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WBA0911_v1.0 APRENDIZAGEM EM FOCO NUTRIGENÔMICA 2 APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA Autoria: Laís A. de Paula Simino Leitura crítica: Mariana Portovedo de Oliveira Araújo Na disciplina de Nutrigenômica você irá estudar a relação entre os padrões alimentares ou nutrientes e a expressão gênica, e os impactos que essa relação traz para a manutenção da saúde e o desenvolvimento de doenças. Para isso, abordaremos os seguintes temas: • Fundamentos da genômica nutricional: você irá relembrar e se aprofundar em conceitos básicos da biologia molecular (DNA, RNA mensageiro, proteínas, transcrição e tradução, por exemplo) e vai conhecer os principais conceitos e fundamentos da genômica nutricional, a ciência que envolve os saberes de áreas como a nutrigenética, nutrigenômica e a epigenômica nutricional. • Nutrientes e expressão gênica: tema voltado ao conhecimento dos principais meios com que os nutrientes e compostos bioativos de alimentos promovem a modulação da expressão dos genes, impactando, assim, a saúde dos indivíduos. • Epigenômica nutricional: reservado para você conhecer os conceitos e definições envolvendo a epigenética e alguns mecanismos que envolvem os nutrientes e a modulação da expressão gênica, como a metilação do DNA, as modificações de histonas e a expressão de microRNAs. • Bioéticas, testes preditivos e exercícios físicos: vamos abordar os aspectos éticos que envolvem a aplicação de testes nutrigenéticos com caráter preditivo e, ainda, conhecer a relação entre a alimentação, prática de exercícios físicos e a modulação da expressão dos genes. 3 Bons estudos! INTRODUÇÃO Olá, aluno (a)! A Aprendizagem em Foco visa destacar, de maneira direta e assertiva, os principais conceitos inerentes à temática abordada na disciplina. Além disso, também pretende provocar reflexões que estimulem a aplicação da teoria na prática profissional. Vem conosco! Fundamentos da genômica nutricional ______________________________________________________________ Autoria: Laís A. de Paula Simino Leitura crítica: Mariana Portovedo de Oliveira Araújo TEMA 1 5 DIRETO AO PONTO A expressão gênica é um processo no qual ocorre a síntese de um produto funcional a partir da informação contida em um gene, ou seja, de forma simplificada, retrata o conceito postulado há muitos anos, o dogma central da biologia molecular, em que o DNA é o molde utilizado para produção de proteínas, por intermédio do RNA. Dois processos básicos são necessários para que a informação contida no DNA seja entendida como uma proteína funcional: a transcrição (a síntese da molécula “intermediária”, o RNA mensageiro, a partir do DNA) e a tradução (a leitura da informação do RNA mensageiro, que dará origem à proteína). Diversos mecanismos regulatórios atuam em diferentes pontos da transcrição e tradução, de modo a favorecer ou desfavorecer esses processos. Tais mecanismos são conhecidos como reguladores da expressão gênica e os principais deles são: fatores de transcrição, metilação do DNA, modificação de histonas e expressão de microRNAs. Estes mecanismos podem ser regulados de forma dinâmica e individual, já que interagem de forma direta tanto com as particularidades genéticas de cada indivíduo, quanto com fatores ambientais. Assim, a partir desse entendimento, surgiram os estudos na área da “genômica nutricional”. A genômica nutricional tem como objetivo estudar como os nutrientes e os genes interagem para modificação do fenótipo. Dentro das áreas de conhecimento da genômica nutricional estão a nutrigenética e a nutrigenômica (Figura 1), bem como outras áreas como a epigenômica nutricional, a transcriptômica, a proteômica e a metabolômica. 6 Figura 1 – Nutrigenética e nutrigenômica Fonte: adaptada de Teymur Alimardanov/iStock.com e dinosoftlabs/iStock.com. Embora a nutrigenética e nutrigenômica sejam, muitas vezes, tratadas como cognatas, é importante diferenciarmos os dois conceitos: enquanto a nutrigenética estuda o impacto da variabilidade genética entre diferentes indivíduos sobre os desfechos na saúde e risco para desenvolvimento de doenças, mesmo quando o padrão do consumo dietético é semelhante, a nutrigenômica busca o compreendimento de como a interação entre os componentes dietéticos (nutrientes e compostos bioativos de alimentos) com o genoma podem levar à modulação da expressão gênica. Assim, é aconselhável que profissionais da área da Nutrição conheçam estes conceitos e se atualizem periodicamente, já que o estudo da genômica nutricional possibilita uma melhor 7 compreensão sobre a importância das prescrições individualizadas e do entendimento da variabilidade das respostas de cada indivíduo a determinadas intervenções, sendo uma ferramenta importante para manutenção da saúde e manejo de doenças crônicas no âmbito da nutrição. Referências bibliográficas CAMP, Kathryn M.; TRUJILLO, Elaine. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: nutritional genomics. J. Acad. Nutr. Diet., Chicago, v. 114, n. 2, p. 299-312, 2014. COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria A. (org.). Genômica Nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. PARA SABER MAIS Do ponto de vista histórico, acredita-se que o termo “nutrigenética” tenha sido motivado a partir do provérbio “Ut quod ali cibus est aliis fuat acre venenum”, do filósofo romano Tito Lucrécico Caro, que significa “o que é alimento para um é para outros veneno amargo”. Hoje, entendemos a nutrigenética como a área da genômica nutricional que busca entender as influências das variações genéticas dos seres humanos sobre a resposta à ingestão de nutrientes ou padrões dietéticos. Além do exemplo clássico da fenilcetonúria, doença desenvolvida em indivíduos que possuem um polimorfismo no gene que codifica a enzima responsável pela conversão de fenilalanina em tirosina – a fenilalanina hidroxilase – temos alguns outros exemplos de SNP (polimorfismo em um único nucleotídeo) que levam a manifestações relacionadas à ingestão de nutrientes. 