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As relações de gênero dentro de um hospital

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Universidade Federal Fluminense
Instituto do Noroeste Fluminense de Educação Superior
Departamento de Educação Matemática
Pedagogia 2012/2
Bárbara Alves Ferreira
Santo Antônio de Pádua
Março/2013
As relações de gênero dentro de um hospital
A doença e/ou a hospitalização podem provocar drásticas mudanças no cotidiano da família e da criança. A doença pode trazer também para a criança traumas e medos relacionados à morte, piora no quadro clinico, restrição à alimentos e atividades cotidianas,etc. Às vezes, pela limitação física que é resultado da doença e por constantes internações. 
É necessário que a criança se adapte a essa nova rotina onde, há muita coisa diferente e incomodo, e que na maioria das vezes, não se tem o que se quer.
Essa interrupção brusca causa sofrimento e desconforto. Ela precisa confiar em pessoas desconhecidas e precisa deixar de praticar muitas atividades devido à doença. Às vezes é necessário até mesmo deixar um pouco de lado as brincadeiras, mesmo isso causando sofrimento, por vezes, maior que a própria doença.
“Eu sei que posso fazer quase tudo [...] Depois que fiquei
doente não posso brincar bastante, correr muito, pular... (K).” 
(Revista da Escola de Enfermagem USP 2011)
 Que difícil é para uma criança ter que interromper sua vida de brincadeiras para ir para um lugar que, ‘normalmente’, não se pode brincar. O hospital é um lugar que exige silencio por respeito aos outros pacientes e que dificuldade para uma criança ter que ficar sempre na cama, fazendo o que os médicos mandam e na hora que mandam. Elas perdem a liberdade e passam a ser monitoradas 24 horas por dia, tanto pelos médicos quanto pelos pais que, claro, querem que melhorem.
Diante de situações como essa, algumas crianças não demonstram sentimentos, mas os sentem ainda assim. Elas guardam apenas para elas e sofrem sozinhas. 
“Quando privadas da interação com seu grupo
social, crianças portadoras, ainda que momentaneamente,
de necessidades especiais (como é o caso das
crianças hospitalizadas) são impedidas de ter acesso
à construção de conhecimentos e de constituir sua
própria subjetividade. A criança hospitalizada, quando
privada de interações sociais de boa qualidade, cujo
teor lhe proporcione outras formas de compreender a
vida, está sendo atomizada em sua oportunidade de
aprender e, conseqüentemente, de se desenvolver.” 
(Fontes, Rejane. Revista Brasileira de Educação, 2005. nº 29)
Por vezes, essa privação ‘do agir no mundo’, do ‘viver a infância’ (aqui como um determinado período de tempo), pode até mesmo acarretar pioras nos quadros clínicos das crianças. Entender que é necessário brincar, mesmo estando dentro de um hospital, é difícil para muitas pessoas que não consideram a brincadeira uma fonte de desenvolvimento, auto-estima e saúde. As brincadeiras são formas das crianças se organizarem e de se apropriarem do mundo a sua volta e estabelecerem relações com adultos e outras crianças. Tudo isso, pode fazer com que a criança se sinta impotente diante da doença, das dores e sintomas, o que dificulta ainda mais a recuperação.
Na sociedade em que vivemos, não é visto com ‘bons olhos’ homens que choram, e isso também é passado para os meninos desde pequenos: “ homem não chora! Homem é forte!” e diante de situações como essas? Ainda se priva um menino de chorar diante da dor? Ainda assim ele não pode demonstrar fraqueza porque é um menino e meninos não choram?
“Sou forte, porque não choro. Precisa ser forte quando perde
a veia [...] doeu pra pegar outra, mas não chorei (Y).
(...)É difícil porque dói [...] a gente não pode nem chorar, porque fica todo mundo olhando... (J)” (Revista da Escola de Enfermagem USP 2011)
Que tipo de sociedade cruel é essa que não ‘permite’ que um menino/homem chore? Acima de ser homem ou mulher, somos humanos e temos sentimentos, sentimos dor, raiva, amor, somos sensíveis e indiferentes. 
