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CDITORP 71
Para qu e m p e squi sa m o s ? 
Para qu e m e s cre ve m os ?
Magda Soares*
Co m ece m o s p or r efle t i r sobre o te m a-tít u lo des te texto:
d u as pe rg u n t a s q u e se r efe r e m a d u a s ações e dois co m p o r -
t a m e n to s q u e, s e m d úvid a , se a p roxim a m , m a s q u e são, e m 
s u a es sê n cia , r a d ic a lm e n te d ife r e n te s . Propos t a s as d u as 
perg u n t a s la do a la do co m o t e m a de reflexão, o b riga m a q u e 
se b u s q u e a q u ilo q u e as a p roxim a e rela cio n a , q u e é o q u e 
a q u i se fará, p rivilegia n do- s e , p a r a foco d a discu s s ão, a se-
g u n d a p e rg u n t a — p a r a q u e m e s c r eve m o s ? — to m a d a a 
p r im eir a — p a r a q u e m pe sq u is a m os ? — co m o u m co n t r a -
p o n to àquela.^
* Profe s sor a e m é rit a d a U n ive r s id a d e Fed er al de Min a s Gerais.
1. A p rim eir a pergu n ta , to m a d a isola d a m e n te, leva ria fo rços a m e n te a disc u tir 
as co m plex a s e polê m ic a s q u es tões q u e es t ão im plícit a s e m se u p res s u pos to, o de 
q u e se pe sq uis a p ara algué m: pe sq uis a "p u r a” versus pe sq uis a a plica d a, pe sq uis a 
d efin id a a pen a s p elo s in tere s se s da ciê n cia ou do pesq u is a dor versus pe sq uis a 
“e n co m e n d a d a” p or a lg u é m ou alg u m a in s tit u iç ão — q u es tões q u e foge m aos 
obje tivos des te texto.
72 MOREIRA. SOARES • FOLLARI • GARCIA
Quem é o sujeito nas duas perguntas?
E x plicit e m o s o s u jeito dos ve r b o s p re s e n te s n a s d u as 
perg u n t a s : Pa r a q u e m nós p e s q u is a m o s ? Pa r a q u e m nós 
e s c r eve m o s ? E p e rg u n te m o- n os : Q u e m s ão os d esign a dos 
p o r es s a p r im eir a p e s soa do plu r al?
É a q u i q u e a p r im eir a p e rg u n t a e s cla rece a segu n d a, 
j á que, o bvia m e n te , o s u jeito dos dois ve r b o s é o m e s m o.
Para q u e m nós p e sq u is a m o s ? a q u e m se r efe r e es se 
nós? Q u e m pe s q u is a s ão a q u ele s co m u m e n te c h a m a dos 
"a c a d ê m icos": os p rofe s s ore s u n iver s it á rios , os cien tis t a s ;
são, pois , e s te s q u e o nós d a p r im eir a p e rg u n t a design a .
A s eg u n d a perg u n t a , p o r q u e a m a r r a d a n a p rim eir a , 
r efe re- s e a e s se m e s m o nós: p a r a q u e m e s c reve m o s , os que- 
p e s q u is a m o s ? Pa ra q u e m e s c r eve m es te s a u tores , os p e s -
q u is a d o r e s — a c a d ê m ico s , p r ofe s s o r e s u n ive r s i t á r io s , 
cie n tis t a s ?
E m ais: a p rim eir a p e rg u n t a e s cla rece t a m b é m o o bje-
to do ve r b o im p lícito n a s eg u n d a perg u n t a : p a r a q u e m es -
c r eve m o s 0 quê? p a r a q u e m e s c r eve m o s o q u e e s c reve m o s ?
Se as d u a s perg u n t a s a p roxim a m , r ela cio n a m p e sq u is a e 
escrit u r a , a segu n d a , se ex p licit a d o o im plícito , será: p a ra 
q u e m e s c r eve m o s os re s u lt a dos de nos sa s pe sq uis a s ?
Fic a m a s sim e s cla recido s os im plícito s n a s perg u n t a s 
q u e são o te m a -tít u lo d es te texto, e, por t a n to, os co n tor n o s 
e lim it e s d a r eflex ã o q u e se d e s e n volve r á aqui: fic a m es cla -
r ecid o s q u e m s ão a q u ele s a q u e as p erg u n t a s se r efe r e m 
— p a r a q u e m p e sq u is a m o s e p a r a q u e m e s c r eve m o s nós, os 
acadê micos , e fic a e s cla recid o a q u e obje to se r efe r e a se-
PARA QUEM PESQUISAMOS PARA QUEM ESCREVEMOS 73
g u n d a p e rg u n t a — p a r a q u e m nós, os q u e pesq u is a m os , 
e s c r eve m o s os resultados de nos sas pesquisas.
Explicit a dos os im plícito s e e s t a b elecid os os co n tor n o s 
e lim it e s do te m a , pode-se fin a lm e n te d ir igir o foco d a r e -
flexão p a r a a s eg u n d a perg u n t a , co m o a n te r io r m e n te a n u n -
cia do: p ara qu e m e s c reve m o s ?
Paralelo entre "nós", os pesquisadores, e "eles",
os escritores
B u sq u e m os u m a p rim eir a a p roxim a ç ã o ao t e m a p or 
m eio de u m p a r a lelo e n t re e s te s dois tipos de a u tores: nós, 
os pe s q u is a dore s q u e nos fa ze mos a u tores , e ele s , os poeta s 
e p ros a dores , q u e são a u tores . O co n fro n to aju d a a co m -
p r e e n d e r e s te a u tor q u e a q u i se disc u te: o p e s q u is a dor q u e 
se faz a utor. ̂
Ne s te co nfro n to, o t e r m o e scritor ser á a q u i u s a do p a ra 
d e sig n a r o a u tor de textos lite r á rio s ; o a u tor de textos cie n -
tíficos , q u e h a bit u a lm e n te n ão se co n sid e r a n e m é co n sid e-
r a do u m e scritor — é u m p rofes sor , é u m pesq uis a dor , é u m
es t u dioso, é u m cie n tis t a q u e, co m o s u b p rod u to de s uas 
a tivid a de s , e s c r eve — ser á a q u i d e sig n a do, p a r a fin s do 
co nfro n to, pesquis a dor-autor.
É in te re s s a n te ob s e rva r q u e r a r a m e n te se p e rg u n t a ao 
e s critor piara que m e s creve. E n tr evis t a s co m e s c rito re s sem-
2. O co n fro n to exige u m a cer t a e s te reo tip ia d as d u as figu ra s de autor, aq u i 
a p res e n ta d a s co m o figu ra s-p a dr ão; o bvia m e n te , n e n h u m a fig u r a e m p ír ic a se 
co n fo r m a r á in t eir a m e n te co m essas figu ra s-p a drão.
p re p e rg u n t a m p or que e s c r eve m e co m o e s crevem ,^ p e r -
gu n ta s q u e n ão oco r r e faze r ao pesq uis a dor-a u tor , j á q u e a 
re s pos t a é co n sid er a d a óbvia .
Ma s p o r q u e n ão p a rece n ece s s á rio , p e r tin e n te , p e r -
g u n ta r ao e s c rito r p a r a que m e s c reve? E p or q u e a p e rg u n t a 
é co n s id e r a d a p e r t in e n t e , q u a n d o d ir igid a ao p e s q u is a -
dor-a u tor? Nã o só p a rece ser p o u co p e r t in e n te p e rg u n t a r ^ 
ao e s c rito r p ara que m e s c r eve co m o t a m b é m ele m e s m o 
p a r ece co n sid e r a r t ão s ec u n d á ria e ir r elev a n te a p e rg u n t a 
q u e, ao r e s p o n d e r a es t a ou tr a: Por que escrevo?, e le r a ra-
m e n te , q u a se n u nca, in clu i o le ito r — o p ara que m e s c reve 
— n a res pos t a .