8 Um destes SNP nutricionalmente relevantes envolve o metabolismo da homocisteína e do folato, e está relacionado a defeitos do tubo neural e ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Esse polimorfismo está relacionado ao gene MTHFR, que codifica a enzima metileno tetrahidrofolato redutase, e leva a uma baixa eficiência enzimática que resulta em menores níveis séricos de folato e ao aumento expressivo na quantidade homocisteína. Essa descoberta alertou para a necessidade da fortificação de alimentos com ácido fólico, na tentativa de minimizar a deficiência na população acometida pelo polimorfismo e, dessa forma, diminuir a incidência de defeitos de fechamento do tubo neural e de doenças cardiovasculares relacionadas à essa manifestação. Nos EUA, existe a fortificação de alimentos desde 1998 e pesquisas demonstraram que o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares nos indivíduos com esse SNP diminuiu após essa medida. No Brasil, existe a regulamentação de fortificação da farinha de trigo, por exemplo, com ferro e ácido fólico. Existem, ainda, variações genéticas que predispõem os indivíduos ao desenvolvimento de doenças metabólicas. Um exemplo é o SNP no gene FTO, que tem sido descrito como um polimorfismo que leva os indivíduos a apresentarem risco superior de desenvolvimento de obesidade. Além disso, estudos demonstraram que crianças que apresentam essa variação genética sentem mais fome e têm o consumo alimentar maior, antes mesmo de desenvolverem obesidade. Porém, isso não significa que o mecanismo definitivo para o desenvolvimento da obesidade tenha sido descoberto, já que polimorfismos nesse e em outros genes que estão associados ao maior ganho de peso explicam apenas 2% dos casos de obesidade. Trata-se, então, de uma doença de causas multifatoriais e complementares: genéticas e/ou ambientais. 9 Além disso, mesmo em indivíduos com essa predisposição genética,existe uma proteção ao ganho de peso caso exista a prática regular de atividades físicas e o consumo dietético adequado, o que reforça a hipótese de que esses fatores ambientais podem interferir na expressão gênica e promoção da saúde. Referências bibliográficas CAMP, Kathryn M.; TRUJILLO, Elaine. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: nutritional genomics. J. Acad. Nutr. Diet., Chicago, v. 114, n. 2, p. 299-312, 2014. COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria A. (org.). Genômica Nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. TEORIA EM PRÁTICA Depois de conhecer os principais conceitos sobre o tema genômica nutricional, reflita sobre a atuação de nutricionistas que seguem uma abordagem ou método com todos os seus clientes/pacientes, como, por exemplo, a “linha low carb”, geralmente métodos como restrição calórica ou jejum intermitente, utilização de determinado suplemento. Mesmo que existam evidências científicas válidas para utilização destas técnicas, você acredita que funcionariam com qualquer pessoa? Em quais fatores você acha que o profissional deve se basear ao prescrever orientações nutricionais e planos alimentares? Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. 10 LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 Este livro é um dos principais materiais de consulta que temos disponível em língua portuguesa acerca da genômica nutricional. Neste capítulo, em especial, os autores abordam com detalhes todos os processos envolvidos na expressão gênica, assunto esse, fundamental para a compreensão dos mecanismos envolvidos com a nutrigenética e nutrigenômica. DA SILVA, Silvana A. B.; PANTALEÃO, Lucas C. Expressão gênica. In: COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria A. Genômica nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. Indicações de leitura 11 Indicação 2 Este artigo é um posicionamento da Academia de Nutrição e Dietética sobre a genômica nutricional, e aborda todo o embasamento teórico necessário para a compreensão do tema, além de trazer um glossário dos principais termos dessa área do conhecimento, definições dos principais conceitos, aspectos éticos e perspectivas. CAMP, Kathryn M.; TRUJILLO, Elaine. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: nutritional genomics. J. Acad. Nutr. Diet., Chicago, v. 114, n. 2, p. 299-312, 2014. QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 1. “A __________ é uma ciência ampla, que contempla conhecimentos de diferentes áreas com o objetivo comum de estudar a interação dos nutrientes e genes. Dentre essas áreas do conhecimento, estão a __________ e a __________ que estudam a forma como as variações genéticas interferem na resposta a diferentes padrões alimentares e a forma como a ingestão de nutrientes e compostos bioativos de alimentos afetam a expressão gênica, respectivamente”. 12 Assinale a alternativa que contenha as palavras que completem as lacunas corretamente: a. Genômica nutricional; nutrigenômica; epigenômica nutricional. b. Genômica nutricional; nutrigenética; nutrigenômica. c. Genômica nutricional; epigenética nutricional; nutrigenômica. d. Epigenética nutricional; nutrigenética; nutrigenômica. e. Genética; genômica nutricional; epigenômica nutricional. 