIJENOORT, 1967). 
Espaço de Hilbert, Curva de 
Hilbert, equações integrais, 
problemas de Hilbert, teoria 
algébrica dos invariantes, teoria 
dos números algébricos, 
problema de Dirichlet e o cálculo 
de variações, teoria espectral, 
(BOYER, 1974) 
*proposição, variável, 
conjuntos 
Verbal (oral) e escrita, 
Representação 
Gráfica, lógica 
1939 Nicolas Bourbaki 
Uma regra de 
correspondência entre dois 
conjuntos. 
Axiomatização da Matemática, 
teoria dos conjuntos, álgebra, 
topologia, espaços vetoriais 
topológicos, integração (BOYER, 
1974) 
*correspondência, *conjuntos, 
imagem, domínio, teoria dos 
conjutos, integral, espaços 
vetoriais, relação 
Verbal (oral) e escrita, 
conjuntos, expressão 
lógica, Diagrama de 
Venn, plano 
cartesiano 
1939 Nicolas Bourbaki 
Sejam E e F dois conjuntos, 
que podem ou não ser 
distintos. Uma relação entre 
um elemento variável 𝑥 de E e 
um elemento variável 𝑦 de F é 
chamada de relação funcional 
em 𝑦 se, para todo 𝑥 em E, 
existe um único 𝑦 em F, que 
está na relação dada com 𝑥 
(BOURBAKI, 1957). 
Axiomatização da Matemática, 
teoria dos conjuntos, álgebra, 
topologia, espaços vetoriais 
topológicos, integração (BOYER, 
1974) 
*conjuntos, *relação, 
*unicidade, domínio, 
contradomínio, imagem, 
*variável, *lógica 
(quantificadaores), integral, 
espaços vetoriais 
Verbal (oral) e escrita, 
pares ordenados, 
conjuntos, Diagrama 
de Venn, plano 
cartesiano 
1952 Stephen Kleene 
No sentido mais geral, uma 
função (de valor único) 𝑓 ou 
𝑓(𝑥) ou 𝑦 = 𝑓(𝑥) de uma 
variável 𝑥 é uma 
correspondência por 𝑦 que, a 
cada elemento 𝑥 de um 
conjunto 𝑋 corresponde um 
único elemento 𝑦 de um 
conjunto 𝑌 (KLEENE, 1952). 
Lógica Matemática, teoria da 
computabilidade, hierarquia de 
Kleene, a álgebra de Kleene, o 
fecho de Kleene, o teorema da 
recursão de Kleene, teorema do 
ponto fixo de Kleene 
*varaviável, *correspondência, 
*conjunto, *unicidade, 
domínio, imagem, 
contradomínio, *lógica 
(quantificadaores), relação 
Verbal (oral) e escrita, 
pares ordenados, 
conjuntos, Diagrama 
de Venn, plano 
cartesiano 
1954 Nicolas Bourbaki 
Uma função é um triplo 𝑓 =
(𝐹, 𝐴, 𝐵). Aqui 𝐹 é um grafo 
Axiomatização da Matemática, 
teoria dos conjuntos, álgebra, 
*grafo, *conjunto, *pares, 
teoria dos conjuntos, 
Verbal (oral) e escrita, 
pares ordenados, 
158 
 
Ano 
Matemático ou 
Civilização 
Noção ou concepção ou 
definição 
Situações e trabalhos 
desenvolvidos 
Conceitos organizadores 
idenficados 
Representações 
identificadas 
funcional, significando um 
conjunto de pares onde dois 
pares não têm o mesmo 
primeiro membro. 
topologia, espaços vetoriais 
topológicos, integração (BOYER, 
1974) 
topologia, espaços vetoriais, 
integral 
conjuntos, grafo 
Fonte: da pesquisa 
 
159 
 
4.5.1 Situações 
 
De acordo com a Teoria dos Campos Conceituais são as situações que dão 
sentido aos conceitos e, um único conceito, precisa de uma variedade de situações 
para se tornar significativo. Além disso, admitimos que os dois contextos, o histórico, 
referente ao esforço de matemáticos e simpatizantes em resolver situações cotidianas 
e não cotidianas e o oriundo dos esforços de psicólogos por compreender 
cognitivamente o processo de aquisição do conceito de função se configuram como 
ambientes deresolução de situações-problema que proporcionaram e proporcionam 
mudanças no conceito de função. 
Na quarta coluna do Quadro 21, temos o primeiro contexto - histórico, as 
situações e os trabalhos que foram os gatilhos para que os matemáticos ao longo dos 
anos desenvolvessem o conceito de função, destacando situações-problema que 
foram chave tanto para filiações quanto para rupturas desse desenvolvimento, 
influenciando, inclusive, na natureza do conceito de função. 
Os problemas de física relacionados à aceleração, velocidades e taxas foram 
desencadeadores das primeiras representações gráficas da noção explícita de 
função. O problema da corda vibrante foi um divisor de águas, pois ele motivou os 
matemáticos à época a encontrarem soluções utilizando novos conceitos e 
aprimorando outros. Esse foi o caso da função, em que conseguiram estabelecer que 
uma equação diferencial parcial ou uma série infinita poderiam ser associadas a uma 
função. 
Uma situação mais ampla, que favoreceu a concepção de função que 
conhecemos hoje, foi a busca pela sistematização da Matemática em estruturas. Essa 
problemática despertou o interesse de muitos matemáticos que, aliados as ideias 
crescentes da axiomatização da Matemática por expressões lógicas, levou a 
constituição da função como uma relação entre elementos de dois conjuntos, com 
regras bem específicas. 
No segundo contexto, o Quadro 22 foi elaborado e, a partir dele, identificamos 
as situações-problema ou trabalhos relacionados que dizem respeito à compreensão 
do processo de elaboração do conceito de função. 
 
 
 
160 
 
Quadro 22 – Situações-problema de função resolvidos e a serem resolvidos do ponto de vista psicológico 
Situação ou trabalho Autores 
A ordenação de uma série de objetos (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968) 
A substituição de lugar de uma flor a partir de tamanhos 
diferentes 
(PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968) 
O deslocamento de posições em trilhos coloridos (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968) 
A passagem da função constituída de aplicações para a 
equivalência de classes 
(PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968) 
A passagem das regularidades para as proporcionalidades (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968) 
Análise de regularidades espontâneas (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968) 
Análise de correspondências ordinais e hiperordinais (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968) 
A passagem da proporcionalidade para função (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 1968) 
Estágio dos estudantes em relação ao conceito de função (THOMAS, 1969) 
A compreensão de relações, equações e funções (WAGNER, 1981) 
O papel da intuição na apreensão dos conceito de função (DREYFUS, EISENBERG, 1982) 
O processo de edificação da noção de função como um 
esquema conceitual 
(BERGERON, HERSCOVICS, 1982) 
O que é uma função? (DREYFUS, VINNER, 1982) 
O que é uma função? (VINNER, 1983) 
Hierarquia das estratégias de resolução de problemas na 
aquisição do conceito de função linear 
(RICCO, 1982) 
Estágios para dominar o conceito de função (MARKOVITS, EYLON, BRUCKHEIMER, 1986) 
O significado de variável (SCHOENFELD, ARCAVI, 1988) 
As concepções de função (SIERPINSKA, 1988) 
Tipificação do conceito de função (VINNER, DREYFUS, 1989) 
Resolução de problemas envolvendo função num amiente 
informatizado 
(SCHWARZ, DREYFUS, BRUCKHEIMER, 1990) 
A natureza das dificuldades relacionadas as representações 
algébrica e gráfica 
(ARTIGUE, 1992) 
O que é função? (NOGUÈS, 1992/1993) 
Dificuldades relacionadas as diferentes representações de 
função 
(HITT-ESPINOSA, Fernando, 1998) 
Função como covariação (RÊGO, 2000) 
Ideias de dependência funcional entre variáveis (PÉREZ, DEULOFEU, 2000) 
Transposição didática do conceito de função (AMRA, 2004) 
Efeito do estudo histórico de função na parendizagem (REED, 2007) 
Compreensão das representações algébrica e por par 
ordenado 
(MONOYIOU, GAGATSIS, 2010) 
Conceito de função em livros didáticos (ROSS, 2011) 
Concepção de função (PIRES, MERLINI, MAGINA, 2015) 
A construção do conceitos de variável e dependência (PEÑA, 2016) 
Concepções errôneas de função (NUNES, SANTANA, 2017) 
Construção de um Modelo Epistemológico para o ensino e 
aprendizagem de função 
(RODRIGUES, MENEZES, SANTOS, 2017) 
Fonte: da pesquisa 
 
As situações e trabalhos apresentados no Quadro 22 nos trazem um panorama 
das pesquisas em relação ao processo de aquisição do conceito de função. Nos 
primeiros trabalhos, aqueles de Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968), o enfoque 
estava na constituição inicial das estruturas funcionais do conceito de função. Após 
esses trabalhos, os pesquisadores estavam interessados em temas que se 
aproximavam mais do conceito de função na sala de aula e na situação em ação. Os 
trabalhos tratavam diretamente sobre a concepção de função, estágios de 
aprendizagem, tipificações de função e representações de função. 
Essas pesquisas, à medida que traziam resultados novos, permitiam 
161 
 
compreender de uma forma mais ampla, tanto o processo de aprendizagem do 
conceito de função, como as componentes presentes. A Teoria dos Campos 
Conceituais e a Teoria de Registros de Representação são exemplos de teorias que, 
com suas situações de pesquisa, influenciaram a concepção do conceito de função. 
Uma mudança profunda foi a compreeensão de que um conceito não é mais 
interpretado apenas por meio de uma definição, mas por um Campo Conceitual. 
 
4.5.2 Conceitos organizadores e Ideias-base 
 
No âmbito dos conceitos organizadores, é possível reconhecer que eles 
mudam ao longo do tempo, contudo, existem conceitos organizadores que perpassam 
o tempo e, que portanto, são estruturas primárias de outros conceitos, ou seja, 
constituem o que já chamamos anteriormente de ideias-base. Assim, para estabelecer 
as ideias-base do conceito de função, o primeiro passo foi estabelecer o conceito de 
função e, para isso, nos sustentamos na teoria dos campos conceituais para qual, 
para definir um conceito é necessário mais do que uma definição, é necessário 
estabelecer as situações, os invariantes e as representações. 
Uma vez articulados os conceitos organizadores no Quadro 22, buscamos 
realizar uma análise daqueles presentes nas Estruturas Aditivas, Multiplicativas e nos 
Problemas Mistos, na busca de indicativos sobre quais são as ideias-base do conceito 
de função. Admitimos que, as ideias-base do conceito de Função Afim estão presentes 
nos demais tipos de função. Assim, supondo que existam relações entre a Função 
Afim e os Campos Aditivos e Multiplicativos e, os Problemas Mistos, se encontrarmos 
as ideias-base da Função Afim, a título de exemplo, temos condições de inferir que as 
demais funções também possuem as mesmas ideias-base. 
O Quadro 23 se propõe a elucidar os conceitos organizadores que se fazem 
presentes nos Problemas Mistos e que também estão presentes nas Estruturas 
Aditiva e Multiplicativa. 
 