Pa ra te n t a r e s cla rece r a q u es t ão, p roc u re m o s in icia l-
m e n te co n fro n t a r o s ig n ific a do do e s c r eve r p a ra o e s c rito r 
co m o s ig n ific a do do e s c r eve r p a r a o pesq u is a dor-a u tor.‘‘
74 MOREIRA-SOARES-FOLLARI-GARCIA
I
3. T ã o fr e q u e n t e m e n t e es s a s p e rg u n t a s s ão p ropos t a s a e s c r ito r e s q u e
ge r a r a m a exc ele n t e ob r a orga n iza d a p o r J os é D o m in go s d e Brito, Por que e scre-
vo?, cole t â n e a d as r e s p o s t a s ^ e ce rc a de 100 e s c rito re s a es s a p e rg u n t a (B rito , 
1999). Nes s a ob r a é q u e fo r a m b u sca dos os d e p oim e n to s cit a dos n e s te texto. O 
liv r o fr a n cê s Pourquoi écrivez-vou s?, a p re s e n t a n d o m ais de 400 res pos t a s de e s -
c rito r e s à perg u n ta , cit a do p o r Brito e m texto in t ro d u tó rio , co m p rova co m o é 
fr eq u e n te e ge r a l o in t e r e s s e p ela o p in iã o d e e s c rito re s a r e s p eito do a to de 
e s crever .
4. Ne s t e texto, o s ig n ific a d o do e s c r eve r p a r a e s c rito re s fo i b u s c a d o e m 
d a dos e m p ír ico s id e n tific a d o s p o r Brito e m d e p oim e n to s e e n t r evis t a s , co n fo r -
m e in d ic a d o n a n ota a n te rio r ; j á o s ig n ific a d o do e s c r eve r p a ra o p e s q u is a -d or -a u to r é n e s te tex to id e n tific a d o co m b a s e n a e x p e r iê n cia d a a u tor a c o m o 
p e sq u is a dor a -a u to r a e co m p e sq u is a dores -a u to re s , p ela vivê n c ia n a a c a d e m ia , 
a p a r t icip a ç ã o e m co n s elh o s e d ito ria is de r evis t a s a c a d ê m ic a s e de editor a s , a 
o r ie n t a ç ã o de te s e s e d is se r t a çõe s . Seria ex t r e m a m e n t e in t e r e s s a n te u m a p e s -
q u is a q u e b u sca s se d a dos e m p ir ico s sob re o s ig n ific a d o do e s c r eve r p a ra os
p e sq u is a dores - a u to re s , p ro p o n d o t a m b é m a ele s as p e rg u n t a s q u e t ão fr e q u e n -
t e m e n te se fa ze m aos es crito re s : p o r q u e e s c r eve m , p a ra q u e m e s c r eve m , co m o 
e s c r eve m .
PARA QUEM PESQUISAMOS PARA QUEM ESCREVEMOS 75
Carlo s Dru m m o n d de An drad e , co m seu co n h ecid o 
se n so de h u m or:
Sou u ma pessoa que gosta de escrever, que conseguiu t alvez 
exprimir algu mas de suas inquietações, seus problemas ín-
timos, que os projetou no papel, fazendo u ma espécie de 
psicanálise dos pobres, sem divã, sem nada. Mes mo porque 
não h avia analista no meu tempo, em Minas.
(en t revis t a à Folha de S.Paulo, 3 / 6 / 1984; apud 
Brito, 1999, p. 37)
O pesq u is a dor-a u tor e m ger al, ao co n t r á rio do escritor, 
n ão gos t a de e screver , e s c r eve q u a se s e m p re p or ob riga ção, 
p o r d eve r de oficio; e n u n ca e s c r eve p a r a ex p r im ir in q u ie -
t a çõe s e p ro b le m a s ín tim o s , p a r a fa ze r "p s ic a n á lis e dos 
pobres"...
Dia s Go m e s
Se não escrever, não vivo; fico angustiado. Escrevo diariamen-
te, religiosamente. O dia em que não escrevo, fico com u m 
sentimento de culpa enorme. Se ficar três dias então, fico to-
talmente neurótico. Tfenho que estar ocupado, se não, falta 
alguma coisa na minha vida. Escrever para mim é uma terapia.
(en t revis t a ao Jomal da Jürde, 24 / 6 / 94; apud Bri-
to, 1999, p. 41)
Para o pesq u is a dor-a u tor, é n o dia e m q u e n ão es t u da, 
n ã o lê, n ão p e sq u is a q u e o s e n tim e n to de c u lp a se m a n ife s -
ta... ao co n t r á rio de Dia s Gom es , fic a a ngu s tia do é q u a n do 
t e m de e screver .. .
' I I
76 MOREIRA • SOARES • FOLLARI • GAROA
Mo n t e iro Lobat o
Sempre escrevi por exigência orgânica, isto é, quando qual-
quer coisa, em meu organismo, exigia e imp u n h a a fixação 
do pensa mento em palavras — para alívio interno.
(e m Silveira Peixoto, J.B. \ apuã Brito, 1999, p. 63)
O p esq u is a dor-a u to r e s c r eve p o r exigê n cia d a a c a d e-
mia , dos p a res , n ão p o r exigê n cia orgâ n ica ... n ã o e s c reve 
p a r a a lívio in te r n o, m a s p a ra p re s t a r con ta s exte r n a m e n te. . .
Mario Vargas Llosa, e m b o r a e s c r ito r co m co n h ecid a 
a t u ação polític a , a u tor de obr a s de co n te ú do p olít ico-id eo-
lógico, decla r a :
Eu escrevo porque não sou feliz. Basicamente, escrevo por-
que é u ma m a neira de lu tar contra a infelicidade.
(en trevist a à revista Playboy, maio / 86; apuã Brito, 
1999, p. 115)
O pesq uis a dor-a u tor, ao co n t r á rio, e m ge r a l q u a n do 
t e m d e e s c r eve r é q u e n ão se s e n te feliz .. .
Au tran Dourado, m ais exager a d a m e n te q u e Vargas Llos a:
(Escrevo) Porque se não escrevesse já teria me matado.
(entrevista a O Globo, 29 / 7 / 1994; apuã Brito, 1999, 
p. 82)
PARA QUEM PESQUISAMOS PARA QUEM ESCREVEMOS 77
U m o u tro a s pecto q u e d is tin g u e e s c rito re s de p e s q u i-
s a dores-a u tore s é q ue, e n q u a n to o pesq u is a dor-a u tor e s c re-
ve p a ra co m u n ic a r o q u e a p re n de u , o e s c rito r e s c r eve p ara 
a p re n der:
Claric e Lisp e c t or
Eu tive desde a infância várias vocações que me cha mava m 
ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por 
que foi essa que segui. Tãlvez porque para as outras vocações 
eu precisaria de u m longo aprendizado, enqu anto que para 
escrever o aprendizado é a própria vida se viven do em nós 
e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o 
ú nico estudo é mes mo escrever.
(e m Waldman, B., apuã Brito, 1999, p. 38)
O p esq u is a dor-a u to r só e s c r eve d e pois d e u m lo n go 
a p ren diza do, n ão lh e s e rve a pe n a s o a p re n diza do d a p róp ria 
vid a ... E, p a r a e screver , p recis a est u dar, p e sq u is a r: se u es -
c r eve r é p rod u to do es t u do, n ão é o p ró p rio es t u do.
í talo Calvin o
De certo modo, acho que sempre escrevemos sobre algo que 
não con hecemos, escrevemos para dar ao m u ndo não escri-
to u ma oport u nidade de expressar-se através de nós.
(en trevis t a ao Jomal do Brasil, 3 / 8 / 96; apuã Brito, 
1999, p. 49)
O pe sq u is a dor-a u tor ja m a is e s c reve sob re a lgo q u e n ão 
co n h ece, ao co n tr á rio, s e m p re e só e s c r eve sob re a lgo q u e 
já co n h ece.