2. “A expressão gênica é um processo no qual ocorre a síntese de um produto funcional através da informação contida em um gene. De forma simplificada, para que haja síntese de __________, dois eventos devem acontecer: o primeiro deles, a __________, acontece no núcleo celular e envolve a enzima RNA polimerase para síntese de RNAm a partir do DNA; o segundo, chamado de __________, acontece no citoplasma e envolve a leitura do RNAm pelo ribossomo para síntese do produto final”. Assinale a alternativa que contenha as palavras que completem as lacunas corretamente: a. Proteínas; transcrição; tradução. b. Genes; transcrição; tradução. c. Genes; sintetização; processamento. d. Proteínas; tradução; transcrição. e. Proteínas; sintetização; processamento. 13 GABARITO Questão 1 - Resposta B Resolução: A ciência mais ampla que agrega áreas do conhecimento com interesse em estudar a interação entre nutrientes e genes para modulação do fenótipo é a genômica nutricional, que engloba os conhecimentos das áreas de nutrigenética, nutrigenômica, epigenômica nutricional, transcriptômica, proteômica e metabolômica. A nutrigenética estuda o impacto das variações genéticas (polimorfismos) na resposta à padrões dietéticos, enquanto a nutrigenômica estuda o impacto do consumo de determinados nutrientes e compostos bioativos de alimentos na modulação da expressão gênica. Questão 2 - Resposta A Resolução: A síntese de proteínas acontece, de forma simplificada, a partir do DNA, como molde, e envolve o RNA mensageiro como molécula intermediária. Esse processo envolve dois eventos básicos, conhecidos como transcrição e tradução. A transcrição, no núcleo celular, é a síntese do RNAm a partir do DNA, a partir da RNA polimerase; a tradução acontece no citoplasma, a partir do ribossomo, que lê a informação contida no RNAm para sintetizar a proteína. Nutrientes e expressão gênica ______________________________________________________________ Autoria: Laís A. de Paula Simino Leitura crítica: Mariana Portovedo de Oliveira Araújo TEMA 2 15 DIRETO AO PONTO A nutrigenômica busca o entendimento do impacto dos nutrientes e dos compostos bioativos de alimentos (CBA) sobre a modulação da expressão gênica e a influência dessa modulação em vias metabólicas, no fenótipo e, como consequência, na manutenção da saúde e desenvolvimento de doenças (Figura 1). Figura 1 – Nutrientes e expressão gênica Fonte: elaborada pela autora. Todos os nutrientes já foram descritos como potenciais moduladores da expressão gênica de alguma forma. Vamos ver alguns exemplos: • Carboidratos: Os prebióticos, carboidratos não digeríveis, são bastante estudados em relação à sua função moduladora da microbiota intestinal, podendo levar à modificação da expressão de genes relacionados à absorção e metabolização de nutrientes, processos metabólicos e imunidade. Muitos estudos demonstraram, também, a grande capacidade da glicose e frutose, dois monossacarídeos, de modular a expressão gênica. Os genes/enzimas mais responsivos a concentrações de glicose e frutose são os da via glicolítica 16 (especialmente hexoquinase, fosfofrutoquinase e piruvatoquinase) e os genes que codificam os transportadores de glicose do tipo GLUT e SGLT. • Proteínas: O impacto das proteínas na modulação da expressão gênica tem sido bastante estudado há alguns anos. A glutamina, por exemplo, apresenta importante papel imunomodulador,além de participar da modulação expressão de genes relacionados a diversas funções fisiológicas, como metabolismo, proliferação e reparo celular. • Lipídios: Diversas classes de lipídios já tiveram suas funções descritas na sinalização intracelular e na modulação da expressão gênica, como os acilgliceróis (monoacilgliceróis, diacilgliceróis e triacilgliceróis), as ceramidas, os fosfolipídios e, principalmente, os ácidos graxos (AG). Um dos exemplos mais clássicos envolvendo a transcrição gênica mediada por AG é o caso dos ácidos graxos saturados (AGS) e a modulação da expressão de mediadores pró-inflamatórios, a partir da sua ligação com os receptores do tipo TLR4, que levam à transcrição de mediadores pró-inflamatórios, como TNFα, IL1β e IL6. • Micronutrientes: Dentre os processos fisiológicos com maior influência dos micronutrientes, destaca-se o sistema imunológico. As vitaminas e os minerais desempenham papéis importantes em todas as etapas da resposta imune: 1) Barreira física: vitaminas A, C, D, E, B6, B12, folato, ferro e zinco; 2) resposta imune inata: vitaminas A, C, D, E, B6, B12, folato, ferro, zinco, cobre, selênio e magnésio; 3) Resposta inflamatória: vitaminas A, C, B6, ferro, zinco, cobre, selênio e magnésio; e 4) Resposta imune adaptativa: vitaminas A, C, D, E, B6, B12, folato, ferro, zinco, cobre, selênio e magnésio. 17 • Compostos bioativos de alimentos (CBA): Os CBA mais conhecidos e estudados são os polifenóis, metabólitos secundários que são encontrados em uma grande variedade de alimentos e bebidas de origem vegetal. Os efeitos atribuídos a eles estão relacionados, principalmente, à sua característica antioxidante de combate a espécies reativas de oxigênio (EROs) e em determinadas vias metabólicas. Em relação à sua capacidade anti- inflamatória, o mecanismo acontece por meio da inibição de fatores de transcrição como NFκB e AP-1, que são ativados por estímulos antagônicos (como ácidos graxos saturados, por exemplo), e que levariam à transcrição de mediadores inflamatórios como TNFα, IL1β e IL6. Referências bibliográficas COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria A. (org.). Genômica Nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. PARA SABER MAIS Assim como vários outros tipos de lipídios, os ácidos graxos (AG) da família ômega 3 (ω3) possuem papel importante na modulação da expressão gênica. Esses AG são poli-insaturados e, dentro da família dos ω3, encontram-se os AG alfa-linolênico (ALA – C18:3), eicosapentaenoico (EPA – C22:5) e docosa-hexaenoico (DHA – C24:6). São considerados essenciais, já que o organismo dos mamíferos é incapaz de sintetizá-los e, portanto, devemos garantir sua ingestão por meio da alimentação ou