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644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

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a condição do seu autor. 
Dudon faz referência ao modelo tradicional das três “ordens”, dos três graus de 
mérito, quando descreve a fase monástica desse progresso. Mostra o duque Guilherme 11 
indo consultar um sábio – exactamente o que fez outro duque, Guilherme da Aquitânia, no 
momento em que Dudon compõe a sua obra, chamando o bispo Fulberto de Chartres para o 
consultar a propósito das obrigações vascálicas. Mas na Normandia dos meados do século 
X, ter-se-ia em vão procurado um bispo capaz de guiar o príncipe. É por isso um abade, 
Martinho de Jumiègés, quem responde a Guilherme. Perante o homem de guerra que 
brande a espada, que detém a força brutal e que desejaria usá-la convenientemente de 
acordo com a ordem, mas que não sabe onde está o bem, Martinho desempenha o papel de 
mentor – o papel que Alcuíno tivera junto de Carlos Magno, nessa época muito mais 
recuada em que o país dos Francos também ainda não saíra da fase inicial em que é preciso 
procurar, nos mosteiros, os modelos de uma restauração do Estado. O duque inquieta-se: 
“A Igreja está organizada em ordem tripartida (tripartito ordine); funções diferentes 
(dispares officia) distinguem os homens. Poderá haver para todos a mesma recompensa?” 
O problema põe-se em relação à salvação: como podemos ter a garantia de ficarmos em 
bom lugar no Além? Quando Dudon escreve, o milenarismo, não o esqueçamos, agita a 
cristandade, que espera o fim dos tempos, o grande julgamento. Notemos também que 
Guilherme, ainda que não tenha sido sagrado, que não detenha, como os monarcas, as 
chaves do saber místico, é conhecedor da tripartição original; nem a noção de ordo, nem a 
de função lhe são estranhas; ele, o iletrado, conhece o que disseram Agostinho e Gregório, 
 
