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644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

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à outra, como o são as duas naturezas, o corpo submetido à alma, a 
juventude it velhice, a do bellator, a do orator? Notemos que este último termo só surge 
quando se refere ao rei. 
3.º De resto, de uma ponta a outra do discurso, todas as “divisões”, todas as 
 
28 Importa traduzir este texto mais minuciosamente, sacrificando a elegância. Os erros de interpretação de 
D. Dubuisson vêm, em grande parte, porque ele utiliza uma tradução imperfeita do Carmen. 
“partes” determinam oposições binárias: há duas ordens no universo, a do céu e a da 
terra; há duas partes na ecclesia, uma no céu, outra na terra; duas categorias de 
dissemelhanças, as que derivam da natureza e as que provêm da ordo; duas leis; à 
ordem do clero opõe-se o povo; a lei humana divide-se em duas condições: os nobres 
protegem dois campos e no segundo há os maiores e os mais pequenos. A ternaridade 
provém sempre de uma construção de binaridades. [Pg. 067] como no mistério da 
divina trindade 29. Não quer dizer que a cristandade seja, mesmo de maneira furtiva, 
identificada com o corpo de Cristo. Mas é concebida como tendo a mesma estrutura do 
divino, una e tripla. E a desordem provém da desunião das partes ou da anulação das 
diferenças. 
 
 
 
Adalberão discorre demoradamente acerca da desordem. Descreve-a na primeira 
das quatro partes da sua obra. Volta a ela na última, que dir-se-ia um plano de 
reparação. Será que, para ele, esta desordem emana, como em Arras em 1025, da 
contestação herética? No Carmen, encontramos só uma alusão à “falta” 30. Todavia, o 
cuidado posto em justificar a existência de um corpo especializado na administração do 
sagrado prova que a preocupação de um desvio anticlerical não está ausente do espírito 
do bispo de Laon. Dirigirá ele o combate doutrinal, como fez Gerardo em 1024, contra 
os propagandistas dos juramentos de paz? Os versos 37-47, ao explicarem o que é o 
mundo às avessas, mostram com escárnio um camponês (feio, sem força, hirsuto, o 
inverso do nobre, o inverso do soberano que todo ele é beleza, vigor e valentia) 
coroado; mostram os “guardiões do direito” 31 encarregados da aplicação da lei, quer 
dizer os príncipes, ligados à oração; mostram por fim os bispos nus, conduzindo a 
charrua, entoando a canção de Adão e Eva, entendamos por isto a canção lamentosa da 
igualdade primitiva dos filhos de Deus. E é bem aqui que reside o escândalo: cabe aos 
prelados presidirem como Gerardo ao sínodo de Arras, recamados de esplêndidos 
ornamentos que mostram, ao olhar, a posição de domínio, de brilho, onde os instala a 
 