78 MOREIRA • SOARES • EOLLARI • GARCIA
E m sín tese: p a ra o escritor, e s c r eve r é u m ges to criador, 
é fr u to de in s pir aç ão, é u m a fo r m a de exp rimir-se, é ter a pia , 
é exigê n cia in te r n a , é p roces so d e a p re n dizage m ; p a ra o 
p esq u is a dor-a u to r , e s c r eve r é c u m p r i m e n to de deve r , é 
fr u to de e s t u do e pesq uis a , é re s pos t a a exigê n cia s exter n a s , 
é p rod u to d a a p re n dizage m .
No q u a d ro des se co n fro n to e n t r e o s ig n ific a do d a es-
c r eve r p a ra o e s c rito r e o s ig n ific a d o do e s c r eve r p a r a o 
pesq u is a dor-a u tor, p o d e m o s fin a lm e n te a p roxim a r m o- n o s 
d a re s pos t a à perg u n t a : p ara qu e m escreve o e scritor e p ara 
que m escreve o pe squis a dor-a utor?
O escritor, co m o j á se dis se a n te rio r m e n te , ao r e s p o n -
d e r à perg u n t a : Por que escrevo?, r a r a m e n te, q u a se n u nca, 
in clu i o leitor, o se u p ara que m, n a res pos t a . Q u a n do co n si-
d e r a o leitor , é a n te s p a ra rejeit á -lo , m a n ife s t a r u m cer to 
d e s d é m p ela pop u la rid a d e q ue, no c a m po lit e r á rio, cos t u m a 
ser vis t a co m alg u m a d e s co nfia n ç a : a d e s co n fia n ç a de q u e 
u m a obr a pos s a ter, ao m e s m o te m p o, q u a lid a de e pop u la -
rid a d e — a pop u te rid a d e p a rece p ô r e m d ú vid a o va lo r li t e -
r á rio. (C o m o exe m plo, le m b re m - s e as crític a s ao e s c rito r 
Pa u lo Coelh o.. . e, n a lite r a t u r a in fa n toju ve n il, as crític a s a 
J. K. Rowlin g co m s u a s é rie H a rry Potter, a m bos a u tores 
c u jo s u ces so d e ve n d a ge m t e m s u scit a do c rít ic a s e deb a te s 
q u e co n t r a p õe m a pop u la rid a d e d e s u as obr a s à q u a lid a de 
d ela s .)
Para o a u tor-pesq uis a dor, ao co n tr á rio, é a "p op u la ri-
d a de" q u e a tes t a o v a lo r de se u t r a b alh o: a q u a lid a de dos 
textos q u e p ro d u z é avalia d a p elo gra u de s u a r ece p tivid a d e 
n o m eio a c a d ê m ico e p elo n ú m e ro d e cit a çõe s e r efe rê n cia s 
q u e m e r e c e m e m textos de ou t ros pe sq u is a dores -a u tores .
O e s c rito r p a rece q u e n ã o e s c r eve p a r a s e r lid o:
PARA QUEM PESQUISAMOS PARA QUEM ESCREVEMOS 79
J orge Luís Borge s
Quando eu p ublico u m livro, meu s a migos sabem que não 
devem me falar do que escrevi. Assim, eu p ublico u m livro 
e não sei nada da crítica, boa ou má, ju sta ou injusta. Nem 
da venda. Isso pode interessar aos livreiros ou aos editores; 
não ao escritor. Eu não escrevo para poucos nem para a 
grande maioria. Eu o faço quando sinto necessidade.
(entrevista ao jornal Leia, setembro / 85; apud Brito, 
1999, p. 52)
O pesq uis a dor-a u tor, ao co n tr á rio, q u e r q u e a m igo s (e 
in im igo s .. .) fa le m sob re o q u e e s c reve u , precis a de q u e fa-
le m ; e a c rít ic a — a c rít ic a a c a d ê m ic a — t e m p a ra ele u m a 
im por t â n cia fu n d a m e n t a l.
Ala i n R obbe-Grill e t
Tin b a quase 30 anos quando aba ndonei tudo para escrever
livros que ningu ém queria, nem os editores, e, depois, nem 
o público. Isso não me perturbou. Era preciso escrever estes 
livros sem saber por que razões. É u ma es pécie de engaja-
mento, sem dúvida; só que não é de ordem política ou social 
ou moral nem do que quer que seja exterior à literatura. É 
u nica mente u m engaja mento na própria escrita.
(entrevista ao jor nal Leia, setembro / 85; apud Brito, 
1999, p. 77)
Ao co n tr á rio , ao pesq u is a dor-a u tor per t u r b a m u ito q u e 
e s c reva a r tigos ou livro s q u e n in g u é m q u eir a , rec u s a dos 
p o r co n s elh o s e ditoria is de p e rió dico s , p o r editor a s; e, t a m-
MOREIRA • SOARES • FOLLARI • GARCIA
b é m ao co n t r á rio de Rob be-Grille t , o pesq u is a dor-a u tor sabe 
m u ito b e m p o r q u e r azõe s é p recis o e s c r eve r a r tigos e livro s 
_se n ão os e screver , se n ão os p u blica r, s u a avalia çã p aca-
d ê m ic a (e a té m e s m o se u s a lá r io . . .) s ofr e r ã o os efeit o s 
dis so.
Sara mago (e m e n t r evis t a n o p e rio d o p ó s -P rê m io No b el)
Ah, a min h a motivação para contin u ar a escrever, o que 
espero recomeça r a fazer dentro de 2 meses ou 3, é igual 
àquela que era antes. Pen sei e contin uo a pensar que ten ho 
u mas tantas coisas a dizer. E são essas coisas que eu quero 
dizer, in depen den temente dos recon hecimen tos da posteri-
dade, ou das glórias e, digamos, do dia em que "estou” Nobel 
ou não. É u m bocado arriscado dizer que eu escrevo para a 
posteridade. Quem é que garante que a posteridade se inte-
ressa, que vai se interessar por aquilo que o escritor fez?
(entrevista à revista Bravo, ano 2, n “ 21, junho / 99; 
*apud Brito, 1999, p. 104)
E n q u a n to Sa ra m ago e s c r eve in d e p e n d e n t e m e n t e do 
r eco n h e cim e n to dos leitore s , o pe sq u is a dor-a u tor e s c reve 
d e p e n d e n d o f u n d a m e n t a lm e n t e do r e co n h e ci m e n to dos 
leito r e s — p a r a ele, os leito r e s e sob re t u do a pos te rid a d e 
in te re s s a m m uito.. .
Lygia Fagunde s Ttelles
Escrever é realizar u m desejo que é forte. Como eu já disse, 
é u ma fatalidade, u ma vocação. O ato de escrever é u m ato 
que me realiza, in dependen te se o trabalho ten ha ou não
PARA QUEM PESQUISAMOS PARA QUEM ESCREVEMOS 81
ten h a sucesso: não me interessa mais isso. Escrevendo, eu 
me realizo.
(Brito, 1999, p. 109)
Pa ra o pesq uis a dor-a u tor, e s c r eve r e m ger a l n ão é a 
re a liza ç ã o d e u m d e s ejo for te, ao co n tr á rio, fr e q u e n t e m e n -
te é a r ep re s s ã o do d e s ejo de fa ze r ou t r a cois a ... e o s u ces so 
do t r a b alh o é fu n d a m e n t a l.