suplementação. Após serem absorvidos pelas células, os ω3 atuam na síntese de substâncias fundamentais à vida humana, como leucotrienos, prostaglandinas, prostaciclinas 18 e tromboxanos. Esses AG também apresentam características anti- inflamatória (Figura 2). Figura 2 – Ação anti-inflamatória dos ácidos graxos ômega 3. Fonte: elaborada pela autora. Pesquisas têm demonstrado que os AG ω3 podem inibir a transcrição de citocinas pró-inflamatórias de diferentes formas. Uma delas é por meio da diminuição da efetividade dos receptores (TLR4, receptor que reconhece ácidos graxos saturados; TNFR, receptor que reconhece citocinas pró-inflamatórias como o TNFα) em disparar a cascata de sinalização que leva à transcrição desses mediadores pró-inflamatórios. Além disso, esses AG também podem interferir em vários pontos da via de sinalização em si, inibindo as fosforilações que propagam os sinais através de diversas proteínas intermediárias, por exemplo. Referências bibliográficas CINTRA, Dennys E.; YAMADA, Mônica; ROGERO, Marcelo M. Ácidos graxos poli- insaturados. In: COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria 19 A. Genômica nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. TEORIA EM PRÁTICA Depois de conhecer a função de diversos nutrientes sobre a capacidade de modulação de várias fases da resposta imunológica, reflita sobre a recomendação de suplementação de determinados micronutrientes, como a vitamina D, para a população geral, para prevenção de infecção viral em caso de pandemia, como no caso da COVID-19, ou para gripes virais sazonais, como a H1N1. Você acredita que essa prática de suplementação seja válida, segura e, acima de tudo, eficaz para prevenção de infecção viral? Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos Indicações de leitura 20 que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 Este é um artigo atual de revisão sobre a nutrigenômica da vitamina D, que apresenta papel fundamental no metabolismo e imunidade celular. Nesta revisão, os autores, discutem diferentes aspectos de como a vitamina D interage com o genoma humano, levando a uma boa compreensão dos seus benefícios clínicos. CARLBERG, Carsten. Nutrigenomics of Vitamin D. Nutrients, v. 11, ed. 676, p. 1-15, 2019. Indicação 2 Este livro trata exclusivamente sobre genômica nutricional. No capítulo Polifenóis, na seção de “Nutrientes, compostos bioativos de alimentos e expressão gênica”, os autores discutem as ações dos polifenóis, especialmente dos flavonóides, na expressão gênica em diferentes tecidos e condições, com destaque para a ação antioxidante e anti-inflamatória destes metabólitos secundários. HASSIMOTTO, Neuza M. A.; LAJOLO, Franco M. Polifenóis. In: COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria A. (org.). Genômica nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. 21 QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 1. Diferentes tipos de lipídios já foram descritos como moduladores da expressão gênica em diversos contextos fisiológicos. Os ácidos graxos são uma das classes de lipídios com mais funções moduladoras descritas. Com relação aos ácidos graxos saturados, assinale a alternativa que melhor descreva sua função moduladora relacionada à transcrição de mediadores pró-inflamatórios: a. Diminuem a transcrição de mediadores pró-inflamatórios por meio de sua ação repressora da atividade dos fatores de transcrição. b. Diminuem a transcrição de mediadores pró-inflamatórios a partir de sua ação inibitória do receptor TLR4. c. Diminuem a sinalização de mediadores pró-inflamatórios a partir de sua ação inibitória do receptor TNFR. d. Promovem a transcrição de mediadores pró-inflamatórios a partir das ações desencadeadas por sua ligação aos receptores TLR4. 22 e. Promovem a transcrição de mediadores pró-inflamatórios a partir das ações desencadeadas por sua ligação aos receptores TNFR. 2. “Dentro do grupo com compostos bioativosde alimentos, os __________ são os mais conhecidos e estudados. Esses compostos possuem efeitos importantes, principalmente devido à sua característica __________, de combate as EROs. Como mecanismo anti-inflamatório, eles atuam __________ a ação de fatores de transcrição como NFκB e AP-1”. Assinale a alternativa que contenha as palavras que completem as lacunas corretamente: a. Polifenóis; antioxidante; promovendo. b. Polifenóis; anti-tumorigênica; inibindo. c. Polifenóis; antioxidante; inibindo. d. Taninos; antioxidante; inibindo. e. Taninos, anti-tumorigênica; promovendo. GABARITO Questão 1 - Resposta D Resolução: Os ácidos graxos saturados levam à modulação da expressão de mediadores pró-inflamatórios por meio da sua ligação com os receptores do tipo TLR4, que promovem a transcrição de mediadores pró-inflamatórios, como TNFα, IL1β e IL6. 23 Questão 2 - Resposta C Resolução: Os compostos bioativos de alimentos mais conhecidos e estudados são os polifenóis, metabólitos secundários que são encontrados em uma grande variedade de alimentos e bebidas de origem vegetal. Os efeitos atribuídos a eles estão relacionados, principalmente, à sua característica antioxidante de combate a espécies reativas de oxigênio (EROs) e em determinadas vias metabólicas. Em relação à sua capacidade anti-inflamatória, o mecanismo acontece por meio da inibição de fatores de transcrição como NFκB e AP- 1, que são ativados por estímulos antagônicos (como ácidos graxos saturados), e que levariam à transcrição de mediadores inflamatórios como TNFα, IL1β e IL6. Epigenômica nutricional ______________________________________________________________ Autoria: Laís A. de Paula Simino Leitura crítica: Mariana Portovedo de Oliveira Araújo TEMA 3 25 DIRETO AO PONTO A epigenômica nutricional estuda a influência dos nutrientes e padrões alimentares na modulação de mecanismos epigenéticos. A epigenética, por sua vez, se refere as alterações que impactam na modulação da expressão gênica, mas que não estão envolvidas com mudanças na sequência do DNA. Para que determinado mecanismo possa ser considerado epigenético, deve obedecer a três critérios: 1. Autopropagação, ou seja, não depender de outros mecanismos para acontecer. 