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644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

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palavra sobre 
que se estabelecem as outras frases dos bispos, surgem como que o contraponto da palavra 
de um bispo, “defensor da cidade”, que na Roma dos finais do século VI, quando tudo 
parecia desmoronar-se, só pensava em preservar a todo o custo uma derradeira parte do 
edifício, precisamente aquela que sustentava ainda um pouco a Igreja – quer dizer uma 
ordem, uma disciplina, uma hierarquia. Ocupando-se, antes do mais, dos rectores, 
dirigentes da organização eclesiástica, estabelecidos nos grandes domínios ou nas cidades. 
Tratando do seu estatuto, simplesmente, sem floreados, pois o papa Gregório praticava a 
austeridade. 
O primeiro texto que Gerardo de Cambrai insere na sua exposição provém de um 
regulamento administrativo. Trata-se de uma ordem enviada a outros bispos para reforçar a 
cadeia de subordinações, juntar-lhe um elo mais, um elo que melhor garantisse a 
repercussão das ordens. A propósito das funções, diz-se pois nele que o seu cumprimento 
(administratio officiorum) exige uma “ordem de diferença”, a ordem que reina no exército, 
que igualmente reinava no mosteiro beneditino que Gregório estabelecera em sua casa, essa 
comunidade, que, fundada na hierarquia [Pg. 085] e na obediência, reproduzia a 
organização militar. A outra citação é tirada da Regula Pastoralis, pequeno tratado da “arte 
de ser bispo”1. Mas, na verdade, ela vem de mais longe; di-lo o próprio Gregório, o Grande, 
ao referir-se a uma obra anterior, outro opúsculo também muito simples, os Moralia in 
 
1 J. Paul, Histoire intellectuelle de l'Occident médiéval, Paris, 1973, p. 101. 
Job2. Adalberão remonta à fonte autêntica, e é para os Moralia, e simultaneamente para o 
comentário de Ezequiel, que remete o rei Roberto. 
Ora, na meditação de Gregório, o Grande, sobre o livro de Job, não se trata já de 
administração mas de moral, de uma moral adaptada aos rigores de uma fraternidade 
monástica submetida ao abade, seu pai comum. Trata-se portanto de uma ordem igualmente 
hierarquizada, repousando na sobreposição de graus, contudo diversa, intemporal: a “ordem 
dos méritos”. Essencial. Subjacente, mantém e justifica o princípio de autoridade. Uma 
parte da sociedade merece dirigir a outra. Porque “os que estão em baixo” são moralmente 
de menor valor, estão subordinados “aos que ficam à cabeça” (prelati), “que falam” 
(predicatores), “que regem (rectores), os “poderosos” (potentes). Podem muito bem ser 
“pobres”, desapossados, injuriados: Gregório vê todos os dias, na Itália invadida pela 
barbárie, gente empurrada, brutalizada, mas que contudo tem qualidade para dirigir. Por 
uma única razão: estão menos maculados pelo pecado que os demais. Toda a hierarquia 
provém da desigual repartição, entre os seres, do bem e do mal, da carne e do espírito, do 
terrestre e do celeste. Porque os homens são por natureza mais ou menos inclinados para a 
falta, convém que os menos culposos garantam, atentos, afectuosos, obedecidos, a direcção 
do rebanho. Esta ideia é brutalmente expressa por um outro bispo, Isidoro de Sevilha, 
alguns anos depois de Gregório. Nem Gerardo nem Adalberão o citam. Contudo, vale a 
pena evocar o seu propósito, porque ele ilumina, cruamente, aquilo que Gregório, o Grande, 
tem no espírito, aquilo que em 1025 os defensores da ordem real retomam: “Ainda que o 
pecado original seja perdoado a rodos os fiéis pela graça do baptismo, Deus justo 
estabelece uma descriminação na existência dos homens, constituindo uns os escravos, os 
outros os senhores, para que a liberdade de agir mal seja restringida pelo poder de quem 
dominó. Porque, se ninguém tivesse medo, como se poderia evitar o mal?”3 “que aqui se 
afirma como necessário, não é somente a desigualdade – é a repressão. Deixa de haver 
permuta de respeito e de amor. Há “escravos” e que têm medo. Há “senhores” e que 
dominam. Pertence-se a uma ou a outra destas classes pela escolha arbitrária de Deus. 
Gregório fala menos brutalmente, menos francamente. Nos Moralia 4, ao interrogar-se 
sobre a desigual [Pg. 086] invasão do mal, Gregório aproxima-se contudo de Isidoro, 
 