E m sín te se, ao e s c rito r n ão in tere s s a o p ara qu e m es-
c reve, p o rq u e e s c reve p a r a e x prim ir suas inquietaçõe s, seus 
proble m a s íntimos , f a z er u m a p sica n ális e dos pobres , sem divã 
(C a rlos D r u m m o n d de An d r a d e), e s creve co m o terapia (Dia s 
Go m e s), p or exigência orgâ nica (M o n t eiro Lob a to), e s c r eve 
p a ra lu tar con tra a infelicid a de (Va rga s Llos a), p a r a n ão se 
m a tar (A u t r a n Do u r a d o), e n fim , e s c r eve p a r a s a tisfação 
pes soal, só s ec u n d a ria m e n te e s c r eve p a ra o u t re m ; p a r a o 
pesq u is a dor-a u tor, o p ara qu e m e s c r eve é fu n d a m e n t a l, 
n eces sit a e d e p e n d e do leitor , p o rq u e e s c r eve p a ra co m u -
n ic a r o co n h ecim e n to q u e p rod u ziu , e p recis a t e r a re a çã o 
de leito r e s a e s se co n h e cim e n to p ro d u zido, e s c r eve p or 
exigê n cia a c a d ê m ic a e p rofis s io n a l (n ã o p o r exigê n cia o r -
gâ nica , co m o Mo n teiro Lob a to), e s c r eve p o r ob riga ç ã o e 
co m p ro m is so, e es sa s exigê n cia s , ob riga ção, co m p ro m is s o 
só se efe t iv a m se h o u ve r leito r e s p a r a o q u e e s creve.
Para quem escreve o pesquisador‐autor?
o p a r a lelo e n t re eles, os e scritore s , e nós, os pe s q u is a -
dores-a u tores , lev a ao r e co n h e ci m e n to d e q u e es tes , ao
82 MOREIRA • SOARES • FOLLARI • GARCIA
co n t r á r io d a q u ele s , n e ce s s a r ia m e n te e i n e vi t a ve l m e n t e 
e s c r eve m o s p a r a a lg u é m ; c hega- se fin a lm e n te à te n t a tiva 
de res pos t a à perg u n t a do te m a-tít u lo; p ara que m escrevemos?
As r eflexõe s a n te rio re s o r ie n t a m a res pos t a: se o pes -
q u is a dor-a u tor e s c r eve fu n d a m e n t a lm e n te p o r im p e r a t ivo 
ou r eq u is ito a c a d ê m ico e p rofis s io n al, se e s c r eve p a ra res -
po n d e r às expecta tiva s co m rela ção a seu d e s e m p e n h o co m o 
e s t u dio so e co m o pesq uis a dor , ou, m e n o s p r a g m a tic a m e n -
te, se e s c r eve p a r a d a r a p ú blico o co n h ecim e n to q u e p ro-
d uziu , se u Leitor-Mod elo (p a r a u sa r o t e r m o de U m b e r to 
Eco)® s ão os se u s p a res , os q u e p e r t e n ce m a se u m u n d o 
a c a d ê m ico e p rofis s io n al, os q u e t a m b é m es t ão p ro d u zin d o 
co n h ecim e n to e m s u a á rea.
Por is so, o p esq u is a dor-a u to r se e sfo rç a p o r p u blic a r 
e m p e rió d ico s e e m editor a s e s p ecia liza do s e m sua área, e 
volt a do s p a r a os pe s q u is a dore s e e s t u diosos de sua área — 
q u a n to m ais e s p ecia liza do, q u a n to m ais p re s tigia d o o p e -
riódico, m ais p e r to j u lg a o p e sq u is a dor-a u tor e s t a r do Le i-
to r -Mo d elo q u e vis a a tingir , e q u e se id e n tific a co m o leito r 
id e a l p e r s eg u id o p o r se u s p a res . Mais p e r to ain d a ju lga r á 
es t ar des se leito r id e al se co n seg u e a tin gir leito re s p a ra a lé m 
das fro n teir a s de se u país, j u n t a n do-se ao gr u p o d a q u ele s 
q u e p u blic a m e m p e rió d ico s e s t r a ngeiros , in te r n a cio n ais ; 
e q u a n to m ais cit a do p elo s p a res , n a q u ele s m e s m o s p e r ió -
dicos e m q u e p u blic a e n o s liv ro s d e s tin a d os aos Leito -
r e s -Mo d elo d e s u a á rea, m ais es t a r á a tin gin d o os obje tivo s 
q u e fu n d a m e n t a lm e n te o lev a m a e screver .
5. Seg u n d o U m b e r to Eco, to d o a u tor p r evê u m Leitor-Mo d elo "c a p az de
coo p e r a r p a r a a a t u a liz a ç ã o tex t u a l c o m o ele , o a u tor, p e n s ava , e d e m ovi m e n -
t a r-se in t e r p re t a tiva m e n te co n fo r m e ele se m ovim e n to u ge r a tiva m e n te" (Eco, 
1979 / 1986, p. 39)
PARA QUEM PESQUISAMOS PARA QUEM ESCREVEMOS 83
No e n ta n to, é só p a ra os p a res q u e d eve e s c r eve r o 
pe sq u is a dor-a u tor? Só d eve e p recis a e s c r eve r p a r a te r di-
v u lga d o e n t r e se u s p ares , r eco n h ecid o, avalia do, a p recia do 
p o r seu s p a res o co n h ecim e n to q u e p rod uz, p o r m eio de 
s u as pesq u is a s , es t u dos, r eflexõe s ? É m e s m o a pe n a s aos 
p a res q u e se de s tin a o co n h ecim e n to p rod u zido p elo pes -
q uisa dor, é só aos p a res q u e ele in tere s s a ?
As res pos t a s a essas p erg u n t a s c re s ce m e m im p or t â n -
cia se se co n s id e r a e s p e cific a m e n t e a á read as ciê n cia s 
sociais e h u m a n a s, m ais e s p ecific a m e n te ain da, n o in t e r io r 
dela , a á re a d a E d u caç ão — á rea q u e in ve s tig a fe n ô m e n o s , 
fa tos, p ro ble m a s q u e oco r r e m e m p rá tic a s sociais e t ê m 
co n s eq u ê n cia s s ig n ific a tiva s p a r a e sob re s e re s h u m a n os . 
O pesq uis a dor, o e s t u dio so d a á re a d a E d u caç ão t e m co m o 
te m a q u es tões socia lm e n te im por t a n te s , p roble m a s q u e n ão 
são a pen a s p a ra s e re m pesq uisa dos, est u dados, m a s t a m b é m 
p ara s e re m resolvidos , p e r m itin d o in t e rve n ç ã o n a realid a de, 
m o dific a ç ã o e t r a n sfor m a ç ão d a realid a de.
E m á rea s co m o es ta, a pesq u is a , s eg u n d o Bo u r die u 
(1980 / 1983), d e svela n d o "leis sociais", no s e n tid o q u e es se 
a u tor d á a es s a expressão,® ofe r ec e n d o u m co n h ecim e n to 
m elh o r c^essas leis , e s te n d e o d o m ín io d a lib e r d a d e:
Uma lei ignorada é u ma natureza, u m destino (é o caso da 
relação entre o capital cultural herdado e o sucesso escolar); 
u ma lei con hecida aparece como u ma possibilidade de liber-
dade. (p. 36)
6. Seg u n do Bou rdie u , u m a “le i socia l" n ã o é "u m des tino, u m a fa t alid a d e 
in scrit a n a n a t u reza social"; "é u m a le i his tórica , q u e se p e r p e t u a d u ra n te o t e m -
po e m q u e se a deix a agir, is to é, d u ra n te o t e m p o e m q u e a q u ele s aos q u ais ela 
s e rve (e, às veze s , à r evelia d ele s ) se e n co n t r e m e m co n diçõe s de p e r p e t u a r as 
co n diçõe s de s ua eficácia". (Bou rdie u , 1980 / 1983, p. 37)
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E m ais:
Assim que a lei é en unciada, ela pode se torn ar u m pbjeto 
de luta: luta para conservar, conserva ndo as con dições de 
fu ncion a mento da lei; luta para transformar, modifica ndo 
estas condições. A revelação das leis tendenciais é a condição 
do s ucesso das ações que vis a m a desmenti-las. (p. 37)
Na á rea das ciê n cia s sociais e p a r tic u la r m e n te n a á rea
da E d u cação, o pesq uis a dor , s eg u n d o ain d a Bo u r die u ,
“apenas registra, sob a for m a de leis tendenciais, a lógica 
caracterís tica de u m certo jogo n u m cer to momen to, lógica 
que joga a favor daqueles que, domin a n do o jogo, estão em 
con dições de defin ir de fato ou de direito as suas regras” 
(p. 37).