2. Ser passível de ser herdado. 3. Ser reversível. Atualmente, consideramos como mecanismos epigenéticos: metilação do DNA, modificações das histonas e expressão de microRNAs (Figura 1). 26 Figura 1 – Nutrientes e a modulação de mecanismos epigenéticos Fonte: elaborada pela autora. A metilação do DNA é o mecanismo epigenético mais estudado, e consiste na adição de grupos metil ao DNA, levando ao silenciamento estável da transcrição do gene, ou seja, à menor expressão do gene que foi metilado. A adição de grupos metil é realizada por uma família de enzimas chamadas DNA metil- transferases (DNMT), responsáveis pela transferência do grupo metil de uma molécula doadora (SAM) às citosinas localizadas na ilha CpG do DNA, ou seja, na região promotora, o que impede que os fatores de transcrição se liguem à essa região para dar início à transcrição gênica. Muitos micronutrientes participam da regulação da metilação por serem intermediários da formação de SAM ou da molécula inibidora de metiltransferases (SAH). Além disso, micro e macronutrientes, padrões alimentares e compostos bioativos de alimentos (CBA) podem ativar ou inibir as DNMT. 27 As histonas são proteínas encontradas ao longo da fita de DNA, sendo essenciais para sua estrutura e funcionalidade. A este conjunto de histonas e DNA dá-se o nome de cromatina. As histonas podem sofrer diversas modificações que levam ao aumento ou diminuição da transcrição gênica: metilação, acetilação, fosforilação e ubiquitinação, por exemplo. As enzimas envolvidas nos processos de metilação (HMT e HDM, metiltransferase e demetilase) e acetilação (HAT e HDAC, acetiltransferase e desacetilase) podem ser reguladas por nutrientes, padrões dietéticos e CBA. Os microRNAs (miR), por sua vez, fazem parte do grupo dos RNA não codificantes. Eles possuem apenas cerca de 22 nucleotídeos em sua forma madura e atuam na regulação pós-transcricional, ou seja, controlam a expressão de genes após a etapa de transcrição. Estima- se que mais de 60% dos RNA mensageiros são regulados pelos miR e, assim como acontece nos outros mecanismos epigenéticos, existem evidências de que a alimentação pode influenciar na alteração do fenótipo dirigida pela modulação na expressão de miR, aumentando ou diminuindo a expressão de determinados miR tecido-específicos. Apesar de ainda não haver recomendações dietéticas específicas com o intuito de modular determinados mecanismos epigenéticos, acredita-se que esses processos podem ser um mecanismo central para a prevenção e tratamento de diversas doenças existentes. Assim, espera-se que, cada vez mais, o estudo da epigenômica nutricional possa servir como base para a prática clínica e promoção da saúde na área de atuação do nutricionista. Referências bibliográficas COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria A. (org.). Genômica Nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. 28 PARA SABER MAIS Estudos epidemiológicos e experimentais das últimas décadas têm demonstrado o impacto da programação metabólica fetal no desenvolvimento de doenças metabólicas. Tal programação é o processo no qual diferentes estímulos que ocorrem durante períodos considerados críticos para o desenvolvimento, como o período intrauterino e pós-natal precoce, impactam no fenótipo e metabolismo dos indivíduos durante toda vida. Esses períodos críticos do desenvolvimento são traduzidos, hoje em dia, no conceito definido como “os primeiros mil dias” e envolve desde a concepção, ou seja, todo o período gestacional, até os 2 anos de vida. Os primeiros mil dias são a fase mais crítica para a indução de desordens fisiopatológicas, principalmente relacionadas ao metabolismo, e diversos estímulos ou condições podem desencadear essas desordens: exposição a toxinas e medicamentos; poluição; estresse psicológico; sedentarismo; excesso ou escassez de nutrientes; diabetes e obesidade materna são alguns exemplos. Evidências sugerem que a exposição a diversos dessem fatores podem levar os descendentes ao desenvolvimento de obesidade já na infância, podendo persistir durante toda a vida adulta. O Quadro 1 descreve os principais fatores de risco para o desenvolvimento de obesidade relacionados à programação metabólica em cada fase dos “primeiros mil dias”. 29 Quadro 1 – Principais fatores de risco nos “Primeiros 1000 dias” associados ao desenvolvimento de obesidade Fase Fator de risco Pré-natal (gestação) • IMC materno pré-gestacional elevado. • Ganho de peso gestacional excessivo. • Diabetes gestacional. • Predisposição genética. 0 - 6 meses • Problemas associados a formulações infantis: • Curva de crescimento do bebê acelerada. • Alta ingestão energética. • Alta/inadequada concentração de proteínas. • Baixa/inadequada concentração de ácidos graxos poli-insaturados. • Introdução alimentar precoce. 6 meses - 2 anos • Ganho de peso muito acelerado após a introdução alimentar. • Alta/inadequada ingestão de proteínas. • Alta ingestão energética. • Alteração na microbiota intestinal. Fonte: adaptado de Mameli, Mazzantini e Zuccotti (2016). 