Prévia do material em texto
AULA 1 COMPLIANCE DIGITAL E GOVERNANÇA CORPORATIVA Profª Daiane Medino Wotkoski 2 INTRODUÇÃO Nossos estudos têm por objetivo trazer informações referentes ao compliance digital e à governança corporativa. Para tanto, estudaremos, no decorrer das aulas, acerca do programa de compliance, também chamado por alguns doutrinadores de programa de integração, apresentando o seu conceito em linguagem clara e objetiva, sua origem e os mecanismos necessários para implementar, desenvolver e realizar a sua administração. Os objetivos básicos são proteger órgãos públicos e privados de atos lesivos que resultem em prejuízos financeiros, causados por irregularidades, desvios de conduta e de ética, bem como contra fraudes contratuais, para garantir a execução de contratos em conformidade com as leis e regulamentos, reduzir os riscos inerentes aos contratos e obter melhor resultados de desempenho a fim de garantir a qualidade nas relações contratuais. Como se trata de um tema recente e atual, é necessário abordar rapidamente o início histórico do compliance, o qual surgiu das Regulações norte- americanas em 1950 e 1960, que deram o pontapé inicial para o desenvolvimento do tema em razão da crescente necessidade de adotar mecanismos que visassem prevenir o conflito de interesses. Trazendo o conceito de compliance para a área de tecnologia da informação, surge o compliance digital e, principalmente depois da onda de ataques cibernéticos ocorrida em escala mundial (O que se sabe..., 2017), que atingiu empresas do setor privado e órgãos governamentais em inúmeros países, incluindo o Brasil, a importância das práticas de compliance digital nas esferas pública e privada para a proteção de dados ganhou maior relevância, pois alertou o mercado para a insuficiência de cuidados relativos à segurança das informações. Além disso, com os escândalos do Facebook e muitas outras empresas de aplicativos, bem como os vazamentos de informações de clientes, abriu-se a necessidade de novas e estruturadas condutas empresariais para resguardar a privacidade e dados dos usuários, de modo a não expor dados confidenciais e pessoais de clientes. Para tanto, o compliance digital tem como função primordial a análise de riscos e adoção de medidas preventivas, a fim de adequar as empresas às regras 3 aplicáveis às tecnologias da informação, priorizando a transparência e a ética digital, sendo necessária a adequação das políticas de privacidade e termos de uso dos canais web disponibilizados pela empresa às legislações específicas, tais como o Marco Civil da Internet, LGPD e até mesmo do Código de Defesa do Consumidor. Assim, é fundamental impor um conjunto de regras internas para prevenção de incidentes que envolvam o ambiente digital, tecnológico ou de tecnologia da informação, para atender à legislação vigente e às características específicas de cada negócio. Portanto, pode-se definir o compliance digital como o conjunto de protocolos e práticas de segurança com que uma organização, pública ou privada, busca proteger dados e demais informações sigilosas de ataques ou de uso criminoso. Esse conjunto de ações define uma política de compliance. Em função disso, viu-se a necessidade de criar mecanismos que protejam os usuários, com regulamentações para segurança e prevenção de riscos cibernéticos e sanções para crimes cometidos no ambiente digital. Nesse cenário, a legislação brasileira específica que trata do ciberespaço é recente, tendo sido formada nos últimos oito anos, vejamos: • Lei de Crimes Cibernéticos, ou Lei Carolina Dieckmann (Lei n. 12.737/2012); • Regulamentação do E-commerce (Decreto n. 7.962/2013); • Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/2014); • Lei Geral de Proteção de Dados (Lei n. 13.709/2018); • Cadastro Base do Cidadão (Decreto n. 10.046/2019). Essa necessidade de regulamentação e cuidados com a proteção e segurança de dados foi intensificada com o impulsionamento gerado pela pandemia (Entenda..., 2020), com uma transformação digital de grande parte das empresas, a fim de manter a economia ativa. TEMA 1 – ORIGEM DO COMPLIANCE O termo compliance provém do inglês (to comply with), que significa agir de acordo com, seja uma lei, norma, regulamento, política interna ou conduta ética. Trata-se de um termo incorporado ao nosso idioma e que significa, na