Pa ra q u e a lógic a do jogo pos s a ser r eve r tid a , as "leis 
sociais" d eve m , p recis a m ser r evela d a s n ão só aos q u e p e s -
q u is a m e e s t u d a m p a r a en u n ciá-la s , m a s t a m b é m , q u e m 
s a be sobretu do, aos q u e e s t ão s u b m etid os às leis , co m p a c-
t u a m co m ela s , p o r d e sco n h ecê-la s , e q u e, p o r s e re m os 
“joga d ore s" — p o r e s t a re m d ire t a m e n te e n volvid o s n o “jogo" 
— t ê m a p os sibilid a de de, co n h ece n d o as leis q u e o rege m , 
op ta r p o r co n se rvá -la s ou p o r co n t r a por- se a ela s e aos e fe i-
tos dela s , des n a t u r alizá -la s , fa ze r das le is id e n tific a d a s e 
e n u n cia d a s p elo pe s q u is a dor obje to s d e p re s e rva ç ã o ou de 
t r a n sfor m a ç ão. Na á rea d a Ed u cação, os d ire t a m e n te e n vol-
vid o s n o “jogo", os “jog a d o r e s" s ão os alu n os e p rofe s sore s 
n a s sala s d e a ula, s ão os age n te s q u e a t u a m e m m ovi m e n -
tos sociais , s ão os ge s to re s d a ed u c a ç ão e das p olitic a s p ú -
blic a s n a á rea social.
PARA QUEM PESQUISAMOS PARA QUEM ESCREVEMOS 85
Por exe m plo: a descober t a , p elo pesq uis a dor, de q u e 
s ão fu n d a m e n t a lm e n te d ife r e n t e s as m o tiva çõe s d e in d ivi- 
d u os d e ca m a d a s socia is d ife r e n t e s p a r a a p r e n d e r a le r e a 
e screver , e d as "leis sociais" q u e r ege m es sa s d ife re n ç a s , 
d eve c h ega r n ão só aos p a res , e m a r tigos p u blic a dos e m 
p e rió d ico s e s p ecia liza do s ou livro s a c a dê micos , m a s t a m -
b é m (t e n d o a d ize r sobretu do) aos q u e a lfa b e tiza m cria nça s , 
jove n s ou a d ultos , aos q u e d efin e m polític a s p ú blic a s de 
e scola rização, de alfa betizaç ão, d e leit u r a , p a r a q ue, d e sve n -
d a dos o fa to e as leis q u e o r ege m , pos s a m n ele i n t e r fe r ir e 
co n t r a ela s lu tar.
No e n ta n to, m u ito p o u co s s ão os p e sq u is a dores q u e se
p ro p õe m a ser a u tores p a ra es te ou t ro leito r n ão pesq uisador, 
q u e a t u a for a d a aca de mia . Por q u e is so a co n tece?
Escrever para um leitor que não é um "par"
U m a a n ális e dis c u r siva c a r a c te riza a aç ão d e e s c r eve r 
co m o u m eve n to e n u n cia tivo, u m a to d e in te rloc u ç ã o, de 
in ter - a ção a u tor — texto — leitor, a to q u e é fr u to de s uas 
condições de prod ução e do contexto e m q u e ocor re. O a u tor 
e s c r eve g u ia d o p o r cer to s objetivos , a t rib u in do u m a ce r t a 
fu nção a se u texto, o rie n t a do p elo e p a r a o leitor q u e t e m 
e m m ir a — se u Leito r -Mo d elo; es sa s condiçõe s de prod ução 
— os o b je tivo s e a fu n ç ão a t rib u ídos ao texto, o le i to r p re -
te n did o — co n dicio n a m e d e t e r m in a m a p rod u ç ão do texto. 
Por o u t ro la do, o a u tor e s c r eve e m d e te r m in a d a s circ u n s -
t â ncia s te m por a is e es p aciais , e m d e te r m in a d o contexto — 
e s c reve n u m ce r to m o m e n to h is tó rico, e m cer t a in s tit u ição.
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q u e t e m p rin cípio s , regra s, va lo r e s q u e co n d icio n a m e d e-
te r m in a m a p rod u ç ão do texto.
Q u a n do se e s c reve te n do co m o Leito r -Mo d elo os pares, 
os ob je tivo s e a fu n ç ã o a t rib u íd os ao texto fa ze m co m q u e 
ele se o rga n ize — e m es t r u t u ra , e m es tilo, e m léxico , e m 
es t r u t u r a s sin t á ticas , e m gra u e n a t u reza de in fo r m a tivid a - 
d e - p a r a e s se leitor, p a r a es sa fu n ção, p a ra es ses obje tivos .
Q u a n do se e s c r eve p a r a os q u e es t ão e n volvid o s n o 
"jogo" de q u e o pe s q u is a dor d e svela a lógic a e as leis , o 
Leito r -Mo d elo é ou t ro, os o b je tivo s s ão ou t ros , a fu n ç ã o do 
texto é ou tr a , e p or is so ele d eve orga niza r-se de o u t r a for m a 
— e m es t r u t u ra , e m es tilo, e m léxico, e m es t r u t u r a s sin t á -
ticas, e m gra u e n a t u reza de in fo r m a tivid a d e .
Por q u e o pe sq u is a dor-a u tor r a r a m e n te p ro d u z es te 
ou t ro texto, p a ra es te o u t ro leitor , co m es tes ou t ros obje tivos 
e es t a o u t r a fu n ç ão? Por q ue, n a á rea d a E d u cação, h á t ão 
po u cos pesq u is a dores -a u tore s q u e e s c r eve m p a ra os alu nos 
e p rofe s sore s n a s sala s de a ula, os age n te s q u e a t u a m e m 
m ovim e n to s sociais , os ge s to re s d a ed u c a ç ão e das polític a s 
p ú blic a s n a á rea social?
E p o r q u e é t ão fr eq u e n te q u e, ao e s c r eve r p a r a es se 
o u t ro leitor , o pe sq u is a dor-a u tor fr aca sse, n ão co n s eg u in d o 
a tin gir e s se p ú blico n ão a c a d ê m ico, n ão co n s eg u in d o fa- 
zer-se e n te n d e r ?
E m p r i m eiro lugar, b u s q u e m o s a r azão p o r q u e o p e s -
q u is a dor-a u tor r a r a m e n te e s c r eve p a r a o le i to r n ão a c a d ê-
m ico. É q u e os textos q u e b u s c a m lev a r o co n h ecim e n to 
p ro d u zid o n a a c a d em ia a u m p ú blico n ão a c a d ê m ico n o 
caso d a E d u cação, os a r tigos p u blic a dos e m p e rió d ico s des -
tin a dos a p ro h s s io n ais d a ed u c a ç ão e do e n sin o, a age n te s
PARA QUEM PESQUISAMOS PARA QUEM ESCREVEMOS 87
d e m ovim e n to s sociais , a ge s to re s d a ed u c a ç ão e d as p olí-
tica s p ú blica s , e t a m b é m os m a n u ais e livro s did á ticos para 
a orie n t a ç ã o do t r a b alho p e d a gógico n as salas de a ula — n ão 
s ão va lo riza d o s n o co n texto de p rod u ç ão text u al e m q u e 
vive m os p e sq u is a dores : as in s tit u içõe s u n iver sit á ria s , os 
p rogr a m a s de Pós -Gr a d u ação, os ce n t ros de pesq uis a . São 
co n textos q u e p a r ece m h ie r a rq u iza r os textos e m "a c a d ê m i-
cos, cie n tífico s", de u m la do, e "d e d iv u lga ção, de did a tiza - 
ç ã o”, de o u t ro la do, a e s tes ú ltim o s s e n do a t rib u ídos m e n o r 
va lo r e po u ca legit im id a d e aca dê mic a .