Quadro 23 – Conceitos organizadores identificados nas Estruturas Aditivas e Multiplicativas e, nos Problemas 
Mistos 
 Estruturas Aditivas Estruturas Multiplicativas Problemas Mistos 
Conceitos 
organizadores 
Quantidades discretas e 
contínuas, medidas, 
tranformação, 
comparação, composição 
binária, operação unitária, 
inversão, números, 
Proporção simples e 
proporção múltipla, 
função linear e n-linear, 
relação escalar direta e 
inversa, quociente e 
produção de dimensões, 
Proporção simples e proporção 
múltipla, função linear e n-linear, 
relação escalar direta e inversa, 
quociente e produção de 
dimensões, combinação linear e 
aplicação linear, fração, relação, 
162 
 
 Estruturas Aditivas Estruturas Multiplicativas Problemas Mistos 
posições, abscissa, valor 
algébrico 
combinação linear e 
aplicação linear, fração, 
relação, número racional, 
múltiplo e divisor 
número racional, múltiplo e divisor, 
quantidades discretas e contínuas, 
medidas, tranformação, 
comparação, composiçãobinária, 
operação unitária, inversão, 
números, posições, abscissa, valor 
algébrico 
 
Fonte: da pesquisa 
 
Pelo Quadro 23 construído a partir de textos anteriores de Gérard Vergnaud e 
colaboradores, pudemos hipotetizar os conceitos organizadores dos Problemas 
Mistos a partir da junção das Estruturas Aditivas e Multiplicativas. Uma vez realizadas 
essas inferências, busca-se no próximo quadro, articular os conceitos organizadores 
dos Problemas Mistos com as possíveis idéias-base de Função Afim (e, 
consequentemente de função), advindas das perspectivas histórica e cognitiva. 
 
Quadro 24 – Conceitos organizadores nos Problemas Mistos e nas Funções 
Estrutura Perspectiva Histórica Perspectiva Cognitiva28 
Problemas Mistos - 
Proporção simples, proporção múltipla, função 
linear, função n-linear, relação escalar direta, 
relação escalar inversa, quociente, produção 
de dimensões, combinação linear, aplicação 
linear, fração, relação, número racional, 
múltiplo, divisor, quantidades discretas, 
quantidades contínuas, medidas, 
tranformação, comparação, composição 
binária, operação unitária, inversão, números, 
posições, abscissa, valor algébrico. 
Função 
Correspondência, razão, 
dependência, grandeza, proporção, 
variável, grafos, conjuntos, pares 
ordenados, unicidade, domínio, 
imagem, contradomínio, 
homomorfismo, proposição, objetos, 
classes, argumentos, integral, 
inverso, continuidade, séries, 
equação, expressão analítica, 
sistema de equações, quantidades, 
derivadas, curvas, superfícies, regra 
de correspondência, regularidade, 
generalização, incógnita 
Ordem, relações unívocas, pares ordenados, 
transitividade instrumental, transitividade 
operatória, generalização dedutiva, 
conservação, reversibilidade, dependências, 
equivalência, categorias, diferentes tipos de 
correspondências, aplicação, inclusão, 
conjuntos, variável, proporcionalidade, 
vocabulário, simbolismo, propriedades de 
operações, propriedades internas das funções 
(domínio, imagem, contradomínio, diferentes 
classes de funções – lineares, quadráticas, 
trigonométricas, limitadas, contínuas, injetivas, 
sobrejetivas, bijetivas, explícitas, implícitas, 
recursivas, entre outras) 
Fonte: da pesquisa 
 
A partir do Quadro 24, podemos estabelecer algumas aproximações entre os 
 
28 A perspectiva cognitiva começou a partir do século XX, quando temos os primeiros trabalhos de 
Jean Piaget sobre funções e os trabalhos de Gérard Vergnaud sobre problemas mistos. 
163 
 
conceitos organizadores identificados na perspectiva histórica e na perspectiva 
cognitiva para os Problemas Mistos e para as Funções Afim. 
A primeira inferência que podemos fazer é que, existe um Campo Conceitual 
de Função Afim e, logicamente de Função (em geral) e ele não está contido no dos 
Problemas Mistos - situações que necessitam das Estruturas Aditivas e Multiplicativas 
– que se situa nas imbricações entre esses dois campos. O inverso acontece, ou seja, 
os Problemas Mistos estão contidos no Campo Conceitual de Função, pois podemos 
encontrar intersecções entre seus conceitos organizadores, como proporcionalidade, 
dependência e correspondência. Os conceitos organizadores comuns nos fornecem 
indícios de que, além de serem conceitos organizadores, eles constituem ideias-base. 
Nos Problemas Mistos, ao compararmos com Funções Afim, não encontramos 
os seguintes conceitos organizadores: variável, grafos, conjuntos, pares ordenados, 
domínio, imagem, contradomínio, proposição, objetos, classes, argumentos, integral, 
séries, equação, expressão analítica, derivadas, regularidade, generalização (na 
perspectiva histórica), ordem, transitividade instrumental, transitividade operatória, 
generalização dedutiva, conservação, equivalência, categorias, diferentes tipos de 
correspondências, inclusão, proporcionalidade, vocabulário, simbolismo, 
propriedades de operações, propriedades internas das funções (diferentes classes de 
funções – quadráticas, trigonométricas, limitadas, injetivas, sobrejetivas, bijetivas, 
explícitas, implícitas, recursivas, entre outras). Se acrescentarmos ao Quadro 24 os 
resultados já obtidos por Rodrigues e Rezende (2019; 2021), das ideias-base 
identificadas nos Problemas Mistos: correspondência, dependência, variável, 
regularidade e proporcionalidade, mais algumas intersecções podem ser exibidas 
entre os Problemas Mistos e as Funções Afim. 
A partir dos conceitos organizadores identificados no Quadro 20 (que já estão 
dispostos como ideias-base), Quadro 21, Quadro 23 e Quadro 24, identificamos os 
conceitos organizadores que estão presentes ao longo de toda evolução histórica e 
cognitiva do conceito de função, conforme Quadro 25. Esses conceitos organizadores, 
uma vez que se mantém, são candidatos a serem ideias-base. 
 
Quadro 25 – Candidatos a Ideias-base presentes nas perspectivas histórica e cognitiva simultaneamente 
Perspectiva Histórica Perspectiva Cognitiva Ideias presente em ambas 
Classes 
Diferentes tipos de funções 
(lineares, quadráticas, 
trigonométricas, limitadas, 
Diferentes de tipos (classes) de 
funções 
Conjuntos Conjuntos Conjuntos 
164 
 
Perspectiva Histórica Perspectiva Cognitiva Ideias presente em ambas 
Conservação Conservação Conservação 
Continuidade Contínuas Contínuas 
Correspondência Correspondência Correspondência 
Dependência Dependência Dependência 
Domínio Domínio Domínio 
Generalização Generalização Generalização 
Homorfismo Equivalência Equivalência 
Imagem Imagem Imagem 
Inverso Reversibilidade Reversibilidade 
Contradomínio Contradomínio Contradomínio 
Pares ordenados Pares ordenados, ordem Ordem 
Proporção Proporcionalidade Proporcionalidade 
Razão Razão Razão 
Regularidade Regularidade Regularidade 
Relações Relações Relações 
Variável Variável Variável 
Fonte: da pesquisa 
 
Assim, inferimos que os candidatos às ideias-base de Função Afim (e Função) 
são: diferentes tipos de classe, conjuntos, conservação, continuidade, 
correspondência, dependência, domínio, generalização, equivalência, imagem, 
reversibilidade, contradominio, ordem, proporcionalidade, razão, regularidade, 
relações e variável. 
Uma primeira análise nos diz que os diferentes tipos de classe, domínio, 
imagem e contradomínio são conceitos que necessitam da noção de conjunto, 
portanto, os descartamos como ideias-base. O conjunto é uma coleção de algo, em 
que esses algos tenham alguma semelhança, nesse caso, o conjunto precisa do 
conceito de semelhança, que está representado aqui pelos conceitos de 
correspondência, reversibilidade e conservação. 
A proporcionalidade é um conceito que depende dos conceitos de razão, 
relação, correspondência e equivalência. Quando a proporcionalidade pode ser 
generalizada, ela depende, além da razão, relação, correspondência e equivalência, 
dos conceitos de continuidade (no sentido de permanência), ordem, regularidade e 
variáveis. 
Os conceitos de relação, conservação, continuidade, ordem e reversibilidade 
são necessários ao conceito de correspondência termo a termo entre dois conjuntos, 
como entendida de forma usual em Matemática. Piaget e Garcia (1987), a partir de 
um experimento que em que disponibilizaram para as crianças um conjunto de 
pequenos peixes de diversos tamanhos e um determinado número de “bolas” de 
comida para peixes de tamanhos igualmente distintos, solicitando que elas 
distribuíssem essa comida aos peixes em função das necessidades de cada um; 
165 
 
identificaram que, as crianças inicialmente seriavam cada um dos conjuntos 
separadamente, ou seja, os peixes e a comida em ordem de dimensões, cada um. 
Após essa seriação interna, eles estabeleciam a correspondência termo a termo entre 
os dois conjuntos, ou seja, cada peixe com sua respectiva “bola” de comida. 
Esse experimento nos mostra que, para estabelecer uma correspondência 
entre diferentes conjuntos, as crianças precisavam ter incorporadas as noções de 
relação,conservação, continuidade e ordem. A conservação e a continuidade, aqui 
entendidas no sentido de permanecer, permitem que a criança estabeleça uma ordem 
entre cada peixe e também, entre cada “bola” de comida. Uma vez estabelecida essa 
relação de ordem, a criança precisa reconhecer que existe uma relação entre o 
tamanho do peixe e a “bola” de comida. Uma vez compreendido isso, a criança 
estabelece uma correspondência entre cada peixe e sua “bola” de comida. Para ter 
certeza dessa operação, a criança precisa executar o processo de reversibilidade, ou 
seja, conforme apontam Piaget (1976) e Piaget, Grize, Szeminska e Bang (1968), esse 
processo está associado à identificação de que existe uma correspondência biúnivoca 
entre duas grandezas, no caso, entre os peixes e “bola” de comida. 
Desta forma, se considerarmos correspondência como ideia-base, os conceitos 
de relação, conservação, continuidade, ordem e reversibilidade precisam ser retirados 
de nossa relação, sendo considerados como conhecimentos prévios, assim como, 
foram considerados os conceitos de número e as estruturas aditivas e multiplicativas. 
Entretanto, a correspondência, é ela própria, um conceito necessário para a 
constituição do número, posto que é essencial à contagem. A correspondência, não 
pode, em função do corte realizado, ser considerada ideia-base de função (e seus 
organizadores como relação, conservação, continuidade, no sentido de permanência, 
ordem e reversibilidade), por constituir o conceito organizador do número e, este ser 
organizador do Campo Conceitual das Estruturas Aditivas, não pode, em função da 
restrição realizada, ser considerada ideia-base de função. 
Desse modo, apesar de todas as ideias-base dos conceitos atinentes aos 
Campos Conceituais das Estruturas Aditivas e Multiplicativas poderem ser, também, 
ideias-base de função, destacamos aqui, às que se constituiriam, também, conceitos 
organizadores do Campo Conceitrual de Função em geral e da função afim, em 
particular, a saber, os conceitos de dependência, generalização, regularidade e 
variável. 
166 
 