30 Assim, é importante que a prevenção à obesidade e outras desordens metabólicas inicie desde antes do nascimento e que se tenha atenção especial principalmente durante os primeiros 2 anos de vida do bebê. Referências bibliográficas MAMELI, Chiara; MAZZANTINI, Sara; ZUCCOTTI, Vincenzo. Nutrition in the First 100 0 Days: The Origin of Childhood Obesity. Int. J. Environ. Res. Public Health, Basiléia, v. 13, ed. 383, p. 1-9, 2016. TEORIA EM PRÁTICA Após o estudo de como os nutrientes, o estado nutricional e a composição corporal podem levar a alterações em mecanismos epigenéticos queparticipam da programação metabólica fetal, reflita sobre o caso de mulheres que se encontram obesas e apresentam Diabetes mellitus tipo 2 no início da gestação. Qual seria a orientação nutricional nesse caso? Seria importante planejar a alimentação de forma a promover a perda de gordura da gestante, a fim de se evitar modulações epigenéticas negativas no filho? Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. 31 LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 Este livro trata exclusivamente sobre genômica nutricional. E no capítulo Fundamentos de epigenética e nutrição, na seção Fundamentos da genômica nutricional, os autores trazem definições e conceitos básicos acerca da epigenética e discutem as alterações em mecanismos epigenéticos dirigidas por nutrientes. HORST, Maria A.; CARVALHO, Ana C.; VETTORE, Andre L. Fundamentos de epigenética e nutrição. In: COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria A. (org.). Genômica nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. Indicações de leitura 32 Indicação 2 Este é um artigo de revisão, com o tema Programação metabólica precoce em humanos, que aborda, além de um breve histórico sobre o tema da programação fetal, assuntos como diabetes gestacional, obesidade e ganho de peso excessivo durante a gestação, exposição intrauterina a glicocorticóides e toxinas, os mecanismos epigenéticos envolvidos na programação metabólica e os efeitos de intervenções nutricionais durante a gestação e lactação para os desfechos cardio- metabólicos dos descendentes. FALL, Caroline H. D.; KUMARAN, Kalyanaraman. Metabolic programming in early life in humans. Phil. Trans. R. Soc. B, Londres, v. 374, p. 1-9, 2019. QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 1. Os microRNAs são pequenas moléculas de cerca de 22 nucleotídeos, que fazem parte do grupo dos RNA não codificantes. Estima-se que mais de 60% dos RNA mensageiros sejam regulados pela expressão diferencial dos microRNAs. 33 Acerca da regulação exercida pelos microRNAs, assinale a alternativa correta: a. Participam da regulação pré-transcricional, promovendo o aumento da transcrição do gene alvo. b. Participam da regulação pré-transcricional, realizando a repressão da transcrição do gene alvo. c. Participam da regulação pós-transcricional, promovendo o aumento da transcrição do gene alvo. d. Participam da regulação pós-transcricional, realizando a repressão da tradução do RNA mensageiro alvo. e. Participam da regulação pós-transcricional, promovendo o aumento da tradução do RNA mensageiro alvo. 2. “O mecanismo epigenético mais conhecido e estudado é __________, e consiste na adição de grupos metil a __________ do DNA localizadas, principalmente, nas ilhas CpG. Esse mecanismo leva ao __________ da transcrição gênica”. Assinale a alternativa que contenha as palavras que completem as lacunas corretamente: a. A metilação de histonas; guaninas; silenciamento. b. A metilação do DNA; citosinas; aumento. c. A metilação do DNA; citosinas; silenciamento. d. A metilação de histonas; citosinas; silenciamento. e. A metilação do DNA; guaninas; aumento. 34 GABARITO Questão 1 - Resposta D Resolução: Os microRNAs fazem parte do grupo dos RNA não codificantes e atuam na regulação pós-transcricional, ou seja, controlam a expressão de genes após a etapa de transcrição, realizando a repressão da tradução do RNA mensageiro alvo. Questão 2 - Resposta C Resolução: A metilação do DNA é o mecanismo epigenético mais estudado e consiste na adição de grupos metil a citosinas do DNA, localizadas nas ilhas CpG, levando a um silenciamento estável da transcrição do gene, ou seja, à menor expressão do gene que foi metilado. Bioética, testes preditivos e exercícios físicos ______________________________________________________________ Autoria: Laís A. de Paula Simino Leitura crítica: Mariana Portovedo de Oliveira Araújo TEMA 4 36 DIRETO AO PONTO Nos últimos anos, pudemos observar um rápido progresso no entendimento do genoma e no estudo das interações entre os alimentos e nutrientes na expressão gênica e variabilidade genética, o que conhecemos hoje como genômica nutricional. Por se tratar de uma área do conhecimento relativamente nova, é importante que sejam discutidos e compreendidos os aspectos bioéticos que envolvem a aplicação prática dessa ciência. Por ética, compreende-se a disciplina filosófica que investiga os sistemas morais criados pelo homem, a fim de compreender as concepções sobre questões que podem ter interpretações diversas. A moral, por sua vez, é um conjunto de condutas assumidas de forma livre pelos indivíduos, com o intuito de organizar as relações pessoais segundo valores de bom e ruim, bem e mal. Já a bioética se trata de um conjunto de conceitos e normas que buscam tratar os humanos de maneira ética no que se relaciona a atos que afetam os sistemas vivos. Os princípios gerais que devem ser observados na bioética são: beneficência; não maleficência; justiça; equidade; e autonomia. O consumo alimentar é um importante fator ambiental que pode interferir no desenvolvimento de doenças associadas a polimorfismos genéticos e, nesse sentido, os testes relacionados à nutrigenética têm emergido como uma possibilidade de aperfeiçoamento do cuidado nutricional personalizado. O principal enfoque dos testes preditivos nutrigenéticos, atualmente, está na análise dos polimorfismos de nucleotídeo único (SNP). Contudo, diferentemente do que ocorre com as doenças monogênicas com alta penetrância, em que o indivíduo apresenta alto risco de desenvolver a condição associada