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644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

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há anjos e arcanjos que, 
manifestamente, não são iguais, diferindo uns dos outros pelo poder (potestas) e pela 
ordem (ordo). Tudo reside nisto. Não se trata certamente de uma explicação de 
trifuncionalidade. Mas é, pelo menos, a sua justificação. Porque há uma relação de 
homologia entre o céu e a terra; as disposições da sociedade humana reflectem 
necessariamente as de uma sociedade [Pg. 015] mais perfeita; reproduzem 
imperfeitamente as hierarquias, as desigualdades que mantém ordenada a sociedade dos 
anjos. 
No início de um ensaio sobre o modelo trifuncional, é natural citar o Tratado das 
 
1 Ep. 54, PL 77, 785-87. 
Ordens. Ficaremos mais surpreendidos por encontrarmos aí a afirmação seguinte: “Há 
três caminhos apenas para os jovens varões: o do padre, o do camponês e o do 
soldado... O estado religioso, porque engloba já, em grau mais elevado e mais puro, o 
somatório das virtudes do soldado... O trabalho da terra, porque o homem, em contacto 
permanente com a natureza e o seu Criador, adquire as virtudes de firmeza, de 
paciência e de perseverança no esforço que o conduzem, muito naturalmente, ao 
heroísmo necessário no campo de. batalha.” Três “estados” (eis a palavra), três funções 
(as mesmas: servir a Deus, defender o Estado pelas armas, tirar da terra a alimentação) e 
que estão igualmente hierarquizadas. A formulação não é exactamente idêntica. 
Façamos uma distinção: aqueles a quem Loyseau chama “uns e outros” são aqui 
definidos como “homens”, porém entendamos bem: trata-se de adultos machos, porque 
o feminino não é abrangido por tais classificações – e duas diferenças. Não há aqui 
“ordens”, “vias”, “caminhos” que sejam escolhidos, vocações, ainda que estas 
constituam na verdade graus, pois o indivíduo poderia, deveria sucessivamente meter-se 
na terceira via, depois na segunda e por fim na primeira; e assumindo, lentamente e 
durante a sua existência, as três missões, poderia “elevar-se progressivamente da terra 
para o céu, da “natureza” para o seu “Criador”. Graus pois de uma perfeição, de uma 
purificação progressivas. Escala de virtudes, este raciocínio é menos político do que 
moral; na verdade, o que ele propõe é uma ascese. Por outro lado, estes três “caminhos” 
não são os únicos. Simplesmente, são os bons. Tal raciocínio, maniqueísta, não fala dos 
outros. Porque os condena. Toda uma parte do social é por ele amaldiçoada, rejeitada, 
aniquilada. Proclama ele que só o padre, o guerreiro e o camponês se não desviam do 
bom caminho, só eles respondem ao apelo de Deus. E desta maneira se estabelece o 
acordo estreito entre a afirmação de Loyseau e esta, muito menos antiga, que podemos 
encontrar numa obra editada em Paris, em 1951: “O nosso bom mister de soldado, 
seguido de uma tentativa de retrato moral do Chefe”, da autoria do senhor de Torquat. 
 
 
 
Ora há duas frases latinas, eco uma da outra, que nos dão uma imagem muito 
semelhante da sociedade perfeita. Duas frases que podemos traduzir assim: 
1) “Tripla é pois a casa de Deus que se crê una: em baixo, uns rezam (orant), 
outros combatem (pugnant), outros ainda trabalham (laborant); os três grupos estão 
juntos e não suportam ser separados; de forma [Pg. 016] que sobre a função (officium) 
de um repousam os trabalhos (opera) dos outros dois, todos por sua vez entreajudando-
se.” 
2) “Demonstrou que, desde a origem, o género humano se dividiu em três: as 
gentes de oração (oratoribus), os agricultores (agricultoribus) e as gentes de guerra 
(pugnatoribus); fornece evidente prova de que cada um é o objecto, por parte dos 
outros dois, de um recíproco cuidado”. 
Três funções pois, todas elas semelhantemente conjugadas. Desta vez, a 
proclamação vem do fundo dos tempos. Foi formulada nos anos vinte do século XI por 
Adalberão, bispo de Laon, e por Gerardo, bispo de Cambrai, seiscentos anos antes de 
Loyseau e novecentos anos antes do senhor de Torquat. 
 