A dependência está relacionada ao estabelecimento de uma relação entre 
grandezas variáveis. A variável está associado ao reconhecimento de que uma 
grandeza varia. Caraça (1951, p. 120), define o conceito de variável da seguinte forma: 
“Seja 𝐸 um conjunto qualquer de números, [...], e convencionemos representar 
qualquer dos seus elementos por um símbolo, por ex.: 𝑥. A este símbolo 
representativo de qualquer dos elementos do conjunto 𝐸 chamamos de variável”. 
O conceito de regularidade é estabelecido quando se identifica nas relações 
entre grandezas, padrões de correspondência e dependência ordenados. O conceito 
de reversibilidade é associado à identificação de que há uma correspondência 
biúnivoca entre duas grandezas. O sujeito é capaz de associar a grandeza A com a 
grandeza B, assim como a grandeza B com a grandeza A, nessas ordens. O conceito 
de generalização é estabelecido quando o conceito de regularidade acrescido do 
conceito de conservação, permite inferir que a relação entre as duas grandezas não 
é alterada com o tempo. 
Portanto, como dito, assumimos como ideias-base de funções os conceitos de 
dependência, generalização, regularidade e variável. 
 
4.5.3 Representações 
 
A partir do Quadro 21, é possível identificar que, ao longo do tempo, a 
representação verbal e escrita é aquela que perdura; até porque, uma das formas de 
comunicar qualquer resultado matemático passa pela via oral ou utilizando a língua 
natural. No Quadro 26, organizamos, a partir das perspectivas cognitiva e didática, os 
autores com os resultados das suas pesquisas sobre tipificação de funções. 
 
Quadro 26 – Tipificação identificadas das Representações de Funções a partir das Perspectivas Cognitiva e 
Didática 
Autor Tipificação das Representações 
(DREYFUS, EISENBERG, 1982) 
1) tabelas, 
2) diagrama de flechas, 
3) gráficos, 
4) fórmulas, 
5) descrições verbais e escritas. 
(MARKOVITS, EYLON, BRUCKHEIMER, 1986) 
1) verbal, 
2) diagrama de flechas, 
3) algébrica, 
4) gráfica. 
(ROSS, 2011) 
1) representação simbólica, 
2) 𝑦 = 𝑒𝑥𝑝𝑟𝑒𝑠𝑠ã𝑜, 
3) 𝑥 e 𝑦 implícitas, 
4) 𝑓(𝑥) = 𝑒𝑥𝑝𝑟𝑒𝑠𝑠ã𝑜, 
5) representação de função recursiva, 
6) equação com outras variáveis, 
167 
 
Autor Tipificação das Representações 
7) representação gráfica, 
8) gráfico contínuo, 
9) gráfico suave, 
10) gráfico de dispersão, 
11) representação numérica, 
12) representação tabular, 
13) representação em par ordenado, 
14) notação 𝑓(𝑥), 
15) representação de uma máquina de função, 
16) representação de um diagrama de mapeamento 
(Diagrama de John Venn), 
17) descrição verbal, 
18) representação física. 
(SANTOS, BARBOSA, 2017) 
1) tabular, 
2) diagrama, 
3) algébrica, 
4) gráfica, 
5) generalização de padrão, 
6) formal 
 
No Quadro 27 compilamos, a partir do Quadro 21, cinco períodos os quais 
consideramos serem adequados para estabelecer uma tipificação das representações 
de funções. A determinação do período de tempo, teve como critério mudanças 
significativas nas representações. Por exemplo, a partir de 1665 houve a introdução 
de representações que até então não eram utilizadas, tais como: Plano Cartesiano, 
Equações e Expressões Algébricas. 
 
Quadro 27 – Tipificação identificadas das Representações de Funções a partir da Perspectiva Histórica 
Ano Representações identificadas29 
~ 2000 𝑎. 𝐶. a 1579 Verbal (oral) e escrita, Tabular, Curvas Geométricas 
1665 𝑎 1714 
Plano Cartesiano, Equações, Pictórica, Expresões Algébricas, Gráfico, Expressão 
Analítica 
1718 𝑎 1822 Séries, Fórmula, Equação Diferencial Parcial, Superfícies, Sistema de Equações 
1829 𝑎 1952 
Par Ordenado, Expressão Lógica, Integral, Expressão Booleana, Diagrama de Venn, 
Conjuntos 
1954 𝑎𝑡é ℎ𝑜𝑗𝑒30 Grafos 
Fonte: da pesquisa 
 
Em relação às representações, foi possível caracterizar algumas que, não 
estão nas referências clássicas, ou, se estão, não lhes são dadas a devida ênfase; 
isso se reflete nos livros didáticos, e, por consequência, na sala de aula; são elas: 
integral, séries, equações diferenciais parciais, curvas (e não os gráficos), superfícies, 
equações booleanas e combinadores lógicos. 
 
29 Para diminuir a poluição do quadro, todas as representações anteriores não são colocadas na 
sequência, pois estamos admitindo que as representações já eram de conhecimento dos 
matemáticos posteriores. 
30 Esse “até hoje” significa ter adotado as tipificações que utilizamos no texto até o momento da 
defesa da tese. 
168 
 
Algumas dessas representações são trabalhadas no Ensino Superior, contudo, 
sem dar ênfase ao caráter funcional delas, pois, nem sempre são articuladas com o 
conceito de função pelos professores. 
 
 
4. 6 IMPLICAÇÕES AO ENSINO DE MATEMÁTICA 
 
A partir das articulações realizadas entre o quarteto (situação, conceito 
organizador, ideia-base e representação) e as três perspectiva: histórica, cognitiva e 
didática, é possível trazer algumas implicações ao ensino de Matemática. 
 
4.6.1 Algumas considerações 
 
Inicialmente cabe ressaltar que, os textos encontrados sobre as possibilidades 
de ensino de funções, tratavam, em sua grande maioria, da Educação Básica. Aliado 
a isso, as propostas didáticas eram acompanhadas de análises, principalmente, para 
identificar as representações que os alunos reconheciam e desenvolviam. Nos textos 
também é possível identificar que os autores realizaram análises de livros ou 
entrevistas com professores e alunos; tendo como principal resultado, a constatação 
que as aulas sobre funções são geralmente iniciadas com a parte algébrica, com 
conceitos anteriores atrelados à teoria de conjuntos. 
Esse resultado vai contra o movimento histórico e cognitivo, pois conforme foi 
visto, a parte algébrica foi desenvolvida posteriormente ao processo aritmético e 
geométrico (MEDVEDEV,1991; YOUSCHKEVITCH, 1976). Do ponto de vista cognitivo, 
vimos que as primeiras ideias de pensamento funcional dependem da compreensão 
completa da transitividade instrumental e operatória (PIAGET, GRIZE, SZEMINSKA, BANG, 
1968), ou seja, trata-se mais de um processo aritmético que algébrico. 
Em alguns textos como os de Cha (1999), Lietzmann (1932), Lennes (1932) e 
Even (1988), eles realizaram estudos com professores sobre a melhor forma de 
ensinar o conceito de funções. Muitos achavam conveniente ensinar por meio de 
pares ordenados, por “parecer” mais dinâmico; outros que a abordagem por meio dos 
pares ordenados era mais estática e menos intuitiva, ou seja, não havia (e acredito 
que não haja ainda) um consenso sobre as melhores abordagens a serem utilizadas 
em sala de aula. 
169 
 
Um aspecto interessante encontrado por Cha (1999) são os tipos de definições 
que os livros didáticos americanos do século XX utilizavam. O resultado dessa 
investigação mostra quatro diferentes formas de definir função, o que corrobora com 
as pesquisas envolvendo professores, nas quais não havia um consenso sobre como 
trabalhar o conceito de funções. Isso parece ser consequência da falta de pesquisas 
que separem o pensamento funcional do conceito de função. Essa não separação 
acarreta compreensões parciais, e às vezes, equivocadas do conceito de função. Isso 
implica em ensinar, por exemplo, teoria dos conjuntos, antes mesmo de trabalhar com 
as ideias-base anteriores, que irão preparar o aluno para o pensamento funcional, 
para depois disso, ensinar, se necessário (KLEINER, 1989; KLEINER, 1993), a partir de 
uma abordagem mais conjuntista e lógica. 
Kleiner (1993) também discute a importância de se trabalhar no Ensino 
Superior com as mais diversas compreensões de função, incluindo as séries e as 
equações diferenciais, que, como vimos, historicamente foram essenciais no 
desenvolvimento do conceito de função. 
Schwarz e Dreyfus (1995) discutem a utilização de softwares no ensino de 
função. Como vimos, George Boole, com sua lógica booleana e, Von Neummann, com 
sua teoria dos operadores, desenvolveram os computadores a partir das novas 
concepções desenvolvidas por eles, de função. Nesse contexto, eles também 
permitiram a criação de um novo tipo de representação, a representação 
computacional, que trouxe mais um aspecto a ser analisado do ponto de vista didático. 
Nesse momento, cabe uma reflexão sobre as novas representações que os 
computadores trouxeram. Entre elas, e que não foi citada em nenhum texto, é a 
representação na forma de código de programação. É possível escrever funções por 
meio de algoritmos que utilizam as mais variadas sintaxes, a depender do software 
utilizado. Essas representações fazem parte do atual cenário do conceito de funções 
e devem ser colocadas em evidência, pois o conceito de função é novamente 
adaptado aos problemas contextuais e, consequentemente, históricos. 
Fato é que, Félix Klein, travou uma batalha para realizar uma revolução do 
ensino de funções. Como resultado, Dreyfus e Eisenberg (1983; 1987) provocou uma 
mudança no ensino do conceito de função para outras estratégias, como: meio de 
diagrama de flechas, gráficos, tabelas, problemas de palavras, par ordenado e uma 
combinação entre elas. Essa mudança, por mais interessante que possa parecer, 
170 
 