Nossa cultura, exige que as meninas sejam mais calmas e tenham brincadeiras também mais calmas e centradas em algum oficio propriamente feminino, como cuidar da casa, da educação, dos filhos, etc. Enquanto os meninos podem extravasar mais frequentemente, podendo correr, fazer toda a ‘bagunça’ das quais as meninas são privadas. 
Será que, por nossa sociedade já exigir esses comportamentos de nós desde pequenos, algumas das crianças são “favorecidas” quando são privadas de certas brincadeiras devido ao quadro clinico no qual se encontram?
Se as meninas já têm o ‘costume’ de brincar com mais tranqüilidade, pode até afetar, mas afetará bem pouco a privação de certas atitudes e brincadeiras. Mas e quanto aos meninos? Quase sempre estão a brincar de correr, de bola, subindo em árvores, etc. (algo que a sociedade normalmente impõe a eles: ex.: ‘vai jogar futebol menino!’). Como reagem diante de situações que não podem mais jogar ou correr? Como explicar que tudo que fazia com tranqüilidade ontem, hoje não pode mais fazer porque pode deixá-lo mais doente ainda?
E ainda quando são crianças menores, que ainda não participam efetivamente dos gêneros impostos sobre as brincadeiras, mas que estão começando a descobrir o mundo, a andar, pegar, descobrir através do paladar e do tato, como isso se dá tanto para a criança quanto para os pais, que iniciaram juntos esse processo de descobrimento?
A vida de todos é afetada de alguma forma. Das meninas, porque também a privação nos incentiva a querer o que não pode. Nosso cérebro não aceita o não, e a partir desse momento teremos os desejos mais intensos sobre o que não se pode fazer. Dos meninos quando têm de deixar de praticar tudo o que praticavam. Das crianças pequenas também, que terão de se familiarizar com um outro ambiente e com pessoas diferentes para assim, iniciar um novo processo de descobrimento.
E quanto aos cabelos, que devido aos tratamentos, podem cair ou mesmo terem que cortá-los. Que difícil para uma menina ter de se desfazer de seus cabelos ou então vê-los, gradualmente, caindo. Talvez nesse sentido os meninos ‘sofram’ menos, pelo fato de que, muitas vezes, o cabelo ser sinônimo de beleza para a menina, o que também é uma imposição da sociedade em que vivemos.
E a partir do momento de internação da criança, a maioria dos acompanhantes são as mães, porque ainda consideramos que a responsabilidade da criação e cuidado com os filhos é da mãe e o pai é responsável por sustentar a casa. Então o pai continua no serviço e a mãe vai cuidar da criança no hospital. Ainda temos a idéia de ‘espaço com criança’, como uma continuação da casa familiar e consequentemente, a mãe cuida desse espaço e da criança que está nele.
A todo momento, as regras culturalmente construídas, nos cercam, e em certos momentos, nos impedem de acreditar que não dependemos disso ou daquilo para chegar num outro fim. Em muitos momentos essas regras nos paralisam e não nos deixa avançar, pois ainda acreditamos que elas são as únicas verdades existentes. 
Nem mesmo diante de um quadro clinico crítico, a sociedade deixa de nos impor regras a seguir e a, de certa forma, baixar a auto-estima de muitos, pois não seguem os padrões ditos ‘normais’. Os efeitos de uma doença é tido, tantas vezes, como algo anormal e na verdade é o mais normal que existe, pois todo o organismo têm deficiências.
Cabelos não são sinônimo de beleza. Não é obrigação apenas das mulheres cuidar dos filhos. Não são apenas os homens que devem sustentar a casa e a família. Não há brincadeiras para meninos e brincadeiras para meninas. Somos todos seres humanos, capazes de cuidar, sustentar e brincar do que achamos ser o certo para nós. Somos capazes de discernir o que é melhor para cada um, e não é essencial seguir um padrão que é imposto por uma minoria.
Somos também seres sexuados, e carregamos essa sexualidade do nascimento até a morte. Pensar na sexualidade, exige pensá-la em muitos contextos, os quais carregamos também