àquele gene, como a fenilcetonúria, as doenças crônicas não transmissíveis mais 37 abordadas na prática clínica do nutricionista são condições poligênicas multifatoriais complexas. Portanto, alterações em um único SNP relacionado a elas pode determinar uma associação muito baixa com o risco de desenvolvimento da doença propriamente dito. Assim, existem ainda muitas limitações em relação ao emprego dos testes preditivos nutrigenéticos e, para que sejam utilizados com segurança e critério, devem ser observadas as seguintes premissas (Figura 1): • Respeitar os princípios da bioética. • Entender que os testes têm caráter complementar e preditivo, nunca diagnóstico. • O profissional que solicitar, deve ser especializado/capacitado para interpretar os dados obtidos. • Devem ser utilizados em conjunto com as outras ferramentas básicas do atendimento nutricional (histórico familiar e pessoal, parâmetros bioquímicos, cultura e preferências pessoais, avaliação do estado nutricional, diretrizes atuais). 38 Figura 1 – Premissas para utilização de testes preditivos nutrigenéticos Fonte: elaboradapela autora. Assim, entende-se que os testes nutrigenéticos sejam ferramentas inovadoras que possibilitam uma visão complementar para o direcionamento da conduta dietética em diversos campos de atuação, principalmente na prevenção de DCNT, controle do peso, rastreio de intolerâncias e alergias e melhora de performance. No entanto, ainda se trata de uma ferramenta nova, que carece de mais estudos para que os reais benefícios sejam aplicáveis com segurança e tragam reais benefícios no dia a dia dos nutricionistas clínico. Referências bibliográficas COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria A. (org.). Genômica Nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. 39 PARA SABER MAIS O organismo sofre diversas adaptações promovidas quando o indivíduo pratica exercícios físicos, sendo que diferentes tipos de exercícios causam diferentes tipos de adaptações. Essas adaptações são o resultado das alterações na expressão de genes promovidas não só pelo próprio exercício, mas também por outros fatores correlacionados, como a alimentação/nutrientes (Figura 2). Figura 2 – Interação entre genes, nutrientes e exercícios físicos Fonte: elaborado pela autora. Como exemplo, podemos citar a influência de um composto bioativo de alimentos (CBA) e sua relação com o exercício e a expressão gênica. A principal classe de CBA estudada são os polifenóis, que se subdividem em taninos, estilbenos, ácidos fenólicos e flavonóides. Além dos efeitos comuns relacionados à grande parte dos CBA, como as características antioxidantes de combate a espécies reativas de oxigênio (EROs) e a efeitos fisiológicos como vasodilatação, quimioproteção, neuroproteção, e anti-inflamatório, algumas funções atribuídas a esses compostos já foram relacionadas ao 40 desempenho físico, por meio da promoção da modulação da expressão gênica. A quercetina, por exemplo, um flavonóide cujas fontes principais são cebola, maçã, mirtilo, couve-flor, brócolis e alguns chás, pode influenciar a biogênese mitocondrial induzida por exercícios, ou seja, a construção de novas mitocôndrias. Essa organela é essencial à vida, já que por meio dela, realiza-se a respiração celular, e é onde há a formação da maior parte da energia necessária para o funcionamento do corpo. Em um estudo no qual camundongos foram submetidos a exercícios físicos com ou sem suplementação de quercetina, verificou-se que o grupo suplementado teve maior expressão de genes relacionados à biogênese mitocondrial e, como consequência, houve maior quantidade de mitocôndrias após um período de treino e suplementação. Referências bibliográficas ROGERO, Marcelo M.; TORRES-LEAL, Francisco L. Nutrigenômica e exercício físico. In: COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria A. (org.). Genômica nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. TEORIA EM PRÁTICA Reflita sobre os testes preditivos em nutrigenética, direcionados ao consumidor final, com o intuito de direcionar prescrições dietéticas específicas. Suponha que chegue ao seu consultório um paciente que realizou previamente um destes testes e, ao ler o relatório, viu que havia algumas mutações em genes que metabolizam carboidratos e gorduras e, por isso, ele buscava orientação para uma dieta hiperproteica e hipoglicídica/hipolipídica. 41 Qual seria sua conduta nesse caso? Ignoraria o teste e prescreveria uma orientação voltada com base nas suas orientações convencionais, ou faria a prescrição e orientação nutricional de acordo com os resultados obtidos no teste? Para conhecer a resolução comentada proposta pelo professor, acesse a videoaula deste Teoria em Prática no ambiente de aprendizagem. LEITURA FUNDAMENTAL Prezado aluno, as indicações a seguir podem estar disponíveis em algum dos parceiros da nossa Biblioteca Virtual (faça o log in por meio do seu AVA), e outras podem estar disponíveis em sites acadêmicos (como o SciELO), repositórios de instituições públicas, órgãos públicos, anais de eventos científicos ou periódicos científicos, todos acessíveis pela internet. Isso não significa que o protagonismo da sua jornada de autodesenvolvimento deva mudar de foco. Reconhecemos que você é a autoridade máxima da sua própria vida e deve, portanto, assumir uma postura autônoma nos estudos e na construção da sua carreira profissional. Por isso, nós o convidamos a explorar todas as possibilidades da nossa Biblioteca Virtual e além! Sucesso! Indicação 1 Este livro trata exclusivamente sobre genômica nutricional. No capítulo Avanços e perspectivas, na seção Modelos para estudos de Indicações de leitura 42 genômica nutricional”, os autores abordam as ferramentas utilizadas nos estudos científicos e exemplificam