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644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

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ou Alcuíno, 
trabalharam na reforma da Igreja franca para a tirarem da incultura. Foi indubitavelmente 
durante esta reforma que se formulou, de maneira clara, a ideia que contêm em si 
ressonância das palavras de Jerónimo, de Agostinho e de Gregório, o Grande: dentro da 
instituição eclesiástica, quer dizer no mais alto das duas ordens de que falara o papa 
Gelásio, devem distinguir-se dois estilos de vida, duas maneiras de servir. Desde 751, o 
concílio reformador de Ver prescrevia, no seu cânone 11.º, que “uns fossem, nos mosteiros, 
a ordem regular e outros a ordem dos cónegos, sob o domínio dos bispos”. Duas ordens. É 
sem dúvida já, embora não expresso, o sonho de regularizar os restantes, isto é os laicos, os 
que derramam o seu sangue nos combates, os que escorrem suor nos trabalhos servis, os 
que dormem [Pg. 104] com mulheres e fazem filhos, para deles fazerem Jobs, “bons 
cônjuges” e reuni-los, a todos também, numa ordem. 
Com tal finalidade, os bispos, duas gerações mais tarde, no auge do “renascimento” 
cultural, começaram a compor “espelhos”, tratados da boa vida em intenção dos laicos, 
propondo-lhes deveres, missões específicas. O bispo Teodulfo de Orleães, num poema 
 
4 PL 76, 976. 
sobre os hipócritas, afirma haver duas ordens, a clerical e a monástica, a que se junta a 
“plebe popular”; mas reconhece que se trata, de facto, de três ordens reunidas por uma só 
fé. E Jonas de Orleães atribui a função de justiça (já) à ordo laicorum. O esforço tenaz dos 
prelados francos, apoiados por Luís, o Piedoso e por Carlos, o Calvo, essa tentativa 
insensata de arrancar a sociedade inteira à selvajaria profunda em que vivia, de pôr os 
homens em categorias para os manter tranquilos, inscrevia-se pois, naturalmente, num 
quadro tripartido. Por isso, quando o mundo ocidental foi retomado pelas atribulações, 
invadido no século X pela violência e a rapacidade, quando pareceram, como bons 
mosteiros os dois séculos antes, como ilhéus entre os tumultos, cidadelas da perfeição 
resistindo aos assaltos do mal – a configuração ternária e hierarquizada da ordem moral 
impôs-se mais fortemente que nunca. Ao aproximar-se o ano mil, ela alimentou todas as 
esperanças de reforma. Quando o bispo Burchard de Worms tenta reter, no estado clerical, 
os melhores dos seus cónegos atingidos pelo “desprezo pelo mundo”, refere-se aos três 
graus de mérito 5. Para percebermos com que força, no tempo das Gesta episcoporum 
cameracensium e do Carmen, se impunha esta forma de dividir os homens, não entre 
funções – os que oram, os que trabalham, os que combatem – mas entre ordens – monges, 
clérigos e laicos –, creio ser bom ouvirmos, depois de Adalberão e Gerardo, dois homens 
que acabavam de falar, após haverem falado os bispos de Laon e de Cambrai: foram eles 
Dudon de Saint-Quentin, um clérigo, e Abbon de Fleury, um monge. 
 
Dudon de Saint-Quentin 
Entre 1015 e 1026, Dudon compôs o livro intitulado Costumes e Actos dos Primeiros 
Duques da Normandia 6. É, na França do Norte, a primeira obra retórica que não conta a 
história da casa real, mas a de uma dinastia de príncipes. O que chamamos feudalismo é 
também isto: o [Pg. 105] fraccionar da monarquia que não só estabelece, em cada 
província, um poder autónomo, como também, por um movimento mais profundo, arranca 
ao soberano o monopólio de certas virtudes, de determinados deveres, de alguns atributos 
culturais, para com eles adornar a pessoa de chefes locais que não são sagrados 7. Dudon 
 
