A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
385 pág.
644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

Pré-visualização | Página 18 de 50

– e especialmente de distinguir a ordenação da sociedade 
humana – permanecia submetida às leis do discurso. Adalberão conhece 
admiravelmente essas leis, aplica-as como especialista consumado. O seu forte é a 
gramática, a escolha das palavras; a retórica é, contudo, a sua arma principal, a caução 
da sua excelência, como da influência que ele entende dever exercer ainda sobre o 
espírito do soberano, junto de quem Deus o colocou. Para penetrar o significado do 
Carmen, é preciso pois desmontá-lo, descobrir as arcadas sobre que assentam as 
palavras. Claude Carozzi fê-lo brilhantemente. Se conseguiu levar a explicação muito 
mais além dos seus ante-cessares, foi porque soube encontrar, nas botas marginais do 
manuscrito de estudo, preparatório da obra monumental que nunca foi terminada, a 
indicação do plano director, e reconhecer a “autoridade” que lhe serviu de guia: o 
comentário do De inventione, de Cicero, feito por Marius Victorinus, no qual se baseava 
então o ensino da retórica nas escolas episcopais. 
O poema divide-se em quatro partes, das quais três são discursos. O primeiro 
dirige-se à imago juventutis e descreve a desordem actual; o segundo dirige-se à sageza 
régia e mostra o que é a ordem exemplar; finalmente o terceiro expõe o projecto de uma 
restauração. Entre este e o anterior intercala-se, vindo em apoio da descrição da ordem, 
um desenvolvimento sobre as duas naturezas. Esta parte intercalar parece a menos hábil: 
ao aventurar-se nos meandros da argumentação dialéctica, o pensamento perde-se um 
pouco; no entanto, é aqui que se acha enunciado o sistema de um bom governo que 
estabelece o conselho dos bispos como uma protecção em volta do monarca. 
Assim se constrói a argumentação. O enunciado do postulado da tri-
funcionalidade social pertence, e não por acaso, ao segundo discurso que designa, no 
céu, fora do tempo, o modelo da ordem. 
 
 
 
Este discurso central é, na verdade, um duo. O bispo proferiu apenas o anterior; o 
rei pronunciará sozinho a declaração final, que é um programa [Pg. 062] de acção 
reformadora. Aqui, no ponto de encontro da juventude com a velhice, do profano com o 
sagrado – as duas naturezas –, estabelece-se o diálogo entre o preceptor, o “mestre”, e o 
seu real aluno. 
 
11 R. Southern, The Making of the Middle Ages, p. 170. 
Encadeando pois, sobre a exposição preliminar, contristada, da degradação, 
Adalberão convida o rei a olhar para o céu, a fim de descobrir a forma de recompor o 
que, na terra, se degrada. Que considere a “Jerusalém do alto” 12 – são estas as mesmas 
palavras de Gerardo quando se dirige aos heréticos de Arras, as palavras que o libelo 
emprega. O rei verá que, nesse lugar de perfeição, tudo se rege segundo uma “distinção 
de ordens”, “e que a distribuição do poder submete estes àqueles” 13. Eco directo da 
arenga de Gerardo, que retomava, por sua vez, os conceitos de Gregório, o Grande. Este 
apelo, como no discurso de Gerardo, conduz à afirmação de que a desigualdade é 
providencial, de que o poder do rei é de distinctio, de discretio, e que cabe ao soberano 
o encargo de manter as diferenças na sociedade terrestre. Num outro tom, já o afirmei, o 
bispo de Laon repete o que o bispo de Cambrai acaba de proferir. É evidente: gramático, 
jogando com as palavras como um virtuoso, Adalberão propõe a formulação poética de 
uma demonstração de verdade – a verdade do “confessor”, seu confrade. 
O rei obedece. Levanta os olhos, contempla a “visão de paz” 14, conta depois o 
que entreviu: viu a autoridade exclusiva que o “Rei dos Reis” (ainda Gerardo) exerce; 
percebe que se dá uma fusão das duas cidades; Roberto nota a perfeita coesão desta 
monarquia, essa unidade essencial em que se fundem os diversos componentes da sua 
população 15: ela é, o rei percebe-o muito claramente, “constituída por cidadãos 
angélicos e por grupos de homens, em que uma parte já governa enquanto a outra 
aspira” 16. Adalberão vai buscar o que exprime nestes dois versos ou directamente ao 
libelo de Arras ou então ao texto onde o próprio Gerardo se inspirou para construir o 
seu manifesto anti-herético. Em qualquer dos casos, no âmago das duas demonstrações, 
uma vinda de Cambrai-Arras, a outra de Laon, a ideia é bem idêntica: a ideia de uma 
coordenação (como sucede na pessoa régia, entre a juventude e a velhice, esta 
dominando aquela), de um jogo de equivalências e de uma força ascensional que leva o 
universo imperfeito a erguer-se para o perfeito, a fim de se lhe incorporar. Mas o 
espírito do soberano, ele próprio imperfeito, demasiado imbuído de carnal, nada mais 
distingue. Roberto quereria dissipar o que lhe tolda ainda a visão, informar-se quais os 
“autores” cujo ensino o ajudaria a levantar um pouco mais o véu. Adalberão cita então 
algumas fontes, e são as mesmas que Gerardo citava no seu tratado. Primeiro. [Pg. 063] 
 