No e n ta n to, s ão textos t ão im po r t a n te s q u a n to os p r i-
m eiros , p o rq u e são textos q u e s ocia liza m o co n h ecim e n to 
p ro d u zid o p a r a a q u ele s a q u e m t a lvez sob ret u do in te re s s e 
e s se co n h ecim e n to , porq u e s ão a q u ele s q u e t ê m a pos sib i-
lid a de, co m o foi a n t e rio r m e n te dito, de a lt e r a r as co n diçõe s 
de f u n cio n a m e n to das "leis sociais" e t r a n sfor m a r a "lógic a 
do jogo" — o q u e o pe s q u is a dor q u e d e sve n d o u as leis e a 
lógic a do jog o e m ge r a l n ão p o d e de fo r m a dire t a fazer, 
porq u e a t u a n a in s t â n cia q u e inve s tiga , n ão n a in s t â n cia 
q u e oper a .
B u sq u e m os a res pos t a à s egu n d a perg u n ta : p or q u e o 
pesq uis a dor-a u tor, q u a n do eve n t u a lm e n te e s c r eve p a r a o 
le ito r n ão a c a d ê m ico, co m fr eq u ê n cia fraca ss a, n ão co n s e-
g u in do a tin gir es se p re te n did o Leito r -Mo d elo?
A r azão t a lvez seja a d ific u ld a d e q u e e n fr e n t a o p e s q u i-
s a dor-a u tor de p ro d u zir textos e m co n diçõe s de p rod u ç ão 
d ife r e n te s d a q u ela s q u e s ão in e r e n te s ao co n tex to e m q u e 
atu a. É d ifícil m u d a r o discu r so: o p esq u is a dor-a u tor d o m i-
n a a lin g u a ge m p a ra os p ares , s a be p ro d u zir t exto c ie n t ífi-
co-a c a d ê m ico co m o o b je tivo de co m u n ic a r o co n h e ci m e n -
to q u e p rod u z a q u e m vivê n cia o m e s m o co n tex to e te m .
88 MOREIRA • SOARES • FOLLARI • GARCIA
p o r is so, p le n a s co n diçõe s d e leit u r a e co m p ree n s ã o de seu 
texto. Por is so, m u ito fr e q u e n t e m e n t e o pesq uis a dor , o aca-
d ê m ico, o p rofe s s or u n ive r s it á rio fr a ca s s a m q u a n do te n t a m 
e s c r eve r p a r a e s te ou t ro le i to r q u e, n ão p e r t e n ce n d o à aca-
de mia , n ão s e n do pesq uis a dor, vive n cia n d o o u t ro co n texto, 
t e m ou tr a s co n diçõe s de p rod u ç ão d a leit u r a de textos , co n -
d içõe s q u e, e m ger al, o p esq u is a dor-a u to r d e s co n h ece.
E xe m plo cla ro des s a dific u ld a d e e des se fr aca s so são
as m uit a s te n t a tiva s fr u s t r a d a s de p rod u ção, p ela s in s tit u i-
çõe s d e e n s in o s u perior, de pesq u is a , de pós -gra d u ação, de 
p e rió d ico s d irecio n a d o s aos p rofe s s ore s de e n s in o fu n d a -
m e n t a l e m é dio , s ão os p rec á rio s res u lt a dos e efeito s q u e 
e m ger a l t ê m tid o os d oc u m e n to s q u e pe s q u is a dore s e p ro-
fe s sore s u n ive r s it á rio s p ro d u ze m , p o r e n co m e n d a das a d-
m in is t r a çõe s dos sis te m a s de e n sin o, vis a n d o à a t u alização 
e a p e rfeiço a m e n to do s is te m a ou dos p rofis s io n a is d a ed u -
cação: d ire tiva s c u r ric u la res , p rogr a m a s d e e n sin o, p ro p o s -
tas de n ova orga n iza ç ã o do e n s in o etc.
U m ex p re s s ivo exe m plo do r eco n h e cim e n to de s s a di-
fic u ld a d e d e co m u n ic a ç ã o e s c rit a e n t r e p e s q u is a d ore s e 
“le igo s ” pod e se r id e n tific a d o n a s o rie n t a çõe s d a d a s a a u to-
res p o te n cia is d e u m a r evis t a q u e p r e t e n d e j u s t a m e n te 
e s t a b elece r in te r a ç ão e n t r e pesq u is a dores e leito re s "leigos": 
a r evis t a Ciê ncia Hoje, "r evis t a de divulgação cie n tifica da 
Socie d a d e B r a sileir a p a r a o P rogre s so d a C iê n cia ” (g r ifo 
m e u ), co n fo r m e c a r a c te riza ç ã o s e m p re r e p e tid a n a ca p a de 
cad a u m a de s uas edições . Tb m e m o s a p ágin a de "In s t r u ções 
p a r a a u tore s” do n ú m e ro 162, de j u lh o de 2000. Nela , a r e -
vis t a a s sim se d efin e:
A Ciê n cia H oje é u m a revis ta de d iv u lga ç ã o cie n tífic a , 
que preten de apre s entar resultados de pe squisa s feita s no Bra-
PARA QUEM PESQUISAMOS PARA QUEM ESCREVEMOS 89
sü e no exterior — sem restrições n a área do con hecim ento — 
p ara u m p ú blico a m plo, h e t e r ogê n eo e leigo. Os leitores são, 
e m geral, estudantes de segundo gra u e u niversitários que se 
intere s s a m p or ciência, m a s não domin a m neces saria mente 
conceitos básicos de todas as áreas. Os textos da revista exigem, 
porta nto, cla reza e o m á xim o de s im plicid a d e, (g r ifo s m e u s)
Ain d a a s sim, n a seção "Car t a s" da revis t a , a p a r ece m
co m ce r t a fr e q u ê n cia r e c la m a çõe s dos le ito r e s ; eis u m 
exe m plo colh id o n o n ú m e ro 160, de m aio d e 2000:
Apesar de as matérias apresentadas serem interessantes, 
claras e objetivas, algumas vezes, deparei com termos e / ou 
expressões com u ns em ja rgões técnicos, que dificulta m a 
leit u r a e até mes mo o en ten dimen to de algu ns trechos, 
forçando-me a buscar fontes diversas para me fa milia riza r 
com eles. Como sou estudante u niversitário, é fácil para mim 
obter essas inform ações extras. Porém, leitores menos afor-
tunados que se in teressa m por matérias cien tíficas podem 
não en ten der certas passagens e até considerar a leit u r a 
difícil e tediosa. Por isso, gostaria de pedir que, qu a ndo for 
im prescin dível o uso de tais termos, eles fossem explicados 
através de u m glossário ou de u ma caixa de texto apropriada. 
(Ricardo R. Freitas, por e-m ail)
O le i to r r evela a a u sê ncia , nos leito r e s d a revis t a , de 
co n h ecim e n to s p révio s s u pos tos p elo s a u tores das m a téria s , 
pe sq u is a dores -a u tore s q u e e s c r eve m p a r a u m Leito r -M o d e-
lo q u e n ão cor re s p o n d e ao leito r d a revis t a .