2 “Comme je me rappelle l'avoir dit dans les livres moraux”, PL 76, 203. 
3 Sentences, III, 47, PL 83, 717. 
4 Ver a variante, PL 76, 203. (Nota dos digitalizadores: a edição original n especifica o local desta nota. 
Optamos por inseri-la aleatoriamente) 
quando diz que não é a falta que leva à submissão, mas uma dispensatio occulta, uma 
“distribuição misteriosa”. A faculdade de dominar reparte-se, na terra, por efeito da 
predestinação. O que leva directamente ao segundo dos autores referenciados – Santo 
Agostinho. 
Este, outro bispo, falava já, muito mais cedo – quando Roma estava no seu apogeu –, 
de autoridade e de submissão, como coisas necessárias: “Na Igreja estabelece-se uma ordo, 
uns vão à frente, os outros seguem, estes imitando os primeiros. Mas os que dão o exemplo 
aos que vêm após, não seguem ninguém? Se não seguem ninguém, perdem-se. Seguem pois 
alguém e este alguém é o próprio Cristo” 5. A imagem tem força. Foi modelo de todas as 
procissões medievais, de todos os ritos ambulatórios, dos cortejos, dos desfiles que 
figuravam a organização disciplinada de um progresso. Todos guiados, não o esqueçamos, 
por um chefe de fila invisível – Jesus – que abre sempre a marcha. Na deambulação 
sonhada por Santo Agostinho, os primeiros depois de Cristo são, evidentemente, os padres, 
dispostos segundo a sua dignidade. À frente do cortejo vêm os bispos. Cristo está 
imediatamente à frente deles, esforçando-se estes por conformar os gestos pelos Seus. Tal 
proximidade faz dos bispos os melhores, os mais virtuosos, por consequência os mais 
poderosos. Porque o sistema de obrigações – obrigação de imitar, obrigação de guiar que 
regula o desfile, reflecte a hierarquia dos méritos. E porque se trata de valor, de proporção 
entre o bem e o mal, uma tal ordem é, com certeza, infringível. Seria sacrilégio mudar os 
lugares. Que cada um fique, pois, no seu lugar. 
“Cada um na sua ordem: primeiro Cristo, depois os que são de Cristo, os que 
acreditaram no Seu advento”: a inspiração de Santo Agostinho vem talvez directamente do 
apóstolo S. Paulo 6, cujo primeiro comentário nos é dado por Tertuliano, num tratado 
Acerca da ressurreição da carne 7: “a ordo de que fala Paulo é a ordem dos méritos”. Na 
verdade quando, guiados pelo eco das fórmulas que de época em época se transmitiram, 
chegamos aos primeiros textos do cristianismo, onde se enraiza a nossa visão, vemos que 
esta abarca a peregrinação da sociedade humana, desde os primórdios até ao termo da 
história: cada homem, por sua vez, saiu do nada, cada homem por sua vez se levantará do 
túmulo para comparecer perante o Juiz. Descobrimos assim, fundada nos ensinamentos 
 
5 Enarratio in Psalmis, 39, 6, PL 36, 466. (Nota dos digitalizadores: a edição original n especifica o local 
desta nota. Optamos por inseri-la aleatoriamente) 
6 I Cor., 15, 22-23. 
7 PL 2, 864. 
máximos em que a cristandade latina não deixou de meditar, no Novo Testamento, em 
Gregório, em Agostinho, o conceito de uma reunião na obediência, imagem de uma falange 
que disciplina a estrita submissão dos subalternos aos superiores, a ideia de fileiras que 
devem ser cerradas, de [Pg. 087] ordens que devem ser executadas, sob a ameaça de 
necessárias sanções. A cristandade fê-la sua, tanto mais facilmente quanto os primeiros 
monges beneditinos do século VI, convencidos de que tudo ia de mal a pior e que o 
universo acabaria por apodrecer, tinham, para melhor resistirem à corrosão, adoptado as 
estruturas de enquadramento das legiões romanas. Naturalmente que Gerardo