12 Carmen, v. 193. 
13 Carmen, v. 196-197. 
14 Carmen, v. 203. 
15 Carmen, v. 204. 
16 Carmen, vv. 209-210. 
Santo Agostinho com A Cidade de Deus 17. Esta referência não basta ao monarca, que 
pergunta: esses “principados do céu” (o termo vem também no libellus) têm igual 
poder? E em que ordem estão dispostos 18? Resposta: “Lê Dinis – os seus dois livros – e 
Gregório”. Adalberão afasta-se aqui ligeiramente de Gerardo, e faz então referência às 
Moralia in Job, assim como ao Comentário sobre Ezequiel 19. Graças a estas quatro 
obras, o conhecimento – “místico” – do céu é possível, necessário, revelando o 
verdadeiro princípio da ordem social, permitindo ver “a ordem distinta do céu, a 
exemplo da qual se estabeleceu a da terra”. Afirmação crucial que se estabelece 
efectivamente no verso 228, mesmo no centro de toda a obra. 
Retomando, transpostas pelos jogos da métrica, as próprias palavras de Gregório, 
o Grande, acerca das ordens, das linhagens, das dignidades, usando todavia no singular 
a palavra ordo, Adalberão empreende então a descrição da hierarquia eclesiástica. É 
bem ao bispo que agora descreve, fundando-se nos livros que citou, arrumados no 
armário da sua catedral, perto da oficina onde sem cessar aperfeiçoa a sua obra, cujos 
vocábulos ele, o velho, que não representa senão sageza, conserva na memória. E de 
novo se ouve ecoar no discurso de Gerardo de Cambrai. Moisés, por ordem de Deus, 
ordenou alguns ministros na sinagoga; também na Igreja “que se diz o reino dos céus”, 
sob o principado de Cristo, os bispos têm por missão distribuir as ordens 20; são eles 
quem fixa, quem institui, os censores: como os magistrados da república romana, 
marcam a disposição da ordo. Contudo, a ecclesia, onde eles desempenham este cargo 
de ordenadores, é ao mesmo tempo celeste e terrestre, pertence ao céu onde “reina” e à 
terra de onde “aspira” a subir mais alto. E porque o seu território se estende, de um lado 
e outro da fronteira, em duas províncias, tem que respeitar duas leis. A comunidade dos 
cristãos – que a morte não dissocia, que por um lado se desdobra para além do véu das 
aparências – a “casa de Deus”, a res fidei (que se opõe à res publica, cujos censores não 
são os bispos) é o lugar onde se exerce complementarmente uma lei de unidade, a lei 
divina, e outra de repartição, a lei humana. 
A lei divina “não divide o que partilha” 21. Rege determinados homens, aqueles 
que, já antes de morrer, são tragados pelo outro mundo: os padres. Se há diferenças 
entre eles, de “natureza” ou de “ordem”, de nascimento ou de linhagem, eles estão 
contudo reunidos na unidade substancial da sua “condição”. Qual a essência desta 
 
17 Carmen, v. 214. 
18 Carmen, v. 217. 
19 Carmen, vv. 218-223. 
20 Carmen, vv. 229-236. 
21