ainda está enraizada na concepção de função do século XVIII em diante, pautada em 
relações envolvendo conjuntos e pautada na lógica. 
Entretanto, seria uma interpretação errônea do ponto de vista histórico atribuir 
apenas às representações analíticas e geométricas da função o principal papel na 
compreensão do conceito de função. Aspectos numéricos são essenciais no 
aprendizado de funções, como por exemplo, tabelas e cálculos e mais, em situações 
“do mundo real”, valores numéricos “concretos” estão tácitos nas expressões 
algébricas e nas curvas geométricas. 
Por exemplo, matemáticos dos séculos XVII e XVIII passavam muito tempo 
realizando operações aritméticas, procurando padrões e relações. Newton preencheu 
diversas páginas com longos cálculos aritméticos (PONTE, 1992). A pesquisa de Ponte 
(1984) constatou que na interpretação das relações funcionais fornecidas no 
experimento por meio de gráficos cartesianos, os alunos recorriam a estratégias de 
raciocínio numérico, com as quais se sentiam mais seguros. Do ponto de vista 
cognitivo, para esses alunos, os números são entidades primitivas primordiais para os 
conceitos matemáticos mais abstratos (PONTE, 1992). 
No contexto da sala de aula, pode-se discutir que, as dificuldades que os alunos 
experimentam na sala de aula podem advir da pressão à qual eles são impostos para 
lidar com conceitos mais abstratos. Assim, é necessário “[...] construir e analisar 
tabelas, calcular valores numéricos, desenvolver um senso quantitativo e adquirir uma 
noção do que são aproximações aceitáveis e inaceitáveis” (PONTE, 1992, p. 7). 
Essas estratégias estão alicerçadas na evolução do conceito de função ao 
longo do tempo, o que torna o processo de ensino aparentemente mais conectado. 
Tais estratégias, se aliadas a teorias de aprendizagem que mostrem cognitivamente 
como o indivíduo pode aprender de forma mais adequadas, são essenciais para a 
prática pedagógica no ensino de função. 
Um exemplo disso foram os resultados de Kjeldsen e Petersen (2013), os quais 
mostraram que é possível utilizar fontes históricas como potenciais agentes que criam 
conflitos cognitivos e, portanto, têm potencial para causar mudanças nos esquemas 
dos estudantes. Devido a esse tipo de incompatibilidade, é possível, por exemplo, 
ativar os dois fatores de conflito cognitivo sugeridos por Tall (1988; 1991) e Tall e 
Vinner (1981), o conceito imagem e conceito definição, pois, o aluno sendo posto em 
conflito com seu conceito imagem a definição de conceito, os força a articular e refletir 
171 
 
sobre sua própria concepção, levando-os a refletir sobre o conceito de função em um 
nível estrutural (KJELDSEN, PETERSEN, 2013). 
Entre tais teorias, a Teoria dos Campos Conceituais tem se mostrado profícua 
para o ensino das Estruturas Aditivas e Multiplicativas. No caso de funções, temos 
visto que, ao mapear as situações, os conceitos organizadores, as ideias-base e as 
representações do Campo Conceitual de Função, o aprendizado tem se tornado mais 
completo, uma vez que dá um ferramental teórico e mesmo metodológico para o 
professor realizar suas escolhas didáticas. 
 
4.6.2 Discussões a partir dos resultados obtidos 
 
Nesta seção, a partir dos resultados obtidos, dos resultados anteriores dos 
trabalhos do GePeDiMa, da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e da 
caracterização dos níveis de função de Bergeron e Herscovics (1982), apresentamos 
uma proposta de quais conceitos organizadores, ideias-base e representações podem 
complementar o estudo de funções. 
De acordo com a BNCC, na etapa do Ensino Fundamental, as diferentes áreas 
da Matemática reúnem […] um conjunto de ideias fundamentais que produzem 
articulações entre eles: equivalência, ordem, proporcionalidade, 
interdependência, representação, variação e aproximação” (BRASIL, 2017, p. 
266). O documento cita a proporcionalidade como um exemplo de conceito que deve 
estar acoplado ao estudo de: “operações com os números naturais; representação 
fracionária dos números racionais; áreas; funções; probabilidade etc.” (BRASIL, 2017, 
p. 266). 
Das ideias fundamentais presentes na BNCC, apenas a ideia de aproximação 
não está associada com as ideias-base propostas aqui. As demais ideias, em nossa 
perspectiva, estão presentes em em estruturas anteriores, como a Aditiva e a 
Multiplicativa. 
Na unidade temática Números, os alunos precisam ser postos em contato com 
situações significativas que desenvolvam “[…] o processo de construção da noção de 
número […]”, “[…] as ideias de aproximação, proporcionalidade, equivalênciaKATO, 2010; SANTANA, CAZORLA, SANTOS, 2019; SANTOS, RODRIGUES, 2019; 
TEIXEIRA, CAMPOS, VASCONCELLOS, GUIMARÃES, 2011; TURNER, JUNK, EMPSON, 2007; 
VERGNAUD, 1986), que o possível Campo Conceitual de Função não está estabelecido 
(AMPLATZ, 2020; CALADO, 2020; CAMILI, 2021; CUNHA, FERREIRA, 2020; DA SILVA, 2021; 
LORENCINI, 2019; MIRANDA, 2019; MIRANDA, REZENDE, NOGUEIRA, 2021; NOGUEIRA, 
REZENDE, 2018; 2019; PERON DA SILVA, 2021; REZENDE, 2018; RODRIGUES, 2021), de 
que estudantes da Educação Básica até o Ensino Superior apresentam problemas 
com o conceito de funções e os seus conceitos prévios(COMIN, 2005; DEMAROIS, 1998; 
DIAS, ANDRADE, CAMPOS, 2019; DOUADY, 2011; DREYFUS, EISENBERG, 1983; DREYFUS, 
VINNER, 1982; HOLLAR, 1996; LUE, 2005; SOUZA, 2016,Munshower, 1938 #1327); a 
pertinência de um estudo que procure trazer à tona o desenvolvimento e evolução do 
conceito de função, justifica-se, sobretudo, por oferecer algumas respostas aos 
problemas enfrentados pelos professores em sala de aula para ensinar tal conceito. 
Além disso, pensar no corpo de saberes do conceito de função pode ajudar outros 
pesquisadores a validar os modelos operativos2 mobilizados pelos estudantes na 
resolução de situações que envolvam função e o possível Campo Conceitual atrelado 
a ela. 
Destarte, sabendo que no Brasil existem poucos grupos de pesquisa que têm 
 
2 Segundo Pastré, Mayen e Vergnaud (2006, p. 31), o modelo operativo designa a representação feita 
por um sujeito de uma situação na qual ele está engajado para transformá-la. 
18 
 
investido no estabelecimento de constructos teóricos para o possível Campo 
Conceitual de Função, este entendido como o conjunto de situações, de conceitos e 
representações associados ao conceito de função, esta tese está inserida em (e 
compõe) um projeto maior realizado pelo GePeDiMa – Grupo de Estudos e Pesquisas 
em Didática da Matemática3 ligado ao Programa de Pós-Graduação em Educação em 
Ciências e Educação Matemática – PPGECEM da Universidade Estadual do Oeste 
do Paraná – UNIOESTE cujo objetivo é mapear o processo de desenvolvimento do 
conceito de função buscando “[…] identificar conhecimentos mobilizados por sujeitos 
de diferentes idades quando resolvem situações problemas referentes a este Campo 
Conceitual” (NOGUEIRA, REZENDE, 2019, p. 196), ou seja, busca-se estabelecer o 
possível Campo Conceitual de Função Afim, na perspectiva da teoria dos Campos 
Conceituais. 
Na busca por contribuir para que o GePeDiMa atinja esse objetivo maior, 
estamos interessados em responder às seguintes perguntas de pesquisa: por que é 
possível inferir a existência do Campo Conceitual das Funções? Quais são as 
situações, conceitos organizadores, ideias-base e representações envolvidas neste 
Campo Conceitual? 
Para responder a essas perguntas, temos como objetivo geral identificar e 
caracterizar as situações, conceitos organizadores, ideias-base e representações do 
conceito de função. Assim, para alcançar tal objetivo, precisamos estipular outros 
objetivos. Inicialmente, precisamos realizar uma pesquisa bibliográfica sobre a 
evolução do pensamento funcional até chegar ao conceito de função, uma vez que, 
ao compreender as mudanças conceituais sofridas ao longo do tempo, temos, ao 
menos por hipótese, condições de identificar e caracterizar as situações, os conceitos 
organizadores, as ideias-base e as representações que foram sendo necessárias ao 
longo dos anos para estabelecer e formalizar o conceito de função como o 
conhecemos. É necessário também, caracterizar o que são conceitos organizadores 
e ideias-base e como eles se diferenciam de conceitos organizadores pragmáticos e 
invariantes operatórios4. 
Na busca por esse quarteto, utilizamos a teoria dos Campos Conceituais de 
Vergnaud (1989) para nos orientar no estabelecimento das articulações entre 
 
3 Para maiores informações acesse: https://prpgem.wixsite.com/gepedima. 
4 Esses conceitos estão descritos nos Capítulos 3 e 4. 
https://prpgem.wixsite.com/gepedima
19 
 
conceitos organizadores e ideias-base e os chamados conceitos organizadores 
pragmáticos e invariantes operatórios, conceitos estes que servem ao sujeito para 
guiar suas ações na tentativa de resolver uma situação estabelecida. No capítulo 
quatro estabelecemos as diferenças entre tais conceitos. 
Em relação à busca pelo mapeamento desse quarteto, assumimos o que 
Ferreira (2002) aponta, a saber, que muitos pesquisadores, ao buscarem um 
mapeamento sobre trabalhos em determinada área do conhecimento, identificam que 
não há uma clareza sobre a totalidade dos estudos e pesquisas, nem mesmo reflexões 
holísticas que levem ao aprofundamento do assunto. Nesse sentido, a multiplicidade 
de perspectivas e pluralidades de uma determinada área do conhecimento não trarão 
colaboração efetiva se não houver uma articulação nas análises advindas de outras 
áreas do conhecimento, bem como de articulações que busquem integrar 
estruturalmente os estudos e resultados dessas pesquisas. 
Um primeiro passo para essa integração, portanto, consiste em realizar uma 
revisão analítica e crítica dessas perspectivas e resultados de pesquisas. Dessa 
maneira, no contexto apresentado, foi realizado um estudo sobre o Estado da Arte do 
conceito de função, de suas representações, situações geradoras, conceitos 
organizadores e ideias-base. 
Instituídos o problema de pesquisa e os objetivos, nos próximos capítulos nos 
aprofundamos nos procedimentos metodológicos descrevendo nosso caminho 
percorrido (capítulo 1), os fundamentos históricos, didáticos e cognitivos do conceito 
de função (capítulo 2), aTeoria dos Campos Conceituais (capítulo 3), a caracterização 
do quarteto (capítulo 4) e, por fim, apresentamos nossas considerações. 
 
