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O Conceito de mídia na comunicação e na Cicência Política

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da vida humana" (LIMA, 2001, p. 113).
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mínimo arriscado tentar entender o jornalismo sem compreender o lugar 
da mídia no mundo. É exatamente a constatação de seu crescente poder 
nas sociedades ocidentais que levou mais e mais pesquisadores a se 
debruçarem em estudos sobre o jornalismo nos últimos anos 
(TRAQUINA, 2001)13, com pesquisas sobre agendamento, 
enquadramento, rotinas de produção, gatekeepers, critérios de 
noticiabilidade, entre outras.
Do ponto de vista da Comunicação, em especial das pesquisas 
sobre Comunicação e Política e Mídia e Política, independentemente da 
forma como se realiza uma possível intervenção da mídia no 
comportamento das pessoas, o mais importante é compreender quais 
conseqüências podem advir da influência da mídia na organização do 
mundo da política para sua audiência. 
Portanto, apesar de ser caracterizado como um conceito-ônibus, 
o termo mídia é essencial para a produção acadêmica da Comunicação. 
Porém, como vimos, as pesquisas da Comunicação historicamente se 
utilizam do termo mídia quase como senso comum, sem a preocupação 
de delimitar as diferentes possibilidades de seu alcance.
De outro lado, a pesquisa acadêmica em Ciência Política 
praticada no país, com algumas exceções, tem primado por ainda 
incipiente reconhecimento da importância e da influência da mídia. É o 
que veremos a seguir.
A Mídia sob o olhar da Ciência Política
Em um simples mapeamento dos programas de Pós-Graduação 
em Ciência Política no Brasil, verificamos que, no período levantado, dos 
nove em funcionamento, apenas três contemplavam de forma 
sistemática a mídia como objeto em algumas de suas linhas de 
pesquisa. As exceções são o programa de Pós-Graduação da UnB14, o 
Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP)15 da PUC-SP, e o 
13 Preocupados, sobretudo, com a questão da distorção na informação.
14 Ao qual, como já salientamos, o GT de Mídia e Política fazia parte até ser transformado 
em Núcleo.
15 Vinculado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais (que inclui a 
Ciência Política).
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Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (IUPERJ), este com 
um grande e bem organizado banco de dados sobre os estudos de mídia 
e política no Brasil, independente de sua origem ou campo de 
conhecimento16.
De maneira geral, as pesquisas oriundas da Ciência Política 
tangenciam a questão da mídia ao investigar temas como opinião 
política, opinião pública, comportamento eleitoral/escolhas políticas e 
cultura política. Sem corrermos o risco de simplificarmos a questão, 
pode-se dizer que a mídia não é o alvo principal da curiosidade científica 
na tradição da Ciência Política, pois o cabedal teórico sedimentado ao 
longo dos anos na constituição de seus modelos investigativos foi 
desenvolvido, em grande parte, em período pré-mídia (MIGUEL, 2002).
Estudar a política, para os cientistas políticos, ainda é estudar as 
categorias tradicionais como Estado, governo, partidos políticos. É fato 
que a partir da década de 90 ganharam força as chamadas novas 
institucionalidades, que trouxeram à luz questões relacionadas aos 
movimentos sociais, o terceiro setor e gênero. Mesmo assim, a 
problemática envolvendo a mídia, com toda a premência que exige- vide 
os exemplos emblemáticos de sua influência nas eleições presidenciais 
de 1989, 1994, 1998, 2002- ainda é ignorada em grande parte dos 
textos acadêmicos. Quando a mídia é mencionada, em geral, é reduzida 
à função de transmissora, disseminadora, instrumento, fonte, canal de 
informações sobre a política.
Um exemplo recente é o estudo sobre capital social e socialização 
política dos jovens brasileiros feito por Schmidt (2001). Ao analisar os 
níveis de confiança social dos jovens brasileiros nas instituições 
políticas, em nenhum momento é citada a mídia como variável no 
cálculo da participação sócio-política e na formação de uma cultura 
política híbrida, ainda que o baixo nível de confiança nos poderes 
Legislativo, Executivo e Judiciário tenha sido atribuído à ineficácia de 
16 Algumas iniciativas têm sido feitas na Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS. Um 
exemplo é a dissertação de mestrado Cenários de Representação: Mídia e Política nas 
eleições municipais em Porto Alegre (2000), de Morgana Camargo Fontoura (2002). 
Saliente-se também o papel da revista Lua Nova, ligada ao Centro de Estudos de Cultura 
Contemporânea (Cedec), que tem publicado textos sobre mídia e política. 
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tais poderes em responder às denúncias de corrupção e ao tratamento 
negativo dado pela mídia.
Porto (1997) situa a ausência da mídia nos estudos sobre 
comportamento eleitoral, por exemplo, como decorrente do paradigma 
da escolha racional nas Ciências Sociais, e particularmente, na Ciência 
Política. Ele reconhece que as formas pelas quais a mídia se relaciona 
com a sociedade são difíceis de serem avaliadas e, por isso, a literatura 
acadêmica- a despeito da percepção generalizada das enormes 
conseqüências que a mídia pode causar nos fenômenos políticos- não 
consegue sustentar teses compatíveis com este impacto. Porto atribui 
esta dificuldade à tradição da teoria da escolha racional, que não 
reconhece o devido valor das emoções no comportamento político nem 
as complexidades dos processos cognitivos.
Porto também cita vários autores que tentaram delimitar o papel 
dos meios de comunicação em períodos determinados como as eleições 
e que, inclusive por problemas metodológicos, chegaram à conclusão de 
que os meios eram apenas transmissores de informações objetivas 
sobre a política.
A este respeito Miguel (2002) lembra que
em 1920, Walter Lippmann lamentava o fato de que a 
ciência política é ensinada nas faculdades como se os 
jornais não existissem. Oitenta anos depois, [continua 
ele] é possível dizer que a ciência política já reconhece 
a existência do jornal, bem como do rádio, da televisão 
e até da internet (p.156).
Falar da influência da mídia, para alguns cientistas políticos, é em 
certo sentido falar de seu efeito nocivo para o processo político e para 
instituições políticas tradicionais, como o enfraquecimento dos partidos. 
O cientista político italiano Sartori teve o mérito de chamar a atenção 
para o papel que os meios de comunicação, particularmente a televisão, 
desempenhavam no processo político democrático. Ele chegou a afirmar 
que as notícias, por exemplo, não se limitam a transmitir informações: 
a maior parte das notícias e reportagens do vídeo não 
mentem, ou não têm a intenção de mentir; no entanto, 
a televisão em si, enquanto técnica, faz muitas coisas 
que, combinadas, implicam que aquilo que é mostrado 
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é muitas vezes uma meia verdade ou algo inteiramente 
falso (SARTORI apud PORTO, 1997, p.51).
Sartori (1989), aliás, identificou, com certa suspeição, a 
transformação pela qual a política estava passando com a crescente 
importância da televisão. Ele chamou de videopolítica o fenômeno no 
qual a televisão estava englobando a política e transformando-se em um 
vídeo-poder.
Em um estudo pioneiro e que sinaliza para uma mudança deste 
quadro, Aldé