os modelos in vivo e in vitro mais comuns nestes tipos de estudo. HEIDOR, Renato et al. Modelos para estudos de genômica nutricional. In: COMINETTI, Cristiane; ROGERO, Marcelo M.; HORST, Maria A. (org.). Genômica nutricional: dos fundamentos à nutrição molecular. Barueri: Manole, 2017. Indicação 2 Este é um artigo de revisão, chamado Variações genéticas comuns envolvidas na variabilidade inter-individual de concentrações circulantes de colesterol em resposta a dietas: uma revisão narrativa de evidências recentes, em que discutiu estudos recentes sobre como alguns polimorfismos podem estar relacionados à resposta dietética na busca da melhora dos níveis circulantes de colesterol. ABDULLAH, Mohammad M. H. et al. Common Genetic Variations Involved in the Inter-Individual Variability of Circulating Cholesterol Concentrations in Response to Diets: A Narrative Review of Recent Evidence. Nutrients, v. 13, n. 695, 2020. QUIZ Prezado aluno, as questões do Quiz têm como propósito a verificação de leitura dos itens Direto ao Ponto, Para Saber Mais, Teoria em Prática e Leitura Fundamental, presentes neste Aprendizagem em Foco. Para as avaliações virtuais e presenciais, as questões serão elaboradas a partir de todos os itens do Aprendizagem em Foco e dos slides usados para a gravação das videoaulas, além de questões de interpretação com embasamento no cabeçalho da questão. 43 1. Os testes preditivos nutrigenéticos buscam, atualmente, investigar os SNPs que podem estar relacionados aos padrões alimentares e desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis. Acerca desses testes, assinale a alternativa correta: a. Os SNPs são polimorfismos em um único nucleotídeo e, por esse motivo, alterações em um único SNP relacionado a doenças crônicas multifatoriais e complexas pode determinar uma associação muito baixa com o risco de desenvolvimento da doença propriamente dita. b. Os SNPs são polimorfismos em diversos nucleotídeos do mesmo gene e, por esse motivo, esse tipo de teste aponta para associações importantes para o desenvolvimento de doenças crônicas. c. Diferentemente do que ocorre com as doenças poligênicas multifatoriais, em que o indivíduo apresenta alto risco de desenvolver a condição associada àquele gene, como a fenilcetonúria, as doenças crônicas não transmissíveis mais abordadas na prática clínica do nutricionista são condições monogênicas com alta penetrância. d. Diferentemente do que ocorre com as doenças monogênicas, em que o indivíduo apresenta alto risco de desenvolver a condição associada àquele gene, como a fenilcetonúria, as doenças crônicas não transmissíveis mais abordadas na prática clínica do nutricionista são facilmente detectáveis pelos testes nutrigenéticos que avaliam SNPs. e. O consumo alimentar é um importante fator ambiental que pode interferir no desenvolvimento de doenças associadas a polimorfismos genéticos e, por isso, os testes que avaliam SNPs determinam alto risco de desenvolvimento da condição associada àquele gene. 44 2. “Os compostos bioativos de alimentos são substâncias que podem interferir na modulação da expressão gênica mediada por exercícios físicos. A quercetina, por exemplo, é um__________ que pode ser encontrado em alimentos como maçã, mirtilo, couve-flor e brócolis e influência a biogênese de __________ mediada por exercícios físicos. Essa organela, responsável pela __________, é essencial para a geração de energia necessária para o funcionamento de todo o organismo”. Assinale a alternativa que contenha as palavras que completem as lacunas corretamente: a. Opioide; ribossomos; tradução de proteínas. b. Flavonóide; ribossomos; respiração celular. c. Flavonóide; mitocôndrias; respiração celular. d. Ácido fenólico; mitocôndrias; tradução de proteínas. e. Ácido fenólico; ribossomos; respiração celular. GABARITO Questão 1 - Resposta A Resolução: O consumo alimentar é um importante fator ambiental que pode interferir no desenvolvimento de doenças associadas a polimorfismos genéticos e, nesse sentido, os testes relacionados à nutrigenética têm emergido como uma possibilidade de aperfeiçoamento do cuidado nutricional personalizado. O principal enfoque dos testes preditivos nutrigenéticos, atualmente, está na análise dos polimorfismos de nucleotídeo único (SNP). Contudo, diferentemente do que ocorre com as doenças monogênicas com alta penetrância, 45 em que o indivíduo apresenta alto risco de desenvolver a condição associada aquele gene, como a fenilcetonúria, as doenças crônicas não transmissíveis mais abordadas na prática clínica do nutricionista são condições poligênicas multifatoriais complexas e, portanto, alterações em um único SNP relacionado a elas pode determinar uma associação muito baixa com o risco de desenvolvimento da doença propriamente dito. Questão 2 - Resposta C Resolução: Os compostos bioativos de alimentos são substâncias que podem interferir na modulação da expressão gênica mediada por exercícios físicos. A quercetina, por exemplo, é um flavonóide que pode ser encontrado em alimentos como maçã, mirtilo, couve-flor e brócolis e influência a biogênese de mitocôndrias mediada por exercícios físicos. Essa organela, responsável pela respiração celular, é essencial para a geração de energia necessária para o funcionamento de todo o organismo. BONS ESTUDOS! Apresentação da disciplina Introdução TEMA 1 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Leitura fundamental Quiz Gabarito TEMA 2 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Leitura fundamental Quiz Gabarito TEMA 3 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Leitura fundamental Quiz Gabarito TEMA 4 Direto ao ponto Para saber mais Teoria em prática Quiz Gabarito Inicio 2: Botão TEMA 4: Botão TEMA 1: Botão TEMA 2: Botão TEMA 3: Botão TEMA 9: Inicio :