20 
 
CAPÍTULO 1 – O MOVIMENTO METODOLÓGICO ADOTADO 
 
“Não há só um método para estudar as 
coisas”. 
Aristóteles 
Toda pesquisa, por mais simples que seja, apresenta um, ou mais caminhos 
que foram percorridos. O nosso movimento, que muitas vezes sofreu desvios, 
mudanças de direção e até mesmo a busca por atalhos, foi inicialmente realizada de 
forma heurística. Muitas foram as idas e vindas que serviram para mostrar um possível 
caminho. Nesse percurso, muitos dos passos iniciais adotados foram mais intuitivos e 
em busca de uma estruturação do trabalho cujo tema e objetivos sofreram profundas 
mudanças ao longo desses cinco anos. 
Inicialmente, o trabalho tinha como tema central identificar os invariantes 
operatórios (VERGNAUD, 1989; 1990; 1993; 1996b; 2003; 2009c) de Função Afim de 
estudantes dos anos iniciais da Educação Básica até os do Ensino Superior. Nesse 
cenário, foi necessário realizar estudos sobre Campos Conceituais, sobre livros 
históricos relacionados à evolução do conceito de função, como também de aspectos 
relacionados a entrevistas semiestruturadas baseadas no Método Clínico de Piaget 
(CARRAHER, 1983; PIAGET, 1973) sustentadas em instrumentos de produção de dados 
constituídos por sequências de situações-problema envolvendo Função Afim e pelas 
análises das respostas. 
Posteriormente, com a possibilidade de realizar o estágio doutoral sanduíche 
nos Estados Unidos, a pesquisa passou a ter um caráter mais global e comparativo 
entre estudantes brasileiros e americanos, sendo num primeiro momento, dos anos 
iniciais até o Ensino Superior. E o instrumento de produção de dados também acabou 
sendo alterado para Grupos Focais (KRUEGER, 1998a; 1998b; 1998c; KRUEGER, 
CASEY, 2009; KRUSZELNICKA, KING, 1998; MORGAN, 1998a; 1998b). Contudo, no 
decorrer do caminho, dada a quantidade de dados que seriam necessários coletar e 
analisar, verificou-se que não haveria tempo hábil para a pesquisa e optou-se por 
realizar apenas com estudantes do Ensino Superior dos cursos de licenciatura em 
Matemática e Pedagogia. Nesse percurso foi realizado um estudo piloto com três 
estudantes de um curso de Pedagogia, bem como com doise 
ordem” (BRASIL, 2017, p. 268). 
As ideias matemáticas fundamentais associadas à unidade temática Geometria 
são: construção, representação e interdependência. Na unidade Grandezas e 
172 
 
Medidas, espera-se que contribua “[…] para a consolidação e ampliação da noção de 
número, a aplicação de noções geométricas e a construção do pensamento algébrico” 
(BRASIL, 2017, p. 273). 
Na unidade Álgebra, a BNCC sugere a “[…] noção intuitiva de função pode ser 
explorada por meio da resolução de problemas envolvendo a variação proporcional 
direta entre duas grandezas (sem utilizar a regra de três)” (BRASIL, 2017, p. 270) 
A partir dessas informações montamos o Quadro 28, a seguir. Nas situações é 
apenas dado um exemplo de como um enunciado poderia começar em cada nível. No 
caso dos conceitos organizadores, não esgotamos todas as possibilidades. E nas 
representações, utilizamos as que identificamos no Quadro 27. 
 
Quadro 28 – Níveis de função e o Quarteto – Ensino Fundamental (Anos Iniciais) 
Quarteto 
Entendimento 
Intuitivo 
Matematização Abstração Formalização 
Situações 
Observe a 
sequência … 
Complete a tabela 
e construa um 
gráfico … 
Escreva uma 
expressão que dê a 
área… 
Determine o 
domínio, imagem, 
…. 
Conceitos 
organizadores 
O conceito de 
número, Sistema 
de numeração, 
Números naturais, 
números ordinais, 
gráficos 
Padrões figural e 
numérico, 
regularidades em 
sequências 
recursivas 
formadas por 
figuras, objetos e 
números naturais 
Relação de igualdade 
em uma expressão 
analítica 
- 
Ideias-base dependência regularidade generalização Todas 
Representações 
Verbal (oral) e 
escrita, Tabular, 
Diagrama de Venn, 
Pictórica 
Expressões, 
Curvas 
Geométricas, 
Gráfico, Par 
odenado, Plano 
Cartesiano 
Expressões 
algébricas 
Todas 
Fonte: da pesquisa 
 
No Ensino Fundamental – Anos Finais, na temática Números, há de se ampliar 
a noção de número para o conjunto dos inteiros, racionais e irracionais. Espera-se 
também que os alunos desenvolvam o conceito de porcertagem. 
Na unidade temática Álgebra, as ideias matemáticas fundamentais vinculadas 
são: “[…] equivalência, variação, interdependência e proporcionalidade por sua vez, 
tem como finalidade o desenvolvimento de um tipo especial de pensamento – 
pensamento algébrico” (BRASIL, 2017, p. 270). Nessa unidade os alunos precisam 
identificar “[…] regularidades e padrões de sequências numéricas e não numéricas”, 
estabelecer “[…] leis matemáticas que expressem a relação de interdependência entre 
grandezas em diferentes contextos, bem como criar, interpretar e transitar entre as 
173 
 
diversas representações gráficas e simbólicas” (BRASIL, 2017, p. 270). 
Ainda na temática Álgebra, a BNCC também sugere que 
[…] os alunos devem compreender os diferentes significados das variáveis 
numéricas em uma expressão, estabelecer uma generalização de uma 
propriedade, investigar a regularidade de uma sequência numérica, indicar 
um valor desconhecido em uma sentença algébrica e estabelecer a variação 
entre duas grandezas. É necessário, portanto, que os alunos estabeleçam 
conexões entre variável e função e entre incógnita e equação (BRASIL, 2017, 
p. 270-271). 
As ideias matemáticas fundamentais associadas à temática Geometria são, 
principalmente, a construção, a representação e a interdependência (BRASIL, 2017). 
Dessas discussões, montamos o Quadro 29. 
 
Quadro 29 – Níveis de função e o Quarteto – Ensino Fundamental (Anos Finais) 
Quarteto 
Entendimento 
Intuitivo 
Matematização Abstração Formalização 
Situações 
Observe a 
sequência … 
Complete a tabela 
e construa um 
gráfico … 
Escreva uma 
expressão que dê a 
área… 
Determine o 
domínio, imagem, 
…. 
Conceitos 
organizadores 
O conceito de 
número, Sistema 
de numeração, 
Números naturais, 
números ordinais, 
gráficos 
Padrões figural e 
numérico, 
regularidades em 
sequências 
recursivas 
formadas por 
figuras, objetos e 
números naturais 
Relação de igualdade 
em uma expressão 
analítica 
- 
Ideias-base dependência regularidade generalização Todas 
Representações 
Verbal (oral) e 
escrita, Tabular, 
Diagrama de Venn, 
Pictórica 
Expressões, 
Curvas 
Geométricas, 
Gráfico, Par 
odenado, Plano 
Cartesiano 
Expressões 
algébricas 
Todas 
Fonte: da pesquisa 
 
No Ensino Médio, a BNNC propõe que “[…] os estudantes devem desenvolver 
habilidades relativas aos processos de investigação, de construção de modelos e de 
resolução de problemas” e, portanto, “[….] devem mobilizar seu modo próprio de 
raciocinar, representar, comunicar, argumentar e, com base em discussões e 
validações conjuntas, aprender conceitos e desenvolver representações e 
procedimentos cada vez mais sofisticados” (BRASIL, 2017, p. 529). 
Uma das competências específicas da Matemática e suas Tecnologias, na 
BNCC é “[…] compreender e utilizar, com flexibilidade e precisão, diferentes registros 
de representação matemáticos (algébrico, geométrico, estatístico, computacional 
etc.), na busca de solução e comunicação de resultados de problemas” (BRASIL, 
2017, p. 531). Essas discussões permitiram desenvolver o Quadro 30. 
174 
 
Quadro 30 – Níveis de função e o Quarteto – Ensino Médio 
Quarteto Entendimento 
Intuitivo 
Matematização Abstração Formalização 
Situações Observe a 
sequência … 
Complete a tabela 
e construa um 
gráfico … 
Escreva uma 
expressão que dê a 
área… 
Determine o 
domínio, imagem, 
…. 
Conceitos 
organizadores 
O conceito de 
número, Sistema 
de numeração, 
Números naturais, 
números ordinais, 
gráficos 
Padrões figural e 
numérico, 
regularidades em 
sequências 
recursivas 
formadas por 
figuras, objetos e 
números naturais 
Relação de igualdade 
em uma expressão 
analítica 
Domínio, Imagem, 
propriedades 
(injetora, 
sobrejetora, 
bijetora), 
monotônica, 
contínua, tipos de 
função (afim, 
quadrática, 
exponencial, 
logarítmica, 
trigonométrica) 
Ideias-base dependência regularidade generalização Todas 
Representações Verbal (oral) e 
escrita, Tabular, 
Diagrama de Venn, 
Pictórica 
Expressões, 
Curvas 
Geométricas, 
Gráfico, Par 
odenado, Plano 
Cartesiano 
Expressões 
algébricas 
Todas 
Fonte: da pesquisa 
 
No Parecer Técnico do Conselho Nacional de Educação sobre as diretrizes 
curriculares para os cursos de Matemática, é esperado do egresso do curso de 
Matemática que ele tenha a “[…] habilidade de identificar, formular e resolver 
problemas na sua área de aplicação, utilizando rigor lógico-científico na análise da 
situação-problema” (BRASIL, 2001, p. 3). 
A título de exemplo e parâmetro, o Projeto Pedagógico do Curso de 
Licenciatura em Matemática da UTFPR – Toledo possui oito disciplinas que vão 
trabalhar da noção de função até às últimas definições que incluem Equações 
Diferenciais e Séries, a saber: Tópicos de Matemática A, Tópicos de Matemática B, 
Funções Reais de uma Variável Real, Cálculo A, Cálculo B, Sequências e Séries, 
Equações Diferenciais Ordinárias e Álgebra. 
Dentre as diferentes disciplinas, elencamos alguns objetivos focados no 
conceito de função e pensamento funcional: “[…] Desenvolver a capacidade de 
analisar, relacionar, comparar, classificar, sintetizar, avaliar, abstrair, generalizar e 
criar matematicamente; adquirir hábitos de rigor e precisão, de ordem e clareza e de 
uso correto da linguagem matemática” e continua “[…] Procurar, selecionar e formular 
hipóteses, interpretar informações e prever resultados relativos ao problema; associar 
funções e seus limites” (TOLEDO, 2017, p. 45). 
 
175 
 
A partir dessas considerações, temos o Quadro 31 como resultado das 
articulações entre o quarteto e a tipificação de função no Ensino Superior. 
 