11 Ed. Lair, p. 201. 
o Grande. Resposta de Martinho: “Cada um receberá o seu salário consoante [Pg. 107] o 
seu trabalho”. A sentença é clara: o que conta é o labor, o esforço dispendido (Adalberão 
hesita, como vimos, entre labor e dolor). O cristão é assalariado de Deus; trabalha com o 
suor do seu rosto e é pelo entusiasmo que põe no cumprimento da sua tarefa que será 
recompensado. 
Como bom pedagogo, o abade de Jumièges explica. Sem dúvida – diz – há uma 
ordem que é trina (neste discurso, como no Carmen, ordo é usada no singular, em sentido 
abstracto de ordenação); a religio de Cristo valoriza-se (a metáfora agrícola é digna de 
nota) pelo labor conjunto dos laicos, dos cónegos e dos monges; esta acção deve ser 
conduzida conforme este artigo de fé: “trindade nas pessoas; um só Deus na substância”. 
Três pessoas, três papéis, uma só substância: esta passagem do De moribus parece ser o 
único escrito desse tempo onde o conceito de uma tripartição do corpo social na unidade 
está, de forma explícita-só o é alusivamente no poema de Adalberão e por meio de acordes, 
de ressonâncias que se estabelecem entre os termos empregados – relacionado com o 
mistério da Trindade. O efeito desta unicidade vemo-la, continua Martinho: todos aqueles 
que prestam o serviço de que são encarregados tendem para o céu em passo igual. Pela 
boca do abade de Jumièges, Dudon retoma aqui Gregório, o Grande, o das Homilias sobre 
Ezequiel. Ainda que haja três ordens (aqui ordo tomada no plural e no sentido concreto, 
designa as três categorias da hierarquia moral), há duas vias. Para as designar, Martinho – 
quer dizer Dudon, que leu talvez, na biblioteca de Laon, os livros que Scot Erígeno utilizou 
– fala grego: a primeira destas vias, via “prática”, é de acção sobre o mundo; chamam-na -
canónica, porque a autoridade (ditio) pertence aos cónegos (Dudon não bispo, nem é 
simples padre, e são as pessoas do seu estado, os seus confrades, que aqui vemos exaltados; 
ao mesmo tempo aparece o tema gelasiano, a ideia de que a ordem dos laicos se subordina 
às dos clérigos). A outra via, “teórica”, é mais difícil, porque não pertence a este mundo: 
são os monges quem a segue. 
Introduzida por um perfeito retórico na parte do discurso cuja finalidade é celebrar o 
estado monástico, esta reflexão sobre a ordem social merece atenção. Ela põe em evidência 
o corte nítido entre o século e o que o recusa, o que se separa dele. Neste ponto, Dudon 
mostra-se ainda fiel ouvinte de Gregório, o Grande: o corte de que fala não é social, mas 
moral; trata-se de normas de vida, de “justiças”, de formas de existência que se escolheu, 
uma escolha entre Marta e Maria, entre a vida activa e a vida contemplativa. Quanto ao 
social, às funções, aos ofícios, só têm lugar nos territórios do “prático”, que pertencem à 
terra, ao carnal. Nesse campo, a divisão é binária, gelasiana: há clerus e populus, a ordem 
dos cónegos e a dos laicos. Trata-se aqui do domínio que o conde tem a missão de gerir, 
encarregado como é de manter a paz, pela lei e pela guerra. Tal é a função própria que lhe 
cabe: defensor da “pátria”, [Pg. 108] incumbe-lhe o papel que o papa Zacarias, ao escrever 
a Pepino, atribuía às forças laicas. Acontece porém que Guilherme se deixou tentar pela via 
teórica. E o sentido mesmo da sua interrogação: quereria fugir ao fácil, avançar pela porta 
estreita; fizeram-no conde contra a sua vontade; não queria, mas o pai e os grandes do país 
assim o determinaram. Martinho é formal: que fique no seu lugar, no lugar que Deus lhe 
deu, na sua categoria social, na sua ordem. 
O trabalho que Dudon dedica a Adalberão enuncia pois um sistema ternário de 
classificação social. Mas não trifuncional. Vê-se de que modo o discurso, que, anos mais 
tarde, esse mesmo que Adalberão e Gerardo irão pronunciar, prolonga o De moribus e de 
que modo se afasta dele. Na verdade, no elogio dos primeiros príncipes normandos, 
intervém já o conceito de uma solidariedade substancial, pela qual o desarmónico regressa à 
unidade: um duplo corte de onde procede o triplo, do mesmo modo que vemos já, aí, o 
binário do papa Gelásio articular-se facilmente com o ternário de S. Jerónimo, de Santo 
Agostinho e de S. Gregário. Todavia, Dudon apenas considera duas funções. Vê o espaço 
social, tal como os bispos carolíngios o haviam visto: todos os laicos, incluindo o duque, 
estão subordinados moralmente à ordo canonicus, a esse clero episcopal que Ricardo da 
Normandia acaba de restaurar, no seio do qual o cónego de Saint-Quentin fala, escreve, 
ensina e prossegue a sua carreira com grande êxito. 
 
Abbon de Fleury 
Uns trinta anos antes, Abbon de Fleury desempenhara efectivamente o papel que 
Dudon, no imaginário, atribuía a Martinho de Jumièges. Como Martinho, Abbon era 
monge. Como ele, havia exposto o que são os três graus de perfeição para um príncipe. E 
este príncipe era o próprio rei, ou melhor dizendo, os dois reis associados: Hugo Capeto e 
seu filho Roberto. 
Nascido em 940, Abbon tinha uns vinte anos mais que Adalberão; como este, 
estudara em Reims um pouco de grego, as artes do quadrivium (escreveu um tratado de 
cálculo) e, sobretudo, a retórica. Entrara depois para a grande abadia de Fleury-sur-Loire. 
Dois acontecimentos haviam sucessivamente aumentado o prestígio desta fundação 
merovíngia: a aquisição das relíquias de S. Bento, roubadas à abadia do monte Cassino; e o 
santo venerado, pai de todos os monges do Ocidente logo espalhara milagres pelo país 
franco; e a subida à realeza dos duques de França, antepassados de Hugo Capeto, que 
tinham como cidade principal Orleães, nas proximidades de Fleury. No século X, Fleury – 
chamavam-lhe também S. Bento – aparecia no Ocidente como o maior foco da tradição 
beneditina: os bispos de Inglaterra foram ali procurar os artífices de uma reforma 
monástica. Era do mesmo modo um centro de estudos de primeira [Pg. 109] importância, 
onde se formavam, além dos noviços, muitos alunos seculares.