As In s truçõe s p ara autores, a p rese n t a d a s p ela revis t a , 
s ão r evela d or a s porq u e r eco n h e c e m as d ific u ld a d e s de p e s -
q u is a dore s se fa ze r e m a u tores p a r a o p ú blico “a m plo, h e t e -
rogê n eo e le igo" a q u e a r evis t a se des tin a , e, ao e n u m e r a r
90 MOREIRA • SOARES • FOLLAR! • GARCIA
alg u m a s des sa s dific u ld a des , ex p licit a m d ife re n ç a s e n t re os 
protocolos de leitura^ p ró p rio s de u m texto a c a d ê m ico e de 
u m texto de divu lga çã o. Por exe m plo, u m a das "n o r m a s” 
a p rese n t a d a s n a s In s truçõe s p ara autores é a s eg u in te:
Me n çõ e s — Qua n do hou ver m e nção a cientistas ou person ali-
dades, deve s er forn ecid o pre no m e e nom e da pes soarcitad a, 
sua especialidade, nacionalid a d e e a no de n a scim ento e m orte 
p ara os já falecidos. Exe m plo: O fís ico ale m ão Alb ert Ein s tein 
(1879-1955).No texto a c a d ê m ico, t a n ta s in fo r m a çõe s sob re cie n tis -
tas ou p e r s o n a lid a d e s cita d a s s ão d e s n ece s s á ria s e, se fo r -
n ecid a s , s e r ia m c e r t a m e n t e co n s id e r a d a s exce s siva s : o 
Leito r -Mo d elo d e u m texto a c a d ê m ico co n h ece, p o r s u pos-
to, cientistas ou personalida des m e r ece d o re s de m e n ç ão, sabe 
co n text u a lizá -lo s n o t e m p o (q u a n d o vive r a m ) e n o e s p a ço 
(n a cio n a lid a d e).
O u t r a “n p r m a ” p r e s e n te n a s In s truçõe s p ara autores 
d e te r m in a :
Referênci a bibl iogr á fic a - Deve s er forn ecid a u m a pequ en a 
lista (até qu atro títulos) de livros sohre v te m a abordado. Dê 
preferê ncia a livros p u blica dos e m português.
Ao co n t r á rio, é u m "p ro tocolo de leit u r a" n o texto aca -
d ê m ico a in dic a ç ã o t a n to q u a n to p o s s ivel exa u s tiva d a b i-
b liog r a fia sob re o te m a , q u e d eve in clu ir b ib liog r afia es tr a n-
7. Seg u n do C h a r tie r (1985 / 1996), p ro tocolo s de leit u r a sao in s t r u çõe s explí-
cita s ou im plícit a s q u e o a u tor in s c reve e m seu texto, dis positivos text u ais q u e 
im p õe m ao le ito r u m a cer t a m a n eir a de ler, u m a ce r t a rela çã o co m o texto, leva n - 
do-o a p ro d u zir u m a leit u r a q u e e s teja de acor do co m as in t e n çõe s do autor.
! PARA QUEM PESQUISAMOS PARA QUEM ESCREVEMOS 91
geir a: u m a "p eq u e n a li s t a” d e r efe r ê n cia s b ib liogr áfic a s ser á 
a tes t a do de p o u co d o m ín io d a bibliogr afia . . . e cit a r a pe n a s 
ou sob ret u do "livro s p u blic a dos e m p or t u g u ê s” leva n t a r á a 
s u s peit a de q u e o a u tor n ão co n h ece a p rod u ç ão p a ra a lé m 
das fro n teir a s d e se u p aís ou de s u a líng u a.
O m e s m o se pod e d ize r d e o u t r a c a r a c te rís tic a de tex-
tos a c a d ê m ico s , in a deq u a d a e m textos de socia liza ç ã o do 
co n h ecim e n to p a ra u m p ú blico n ão a c a d ê m ico: as nota s de 
rod a p é e os agr a d ecim e n tos , q u e r e s p o n d e m , aq u ela s , ã 
n ece s sid a d e d e a c re s ce n t a r in fo r m a çõe s , explic a çõe s , j u s -
tific a tiva s , es tes , ã ob riga çã o de r eco n h e c e r p u blic a m e n te 
o q u e o texto d eve a ou t ros p e sq u is a dores — u m c u id a do 
de p re s e rva ç ão de a u toria s. Sobre isso, a r evis t a Ciê ncia Hoje 
a p re s e n t a a s eg u in te "n or m a":
No t a s d e p é d e p á g i n a e a gr a d ec i m en to s — Por razões de 
estilo, a revista não os usa. Eventu ais citações e referências 
— m uito s ucinta s — devem ser incorpora d a s ao artigo.
Co m a exp res s ão "p or r azõe s de e s t ilo”, a n o r m a e vi-
d e n cia q u e h á u m "e s tilo” p ró p rio dos textos de divu lga çã o, 
q u e r ep u dia o “e s t ilo” a c a d ê m ico q u e e m ge r a l n ão d is p e n -
sa nota s de p é de p ágin a e agr a decim e n tos . Q u a n to ãs cit a -
çõe s e r efe rê n cia s , são, n o texto a c a d ê m ico, u m p ro tocolo 
de leit u r a in dis p e n s ável, e e m ge r a l n ão s ão s ucin t a s, ao 
co n tr á rio, é va lo r iza d o o texto co m m uit a s e lo n ga s nota s 
de p é de p ágin a , porq u e a te s t a m a a m plit u d e do co n h eci-
m e n to do a utor.
Mais r evela d or a s ain d a q u e as "n o r m a s” são as "d ic a s” 
(c h a m a d a s a s sim m e s m o), a p rese n t a d a s nas In s truçõe s p ara 
autore s d a r evis t a Ciê ncia Hoje, r evela d o r a s porq u e, p o r
92 M O R E IR A • S O A R E S • F O L L A R I • G A R C IA
co n t r a posiç ão, a r evis t a in dic a alg u m a s ca r ac te rís tic a s dos 
textos de pe s q u is a dore s d irigid o s aos p a res , q u e os to r n a m 
in a d eq u a dos a u m "p ú blico a m plo, h e t e r ogê n eo e leigo". 
Seg u e m -s e as "dica s" a p rese n t a d a s n a s In s truçõe s p ara a u-
tores do n ú m e ro 162, de j u lh o d e 2000, de Ciê ncia Hoje, s e-
gu id a s d e co m e n t á rio s q u e b u s c a m res s alt a r as d ife r e n ç a s 
de e s tilo e de p ro tocolo s de leit u r a e n t re o texto a c a d ê m ico 
e o texto d e s tin a do a u m p ú blico "a m plo, h e t e r ogê n eo e 
leigo".
A "d ic a": Le m bre-s e d e s e u p ú b lie o •(■■■) Explique noções
que pod e m p arecer básicas, m a s que n ão são
n ece s s aria m e nte con h ecid a s p elo p ú b lico e m 
geral.
Co m e n t á rio: Na "dic a" es t á im p lícito q u e p esq u is a dores , ao.
p rod u zir seu s textos, co n sid e r a m co m o co n h e-
cim e n to s p r évio s d e se u Leito r -Mo d elo "n o-
çõe s b á sica s", a b s te n do-se, p o r is so, de expli- 
câ-las; a “d ic a” a le r t a p a r a as ca r ac te rís tic a s 
d es te ou t ro leitor , o "p ú blico e m ger a l", q u e 
n ão d e t é m es ses co n h ecim e n to s p révios .
A “dica": Use a n a logia s • Com parações co m situações
concreta s aju d a m a a proxim ar conceitos teóricos 
ou abstratos da realidade do leitor.
Co m e n t á rio: A "dic a" r evela q u e o texto a c a d ê m ico t r a b alh a 
co m "co n ceito s t eó r ico s ou a bs tr a tos", e a le r t a 
p a ra a d ific u ld a d e de o le i t o r co m u m e n te n -
dê-los , s u ge rin d o o r ec u r so á a n a logia co m 
sit u ações con cre t a s , o q u e s e ria d e s n ece s s á rio 
e m e s m o exce s s ivo n u m texto a c a d ê m ico.
A "dica": N ã o u s e p a la vra s d ifíc e i s n e m ja rg õ e s • E vi-
te termos técnicos que só afa s ta m o leitor. Procu-
re p ala vra s similare s m ais simples. Sem pre é
pos sível explicar conceitos difíceis. Qua n do for 
in evitá vel use a pala vra, m a s explique e m segui-
da do que se trata.
Co m e n t á rio: A "dic a" r eve la q u e o tex to a c a d ê m ico u sa 
t e r m o s téc n ico s q u e fa ze m p a r te do u n ive r so 
voc a b u la r de seu Leito r -Mo d elo, m a s q u e se 
t r a n sfor m a m e m p ala vra s difíceis e jargõe s , e m 
texto d irigid o ao le i t o r n ão a c a d ê m ico; r evela 
ain d a q u e o t exto a c a d ê m ico n ão ex p lic a co n -
ceito s e p alavr a s difíceis (d ifíc e i s p a r a o le i to r 
leigo , n a t u r a lm e n te).