melhor das traduções, conformidade. Diz-se conformidade, no sentido da 4 conformação (a ação de tomar uma forma), da observância (cumprimento) e da adequação a leis, normas e preceitos éticos. Mas, com o passar do tempo, esse conceito foi se adaptando às novas exigências de mercado e hoje não se limita apenas ao cumprimento das normas, pois é criado para que as empresas evitem prática de ilícito, tais como corrupções e fraudes. A conformidade não se atinge tão simplesmente pela observância de leis. Dá também por meio da adoção de um conjunto de disciplinas e estratégias voltadas a que se façam cumprir as normas legais e regulamentares a que se sujeita uma organização. Também se atinge a conformidade por meio do estabelecimento e cumprimento, motu proprio, de políticas e diretrizes de natureza procedimental e ética estabelecidas pela própria organização (Bertoccelli, 2020). Ao longo dos anos nas sociedades, com os crescentes atos de corrupção, por divergências de interesses de agentes públicos e privados, passa a existir a necessidade de adotar mecanismos que visam prevenir o conflito de interesses entre os agentes, para a redução de inúmeros escândalos de corrupção na coletividade. O compliance nasce então com este viés. A ideia de compliance surgiu da Prudential Securities, em 1950, e com a Regulação da Securities ad Exchange Comission (SEC), em 1960. Ambas norte- americanas, elas mencionavam a importância de implementar programas de compliance ou programas de integração, como são chamados por alguns autores, para passar a monitorar as operações nas empresas e criar procedimentos de controles internos. Já na Europa, em 1977, a Convenção Relativa à Obrigação de Diligência dos Bancos no Marco da Associação de Bancos Suíços inovou no sentido de regulamentar as penalidades em casos de descumprimentos das instituições (obrigações). Em 2001, nos Estados Unidos, o USA Patriot Act (Ato Patriótico dos Estados Unidos) regulou políticas e procedimentos de controle interno das entidades financeiras para protegê-las em casos de lavagem de dinheiro (Uniting..., 2001) (no caso, quando utilizados os recursos financeiros de fontes ilegítimas, com o escopo de lhes parecerem legítimos). Tais práticas devem ser repelidas nas empresas, por meio de adoção de princípios de governança corporativa, política de compliance e transparência, 5 instituindo boas práticas e respeito aos em seus códigos de conduta (Neves, 2018, p. 45). Bertoccelli nos ensina acerca do desenvolvimento do compliance: No estágio de maturidade em que o País se encontra, assim entendidos diversos grupos de cidadãos, sobretudo empresários, executivos e consultores em geral, há um grande risco de que se subestime elementos, tais como a importância, a complexidade e a abrangência de um Programa de Compliance. Assim o fazendo, pode-se chegar aos seus efeitos aparentes, mas de nenhum modo produzir os seus efeitos reais, e ainda serem considerados atos de simulação de uma realidade jurídica pelas autoridades, a fim de iludir clientes, reguladores, governo e a sociedade, o que pode ser ainda pior do que não ter um Programa de Compliance. (Ventturini et al., 2018, p. 39) No âmbito empresarial, existe uma série de conflitos éticos internos, dadas as contraditórias pretensões existentes entre os sujeitos da sociedade, considerando que propriedade e controle nem sempre estão concentradas na mão do mesmo indivíduo. Além dos deveres fiduciários impostos aos administradores,é importante que regras de relacionamento sejam estabelecidas dentro da sociedade para evitar que o conflito entre agentes prejudique a integridade da sociedade empresária. Não se pode analisar o compliance apenas como imposição jurídica, visto que suas práticas giram em torno de uma cultura empresarial ética, uma vez que devem conciliar-se as normas internas e externas em uma empresa, que visam detectar, prevenir e responder a possíveis problemas de desvios entre a conduta e a prática da organização, como também entre as normas estabelecidas, tornando-se, assim, uma empresa mais ética, mantendo a sua integridade. De modo geral, o compliance é um sistema utilizado como forma de prevenção para que não incorra em condutas em desacordo com a legislação, desenvolvendo ferramentas que visam garantir a integridade da empresa, por meio de