 
 
Ao comparar estes textos, o meu intento é mostrar a permanência, na França e 
durante um milénio, de uma imagem da ordem social. A figura triangular sobre a qual, 
no espírito dos bispos do ano mil, se construiu o sonho de uma sociedade una e trina 
como a divindade que a criou e a julgará, no seio da qual a troca de serviços mútuos que 
leva à unanimidade a diversidade das acções humanas, não difere na realidade da figura 
triangular que, no reinado de Henrique IV, serviu para mostrar simbolicamente que os 
primeiros progressos das ciências humanas não tardariam a pôr em causa a teoria da 
sujeição do povo ao jugo da monarquia absoluta; e é através desta mesma figura 
triangular que, no nosso tempo, em situações certamente esclerosadas mas ainda não 
totalmente mortas, persiste ainda a nostalgia de uma humanidade regenerada, expurgada 
da dupla purulência, vermelha e branca, que a cidade segrega, liberta enfim, 
simultaneamente, do capitalismo e da classe operária. Trinta, quarenta gerações 
sucessivas imaginaram a perfeição social sob a forma da trifuncionalidade. Esta 
representação mental resistiu a todas as pressões da história. É uma estrutura. 
Estrutura imbricada numa outra, mais profunda, mais ampla, dominante: o sistema 
igualmente trifuncional que os trabalhos de Georges Dumézil admiravelmente situaram 
nos modos de pensamento dos povos indo-europeus. Entre as três funções presentes em 
tantos textos recolhidos desde o Indo até à Islândia e à Irlanda, a primeira enunciando, 
em nome do céu, a regra, a lei, aquilo que promove a ordem; a segunda, brutal, 
veemente, forçando a obedecer e, finalmente a terceira, de fecundidade, de saúde, de 
abundância, de prazer, que conduz à realização dos “exercícios da paz” de que fala 
Charles Loyseau. E por outro lado é evidente a relação entre as três “ordens” desse 
mesmo Loyseau, os três “caminhos” do senhor de Torquat, os padres, os guerreiros e os 
camponeses dos bispos de Cambrai e de Laon. De uma tal evidência que de nada serve 
fazer suposições, a não ser para melhor delimitar a investigação, cujos resultados estão 
expostos neste livro. [Pg. 017] 
Na confluência do pensamento e da linguagem, estreitamente ligadas às estruturas 
de uma linguagem (digo bem: de uma linguagem, porque foram os linguistas que 
descobriram, no seio de um discurso escrito, o triângulo das funções, e devemos 
reconhecer não ser fácil detectar semelhante ternaridade entre os modos de expressão 
simbólica que não fazem apelo às palavras) há uma forma, uma maneira de pensar, de 
falar o mundo, uma certa forma de dizer a acção do homem no mundo, e isso é bem a 
trifuncionalidade de que nos fala Georges Dumézil: três constelações de virtudes de que 
são dotados os deuses e os heróis. Este utensílio de classificação entra muito 
naturalmente em uso quando se trata de celebrar tal chefe militar, tal soberano, tal 
amante, não já por meio dos ritos mas pelo panegírico. É por este meio indirecto que o 
modelo trifuncional se transfere vulgarmente do céu para a terra, do sonho para o 
vivido: serve para organizar o elogio de um indivíduo; os seus traços abundam em 
muitas biografias, reais ou fictícias. Em contrapartida, é perfeitamente excepcional que 
tal esquema seja explicitamente projectado sobre o corpo social. A “ideologia 
tripartida”, de que Georges Dumézil sempre falou como sendo um “ideal e, ao mesmo 
tempo, um meio de analisar, de interpretar as forças que garantem o curso do mundo e a 
vida dos homens” 2, constitui a estrutura de um sistema de valores; é abertamente 
aplicada nas províncias do mito, da epopeia ou da bajulação; mas permanece 
habitualmente latente, informulada, e só muito raramente deriva para uma proclamação 
do que deveria será sociedade, a ordem, quer dizer, o poder. Ora são