Quadro 31 – Níveis de função e o Quarteto – Ensino Superior 
Quarteto Entendimento 
Intuitivo 
Matematização Abstração Formalização 
Situações Observe a 
sequência … 
Complete a tabela 
e construa um 
gráfico … 
Escreva uma 
expressão queestudantes de um curso 
de licenciatura em Matemática, todos brasileiros. 
Uma vez nos Estados Unidos, a pandemia acabou mudando os planos 
https://www.pensador.com/autor/aristoteles/
21 
 
novamente, posto que as universidades e escolas passaram a desenvolver atividades 
a distância ou permanecerem completamente fechadas. Nesse período conseguimos 
realizar um estudo piloto, online, via ZOOM, com um estudante de Ensino Superior da 
Universidade de Rutgers, em Newark, New Jersey, que estava fazendo o curso para 
formação de professores. Contudo, a dificuldade em conseguir estudantes para 
realizar a entrevista foi o principal motivo para, mais uma vez, alterarmos o caminho. 
A escolha passou a ter um caráter mais teórico, sem a necessidade de recorrer 
a terceiros, nesse contexto, os estudantes, as instituições e os comitês de ética (Brasil 
e Estados Unidos). Perante o exposto, e a partir de leituras já realizadas sobre 
Campos Conceituais e a evolução do conceito de função considerando-se reflexões 
realizadas pelo GEPeDiMa, acerca da possível existência do Campo Conceitual da 
Função Afim, optou-se por investigar a existência do Campo Conceitual das Funções, 
a partir de situações, conceitos organizadores, ideias-base e representações que não 
estão no Campo Conceitual das Estruturas Aditivas e Multiplicativas e, dos Problemas 
Mistos. 
 
 
1. 1 A ESCOLHA METODOLÓGICA 
 
No contexto exposto e considerando que estamos interessados em identificar 
e caracterizar o quarteto do conceito de função, a saber os conceitos organizadores, 
as ideias-base, as representações e as situações, adotamos o Estado da Arte como 
fio condutor da primeira parte da pesquisa, que buscou identificar as modificações que 
este conceito sofreu ao longo dos anos. 
O Estado da Arte se consolidou como um estudo sobre a produção de uma 
determinada área, cujo objetivo principal é se posicionar sobre o que tem sido 
produzido e, a partir disso, decidir sobre os próximos passos (MONTOYA, 2005). 
Para além de um mero mapeamento descritivo o Estado da Arte é um “[...] 
conhecimento sistematizado e, a maneira como é produzido, além de suas lacunas, 
facetas e resultados” também possui como característica aprofundar e analisar 
estudos de diferentes áreas e temáticas num determinado campo científico. O caráter 
holístico desse tipo de pesquisa revela sua expressão crítica e analítica (SANTOS, 
SANTOS, SERIQUE, LIMA, 2020, p. 211). 
22 
 
Ferreira (2002), num artigo em que discute as pesquisas denominadas Estado 
da Arte, define essas investigações como aquelas com caráter bibliográfico, 
objetivando “[…] discutir a produção acadêmica em diferentes campos do 
conhecimento”. Tais pesquisas têm caráter inventariante e descritivo. Palacio, 
Granados e Villafáñez (2016) também se aproximam da mesma definição ao 
afirmarem que o Estado da Arte é uma modalidade de pesquisa documental que 
permite o estudo do conhecimento escrito e acumulado numa determinada área 
específica. A finalidade deste tipo de pesquisa é dar significado ao material 
encontrado. 
Num artigo sobre o Estado da Arte como metodologia de investigação, Gómez 
Vargas, Galeano Higuita e Jaramillo Muñoz (2015) consideram que o Estado da Arte 
é definido por três etapas: recuperar para descrever, compreender e, recuperar para 
transcender reflexivamente. Recuperar para descrever significa buscar e criar um 
inventário da produção acadêmica até então publicada; nesse caso, é realizada uma 
avaliação descritiva de tudo que foi publicado. Uma vez realizada essa descrição, é 
necessário compreender as teorias desses textos e clarificar as noções conceituais 
que são abordadas. A próxima etapa, recuperar para transcender, consiste em, a partir 
da compreensão do que já foi produzido, recuperar o conhecimento já produzido e 
realizar novas perguntas, críticas, sistematizações e interpretações, a fim de avançar 
na área investigada. 
Pesquisas do tipo Estado da Arte, possuem abordagens qualitativa e 
quantitativa. De um lado elas podem apresentar numericamente o número de 
publicações utilizando para isso de testes estatísticos, por outro, podem realizar uma 
análise de tais dados utilizando métodos qualitativos, como por exemplo, a Análise de 
Conteúdo (BARDIN, 1977), a Análise do Discurso (ORLANDI, 2005), dentre outras. 
Assim, o Estado da Arte “[...] consiste um em tipo de pesquisa bibliográfica de 
caráter panorâmico, tomado de expressão crítica e analítica e assumindo abordagem 
quanti-qualitativa” (SANTOS, SANTOS, SERIQUE, LIMA, 2020, p. 212). Essa última 
definição passou a se tornar dominante no meio acadêmico expandindo a abrangência 
não apenas para assuntos tecnológicos e práticos, mas também para assuntos de 
conhecimento teórico. 
Palacio, Granados e Villafáñez (2016), definem os diversos objetivos de uma 
pesquisa Estado da Arte: 1) obter dados essenciais das abordagens teóricas do objeto 
23 
 
de estudo, tendências e perspectivas metodológicas; 2) descrever o atual estado de 
desenvolvimento do objeto de pesquisa; 3) ampliar o conhecimento sobre o que foi 
investigado, de modo a fornecer argumentos para justificar o escopo de uma 
investigação; 4) contribuir para a construção de uma linguagem comum entre 
interessados no assunto pesquisado; 5) estudar a evolução do problema; 6) gerar 
novas interpretações e posições críticas em torno do objeto de pesquisa; 7) determinar 
e comparar as várias abordagens dadas ao mesmo problema; 8) identificar os 
subtemas que se consideram pertinentes; 9) organizar o material existente de modo 
sistematizado; e, 9) identificar as lacunas relacionadas ao objeto investigado. 
Para construção de um Estado da Arte, Botero (2000, p. 39) define cinco 
princípios que orientam uma investigação: 
Princípio de propósito. Relacionado à necessidade de propor objetivos de 
pesquisa previamente concebidos. 
Princípio de coerência. Aponta para a unidade interna do processo em 
relação às fases, atividades e dados que constituem a matéria-prima da 
investigação. 
Princípio da fidelidade. Com base na coleta de informações (não deixando de 
fora nenhuma instituição referenciada desde o início para a realização do 
trabalho) e na transcrição confiável dos dados. 
Princípio de integração. Envolvido na avaliação qualitativa que se faz de cada 
uma das unidades de análise, dos núcleos temáticos e do todo. 
Princípio de compreensão. Isso possibilita a construção teórica do todo em 
uma perspectiva global para poder oferecer conclusões de forma sintética 
sobre o estado geral do sujeito. 
Do ponto de vista da finalidade do Estado da Arte, Gómez Vargas, Galeano 
Higuita e Jaramillo Muñoz (2015, p. 432) apontam quatro níveis: “[...] nível 1: 
reconhecer e obter conhecimento; nível 2: construir conhecimento ou contribuir para 
a episteme; nível 3: compreender um fenômeno; e nível 4: criar uma estrutura 
conceitual ou um balanço documental”. Nos níveis 2 e 4, a finalidade é encontrar as 
teorias presentes na área de investigação para, a partir delas, utilizá-las como base 
conceitual em novas investigações, incluindo aqui a possibilidade de construir um 
instrumento metodológico próprio de pesquisa. 
 Botero (2000) ainda define alguns limites para esse tipo de pesquisa. Para a 
autora, há quatro limitantes: tempo, material investigado, espaço e os integrantes do 
coletivo. Todos esses limitantes dizem respeito às escolhas que serão necessárias 
pelo pesquisador, uma vez que nenhum deles é um recurso infinito. 
Gómez Vargas, Galeano Higuita e Jaramillo Muñoz (2015) apresentam os 
passos para a construção de uma investigação do tipo Estado da Arte. Para os autores 
há três passos ou fases a serem desenvolvidas: planejamento, desenho e gestão e, 
24 
 
análise, elaboração e formalização. Na primeira etapa, de planejamento, 
[...] se condicionam os requisitos e demandas administrativas para a 
realização da pesquisa, estabelece-se o tema a serinvestigado, embora não 
necessariamente na forma de uma pergunta de pesquisa, e realiza-se uma 
primeira varredura documental onde são escolhidas algumas fontes-chave 
relacionadas ao tema. Com a leitura desses primeiros textos, apreende-se 
um pouco o panorama do tema de pesquisa que dá ao pesquisador a 
possibilidade de passar de um tema a um objeto de pesquisa. Com ele, é 
possível construir a questão norteadora, os objetivos, a justificativa e as 
categorias de busca para o universo, os critérios para a seleção da amostra 
e a escolha dos centros documentais a serem analisados e a possibilidade 
de realização ou não de entrevistas (p. 435). 
Na segunda etapa, de desenho e gestão, “[...] são estabelecidos o universo, a 
amostra, as categorias de análise e é realizada a leitura linear” (GÓMEZ VARGAS, 
GALEANO HIGUITA, JARAMILLO MUÑOZ, 2015, p. 436). A última fase, de análise, 
elaboração e formalização, diz respeito a encontrar “[...] similaridades, diferenças, 
conjunturas, tendências e todos os tipos de informações úteis para a pesquisa” (p. 
436). 
Já George Reyes (2019) apresenta um esquema que segundo ele, “[...] pode 
ajudar a consolidar o Estado da Arte como produto de investigação científica de 
caráter analítico-interpretativo categorizado em cinco momentos: 1) semente, 2) 
aproximação ao objeto de estudo, 3) contexto e inventário, 4) analítico e, 5) 
interpretativo” (p. 2). O autor continua: 
[...] o primeiro propõe a necessidade de se estabelecer uma postura 
epistemológica, no segundo é feito a abordagem do objeto de estudo, no 
terceiro é escolhido um espaço temporal e é feita a catalogação das fontes 
bibliográficas, no quarto é feita a articulação entre eixos de análises e tipos 
de investigação para definir as particularidades metodológicas e 
interpretativas dos trabalhos realizados por outros autores, por fim, no quinto 
momento, sintetiza-se a coerência teórica que subjaz ao estado atual de um 
problema científico (GEORGE REYES, 2019, p. 5). 
No primeiro momento, a semente - que pode ser entendida como a ideia original 
ou a motivação inicial, o investigador precisa compreender a postura epistemológica 
que o guiará em sua pesquisa. Nesse momento, o pesquisador precisa ter clareza 
sobre sua postura, ou seja, como entende a realidade e o objeto de pesquisa, os 
princípios de construção do conhecimento, e as técnicas e instrumentos que irá utilizar 
para alcançar o objeto de conhecimento (GUEVARA PATIÑO, 2016). Nesse sentido, o 
pesquisador pode adotar algumas posturas epistemológicas, tais como as citadas por 
Guevara Patiño (2016, p. 172) “[...] a teoria crítica, o feminismo, o convencionalismo 
ou construcionismo social e, o positivismo”. 
 