treinamentos, políticas, controles, auditorias internas e monitoramento de suas atividades, com intuito de mitigar possíveis riscos. A existência de uma Governança Corporativa (tema que veremos nas próximas aulas) significa que as pessoas responsáveis pela gestão da empresa podem ter uma gestão mais confiável, eficiente e saudável da empresa. A Lei n. 12.846/2013, denominada Lei Anticorrupção, com o objetivo principal de instituir medidas mais eficazes ao combate a corrupção, trouxe vários institutos para implementar a responsabilização das pessoas envolvidas e a recuperação dos danos ocasionados ao patrimônio público, tais como a responsabilidade objetiva, sanções mais rigorosas, acordos de leniência 6 (reduções das penas), que promovem a facilitação das investigações e, por fim, programas de compliance. Os programas de compliance devem ser utilizados de modo efetivo na prática e não somente constar nas normas da empresa, com o intuito de diminuir as condutas realizadas em desconformidade com a lei, normas e regulamentos. Na esfera administrativa, a responsabilização da pessoa jurídica não afasta a possibilidade de responsabilização na esfera judicial, ou da responsabilização individual dos sócios da empresa. O que ajuda a promover o compliance é a transparência, uma vez que atitudes desonestas serão cada vez mais expostas, compelindo, assim, a práticas desonestas. Observa-se que, no Brasil, existem iniciativas para implantar a utilização do compliance, por exemplo, a determinação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), que exige termos de compliance aos que solicitam empréstimos. Existe também a Resolução do Banco Central, que estabelece que bancos privados possuam programas de compliance, a Lei do Estado do Rio de Janeiro n. 7.753/17, a qual exige programas de compliance aos licitantes, como também a Lei n. 19.857/19, que institui o Programa de Integridade e compliance da Administração Pública Direta e Indireta do Poder Executivo do Estado do Paraná, entre outros (Neves, 2018, p. 21-25). Compliance não pode ser tratado somente no âmbito jurídico, mas também de governança corporativa, pois relaciona-se com diversas áreas, como finanças, ética, gestão de risco e auditoria, gestão pública e privada. Assim, as empresas não devem apenas ter decisões estratégicas e criar códigos de conduta; é necessário aplicá-los na prática, para que estejam presentes nos negócios, buscando soluções para eventuais conflitos, com maior transparência e segurança ao investidor. TEMA 2 – CONCEITO DE COMPLIANCE Neves (2018, p. 29) traz uma definição acerca do compliance: Compliance constitui-se de um conjunto de práticas administrativas que objetivam assegurar a adesão da empresa à legislação em geral, a um código de conduta, políticas e princípios. Acontece não somente com medidas preventivas, mas implica também a atividade de detectar as violações e posteriormente responder, aplicando sanções às eventuais violações. Vale reiterar que compliance implica prevenir, detectar e responder. 7 Conforme se extrai do Decreto Federal n 8.420/15, em seu art. 41, bem como replicado em inúmeras leis, como a Lei n. 7.753/17 do Rio de Janeiro, Programa de Integridade consiste, no âmbito de uma pessoa jurídica, no conjunto de mecanismos e procedimentos internos de integridade, auditoria e incentivo à denúncia de irregularidades e na aplicação efetiva de códigos de ética e de conduta, políticas e diretrizes com o objetivo de detectar e sanar desvios, fraudes, irregularidades e atos ilícitos praticados, contra a administração pública, nacional ou estrangeira. (Brasil, 2015) Para tanto, torna-se de extrema importância a implementação do programa de compliance para que haja significativa diminuição de riscos, evitando violações da legislação que acarretem penalidades, tendo como foco geral medidas anticorrupção adotadas pela empresa. Conforme veremos no decorrer das aulas, quando as empresas possuem um programa de compliance efetivo, há a possibilidade de redução das penalidades na norma, caso incorra em procedimento administrativo ou processo judicial. Vejam que, se a empresa possui programa de integridade efetivo, além de conter maior transparência e segurança nos contratos, informação, diligência e lealdade entre as partes, a legislação prevê expressamente a possibilidade de diminuição de