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644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

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e Adalberão 
se referem a esta ideia, a esta imagem, a este conceito: também eles assistem à 
desarticulação do mundo. Por isso começam a falar. Sabem que a ordem vacilara na Gália, 
alguns séculos antes deles, que os Carolíngios haviam conseguido restabelecê-la, 
aconselhados pelos bispos, que estes apontavam ao monarca o povo de Deus como um 
exército, caminhando em fileiras, a passo, e que na sua boca o conselho retomava as 
palavras de S. Paulo, de Santo Agostinho e de S. Gregório. O bispo Jonas de Orleães 
repetira-o: “É da máxima urgência que cada um esteja no seu lugar” 8. Carlos Magno o 
havia prescrito: “Que cada um permaneça no seu propósito de vida e na sua profissão, 
unanimemente” 9.[Pg. 088] 
 
 
 
8 De Institutione Regia, 10. 
9 MGH, Cap. I, 33. 
II – CONCÓRDIA 
 
Unanimiter. Justamente por esta palavra se atenua, se camufla o que essa ordenação 
implacável pode apresentar de terrífico. Para tornar suportável a disciplina, tolerável a 
desigualdade, é bom fazer crer que na sociedade cristã-tal como entre pais e filhos, entre 
novos e velhos, em todas as comunidades, no mosteiro como no palácio, na aldeia como 
nos grupos de combate – o amor une os corações. Concórdia. Um só coração. Por isso um 
só corpo onde cooperam todos os membros. A metáfora é de S. Paulo (Rom. XII, 4). Não 
vemos que os escritores carolíngios a tenham retomado de boa mente, por demasiada 
repugnância talvez para com o corpóreo. Bonifácio, num sermão sobre as ordens, faz-lhe 
apenas uma alusão: “No nosso corpo há uma só alma onde reside a vida; mas muitos são 
os membros cuja função varia; assim sucede na Igreja, onde há uma só fé que, pela 
caridade, deve ser posta em prática por todo o lado, mas diversas dignidades tendo cada 
uma a sua função própria” 1. A ligação é, aqui, espiritual. O espírito caloroso, cuja fonte é 
o coração, fornece-lhe o equivalente simbólico: a caridade, a dilectio. Um século mais 
tarde, Walafrid Strabon arrisca-se a falar mais claramente: a “casa de Deus”, quer dizer a 
Igreja, a comunidade dos fiéis”, constrói se na unidade, pela união e o amor de cada 
ordem; assim se constitui a unidade do corpo de Cristo; todos os membros põem em 
comum o fruto da sua função, para utilidade de todos” 2. 
A metáfora, a falar verdade, vai e vem do corporal para o doméstico. Naturalmente. A 
célula principal desta sociedade não é pois a domus, a “mesnia”? Nesta casa, o amor mútuo, 
a troca afectuosa gera a coesão, suaviza o rigor dos deveres, ajuda a obedecer e a comandar 
e faz da disciplina uma comunhão. Da caridade nasce o acordo, essa harmonia [Pg. 089] 
que, como a da música, dispõe, em perfeita ordem, o desordenado. Da caridade nasce a paz. 
Una domus, unum corpus. A unidade da sociedade humana-que o poema de Adalberão 
apela a restabelecer -provém, tal como a saúde corpórea, tal como a prosperidade dos lares, 
da complementaridade, da reciprocidade dos dons. Desde o reinado de Carlos o Calvo, dir-
se-ia que no espírito daqueles que, no Norte de França, reflectiam sobre o social, a imagem 
da família, da qual Deus seria o pai, ou antes o senior, tende a suplantar a imagem 
processional e militar. A tendência afirmou-se, sem dúvida, durante o século X, quando as 
 