5 Vita Burchardi, escrita na mesma altura das Gesta, MGH, SS, IV, 840, citado por J. Batany, “Abbon de 
Fleury et les théories des structures sociales vers l'an mil”, Etudes ligériennes d'Histoire et d'Archéologie 
médiévales (colóquio de S. Benedito-sur-Loire, 1969), Auxerre, 1975. 
6 Ed. Lair, Mémoire de Ia Société des Antiquaires de Normandie, XXIII, Caen, 1865. 
7 G. Duby, “L'image du prince en France au XI' siècle”. Cadernos de História, 1972. 
era cónego 8; vinha do Vermandois, velha região franca; a sua cultura era a que a escola de 
Reims difundia e de que os livros conservados em Laon e Cambrai constituíam os alicerces. 
O seu lugar seria junto do rei de França, a fim de o ajudar com o seu saber, cantar na sua 
capela, trabalhar para a sua glória: veio servir em Rouen o “duque dos piratas”. Na altura 
precisa em que Roberto, o Piedoso, em assembleias como a de Compiègne, se esforçava 
por restaurar a paz, em que Gerardo resolvia mandar redigir as Gesta, em que Adalberão 
pensava compor o seu poema, Dudon executou a encomenda de Ricardo I, conde dos 
Normandos. Desempenhou a sua missão à sombra do príncipe, informando-se junto dos 
seus parentes, alimentado em casa de seu irmão, o arcebispo, entregando por fim a obra ao 
herdeiro da dignidade principesca, Ricardo II, de quem se tornara capelão e notário. 
Dedica-a contudo a Adalberão de Laon. Homenagem sem dúvida fictícia 9, porém muito 
significativa: o autor – e o seu patrono – manifestavam assim a preocupação em se 
agarrarem às raízes da alta cultura episcopal, a da Francia. No limiar do século XI 
terminava, com efeito, a lenta restauração do poder no país onde os Normandos se haviam 
instalado, depois de o haverem devastado. Faltava rematar a obra pela instauração de um 
clero, na cimeira de um sistema de enquadramento de que os mosteiros tinham até então 
constituído a peça mestra. O duque Ricardo aplicara-se a dar vida às catedrais normandas; 
precisava de bons auxiliares; recrutara-os o melhor que pudera; foi por isso que chamou 
Dudon. No momento em que a dinastia dos condes normandos se apoderava, na Nêustria, 
do titulo ducal, afirmando assim a sua independência 10, este cónego, este especialista na 
forma de celebrar os príncipes, foi encarregado de erigir tal. monumento de prestígio. Teria 
sido por acaso que escolheu dar como exemplo aos prelados da Normandia o bispo 
Adalberão, o “mestre” que, pela arte do discurso, ajudara os reis a governar segundo a 
sageza e que abriu, com o elogio desse retórico, um relato que descrevia, para glória dos 
seus patronos, as etapas sucessivas de uma empresa civilizacional? 
É isto mesmo o que o De moribus pretende mostrar. Quatro partes, quatro figuras de 
chefes. Hasting, o mais longínquo antepassado, era [Pg. 106] ainda completamente 
selvagem; pelo baptismo, Rollon dá o primeiro passo; o terceiro dirigente da linhagem, 
Guilherme Longa Espada, começa a restabelecer a ordem com a ajuda dos monges; em 942, 
 
8 Prentout, Étude critique sur Dudon de Saint-Quentin, Paris, 1910. 
9 L. Musset, “Le satiriste Garnier de Rouen et son milieu”, Revista da Idade Média latina, 1954, 240-241. 
10 K. F. Werner, “Quelques observations au sujet des débuts du duché de Normandie”, Mélanges Yver, Paris, 
1976. 
manda vir de Poitou alguns muito bons; semeia mosteiros por todo o lado, enriquecendo-os 
com donativos; por este meio a província rendeu-se pouco a pouco ao cristianismo e à paz, 
apressando-se o próprio duque, como Guilherme de Orange, a voltar costas ao mundo e 
acabar os seus dias sob a cógula. Seu filho Ricardo permanece no século onde, na plenitude 
das suas funções directivas, atinge a perfeição: Dudon chega a comparar as qualidades do 
seu herói com as oito bem-aventuranças. Vejamos o que quer o clérigo dizer com isto: os 
chefes normandos saíram do mais profundo da barbárie, acederam, por degraus, à cultura 
cristã e à Graça divina de que esta é o veículo. De início, apoiaram-se no monaquismo, 
depois terminaram a sua obra civilizadora graças à igreja secular. Quando Dudon escreve, 
chegamos a esta conclusão: são prova disso a qualidade do livro que relata essa evolução e