penalidades. É necessário mencionar que são inúmeras normas, leis, decretos, emendas constitucionais, normas infralegais impondo multas e penalidades quando descumpridas pela sociedade. Ocorre que, muitas vezes, as empresas, por não terem um programa de compliance efetivo, acabam por deixar de cumprir algumas exigências legais, o que acarreta em pagamentos de multas exorbitantes, por exemplo, em virtude de imposições no âmbito do direito tributário, visto que são diversas as espécies de tributos, como contribuições sociais de intervenção no domínio econômico, impostos, contribuições de melhoria, taxas e empréstimos compulsórios. Como podemos observar, o sistema tributário nacional é complexo, tendo em vista que tanto a União, Estados, Municípios, quanto o Distrito Federal legislam sobre o tema (Neves, 2018, p. 108). Com o programa de integridade compliance tributário, haveria treinamentos efetivos com o intuito de evitar erros por falta de conhecimento tributário, como controles internos e externos, comunicação, cautela em relação à seleção criteriosa de fornecedores para se afastar penalidades que geram gastos 8 estrondosos, e muitas vezes decisivos na empresa, ou até mesmo mitigar os riscos de multa. Contudo, para que um programa de compliance seja efetivo, é necessário ter liderança nas empresas por meio de desenvolvimento de pessoal, manutenção da ética nos negócios e implementação da integridade para que estes se mantenham firmes nas empresas – na prática e não somente na letra da lei – com o intuito de prevenir, detectar e sanar os vícios. Dessa forma, o fato de uma empresa implementar um programa de compliance significa que ela está em conformidade com as normas jurídicas vigentes e com os procedimentos éticos, tendo em vista que o compliance vai muito além de um simples cumprimento de normas e regras, uma vez que sua abrangência é bem mais ampla se visto de uma maneira sistêmica, com intuito de manter a sustentabilidade corporativa, preservando os valores éticos e mitigando os riscos (Venturini et al., 2018, p. 35) Ressalte-se que o compliance não se limita apenas a uma regra de conduta ou a treinamentos realizados nas empresas sobre o tema anticorrupção. É importante que esse programa seja eficaz, pois são inúmeros aspectos a serem analisados conjuntamente, como o desenvolvimento de controles internos e externos, verificação e medidas de prevenção contra desvios de conduta, por meio de monitorias ou até mesmo auditorias internas e externas. De acordo com o Programa de Integridade – Diretrizes para Empresas Privadas da Controladoria-Geral daUnião (CGU, 2015), um Programa de Integridade sob o enfoque da Lei Anticorrupção, possui cinco pilares para seu desenvolvimento e implementação, quais sejam: “1. Comprometimento e apoio da alta direção; 2. Instância responsável pelo Programa de Integridade; 3. Análise de perfil e riscos; 4. Estrutura das regras e instrumentos; 5. Estratégia de monitoramento contínuo”. Assim, em todas as atividades da empresa, devem respeitar os princípios estabelecidos, bem como à legislação pertinente, com base na liderança. Desse modo, a empresa deve fomentar discussões acerca do tema em reuniões regulares, para que os líderes e gestores da empresa conduzam de forma efetiva o programa conforme a necessidade desta. Silveira e Saad-Diniz (2015, p. 255) ensinam acerca do compliance: Orienta-se, em verdade, pela finalidade preventiva, por meio da programação de uma série de condutas (condução de cumprimento) que estimulam a diminuição dos riscos da atividade. Sua estrutura é pensada 9 para incrementar a capacidade comunicativa da pena nas relações econômicas ao combinar estratégia de defesa da concorrência leal e justa com as estratégias de prevenção de perigos futuros. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, Bertoccelli (Venturini et al., 2018, p. 35) complementa: Podemos entender, portanto, que o compliance integra um sistema complexo e organizado de procedimentos de controle de riscos e preservação de valores intangíveis que deve ser coerente com a estrutura societária, o compromisso efetivo da sua liderança e a estratégia da empresa como elemento, cuja adoção resulta na criação de um ambiente de segurança jurídica e confiança indispensável para a boa tomada de decisão TEMA 3 – REDUÇÃO DE RISCOS Ao mencionar o programa de Compliance íntegro, devem-se mapear os riscos da empresa, analisando com cautela eventuais imprudências que possam ocorrer, por meio de auditorias internas e externas, para se chegar à proposta de aprimoramento, bem como superar os riscos ou mitigá-los. Bertoccelli (Venturini et al., 2018, p. 49) elucida sobre as dificuldades para ter um programa efetivo de compliance para que haja significativa redução de possíveis riscos: O obstáculo inicial para a implementação de efetivos programas de compliance no Brasil é cultural. A falta de transparência e a promiscuidade nas relações entre indivíduos e empresas com a Administração Pública no país, em suas diversas esferas, são históricos e infelizmente tratados como mal necessário para a realização de negócios. A mudança do comportamento empresarial deve também ser refletida na Administração Pública. De nada adiantará um ambiente empresarial mais transparente e íntegro se não estiver acompanhado do incremento nos mecanismos de detecção, combate e punição exemplar pelo setor público. [...] Ao criar mecanismos para que a empresa não incorra em problemas que possam manchar sua reputação e gerar multas por violações às regras, leis e valores de cada mercado onde opera, o compliance protege o valor das empresas e cria um ambiente corporativo mais justo e transparente ao redor do mundo, uma vez que a proteção do valor de uma empresa envolve toda a sua cadeia produtiva e a sua rede de parceiros. Assim, os riscos são variáveis que podem ser identificadas, podendo ser calculados, programados, reduzidos. Numa sociedade, é importante saber lidar com possíveis riscos, pois isso faz parte da atividade empresarial na medida em que somente a existência de competição no mercado já abarca inúmeros ímpetos que podem ocorrer. 10 Bertoccelli (Venturini et al., 2018, p. 22) ainda ensina: É verdade que o risco, a depender do evento ou impacto que se pretende mitigar, nem sempre será segurável, tais como aqueles provocados por decisões governamentais. Certo é que – na medida em que a atividade empresarial tem se tornado cada vez mais robusta, internacionalizada e complexa – o mercado securitário também é instado a acompanhar tal evolução, de modo que eventos até então não seguráveis passaram a sê-lo. Por outro lado, também é curioso notar que mesmo os fatos políticos, como a promulgação de novas normas, também vêm afetando a abrangência de coberturas. É o caso, por exemplo, da conjuntura recente do Brasil e a promulgação da Lei Anticorrupção (Lei Federal nº 12.846/2013, regulamentada pelo Decreto nº 8.420/2015), que possibilita a responsabilização objetiva da empresa por atos lesivos praticados em face da Administração Pública. Referida norma trouxe um impacto significativo para o mercado de seguros, sobretudo no que tange à necessidade de criar um produto capaz de cobrir o risco de responsabilização da pessoa jurídica por ato praticado por seus dirigentes e prepostos, independentemente da comprovação do elemento subjetivo para a prática do ato lesivo. Nesse sentido, a preocupação de administradores de empresas cresceu de maneira exponencial, o que tem levado ao aumento considerável da busca pelo seguro denominado de D&O (Directors and Officers), utilizado para custeio das despesas que os conselheiros e diretores possam incorrer, por exemplo, no caso de necessidade de contratação de advogados para a sua defesa em possíveis investigações e acusações em virtude do eventual cometimento de ilícitos no desenvolvimento de suas atribuições. Por isso, deve a empresa estabelecer um planejamento, fazendo inicialmente uma análise do seu perfil e avaliação de riscos que leva em conta as características e as variáveis existentes no mercado. Com base nessa análise de riscos, serão desenvolvidos procedimentos, regras e políticas, fazendo com que se antecipe e se previna a prática de atos indesejados sobre esses riscos. TEMA 4 – PROGRAMA DE COMPLIANCE Existem inúmeros motivos pelos quais se faz necessário instituir um ativo programa de compliance, conforme já abordamos inicialmente. É certo que, ao implementar um programa eficaz, além de a empresa prevenir eventuais riscos em negociações, evitam-se violações futuras, posturas mais maduras e positivas em suas condutas e diminuição de riscos operacionais, de mercado, de reputação e de negócio. Evitam-se riscos de compliance ao analisar relatórios e auditorias internas ou externas das empresas, pelos quais se identificam em volumosos processos e autuações contra a empresa, como também indiquem se há falhas em cada área desta e, por fim, as propostas para o seu aprimoramento, para que as regras sejam cumpridas. 