P A RA Q U EM P ES Q U IS A M O S P A RA Q U EM E S C R E V E M O S g t
A "dica": C a p ric h e n a a b ert u ra • A s linha s iniciais são
fu n d a m entais p ara pre n d er a atenção do leitor. 
Conte p arte de suas conclu sões no início. Pode m 
s er usados depoim e ntos de im pacto, tem a s de 
interesse, im agen s forte s ou toques de humor.
Co m e n t á rio: N a "dica", e s t á s u b e n te n did o q u e o tex to aca-
d ê m ico n ão se e s t r u t u r a e m fu n ç ã o do o b je -
t ivo de "p r e n d e r a a te n ç ã o do leito r", s e n do 
d e s n ece s s á rio s , n ele , r ec u r sos q u e m o t ive m 
a leit u r a (im age n s forte s ou toques de h u m or 
s e ria m in a d m is s íveis n u m tex to a c a d ê m ico): 
se o le i t o r co m u m p recis a s e r a t r a ído p a r a e 
p elo texto, o le i t o r a c a d ê m ico, p o r s u pos to, é 
n a t u r a lm e n te m o tiv a d o p ela n ece s s id a d e de 
es t a r a t u a liza do e m s u a á rea. Por o u t ro la do, 
n o texto a c a d ê m ico, as co n clu sõe s e m ge r a l
94 M O R E IR A • S O A R E S • F O LL A R I • G A R C IA
SÓ a p a r ece m n o fi m do texto, p o r q u e o p e s -
q uis a dor, q u e r a u tor q u e r leitor , exige u m a 
es t r u t u ra d e texto q u e p a r t a do p roble n ja , siga
p ela m e to d ologia p a r a fi n a l m e n t e c h eg a r às 
co n clu sões , e n q u a n to o le i t o r n ão a c a d ê m ico 
q u e r sob re t u do e i m e d ia t a m e n te s a ber a q u e 
se c h ego u , im p o r t a n d o m e n o s cor n o lá se 
c h ego u .
A “dica"; S eja co n ci s o • O e spaço da revista e o te m po do 
leitor são preciosos. Procure d ar a in form ação 
es sencial — s em se a pegar a detalhes.
Co m e n t á rio: A "dic a" p re s s u põe q u e o texto a c a d ê m ico é 
m in u cioso, de t a lh a do, o q u e é exigê n cia do 
le i to r a c a d ê m ico, p a r a q u e m o t e m p o d a le i-
t u r a é q u e é p recioso, porq u e faz p a r te de seu 
oficio; p a r a o le i t o r n ão a c a d ê m ico, o t e m p o 
da leit u r a é ro u b a do a u m o u tro t e m p o de seu 
« u t r o oficio , e le n ão t e m "te m p o" p a r a o "n ão 
e s s e n cia l" e p a r a det alh es , n e m t e m in te re s se 
p o r ele s .
A s In s truçõe s p ara autores d a r evis t a Ciê ncia Hoje fu n -
cio n a m , pod e-s e con clu ir , co m o u m e s p elh o: r evela m co m o 
e s c r eve m o s nós, os pesq u is a dores , a s sim r evela n d o p ara 
que m e s c r eve m o s — p a ra os p a res; ao p ro p or "n o r m a s” e 
"dica s" p a r a p rod u ç ão de textos de s tin a dos a u m p ú blico 
"a m plo, h e t e r ogê n eo e leigo", r evela m ain d a co m o d eve r ía -
m os e s c r eve r p a r a es se o u t ro leitor.
E m ou tr a s p alavr a s : o pesq u is a dor-a u tor p ro d u z textos 
co m es t r u t u ra , e s tilo, léxico, e s t r u t u r a s sin t á tica s , gr a u e
I P A RA Q U EM P E S Q U IS A M O S P A R A Q U E M E S C R E V E M O S 95
n a t u reza d e in fo r m a tivid a d e p a r a in t e r agir co m se u s p a res 
— es te s s ão se u s Leito re s -Mo d elo. Para e s c r eve r p a ra os q u e 
es t ão e n volvid o s n o "jogo" — n o ca so da Ed u cação, alu n os 
e p rofe s sore s n a s s ala s de a ula, age n te s q u e a t u a m e m m o-
vim e n to s sociais , ge s to re s d a ed u c a ç ão e das p olític a s p ú -
blic a s n a á rea socia l — é p reciso e s c r eve r de o u t r a m a n eir a , 
co m es tr u t u ra , e s tilo, léxico, es t r u t u r a s sin t á ticas , gr a u e 
n a t u reza de in fo r m a tivid a d e a deq u a dos à in te r a ç ã o co m 
es te s ou t ros leitore s . O q u e n ão é fácil.
Es te "o u t ro" texto d eve, a s sim, ve n c e r dois ob s t ác ulos: 
o p r im eiro é q u e n ão t e m p re s tígio n a á rea a c a d ê m ic a ; o 
s eg u n do é q u e é d ifícil, p a r a o pesq uis a dor , a cos t u m a do a 
in t e r a gir co m os p ares , p ro d u zir u m texto a d eq u a do a e s te 
o u t ro leitor.
No e n ta n to, es ses ob s t ác ulos d eve m , p recis a m s e r e n -
fre n t a dos e ve n cid o s p elo s pesq u is a dores , e m n o m e de u m 
co m p ro m is s o social, do im p e r a t ivo é tico de to r n a r co n h e-
cid a s as "leis socia is” e a "lógic a do jogo" d e svela d a s p ela 
pesq u is a aos q u e es t ão e n volvid o s no "jogo" d e s co n h ece n - 
do-as, e, p o r isso, a ela s s u b m etidos .
Volt a n do m ais u m a vez a Bou rdie u , e r e p e tin do: “u m a 
le i ig n or a d a é u m a n a t u reza , u m des tin o; u m a le i co n h e ci-
da a p a rece co m o u m a pos sibilid a de de liberd a de". E u m a 
pos sib ilid a de de lu ta, de t r a n sfor m a ç ão.
Tb m o p e s q u is a dor o d ireito d e s o n ega r o co n h e cim e n -
to q u e p rod u z à q u ele s q u e t ê m direito a essa p os sibilid a de 
de lib er d a de, porq u e s ão os q u e m ais d ir e t a m e n te es t ão 
s u b m etid os a leis q u e d e s co n h ece m ?
Tfem o p e sq u is a dor o d ir eito d e a pe n a s e n u n cia r aos 
p a res o co n h ecim e n to q u e p rod uz, fu gin do ao co m p ro m is -
96 M O R E IR A • S O A R E S • F O LL A R I • G A R C IA
so socia l e ob riga ç ã o é tic a de r evelá -lo aos d ir e t a m e n t e
e n volvid o s n a r e a lid a d e q u e in ve s tigo u ? D e c ria r p a r a e s tes 
a pos sibilid a de de liber d a de, de q u e fala Bo u r die u , ^ pos si-
b ilid a d e de, de svela d a s as leis sociais, op ta r p or con servá-la s 
ou t r a n sfor m á-la s ?
Referências bibliográficas
BRITO, José Domingos de (Org.). Por que escrevo? São Paulo: Es-
crituras Editora, 1999.
BOURDIEU, Pierre. Questões de Sociologia. Trad, de Jeni Vaitsman. 
Rio de J aneiro: Marco Zero, 1983. (Questions de Sociologie, 1980.)
CHARTIER, Roger. Do livro à leit ura. In: (Org.). Práticas
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ECO, Umberto. O Leitor-Modelo. I n :______ . Lector in fabula. Trad.
de Attílio Cancian. São Paulo: Perspectiva, 1986. {Lector in fabula, 
1979.)

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