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644350_Georges_Duby_-_As_Tres_Ordens_ou_O_Imaginario_do_Feudalismo[1]

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terras, distribuir armas, alimentos e vestuários; “sem isso não poderá ter os utensílios, e 
sem os utensílios não pode fazer nenhuma das coisas que está encarregado de fazer”. 
Todavia, para exercer o seu mister, para bem governar o reino, uma coisa ainda lhe é 
necessária: a sageza. Porque, está bem de ver, é preciso que a matéria seja dominada pelo 
espírito. 
Quando Alfredo e os amigos inscrevem o tema trinfuncional nas margens do texto de 
Boécio, Deus submete o Wessex a rudes atribulações. O monarca tem de esforçar-se para 
conjurar esse perigo mortal. Consegui-lo-á por duas formas: pelas armas e pela lei. Cresce 
em volta dele uma meditação amarga sobre a soberania – e comentários análogos aos que 
acabo de citar proliferam noutros textos, tais como o Regula Pastoralis, de Gregório, o 
Grande. Acho notável que, como será o caso da França do Norte cento e vinte e cinco anos 
mais tarde, a figura das três funções atribuídas aos súbditos seja usada por homens de 
 
34 Ph. Grierson, in Revista Inglesa de História, 194”, pp. 529-561. 
35 B S. Donaghy, “The Sources of King Alfred's Translation of Boethius De Consolatione Philosophiae”, 
Anglia, 1964; R. Otten, Kõnig Alfreds Boethius, Tübingen, 1964; F. A. Payne, King Alfred and Boethius, 
Madison, 1968. 
reflexão no próprio momento em que o trono parecia abalado e com a intenção de 
consolidar os esteios do poder monárquico. Mas não é menos notável que, no reino anglo-
saxão, o tema se introduza muito mais cedo na cultura escrita. Isto deve-se, penso eu, ao 
facto de essa cultura estar, na Inglaterra, menos estreitamente confiada ao âmbito 
eclesiástico. Há ali um grupo importante de homens que, sem serem da Igreja, são no 
entanto letrados e “sages” (Witan), portanto com uma maneira profunda, autónoma, de 
pensar, de falar o mundo. De estarem informados, escreverem e lerem um discurso em 
língua vernácula acerca dos mecanismos do poder, sobre as relações entre o soberano e o 
seu povo. Ora, estas relações são muito mais íntimas no Estado governado por Alfredo, 
porque ele é mais primitivo, menos liberto de estruturas tribais, sobretudo menos vasto que 
o reino dos Francos do Oeste e porque um sistema coerente de impostos, de requisições 
militares e, antes de tudo, de um sistema apertado de assembleias onde os homens livres se 
reuniam para conversar, mantém, de um extremo ao outro do Wessex, estreitas 
comunicações políticas. No entanto, e o facto é também muito notável, a nota introduzida 
na tradução de Boécio não é uma análise concreta da realidade social. E uma afirmação 
abstracta. Uma teoria. Na verdade, quando o rei Alfredo evoca, sucessivamente, os homens 
de oração, os homens de guerra e os homens de trabalho, não enumera classes distintas, 
compartimentos nitidamente estanques, entre os quais se dividiriam os homens livres, 
segundo a missão a que se consagravam exclusivamente na Inglaterra, a maior parte destes 
– os historiadores assim nos convenceram –, na passagem do século IX para o século X, 
tanto se combatia, como se trabalhava com as [Pg. 123] mãos. A figura tripartida é uma 
ideia que se nos revela “num clima intelectual de teorização política 36“. 
Contudo, esta forma não surge do nada. Como sucedeu com Gerardo e Adalberão, 
Alfredo e os seus não inventam. E verdade que recolheram o eco de antigas reflexões. 
Especialmente de reflexões feitas pelos bispos carolíngios. A Mancha não é obstáculo e 
ainda menos o era na época a que me refiro. Milhares de peregrinos atravessam-na para 
chegar a Roma através de Bolonha, Cambrai, Laon, Reims. Passando por estas regiões 
menos atrasadas, olham, escutam, admiram. De regresso, contam. Esse vasto itinerário, que 
tantos clérigos e tantos homens de cultura percorreram, para lá e para cá, deve merecer a 
nossa atenção. Devemos ter presente no espírito todo o movimento que o animou, para que 
não percamos de vista o que, sem dúvida, ele veiculou, no limiar do século XII, de teorias e 
 