25 
 
No segundo momento, a aproximação ao objeto de estudo, se dá após a etapa 
da escolha da posição epistemológica, nesse momento, [...] é a hora de definir o objeto 
de estudo, que representa um ato investigativo de extrema importância no desenho 
de um produto de pesquisa (GEORGE REYES, 2019, p. 7). Precisa-se então, definir para 
quem se dirige o discurso, realizar as primeiras reflexões sobre o objeto de estudo, 
alinhar-se à postura paradigmática adotada na etapa anterior, problematizar e interagir 
com a problemática, construir o marco metodológico e refletir sobre as escolhas da 
pesquisa (GEORGE REYES, 2019). 
No contexto e inventário, terceiro momento da elaboração de um Estado da 
Arte, são definidos os limites da pesquisa, como tempo, espaço, locais de pesquisa, 
indicadores e argumentos de validação. No quarto momento, analítico, realiza-se a 
classificação da informação dentro dos parâmetros estabelecidos no momento 
anterior. Por fim, no quinto momento, interpretativo, realiza-se a interpretação dos 
eixos e categorias estabelecidos no momento anterior. Nessa etapa, realiza-se uma 
reconstrução teórica, com geração de novos conhecimentos do tema pesquisado. 
George Reyes (2019) apresenta uma imagem (Figura 1) que sintetiza esses 
momentos apontados por ele como fundamentais para se construir um Estado da Arte. 
 
 
Figura 1 – Proposta de estratégia para desenhar um Estado da Arte 
Fonte: George Reyes (2019, p. 12, tradução nossa) 
 
Tendo como background os momentos apontados por George Reyes (2019), 
conforme Figura 1, adotamos como postura epistemológica construtivista, para a qual, 
ao se construir um Estado da Arte, deve ser realizada uma aproximação ao 
conhecimento de forma dialógica e comunicativa, recuperando de forma reflexiva as 
diferentes leituras que são realizadas, levando em consideração os marcos histórico, 
26 
 
social, teórico e cultural nos quais o texto está inserido. 
Em relação ao momento dois, de aproximação do objeto de estudo, esse 
Estado da Arte é de interesse de pesquisadores da área de Educação Matemática, de 
professores e futuros professores de Matemática da Educação Básica e Ensino 
Superior. Assim, a problematização dessa pesquisa se enquadra dentro de uma busca 
incessante por melhoria no ensino e na aprendizagem do conceito de função. 
Na construção do marco metodológico, utilizamos os aspectos de uma 
pesquisa qualitativa para a reflexão dos dados e uma “busca por esgotamento”. O 
processo consiste em uma vez encontrado um texto, ir às referências e procurar, para 
os mesmos descritores, os textos que são utilizados. Esse processo se repete até que 
não haja mais textos novos e comece a se repetir os textos. Nessa proposta de “busca 
por esgotamento”, consideramos que: 1) por se tratar de uma procura visual, pode 
acontecer de um outro texto não estar presente, 2) o acesso à referência foi realizado 
muitas vezes para além das bases de dados mencionadas, 3) nem todas as 
referências foram encontradas, 4) a escolha muitas vezes não foi apenas pelos 
mesmos descritores, pois à medida que a pesquisa avançou, outros descritores se 
tornaram indispensáveis. 
No terceiro momento, do contexto e do inventário, realizamos uma busca 
relacionada ao conceito de função e de Campo Conceitual. A “busca por esgotamento” 
foi realizada em diferentes bases de dados, dentre as quais podemos citar: Banco de 
Teses e Dissertações da CAPES, Education EBSCO, Eric EBSCO, Rutgers 
University, Web of Science (CLARIVATE), Google Scholar, Scielo e Sucupira. Com 
exceção da base Rutgers University, as demais puderam ser acessadas via 
Comunidade Acadêmica Federada - CAFe. 
Os descritores utilizados foram: “função”, “function”, “funktiokäsityksestä”, 
“fonction”, “funktionen”, “funcíon”, “Campo Conceitual”, “conceptual field”, “champs 
conceptuels”, “los campos conceptuales”. Novos descritores foram aparecendo ao 
longo da pesquisa e foram incorporados como: “Vergnaud”, “Estruturas Aditivas”, 
“Estruturas Multiplicativas”, “pensamento funcional”, “variáveis” e suas traduções nos 
demais idiomas considerados, a saber, inglês, francês, espanhol e, em alguns casos, 
o alemão. A partir dessas buscas realizamos novamente uma categorização para os 
descritores, conforme apresentado na Figura 2. 
27 
 
 
Figura 2 – Categorização dos textos encontrados 
Fonte: da pesquisa 
 
 
No quarto momento, o analítico, com os dados encontrados, as primeiras 
análises dos textos sobre funções e campos conceituais foram realizadas. Essa 
análise é pautada em estudos descritivos, reflexivos, de constatação e de construções 
teóricas. No quinto e último momento, de interpretação, realizamos categorizações, 
classificações e reconstruções teóricas do objeto de estudo. 
 
1. 2 O MAPA DA TESE 
 
Nesse capítulo apresentamos e discutimos os principais conceitos e etapas do 
Estado da Arte. Utilizando as etapas de George Reyes (2019) como orientação e 
assumindo uma postura construtivista, explicitamos as bases de dados e os 
descritores que utilizamos para formar o corpus de nossa pesquisa. 
Uma vez estabelecido o caminho metodológico adotado (Figura 3), no próximo 
capítulo, como um primeiro resultado de nossa categorização dostextos encontrados 
sobre função, apresentamos três perspectivas, que consideramos para a 
compreensão do desenvolvimento do conceito de função, a saber: perspectiva 
histórica, perspectiva cognitiva e perspectiva didática. 
 
28 
 
 
 
 
 
Figura 3 – Mapa da Tese 
Fonte: da pesquisa 
29 
 
CAPÍTULO 2 – REVISITANDO O CONCEITO DE FUNÇÃO 
 
 
“A Matemática é uma atividade humana, 
um fenômeno social, parte da cultura; ela 
se desenvolveu historicamente, e só é 
inteligível dentro do contexto social no qual 
é praticada”. 
Reuben Hersh 
No movimento de análise dos textos encontrados sobre função, constatamos 
que eles podem ser categorizados sob três perspectivas distintas5: a) histórica, para 
se referir àqueles textos que procuram de algum modo, explicitar o conceito de função, 
sem estabelecer relações com o ensino do conceito e de textos que trazem um 
retrospecto da história do conceito de função; b) cognitiva, para se referir a textos que, 
de algum modo, realizaram experimentos com estudantes ou trouxeram análises do 
experimento de outros, buscando compreender o conceito de função a partir dos 
resultados produzidos por esses experimentos e; c) didática, para se referir aos textos 
que suscitam aspectos do ensino de função, como teorias de aprendizagem que 
podem ser utilizadas pelo professor no processo de ensino. 
Nas próximas seções, apresentamos discussões que estes textos6 suscitaram 
sobre conceito de função nas três perspectivas: histórica, cognitiva e didática. 
 
 
2. 1 PERSPECTIVA HISTÓRICA 
 
Tratar historicamente qualquer conceito é difícil e, algumas vezes, até mesmo 
impossível. Uma parte dos textos ao longo da história podem ter se perdido e a falta 
de acesso ao acervo de determinadas base de dados, são fatores que nos levam a 
considerar que, qualquer reconstrução histórica é incompleta. 
Nesse movimento de pesquisa, muitos foram os caminhos seguidos. 
Inicialmente buscamos textos clássicos, dos períodos em que se encontram as 
 
5 Os textos analisados foram categorizados, quando identificável, em mais de uma perspectiva, uma 
vez que consideramos que os textos podem ter mais de um propósito. 
6 Optamos por deixar nesse capítulo apenas textos que não estivessem diretamente ligados à Teoria 
dos Campos Conceituais e função concomitantemente, pois no próximo capítulo, dedicado 
inteiramente à TCC, fazemos uma discussão e análise alinhadas ao tema. 
30 
 
origens do conceito de função. Depois, constatamos que seria um trabalho hercúleo 
seguir nesse processo de coleta de textos. Invertemos então o processo e procuramos 
por textos recentes que tratassem sobre a história, a gênese ou a epistemologia do 
conceito de função. 
Esse caminho percorrido se mostrou mais profícuo, uma vez que, os textos 
atuais já fizeram algum tipo de levantamento prévio de autores clássicos. Isso facilitou 
na busca por mais referenciais que pudessem levar aos textos antigos. Além disso, 
as análises já realizadas por esses autores (BOYER, 1946; CHA, 1999; KLEINER, 1989; 
KLEINER, 1993; KLINE, 1972b; MALIK, 1980; NOGUÈS, 1992/1993; REED, 2007; RÊGO, 
2000; SÁ, SOUZA, SILVA, 2003; SASTRE VÁZQUEZ, REY, BOUBÉE, 2008; SIERPINSKA, 
1988; 1992; SILVA, MIRANDA, CABRAL, 2019; YOUSCHKEVITCH, 1976; YOUSCHKEVITCH, 
DEMIDOV, 1983) nos ajudaram a formular nossas próprias análises e, realizar algumas 
críticas. 
 No caminho do mais atual para o mais antigo, encontramos o texto de Silva, 
Miranda e Cabral (2019), que busca realizar uma reconstrução histórica do conceito 
de função. Os autores fazem uma pesquisa cujo período vai da antiguidade até os 
anos de 2019. Eles expõem que “[…] as evidências da aplicação do comportamento 
funcional datam desde muito antes de Cristo. Cerca de 2000 a. C. mesopotâmios e 
babilônios usavam tábuas para registrar cálculos em tabelas para resolução de 
problemas do cotidiano” (SILVA, MIRANDA, CABRAL, 2019, p. 492). 
A partir desse texto, não é possível afirmar que o conceito de função existia 
antes do século XVI, talvez, possamos dizer que havia uma noção de pensamento 
funcional ou comportamento funcional. Por noção, adotamos a perspectiva de Barros 
(2016), de que, ao longo dos diversos trabalhos histórico-científicos desenvolvidos, 
uma noção é gradualmente transformada em conceito, à medida que a comunidade 
científica a aceita e a incorpora. 
Podemos assim dizer que, a noção pode ser vista em alguns momentos como 
um conceito em seu “[...] devir inicial, como um protoconceito em busca de sintonia, 
na qual se almeja aquele momento em que a noção abandonará a zona de penumbra 
para se iluminar com discussões mais sistematizadas” (BARROS, 2016, p. 67). 
Também poderíamos adotar o termo instinto de funcionalidade adotado por 
Rêgo (2000), para diferenciar a noção de função ou pensamento funcional ou 
comportamento funcional do conceito de função, ao mostrar que “[…] não havia nesta 
31 
 