11 O programa deve ser desenvolvido em cada empresa, com a finalidade e objetivo de cada uma, considerando sua atividade, seus riscos, a área de atuação, seu porte, dentre outras características próprias de cada uma delas. Para Engelhart (citado por Veríssimo, p. 276), um programa se estrutura em três colunas. A primeira diz respeito à formulação do programa, ou seja, como identificar, definir e estruturar em cada empresa; a segunda corresponde à implementação do programa, em toda atividade da empresa, com treinamento e cursos para todos na empresa; e a terceira refere-se à sua consolidação e aperfeiçoamento, pois a empresa deve prevenir a providência que irá adotar caso incorra violação ao programa, às normas legais ou regulamentares, logo, devem ser estabelecidos os procedimentos para a apuração de eventuais transgressões de seus agentes. Para melhor elucidar, Carla Veríssimo (2017, p. 277) organiza a estrutura de um programa de compliance da seguinte maneira: 1ª Coluna: Formulação (identificar, definir, estruturar) Análise de riscos e valoração dos riscos Definição de medidas de prevenção, detecção e comunicação, definição dos valores da empresa Criação de uma estrutura de compliance 2ª Coluna: Implementação (informar, incentivar, organizar) Comunicação e detalhamento das especificações de compliance Promoção da observância do compliance Medidas organizacionais para criação de processos de compliance3ª Coluna: Consolidação e Aperfeiçoamento (reagir, sancionar, aperfeiçoar) Estabelecimento de um processo para apuração de violações ao programa de compliance Avaliação continuada e aperfeiçoamento do programa. Assim, deve haver treinamentos, comunicações, políticas, normas, condutas a serem seguidas pela empresa através de um programa de compliance de maneira preventiva, como advertir os funcionários acerca das consequências da violação das políticas e leis, para que estejam cientes de que todos serão prejudicas em havendo infrações. Segundo as principais diretrizes internacionais, os elementos fundamentais para um programa de compliance eficiente são os seguintes: 1. Envolvimento da alta administração; 2. Códigos de ética; 3. Políticas e procedimentos internos; 4. Autonomia e recursos suficientes para a área de compliance; 5. Treinamento e comunicação; 12 6. Análise periódica de riscos; 7. Registros contábeis; 8. Controles internos; 9. Canais de denúncia; 10. Diligência na contratação de terceiros; 11. Diligência em processos de fusões e aquisições; 12. Investigações internas; 13. Incentivos e medidas disciplinares e melhoria contínua (revisão e testes periódicos). TEMA 5 – LEGISLAÇÃO ANTICORRUPÇÃO Quando se fala em compliance, seja organizacional, do trabalho ou digital, não há como não falar na legislação anticorrupção. Infelizmente, a corrupção é um mal que afeta a todos e, em sendo um fenômeno mundial, não deve passar desapercebido pelas empresas, pois tanto governos quanto cidadãos e empresas acabam sofrendo diariamente com os seus efeitos. A corrupção é um fenômeno que, além de desviar recursos que de outra forma estariam disponíveis para melhor execução de políticas públicas, é também responsável por distorções societárias que atingem diretamente a atividade empresarial, em razão da concorrência desleal, preços superfaturados ou oportunidades restritas de negócio. Uma das primeiras normas anticorrupção foi a norte-americana Foreign Corruption Practice Act (FCPA), que é uma Lei de 1977 contra as práticas de corrupção fora dos EUA, instituída para prevenir subornos e evitar fraudes nas empresas, podendo incorrer em responsabilização de natureza criminal e cível, como multa ou prisão, que abrange tanto pessoas físicas quanto jurídicas (FCPA, [S.d.]). Há também a norma britânica de combate à corrupção, UK Bribery Act, de 2010, que discorre sobre a corrupção da administração pública tanto no exterior quanto a que ocorre no próprio país, com as situações que envolvam empresas privadas e sobre as penalidades que vão desde as econômicas (sem definir limites para o seu valor) até a pena de prisão. A principal diferença entre essa lei e o FCPA é que a UK Bribery Act não se submete à vinculação de negócios. 