1 Sermo, IX, PL 89, 860. 
2 Liber de exordiis et incrementis quarumdam in observationibus ecciesiasticarum rerum, MGH, cap. II, 515. 
89 
estruturas das linhagens se reforçavam na nobreza, quando o exército dos reis se 
desagregava em pequenos bandos adversos de camaradas. À experiência das relações de 
parentesco, das relações entre velhos e novos, vem juntar-se a outra, análoga, de 
vassalagem: união de corações também entre duas pessoas – ou melhor, entre um grupo de 
guerreiros e o seu chefe – e que estreita a mutualidade das permutas. Poucos anos antes do 
discurso de Douai e da redacção do Carmen, um outro bispo, um outro reitor, um outro 
aluno das escolas de Reims – Fulberto de Chartes – analisava, a pedido do duque da 
Aquitânia, o conteúdo da relação vassálica, pondo de acordo igualmente o seu discurso com 
as regras da retórica ciceroniana 3. A posição do homem que, pelos gestos da homenagem, 
se tornou “moço” (vassalus) de um “ancião” (senior) é semelhante à do, filho perante o pai: 
deve “servir”; mas em troca é remunerado: o afecto corresponde ao respeito, o “benefício” 
ao “serviço”. Em tudo, os dois homens devem retribuir igualmente 4. Mutuo in vicem 
reddere. Mutualidade, mas numa organização hierárquica. Os laços mais fortes não unem, 
na verdade, iguais. A distância entre os graus tonifica o comércio afectivo. O movimento 
nasce da diferença: esta alimenta aquele, estimula-o, acelera-o, pela complementaridade 
dos serviços. Porque o senhor, espécie de pai, é normalmente o mais sabedor e o mais rico, 
e porque o vassalo, espécie de filho, é normalmente mais vigoroso, é normal que o primeiro 
receba do outro o auxílio militar, o auxilio da segunda função, como compensação do que 
ele próprio fornece: o alimento, a paz, distribuindo feudos, mantendo assim na concórdia a 
coorte fogosa dos seus “homens”. 
Se, ao reconstruírem o sistema ideológico, Adalberão e Gerardo acabam por sublinhar 
o papel da reciprocidade, não será porque estes dois bispos são também “senhores”, 
justiceiros, alimentadores, rodeados de cavaleiros que lhes prestam homenagem? O que 
desde a infância de ambos havia lentamente transformado a mais alta nobreza de onde 
saíam numa justaposição de linhagens, de companhias vassálicas, de “casas”, não os levaria 
a apresentar as relações políticas como relação de família? Não nos admiremos por ver, 
quando em 1025 se retomam as palavras de [Pg. 090] Agostinho e de Gregório, a imagem 
da entreajuda, que reflecte a permuta necessária de benevolência e de consolação que se 
estabelece entre o pai e seus filhos, entre o irmão mais velho e o mais novo, entre o senhor 
e os seus homens, entre o amo e os servos, projectar-se sobre a visão augustiniana de uma 
 
3 C. Carozzi, 1, c. 
4 RHF, X, 463. 
procissão a caminho da Salvação, sobre o conceito gregoriano de “concórdia”, de 
“contextura”, artificialmente aplicado a relações de sujeição. A casa dos nobres era, na 
verdade, o lugar da disparidade, das precedências, das categorias sobrepostas, dos 
diferentes ofícios necessariamente coordenados. No século IX, Dhuoda, essa matrona, essa 
dama da mais alta aristocracia, recomendava ao filho, quando este atingiu a idade perfeita, 
que “dispusesse da sua casa em proveito de todos, segundo os graus legítimos” 5 e assim 
mantivesse, como no paço real, um benéfico equilíbrio entre os múltiplos serviços. A casa 
senhorial, quando bem governada, unida por mútua afeição, dá o exemplo da ordem 
perfeita. [Pg. 091] 
[Pg. 092] Página em branco 
 
 
5 Manuel, X, 3. 
III – ORDENS 
 
“Cada um na sua ordem”: quando se escolheu a palavra ordo para traduzir para latim 
o texto das Epístolas de Paulo, ela tinha dois sentidos. Na república romana, segundo a 
ordo, os homens adultos dividiam-se em grupos distintos, para melhor desempenharem o 
seu papel 1: primeiro, combater (a ordo é um grupo de soldados de infantaria reunidos em 
filas cerradas, que se desdobram na batalha); depois, gerir a coisa pública (a ordo é um 
grupo formado por pessoas registadas oficialmente numa lista organizada por magistrados 
especializados). A ordenação é, pois, na sua origem, uma inscrição. Este acto legal, público, 
este rito – este é um dos sentidos que a Igreja medieval atribuiu à palavra ordo – confere ao 
indivíduo um estatuto, sem relação necessária com a fortuna ou o nascimento. A ordenação