época [referindo-se ao período dos babilônios e gregos] a noção geral de função de 
quantidades variáveis, como hoje concebemos, mas idéias (sic) acerca de relações 
especiais, entre elementos específicos. Estes elementos eram, quase sempre, entes 
geométricos” (RÊGO, 2000, p. 52, acréscimos nossos). 
Qualquer que seja o termo adotado, o principal aspecto é deixar claro que 
diferenciamos o conceito de função da antiguidade - ou instinto de funcionalidade 
segundo (BELL, 1945) - do conceito de função da contemporaneidade. No presente 
texto, adotamos como conceito de função apenas aquele posterior a Johann Peter 
Gustav Lejeune Dirichlet (1837) e Nicolas Bourbaki (1939) e, anterior a isso, utilizamos 
como sinônimos os termos noção de função ou pensamento funcional. 
Silva, Miranda e Cabral (2019) argumentam que a linha do tempo da construção 
do conceito de função pode ser dividida em quatro períodos distintos: a) Antiguidade, 
b) Idade Média, c) Período Moderno e d) Período Contemporâneo. 
De maneira distinta, Youschkevitch (1976), ao caracterizar a evolução do 
conceito de função até meados do século XIX, apresenta apenas três períodos 
distintos: 1) antiguidade, 2) idade média e 3) período moderno. 
(1) Antiguidade, fase em que o estudo de casos particulares de dependências 
entre duas grandezas ainda não havia isolado noções gerais de grandezas e 
funções variáveis. 
(2) A Idade Média, a fase em que, na ciência europeia do século XIV, essas 
noções gerais se exprimiram definitivamente tanto em formas geométricas 
como mecânicas, mas em que, como também na antiguidade, cada caso 
concreto de dependência entre duas quantidades foi definida por uma 
descrição verbal, ou por um gráfico em vez de uma fórmula. 
(3) A Época Moderna, fase em que, a partir do final do século XVI e, 
sobretudo, durante o século XVII, começaram a prevalecer as expressões 
analíticas das funções, a classe das funções analíticas geralmente expressas 
por somas de série de potência infinita, logo se tornando a principal classe 
utilizada (YOUSCHKEVITCH, 1976, p. 39). 
Boyer (1946) e, posteriormente Sierpinska (1988; 1989; 1992; 1994) 
distinguiram vários estágios epistemológicos no desenvolvimento histórico da noção 
de função, contudo, sem atrelar aos períodos históricos tal qual o conhecemos. 
 
32 
 
 
Figura 4 - Estágios no desenvolvimento da noção de função 
Fonte: Adaptado de Sierpinska (1988, p. 569) 
 
Na Figura 4, a autora dividiu o desenvolvimento epistemológico da noção ao 
conceito de função em seis estágios: I – Uma ideia implícita de transformação de 
pontos ou relações entre grandezas7 (T), II – T descrita por tabelas numéricas, III – T 
descrita por proporções, IV – T descrita por equações, V – descrita por gráficos e 
equações e, VI – uma elaborada ideia explícita de relações entre variáveis. 
Na antiguidade, diversos autores tentaram explicar as origens da noção de 
função da época. Por exemplo, Eves (2011) afirma que os babilônios, os egípcios, os 
hindus e chineses usavam tabelas paraestabelecer correspondências. Kleiner (1993, 
p. 184) afirma que os babilônios “[…] eram ávidos fazedores de tábuas”. Eles 
dominavam tabelas de recíprocos, áreas, cubos, raízes quadradas, raízes cúbicas e 
outras. Um exemplo de tábua é de Plimpton 322, nela há três colunas, nas quais, duas 
delas contêm uma sequência de hipotenusas e catetos de triângulos retângulos de 
lados inteiros. 
Reed (2007) afirma que, no livro Almagesto, de Ptolomeu, há tabelas 
estabelecendo correspondências entre cordas, senos, arcos e ângulos. Rêgo (2000) 
afirma que Heráclito, Zenão de Eléa e Aristóteles foram os primeiros a estudar 
processos de alteração de quantidade e qualidade, sugerindo uma ideia de “mudança” 
(nos valores das noções de relação funcional) e não de generalização. Malik (1980) 
 
7 A tradução do termo grandeza do inglês para o português pode assumir dois significados, o de 
grandeza (física) e o de tamanho. No contexto histórico consideramos magnitude como grandeza 
(física). 
uma ideia implícita 
de transformação 
(T) de pontos ou 
relações entre 
magnitudes
T descrita por 
tabelas numéricas
T descrita por 
proporções
T descrita por 
equações
T descrita por 
gráficos e 
equações
uma elaborada e 
explícita ideia de 
relações entre 
variáveis
?????
Estágio 1 Estágio 2 
Estágio 7 
Estágio 3 
Estágio 4 Estágio 5 Estágio 6 
33 
 
chama essa mudança de variação de quantidades. 
Romberg, Fennema e Carpenter (1993), afirmam que os gregos do século III a. 
C., usavam razões e proporções numa ampla variedade de problemas que envolviam 
relações, como por exemplo, a correspondência dos lados de triângulos similares, o 
raio de um círculo e a circunferência dele, pesos e alturas numa balança de equilíbrio. 
Youschkevitch (1976, p. 44) afirma que quaisquer que sejam as causas sociais 
ou econômicas que deram origem ao conceito de função, “[…] o pensamento 
matemático da antiguidade não criou nenhuma noção geral de quantidade variável ou 
de função”. Na mesma linha de raciocínio, Sastre Vázquez, Rey e Boubée (2008, p. 
143) consideram que “[…] os gregos lidavam com problemas que implicavam a noção 
de função, mas não conseguiam reconhecê-la, muito menos simbolizá-la”. 
Os gregos, na ausência do conceito de função, usavam, primordialmente, a 
proporcionalidade na elaboração e resolução de equações. Este aspecto vai perdurar 
até a Idade Média e Renascimento (FOSSA, 2011). 
Os estudos de áreas, volumes, comprimentos e o desenvolvimento de tabelas 
trigonométricas semelhantes às atuais no período grego podem ser considerados 
como um primeiro movimento para a noção de função, ou ainda, o estudo das relações 
entre grandezas geométricas (SASTRE VÁZQUEZ, REY, BOUBÉE, 2008). 
Abû’l-Wefâ, matemático árabe do século X, se tornou conhecido pela sua 
tradução dos textos de Diofanto, mas sobretudo por ter sido um dos primeiros a 
introduzir a noção de função tangente em trigonometria e desenvolver tábuas de 
senos e tangentes com incrementos de 15’ (EVES, 2011). 
No período Medieval, em específico nos séculos XIII e XIV, matemáticos da 
época, com destaque para Nicolau de Oresme, tentaram construir uma teoria geral da 
cinemática, que ficou conhecida como teoria da latitude das formas (SIERPINSKA, 
1989). Os matemáticos das universidades de Paris e Oxford realizaram diversas 
discussões sobre velocidades, acelerações, e outras taxas que “mudavam”. Nicolau 
de Oresme tentou “[…] representar graficamente a maneira pela qual uma quantidade 
variava com outra” (BOYER, 1946, p. 9). Oresme (1966) buscou introduzir uma 
representação bidimensional da velocidade mudando com o tempo. De acordo com 
Reed (2007), ele conseguiu mostrar geometricamente que o significado aritmético das 
velocidades inicial e final do movimento com aceleração uniforme é equivalente ao 
movimento com velocidade uniforme. Nicolau de Oresme compreendeu que “[...] um 
34 
 
retângulo corresponde à velocidade uniforme e um triângulo corresponde a 
aceleração uniforme” (REED, 2007, p. 59). 
Segundo Peña (2016), Nicolau de Oresme distingue três tipos diferentes de 
figuras ou configurações Figura 5: a) uniformemente uniformes (representada por 
meio de um retângulo), b) uniformemente deformadas (representadas por um triângulo 
ou um trapézio, dependendo da intensidade inicial da qualidade) e, c) disformemente 
disforme (representada por meio de um lado curvo). 
 
 
 
Figura 5 
(a) 
 
 
Figura 5 
(b) 
 
 
Figura 5 
(c) 
Figura 5 – Representações gráficas de Oresme 
Fonte: adaptado de (PEÑA, 2016) 
 
Nicolau de Oresme desenhou um gráfico velocidade pelo tempo, no qual os 
pontos de uma linha horizontal representam os instantes sucessivos de tempo 
(comprimento), e para cada instante ele traça um segmento perpendicular à linha 
35 
 
horizontal (que ele chamou de latitude), cujo comprimento representa a velocidade 
naquele instante; a esse tipo de gráfico ele nomeou de figura uniformemente uniforme. 
Por meio do raciocínio geométrico, Nicolau de Oresme buscou representar o 
movimento uniformemente uniforme, de modo que, os extremos superiores desses 
segmentos de velocidade cubram a área correspondente a um retângulo (PEÑA, 2016). 
Apesar dessas tentativas, como podemos ver na Figura 6 e, a partir de uma 
análise de Sierpinska (1989) é possível afirmar que essas tentativas eram mais 
qualitativas do que quantitativas, sem a presença de uma forma analítica. 
 
 
Figura 6 - Tentativa de Nicolau de Oresme em representar duas quantidades que variam 
Fonte: Traduzido de Sierpinska (1989, p. 11) 
 
Boyer (1946) chama a atenção para as várias tentativas de Nicolau de Oresme 
em tentar estabelecer relações entre a força e a resistência de um corpo em queda 
livre. Podemos verificar uma dessas tentativas no trecho da tradução do latim para o 
inglês, do livro De proportionibus proportionum and Ad pauca respicientes de Nicolau 
de Oresme. 
Notamos primeiro que duas razões de força e resistência estão relacionadas 
geométrica ou exponencialmente. Mas o próprio expoente é uma razão de 
velocidades que expressa uma relação aritmética entre as velocidades que 
surgem das duas razões de força e resistência. Assim, para Bradwardine, 
qualquer progressão geométrica (começando com a unidade) expressa como 
razões sucessivas de força e resistência pode ser utilizada, e para quaisquer 
duas razões selecionadas na progressão, a razão de velocidades é dada 
pelos termos correspondentes na progressão aritmética composta por 
números naturais, que estão numerando sucessivamente os termos da série 
geométrica (ORESME, 1966, p. 17-18). 
Apesar das diversas tentativas de Nicolau de Oresme considerar que a queda 
de um corpo é proporcional ao tempo; ele não conseguiu calcular o coeficiente de 
36 
 
proporcionalidade, nem mesmo descrever de forma simultânea as descrições 
analíticas, a partir de representações gráficas, que segundo Sierpinska (1989), não 
ajudavam muito na explicação do fenômeno. Entretanto, ainda assim, Nicolau de 
Oresme representou graficamente uma lei da física (KLEINER, 1993). 
Noções gerais de relações de dependência entre quantidades variáveis foram 
expressas na Idade Média através do uso de termos geométricos ou descrições 
verbais (YOUSCHKEVITCH, 1976). Viète, matemático do século XVI, em seu livro Canon 
mathematicus seu ad triangula (1579) estabeleceu identidades trigonométricas entre 
seno, cosseno, tangente, secante e cossecante, além de desenvolver um método por 
aproximações sucessivas para resolução de uma equação cúbica (EVES, 2011). 
Matemáticos e cientistas como Galileu, Isaac Newton e Kepler estudaram 
problemas físicos associados ao movimento durante o final do século XVI e início do 
século XVII (KLINE, 1972a; MALIK, 1980; YOUSCHKEVITCH, 1976). 
René Descartes, Isaac Newton e Leonhard Euler acreditavam que uma função 
poderia ser caracterizada em termos de (uma ou mais) curvas geométricas naturais - 
contínuos naturais