29 Neste ponto, devemos referir-nos a um outro poema que Adalberão rimou segundo o mesmo modelo, a 
Somme de la Foi, editado por Hückel, “Les poèmes satiriques d'Adalbéron de Laon”, Biblioteca da 
Faculdade de Letras de Paris, XIII, Paris, 1901; alguns destes versos são eco dos do Carmen: 
Tres in personis quorum substancia simplex 
Est natura trium simplex, recti quoque bina 
Nam Christi natura duas se dividit in res. 
30 Carmen, v. 56. 
31 Carmen, v. 59: a expressão vem ainda do Libellus de Arras. (Nota dos digitalizadores: a edição original 
n especifica o local desta nota. Optamos por inseri-la aleatoriamente). 
vontade divina, sem usarem as mãos em tarefas servis; cabe-lhes situar cada homem no 
lugar que lhe compete segundo os méritos próprios, na “distinção das ordens”, na 
desigualdade. Esta descrição satírica da sociedade pervertida indica, de maneira clara, 
quem garante normalmente as três funções: as gentes de oração, as de guerra, as de 
trabalho: para Adalberão, como para Gerardo, os oratores são os bispos, os bellatores 
os príncipes, e os que penam, os camponeses. A subversão, a desordem [Pg. 068] que a 
exaltação dos servos, a clericalização da nobreza e a humilhação do episcopado 
significam, é considerada por Adalberão como o que resultaria de uma adesão às 
afirmações de Garin de Beauvais, quando este apela para a instauração da paz com 
juramentos de iguais prestados nas assembleias campestres. Todavia, no espírito do 
autor do Carmen, o ataque dirige-se principalmente contra um outro adversário, um só: 
Odilon, abade de Cluny. 
O intuito de Adalberão de Laon é restabelecer os bispos na sua função, a função 
de conselheiros dos reis. Ora, diz ele, este ofício não é já hoje desempenhado por padres 
que, “juntos, servem a Cristo”, por eruditos que adquiriram, pelo preço de um longo 
estudo, a inteligência dos mistérios. Quem se ocupa hoje do rei? Um laico que recusa o 
matrimónio (quando o estado matrimonial é a norma para todos aqueles que não 
pertencem à ordo dos padres) e que não possui a sapiência porque não é sagrado, 
porque recusa a ciência 32. Os laicos desta espécie são, evidentemente, os monges. São 
eles os responsáveis pelas perturbações que afligem a sociedade. A sua influência é 
perniciosa para Roberto, o Piedoso; concorre para romper na pessoa deste o necessário 
equilíbrio entre a reflexão e a acção. Liberta as turbulências de que a sua natureza de 
juventude é portadora.33 Monges, um monge. Um “mestre” (por esta palavra se 
designava o heresiarca em vão perseguido por Gerardo, em Arras). Odilon. Este 
“príncipe”, este “mestre” da ordem belicosa dos monges 34, bellator, quando o seu 
ofício deveria ser o da oração, dominando um sumptuoso palácio 35, quando deveria 
viver como um pobre, que corre para Roma a orar ao papa, quando deveria orar a Deus: 
O “rei Odilon”, o usurpador. Se vemos, na Francia, o mundo alterado, confundidas as 
funções e as categorias, a culpa é da ordem de Cluny, que Odilon dirige. 
Que pretendem, de facto, os Cluniacenses? Antes do mais, monaquizar a condição 
dos nobres, impor-lhes as proibições e as obrigações dos religioso, viver castamente, 
 
32 Carmen, vv. 69-76. 
33 Carmen, v. 155. (Nota dos digitalizadores: a edição original n especifica o local desta nota. Optamos 
por inseri-la aleatoriamente). 
34 Carmen, v. 156. 
35 Carmen, v. 167. 
cantar os Salmos 36 – quando, em toda a nobreza, um único homem, o rei, detém o 
privilégio de participar pessoalmente nas liturgias. Os Cluniacenses quereriam também 
militarizar a oração. Adalberão põe a ridículo um tal propósito, servindo-se de uma cena 
burlesca. Teria ele mandado, diz, um dos monges de Laon a colher informações ao sul 
do Reino. Este regressa, conquistado, transformado, proclamando: [Pg. 069] “Sou 
cavaleiro, permanecendo monge” 37. Miles, não já bellator, nem pugnator: prestemos 
bem atenção à escolha das palavras: Adalberão, o gramático, o perfeito conhecedor dos 
vocábulos, fala dos cavaleiros, esses bandos de salteadores e rapaces constituídos por 
quem se serve das armas e que vivem em torno dos príncipes deste mundo. “Jovens” 
atraídos pela violência, gesticulando como se gesticula no inferno. O trânsfuga tornou-
se, corrompido por Cluny, um desses mata-mouros, um Roldão furioso, grotesco, 
petulante, violento, e cujo modo de trajar indecoroso, só por si, testemunha a 
transgressão ao estabelecido. Porque na época, as categorias sociais distinguiam-se 
claramente pelo vestuário, o formato dos sapatos, o corte do cabelo – porque convém 
que se reconheça, de relance, pelo hábito, o monge, o penitente, o príncipe, o rústico, a 
mulher honesta e a que o não é. 38 E, nesse mesmo momento, ouvem-se os defensores 
da ordem que denunciam as novas modas, essas maneiras meridionais de se ataviarem 
que os peraltas do norte da França adoptam: a barba rapada, os cabelos curtos, os fatos 
fendidos mostrando a coxa, os sapatos de bico revirado e que nem dão vontade de rir, 
antes causam horror. Levando a confundir o homem de guerra com um padre ou com