36 A frase é de Wendy Davies que tratou destas matérias no meu seminário, em 1972. 
de fórmulas, para as oficinas de composição retórica, onde o bispo de Laon e o bispo de 
Cambrai reflectiam sobre o poder. Mas também, visto que estamos a seguir o fio de uma 
genealogia, podemos ver o que muito cedo ele transportou, em sentido inverso, para 
Inglaterra. No tempo de Alfredo, que casara a filha com o conde da Flandres e que estava 
rodeado de monges de Artois e flamengos, vemos que as crónicas anglo-saxónicas tomam o 
modelo das crónicas do país franco. Quando Asa, por exemplo, escreveu a biografia do 
monarca, apresentou-o educado tal-qualmente, dizia-se, o havia sido Carlos Magno. No que 
toca os princípios de bom governo que se discutia na corte de Alfredo, não foi menor a 
influência da literatura moral composta duas gerações atrás, em intenção dos soberanos da 
Francia. A teoria política elaborada no Wessex fundava-se nas mesmas máximas em que 
mais tarde Adalberão e Gerardo se inspiraram. Incontestavelmente, as formas indígenas de 
pensamento e de expressão enriqueciam-se com contributos continentais, na época em que 
se forjou, em linguagem vulgar, a frase que cento e vinte e cinco anos antes das Gesta e do 
Carmen mostra associados os três substantivos que designam três funções distintas, 
assumidas por homens que, juntos, são os suportes, os “esteios da comunidade”, da 
respublica, os utensílios de que se serve o rei para agir – mas agir sobre o terrestre, no 
temporal. Por esta razão, é impossível decidir se a figura trifuncional foi importada do 
Império, retirada de qualquer glosa de Boécio, elaborada nas escolas de Reims ou de 
Compiègne e que se se tivesse perdido, ou se a devemos considerar uma das formas 
originais de um sistema de pensamento propriamente insular, como o reflexo dos “espelhos 
do príncipe” construídos, esses, na Bretanha, que permanecia celta. Porque Asa, de quem já 
falei, era galês. E porque a Irlanda, se não o [Pg. 124] país de Gales – Georges Dumézil 
demonstrou-o 37 – pensava naturalmente no poder por tríades. Tudo o que temos o direito 
de supor no seio dos mecanismos complexos de aculturação é que de que o pequeno reino 
anglo-saxão era então o lugar, um esquema possivelmente familiar às pessoas das ilhas, não 
menos familiar sem dúvida em Reims ou em Saint-Bertin, foi utilizado pela sua própria 
simplicidade, a sua banalidade, para tornar mais clara aos laicos letrados, a esses homens 
“sages”, a passagem de Boécio que Alfredo se esforçava por traduzir em sua intenção. 
 
37 E, mais recentemente, o seu aluno Dubuisson, “L'Irlande et la théorie médiévale des trois ordres”, Revista 
de História das Religiões, 1975. E preciso notar que o estudo de Dubuisson mostra de facto esquemas 
intelectuais muito diferentes: pensa-se mais em sociedade quaternária do que ternária: a vida de S. Patrick, 
que ele comenta (pp. 54-55), proclama que o rei gera outros reis, guerreiros e padres; mas o povo constitui 
uma categoria inteiramente separada. 
O importante é que, além-Mancha, a figura se fixou entre os instrumentos do 
pensamento culto. Encontramo-la empregada por dois escritores da Igreja, Aelfric e 
Wulfstan, um século depois de Alfredo – quer dizer no próprio momento em que Abdon de 
Fleury escreve, em que Adalberão perora nas assembleias capetíngias, em que Gerardo 
começa os estudos, em que os laços se apertam entre os homens da alta cultura, de um e do 
outro lado do Canal; os mosteiros beneditinos que, na Inglaterra, são vizinhos das sedes 
episcopais acabam efectivamente por ser reformados pelos bons monges que Abbon 
chamou da Flandres e das margens do Loire, Abbon que, durante