13 No Brasil, a Lei Anticorrupção, Lei n. 12.846/2013, com vigência a partir de 2014, enfatiza a relação entre o Estado e os particulares, em que eventuais violações serão acometidas por sanções e penalidades. Referida lei abrange toda espécie de pessoa jurídica, seja sociedades empresárias, sociedade simples, personificadas ou não, qualquer fundação, associação de entidade ou pessoas, ou sociedades estrangeiras, com sede ou filial no Brasil. Essa lei pretende combater os atos lesivos praticados contra a administração pública, nacional ou estrangeira. No caso, a responsabilização da pessoa jurídica será independente de culpa, sendo esta responsabilizada objetivamente nos âmbitos administrativo e cível por atos praticados em seu interesse ou benefício, seja ele exclusivo ou não, ainda que ocorra a alteração contratual, transformação, incorporação, fusão ou cisão societária. Essa responsabilidade objetiva denomina-se risco do negócio e nela não se discute a comprovação da culpa (negligência, imprudência ou imperícia), uma vez que a pessoa jurídica é responsável pelos atos de seus funcionários e por todos que contratarem para agir em seu nome. Contudo, a responsabilização dos dirigentes ou administradores ocorrerá somente mediante a comprovação da culpabilidade, ou seja, de forma subjetiva. Ainda de acordo com o art. 3 da Lei Anticorrupção, a responsabilização da pessoa jurídica não exclui a responsabilidade individual de seus dirigentes ou administradores ou de qualquer pessoa natural, autora, coautora ou partícipe do ato ilícito, ocorrendo de forma independente (Brasil, 2013). Contudo, para a aplicação das sanções específicas dessa lei, conforme art. 7, serão considerados inúmeros fatores, dentre os quais a existência de mecanismos e procedimentos internos de integridade, auditoria e incentivo à denúncia de irregularidades e aplicação efetiva de códigos de ética e de conduta no âmbito da pessoa jurídica (Brasil, 2013). Por essas razões, veremos a importância da implantação de um efetivo programa de compliance – integridade em todos os âmbitos de atuação, seja ele trabalhista, contábil, financeira, de dados ou digital. Como vimos o compliance exprime o conjunto de regras e normas internas que regulam o bom funcionamento da empresa, sendo que essas normativas se tornam aplicáveis de acordo com as atividades desenvolvidas internamente. https://amblegis.com.br/requisitos-legais/o-que-e-ter-sua-empresa-em-compliance/ 14 REFERÊNCIAS BERTOCCELLI, R. (coord.) Manual de compliance. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020. BRASIL. Decreto n. 8.420 de 18 de março de 2015. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 19 jun. 2021. _____. Lei n. 12.846, de 1º de agosto de 2013. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 2 ago. 2013. CGU – Controladoria Geral da União. Programa de Integridade – Diretrizes para Empresas Privadas da Controladoria-Geral da União. Brasília: CGU, 2015. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2021. ENTENDA como a transformação digital pode impulsionar as empresas na pandemia. Sebrae Alagoas, 6 out. 2020. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2021. FCPA Americas – Foreign Corruption Practice Act. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2021. FRANCO, I. (org.). Guia prático de compliance. Rio de Janeiro: Forense, 2020. NEVES, E. C. Compliance empresarial – o tom da liderança. São Paulo: Jurídicos Trevisan, 2018. O QUE SE SABE do ataque cibernético mundial. Estado de Minas Internacional, 15 maio 2017. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2021. PINHEIRO, P. P. Direito digital. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2016. SILVEIRA, R. M. J.; SAAD-DINIZ, E. Compliance, direito penal e Lei Anticorrupção. São Paulo: Saraiva, 2015. 15 UNITING and strengthening america by providing appropriate tools required to intercept and obstruct terrorism (Usa Patriot Act) Act of 2001. Public Law, v. 107, n. 56, 26 out. 2001. VENTTURINI, O. et al. (Coord.). Manual de compliance. Rio de Janeiro: Forense, 2018. VERÍSSIMO, C. Compliance: incentivo à adoção de medidas anticorrupção. Editora. São Paulo: Saraiva, 2017.